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Texto: ReB Team
Ilustração: Riça

De Freddie Gibbs & Madlib a Moor Mother.

Os 10 melhores álbuns internacionais de 2019

Texto: ReB Team
Ilustração: Riça
Hip hop de recorte mais clássico ou mais disruptivo, r&b e jazz, mulheres com África dentro e futuro na voz, gente que experimenta ideias novas, balanços múltiplos e muito risco é o que se pode dizer que caracteriza a selecção internacional que a equipa do Rimas e Batidas convocou para fechar o ano de 2019. E há ainda mais pistas nas menções honrosas a cargo de artistas que assinaram discos que noutro dia qualquer poderiam ter tido lugar na dezena que acabou eleita. Uma certeza: estes são álbuns que marcam este tempo, mas que também têm fôlego para apontar caminhos para os tempos que hão-de chegar.
[FREDDIE GIBBS & MADLIB] Bandana (1º lugar) As parcerias no hip hop são uma tradição com história longa e, nesse campo particular, Madlib, que assinou registos com MF Doom ou J Dilla, é um autêntico campeão. Bandana consegue, ainda por cima, fazer a Piñata aquilo que a segunda parte da trilogia O Padrinho fez ao filme inaugural da saga Corleone: ganha aos pontos a uma obra que já era de excepção. Beats com samples escolhidos com saber profundo, cozinhados no iPad e oferecidos a um MC que à época estava injustamente preso na Europa e que assim escreveu todo o material dentro da cabeça. Parece o argumento de um filme, mas é na verdade a vida a imitar a arte. E Gibbs, com flows certeiros e rimas mordazes, prova que o hip hop de facção mais indie nunca esteve tão vivo como agora.

– Rui Miguel Abreu


[TYLER, THE CREATOR] IGOR (2º lugar) De bastardo punk a baladeiro incurável, Tyler, The Creator teve uma das evoluções mais assinaláveis da música norte-americana nos últimos 10 anos. O mais recente álbum, IGOR, parece, a esta distância, a concretização de uma visão muito pessoal de alguém que venera Pharrell Williams e Stevie Wonder da mesma maneira, que quer escrever canções de amor e desamor para as maiores estrelas pop e que perdeu, talvez em definitivo, a vergonha de ser mais r&b e soul do que rap. Um visionário — um dos maiores do seu tempo — que oferece canções como “EARFQUAKE”, “RUNNING OUT OF TIME”, “NEW MAGIC WAND” e “ARE WE STILL FRIENDS” merece todos os elogios possíveis e imaginários. E, se possível, o coração consertado.

– Alexandre Ribeiro


[SOLANGE] When I Get Home (3º lugar)

Há palavras tão viscosas quanto a arte que descrevem, como quando Kate Mossman cunhou When I Get Home como “the Snapchat album”. Sem ser pejorativa, a expressão ilustra a questão imposta pelo segundo disco de Solange: se deslizamos sem atenção pelas redes sociais, como reagimos a músicas quase tão fugidias?

A ortodoxia é deposta no triunfante irmão mais novo de A Seat at the Table. Ombreia com esse caldeirão de soul doce e terapêutica ao preferir soul rasgada, prolixa e retumbante, em suaves estilhaços de canções que honram Houston. Instantâneas, entre um vapor de melodias e harmonias, fazem um álbum improvavelmente monumental. Um disco cujo peso só nos atinge, sem piedade, quando estamos certos de carregar a sua leveza. A partir do vapor, When I Get Home torna-se bagagem permanente

– Pedro João Santos


[THE COMET IS COMING] Trust In The Lifeforce Of The Deep Mistery (4º lugar) O vídeo de “Summon The Fire”, um dos temas presentes em Trust in The Lifeforce Of The Deep Mystery, o muito aplaudido segundo álbum dos The Comet is Coming, vai inevitavelmente ao encontro do ADN do colectivo londrino. Trata-se de um quadro onde as cores se misturam entre si e transmitem uma propositada ideia de movimento, diluindo-se depois nas frequências sonoras emanadas pelo saxofone, sintetizador e bateria. Nem de propósito. A fórmula da banda tem como base o jazz mas dissolve-se por diversas vezes na electrónica moldada para a pista de dança ou na energia vulcânica do rock, criando uma paleta policromática de cariz cósmico, onde cabem com naturalidade odisseias galácticas supersónicas, metáforas afrofuturistas e estruturas musicais que fazem adivinhar o apocalipse, o que no contexto do tão debatido Brexit acaba por fazer todo o sentido. É um disco construído para incendiar pequenos clubes nocturnos e palcos de festivais de grande escala, mas também para ouvir em casa e degustar com calma, reflectir e repetir, em ciclo. Um pouco à imagem do que nos propôs constantemente Stanley Kubrick nas suas películas.

