Freddie Gibbs & Madlib // Bandana

[TEXTO] Rui Miguel Abreu

No âmbito da sua apresentação no ID_NOLIMITS, no Estoril, em Março último, a dada altura Madlib fez saber que iria passar beats directamente do seu iPad, o que terá deixado alguns dos seus fãs um pouco perplexos. O produtor é, afinal de contas, um reconhecido digger, fanático de vinil, curador de uma lendária colecção e autor de uma longa discografia impressa nesse mesmo suporte pelo que a “cedência” à ubíqua ferramenta digital pode ter sido algo inesperada.

Há alguns dias, Madlib foi mais longe e revelou num tweet que fez todos os beats para Bandana, o seu segundo registo colaborativo com Freddie Gibbs (que sucede a Piñata, de 2014), no iPad, revelação essa que despoletou intensa reacção por parte dos seus seguidores: “I see so many old heads crying”, foi um dos comentários ao tweet de Madlib, frase tão irónica quanto certeira. O hip hop, como qualquer outro género na verdade, é território dado ao culto de certas ferramentas e as MPCs da Akai, as SPs da EMU, os 1200 da Technics ou as 808s da Roland merecem reverência de contornos fetichistas da mesma forma que as guitarras Les Paul da Gibson, os amplificadores da Marshall, os pianos eléctricos da Fender ou os sintetizadores da Moog, Roland ou Yamaha são objectos de intenso desejo para músicos de rock, jazz ou das mais diferentes vertentes da electrónica. Que Madlib esteja disposto a romper com esse tipo de ortodoxia técnica é bastante revelador do seu pensamento: é o músico, não o instrumento, o elemento fundamental da equação, parece ele dizer-nos. E escutando Bandana não há como não concordar.



Otis Jackson, Jr. completará 46 anos em Outubro próximo e leva já um quarto de século agarrado a diferentes ferramentas de produção, tendo-se estreado em meados dos anos 90 no trio Lootpack, assinando pouco depois, logo no arranque do milénio, uma dupla estreia, enquanto Madlib e Quasimoto, que lhe expôs claramente as ambições tanto nos samplers como no microfone (e na garrafa de hélio…). Mas foi indubitavelmente como produtor que Madlib se afirmou, assinando com dezenas de alter-egos (de Joe McDuphrey a Malik Flavors, de Jazzistics a Yesterdays New Quintet, de Beat Konducta a Loopdigga) uma ultra-extensa discografia que se traduz em dezenas de lançamentos que exploraram múltiplas sensibilidades do jazz (do mais free ao mais cósmico) que se inspiraram livremente no Brasil, Índia ou África e que definitivamente o impuseram como um dos mais criativos produtores deste milénio. Esse estatuto valeu-lhe parcerias de fôlego com artistas como Dudley Perkins, MF Doom, J Dilla, Talib Kweli, Georgia Anne Muldrow, Guilty Simpson ou, pois claro, Freddie Gibbs, além de colaborações pontuais com De La Soul, Ghostface Killah, Erykah Badu, Joey Badass, Roc Marciano, Anderson .Paak ou, entre muitos outros, Kanye West e Kendrick Lamar. Escrever “currículo invejável” não chega. Madlib é, acima de tudo, um “producers’ producer”, um artista cuja obra serve de parâmetro para medir o alcance das obras de outros artistas. Ponto.

É, portanto, como um criador no topo do seu jogo que Madlib se apresenta em Bandana. Este é um álbum construído como uma intrincada tapeçaria de samples, um trabalho em que o maestro dos beats buscou matéria prima em bandas sonoras de Bollywood assinadas pelo mestre R.D. Burman (“Education”), na soul psicadélica dos Wee (“Crime Pays” ou “Cataracts”), no preaching de alma exposta de Donny Hathaway (“Practice”), nos grooves sofisticados dos Sylvers (“Palmolive”) ou na electrónica “primitiva” de Gershon Kingsley (“Soul Right”). Mas Madlib não se limita a mergulhar no passado e na memória impressa em vinil: no seu novo projecto colaborativo com Freddie Gibbs há igualmente espaço para samplar pares contemporâneos como Frank Dukes (“Half Manne Half Cocaine”), fantasias kraut-funk-jazz dos Heliocentrics (“Soul Right”) ou até – sacrilégio!! – um sample pack liberto de royalties assinado por Caponelli e que soa como um álbum de library music imaginário (“Half Manne Half Cocaine”). Ou seja, Madlib trabalha para uma visão, não para alimentar dogmas ou sequer para impressionar os seus mais directos “concorrentes”.



