BROCKHAMPTON // GINGER

[TEXTO] Miguel Santos 

Os BROCKHAMPTON não são um grupo como os outros. A auto-intitulada “All-American Boy Band” prima por uma honestidade intensa na sua música, conjurando emoções nuas e empáticas ao longo da sua discografia. Kevin Abstract lidera um grupo de 13 criativos em que todos contribuem para essa imagem — dentro e fora do palco –, com um output musical e visual marcadamente pessoal, com uma estética DIY extremamente vincada. E, ao longo da sua curta carreira, os BROCKHAMPTON já demonstraram um talento desmedido e uma natural facilidade para criar temas que misturam pop e hip hop de forma característica e apelativa. 

A história deste colectivo norte-americano é de sucesso mas não se fez sem alguma dor à mistura, especialmente com a expulsão de Ameer Vann, um dos membros fundadores do grupo. Esse acontecimento foi uma das inspirações para iridescence, o álbum de estreia do grupo pela RCA Records lançado em 2018. Há algo de catártico neste conjunto de temas dos BROCKHAMPTON, e, apesar de não ser um dos seus álbuns mais aclamados, certamente que, aos olhos de quem o construiu, será um dos mais importantes. Nota-se alguma desorganização nas ideias e alguma falta de rumo, algo em parte ultrapassado em GINGER, o álbum que a banda lança agora. 



No papel, o novo longa-duração do grupo não se afasta muito de um dos seus típicos lançamentos. Mas é na atitude com que os vários membros encaram mais um capítulo da sua história musical que está a diferença, no crescimento que demonstram. “NO HALO” é a abertura perfeita para mostrar isso, abrindo o álbum com uma soturna e pensativa atmosfera, tanto no instrumental como nas estrofes. O bombo seco contrasta com a naturalidade e riqueza da guitarra acústica, instrumento que é o complemento perfeito para as palavras sinceras e melancólicas de Dom McLennon, JOBA, bearface, Merlyn Wood, Matt Champion e Kevin Abstract. A música fala sobre seguir em frente, e a cadência dos seus intérpretes mostra que, agora mais do que nunca, estão prontos para isso.

Ainda que estejam prontos para virar a página, não deixam de reflectir sobre o passado e nesse aspecto mostram uma abordagem mais refinada. “DEARLY DEPARTED” é uma balada sentida que vai ficando progressivamente mais tensa até explodir na estrofe de McLennon. O rapper derruba o microfone depois de uma sincera prestação em que mostra que a dor da partida de Ameer Vann lhe causou um grande transtorno. Há espaço para os corações abertos para o mundo ver e ouvir, mas também se regista aqui uma abordagem mais camuflada em temas como “VICTOR ROBERTS”: fecha o álbum com uma história bem construída, um relato triste acompanhado por um piano que resulta numa metáfora clara para a situação com Vann, que fez dos BROCKHAMPTON cúmplices sem nunca o serem verdadeiramente. 



Enquanto em iridescence o principal tónico era a abrasão, em GINGER os artistas mostram-se mais confortáveis na sua tristeza e sem medo de a mostrar em toda a sua taciturna realidade. A faixa-título é assim mesmo, dolorosa, com algo semelhante ao chorar de um robô a iniciar o tema de batida para dançar mas sem esquecer a meditação que advém com essa libertação muscular, e um refrão docemente choroso. Já “LOVE ME FOR LIFE” é seca e solitária, um tema com um bom outro instrumental e palavras tristes nas suas estrofes. “How do we grow? How should I know?”, ouvimos JOBA à procura do rumo, uma sinceridade mais transparente que no lançamento anterior. 

É essa clareza de mente que mais transparece no álbum. Nota-se que estão mais focados do que nunca e que isso não os impede de continuarem a sua tradição musical. Nesse sentido, GINGER honra a sonoridade da banda com canções que são instantaneamente identificadas como sendo de BROCKHAMPTON: “BOY BYE” é a epítome da confiança e da fanfarronice, com uma melodia brincalhona de cordas que espelha a atitude dos vocalistas. “I’m beautiful and bashful”, resume condignamente mais uma vez JOBA no final deste tema com muito regabofe, sentimento replicado em “IF YOU PRAY RIGHT”, com uma primeira parte recatada e algo assombrada que lembra a sonoridade inconfundível da banda. Já a docemente intoxicante “SUGAR” mostra-os a apostar mais uma vez na melódica voz do convidado Ryan Beatty para um hook que faz jus ao título da música, e mostra a afinidade e ouvido pop que grupo tem.

Em GINGER, os BROCKHAMPTON retomam a forma que demonstraram possuir em lançamentos anteriores. Está presente a mesma honestidade que caracteriza a música do grupo e uma faceta menos energética mas cada vez mais pessoal. É uma etapa em que cimentam a identidade artística de cada um dos seus membros e em que se sente que cada um deles está mais confortável nessa persona que têm vindo a desenvolver. E, simultaneamente, fortalecem a sua imagem, naquele que é, sem dúvida, um passo na direcção certa. 


ReB Team

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