– Manuel Rodrigues


[LITTLE SIMZ] GREY Area (5º lugar) Se bem me lembro, é de facto uma área cinzenta, aquela em que, a meio dos 20s, já não somos crianças, mas em que ainda distamos o suficiente dos 30s para não nos vermos inteiramente como adultos, sobretudo se com essa idade ainda não nos vimos enredados nas malhas do casamento ou da paternidade e maternidade. Com Inflo ao seu lado a fornecer-lhe uma miríade de argumentos rítmicos de sofisticada e moderna arquitectura, Simz refina a perspectiva, a escrita e a entrega em cada tema, revelando estar muito mais segura do que em momentos anteriores, mas também com a dose certa de bravado que a leva a declarar logo na abertura, no tema “Offence”, “I’m Picasso with the pen” antes de, um pouco mais à frente, rematar: “I’m Jay-Z on a bad day, Shakespeare on my worst days”. Se a medirmos só pelo músculo empregue na voz, não há mesmo como duvidar…

– Rui Miguel Abreu


[DAVE] Psychodrama (6º lugar) Venceu um Mercury Prize e não é caso para menos: Psychodrama, do rapper londrino Dave, é um álbum sincero, intenso e consistente, sem dúvida um dos melhores (ou mesmo o melhor) do ano em solo britânico. Tudo começa na poltrona de um consultório psiquiátrico, em “Psycho”, com Dave a sacar das entranhas os seus traumas e fantasmas, das vozes que lhe assombravam a mente nos seus momentos de reza, passando por uma dor que se tornou crónica e nas constantes sugestões dos seus próximos para procurar acompanhamento, desembocando nas contínuas oscilações de humor próprias de quem há muito luta contra estados depressivos. E compreende-se o porquê. Esta é a história de um jovem desde cedo obrigado a viver com uma família destruída (um pai que virou as costas ao agregado, dois irmãos encarcerados, um deles a cumprir prisão perpétua, e uma mãe destroçada e traumatizada), batalhando numa metrópole enorme e esquizofrénica, onde a particularidade de ter pele escura não abona a seu favor. A vida de Dave dava um livro, mas ele preferiu escrever um álbum. E fê-lo muito bem.

– Manuel Rodrigues 


[SAMPA THE GREAT] The Return (7º lugar) “Contagiante mescla de hip hop, afrobeats, neo-soul, jazz, electrónica, r&b e algo mais, tudo combinado em proporções que não se encontram em mais lado nenhum”. Na mouche. A frase é retirada da crítica aqui publicada ao álbum de estreia de Sampa The Great, resumindo de forma sucinta aquilo que se passa num longo (mas recompensador) regresso a casa em 19 actos. A vida antes da música levou-a para tantos sítios diferentes, uma espécie de preparação para um futuro que prevê voos especiais: para um talento brutal, espera-se o devido reconhecimento global.

– Alexandre Ribeiro


[JAMES BLAKE] Assume Form (8º lugar) Menos enigmático e metafórico que em qualquer registo anterior, a abordagem mais directa, sincera e despida de James Blake reflecte-se em como entrega a sua voz aos poemas mais leves da sua carreira e no peso que os seus instrumentais carregam. A única forma que arranjou para nos dar espaço e liberdade para entrar no seu íntimo foi simplificando e apurando o que antes estava mais disperso. Reflectindo também as colaborações destes últimos anos com algumas das maiores figuras actuais da música popular, o disco expõe mais texturas e narrativas pop naquela que é a versão mais soalheira e moderna da discografia de Blake. Cada álbum tem-no levado a novas formas: e aqui acrescenta mais uma à sua complexa personalidade musical.

– Vasco Completo


[MOOR MOTHER] Analog Fluids Of Sonic Black Holes (9º lugar) Entrar em Analog Fluids of Sonic Black Holes é aceitar ir numa viagem em que Moor Mother nos guia pela história da cultura negra nos Estados Unidos da América, fazendo-nos saltar de era em era para criar uma narrativa que nos recorda aquilo que os responsáveis pela opressão sistemática tentam remeter para o esquecimento. Ao longo de 13 faixas, os seus versos são de uma intensidade devoradora que se alia a uma sinceridade que nos toca bem fundo na alma; sentimos a raiva, a amargura, e o peso de todos os que são representados pelas palavras de Camae, que tenta transmitir a mensagem de forma transparente, sem eufemismos nem palavras bonitas, apesar dos efeitos distorcidos que estão na sua voz e da ambiência sonora que bebe do afro-futurismo, jazz, soul, funk, punk, hip hop, noise e até mesmo riot grrrl.

– Francisco Couto


[XIU XIU] Girl with Basket of Fruit (10º lugar) Aquilo que torna a música dos Xiu Xiu tão cruel é a proximidade com que ela chega aos problemas dos nossos dias e como arranja uma maneira própria de se colar a nós. No entanto, independentemente da matéria em questão, Jamie Stewart é severo e em Girl With Basket of Fruit não poupa no suor, no sangue e nas lágrimas que derrama ao longo deste disco. Existe um penoso elemento que o cobre de frieza e exasperação, mas a melhor parte é irrefutavelmente a tremenda humanidade que se esconde entre uma produção apocalíptica e vocais aterradores. Não é fácil chegarmos até ao fim, mas a recompensa é bem maior quando o fazemos.

– Miguel Alexandre 


MENÇÕES HONROSAS: BUBBA (Kaytranada), MAGDALENE (FKA twigs), WWCD (Griselda), Tell A Friend (Mcabre Brothers), The Lost Boy (YBN Cordae), Ginger (Brockhampton), Terror Management (billy woods), Feet Of Clay (Earl Sweatshirt), Nothing Great About Britain (slowthai) e Turn To Clear View (Joe Armon-Jones).

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