O resultado, tanto das “escavações” como das compras “oportunistas” na Internet, é bastante sério: Madlib defende a sua visão de hip hop com unhas e dentes, apresentando aqui um conjunto de beats feitos à medida do flow e da personalidade de Freddie Gibbs, que podem usar texturas clássicas, mas não enjeitam cadências modernas (“Half Manne Half Cocaine” é Madlib a dizer-nos que sabe muito bem o que é o trap na forma como programa os seus hi hats), soando sempre sofisticados, com múltiplas camadas significantes, algures a meio caminho entre a economia zen de RZA, o caos harmónico da Bomb Squad, a densidade orquestral de David Axelrod e a riqueza textural de Charles Stepney ou dos irmãos Mizell. Madlib não é um mero produtor: é também um arranjador de mão-cheia, capaz de gerir dinâmicas dentro de uma faixa como poucos, sabedor do potencial dramático e narrativo de um tema, como os melhores compositores para cinema, por exemplo. O que dá jeito, porque Freddie Gibbs consegue ser um óptimo “argumentista” e “actor”.

E neste “filme”, Freddie brilha e faz por merecer o facto de ter o nome antes do título. Gibbs é um MC singular, um artista que continua em processo de crescimento e que a cada novo álbum deixa sempre a sensação de ainda não ter realizado plenamente todo o seu potencial, o que não é necessariamente um problema se a fasquia para que remete for alta, como é o caso. Como Roc Marci, Freddie parece ser feito de uma massa arcana, gangster de uma velha escola que conhece a rua e as suas amarguras, mais confortável na escuridão do que sob os holofotes, mais habituado a becos esconsos do que a avenidas emolduradas a néon. Capaz de assinar versos que são autênticos haikus, pequenas rajadas poéticas feitas em igual medida de realidade e sonho — “trunk full of tapes, I ain’t got no dollars”, explica o hustler em “Freestyle Shit”, tema em que garante que houve um tempo em que nem a música nem o tráfico eram capazes de o alimentar, “before I even knew the game” –, este MC mantém-nos presos com um flow personalizado, musical e cativante, que entende as peculiaridades de Madlib, os caminhos sinuosos traçados por alguns beats, e que agarra sempre o tempo com mão firme. Tudo qualidades.



Ler de forma literal as histórias de crime e sangue, de drogas e carros rápidos é tão lógico quanto não perceber que a figura abusada da mulher em inúmeros clássicos de blues era, afinal de contas, uma metáfora directa para o patrão ou capataz da plantação. Não é, de facto, possível aplicar aqui uma tarimba moral que tenha sido erguida longe de uma uma realidade que funciona com parâmetros absurdos. E Freddie não esconde nada: “Crime pays, nigga, crime pays/ Choppin’ up this change with cocaine in my microwave/ Diamonds in my chain, yeah, I slang but I’m still a slave/ Twisted in the system, just a number listed on the page/ Made it through my whole month with my lights out, I seen brighter days/ Watch this shit get knee high, boy, you live and you die by this game”. Zero glamour, aqui.

É interessante perceber que Gibbs escreveu boa parte de Bandana quando se encontrava encarcerado na Áustria (a razão para ter falhado o NOS Primavera Sound em 2016), acusado de uma violação de que seria totalmente ilibado. Durante esse período, o MC foi escrevendo os temas na sua cabeça, a partir da memória dos beats que Madlib lhe tinha enviado para o trabalho que deveria suceder a Piñata, já que não tinha acesso a qualquer equipamento. O exercício parece ter resultado e todo o espírito de oposição que se encontra nos diferentes temas deve ser afinal lido à luz do caso de polícia em que se viu involuntariamente envolvido. Talvez por isso soe tão sedento, tão assertivo, tão seguro que até Pusha T ou Killer Mike parecem algo pálidos em comparação (o facto de Pusha T pisar terreno já conhecido também contribui para que não impressione como de habitual). Já Yasiin Bey (aka Mos Def) e Black Thought oferecem em “Education” um contraponto à altura da ferocidade de Gibbs, bastante ajudados pelo cinemático beat que Madlib escreveu a pensar num qualquer filme francês dos anos 60 que nunca existiu. Anderson .Paak, por outro lado, parece fazer os impossíveis para soar como um dos samples que Madlib resgata ao passado, servindo de antídoto para o “veneno” que Gibbs cospe num verso em que encaixa o dobro das palavras que qualquer MC normal usaria em idênticas condições.

Neste multifacetado presente, Freddie Gibbs e Madlib apresentam uma visão intemporal de uma cultura que já conta quatro décadas de exercícios discográficos visionários, desde a mensagem entregue por cinco furiosos até ao retrato da América de um moderno cavaleiro Jedi. É nessa interminável história, e não em nenhuma outra, que esta dupla pretende inscrever os seus nomes. E é aí que fazem a diferença, de bandana na cabeça e não nos olhos, olhando para trás, para a história, antes de ajudarem a escrever válidas páginas neste incrível presente. Que altura para se estar vivo!


Rui Miguel Abreu

Rui Miguel Abreu

Crítico musical desde 1989, Rui Miguel Abreu escreve atualmente para a Blitz e integra a equipa da Antena 3. De vez em quando também gosta de tirar o pó aos discos e mostrá-los em público.
Rui Miguel Abreu