Freddie Gibbs & Madlib // Piñata

[TEXTO] Rui Miguel Abreu 

No backstage do Festival ID, secundado por Egon, homem responsável por todo o lado operacional da sua carreira, incluindo as milhentas edições em que vai colocando o seu carimbo, Madlib revela a um honestamente sedento fã (Sebastião Santana, ali para lhe captar a imagem num incrível véu de luz verde…) que Bandana, o álbum que se prepara para editar com Freddie Gibbs, é ainda melhor do que Piñata, a primeira colaboração de fôlego entre o produtor e o MC que agora completa cinco anos de existência. Pretexto que, em conjugação com a confirmação oficial da passagem da dupla pelo cartaz da edição deste ano do Vodafone Paredes de Coura, justifica então as linhas que se seguem.

Levará algum tempo, certamente, a atestar a veracidade da ideia defendida por Otis Jackson, Jr., mas os anos entretanto volvidos sobre a edição de Piñata já são suficientes para o colocar entre aquela rara classe dos álbuns de hip hop que crescem com o tempo, até dele se separarem, impondo-se como peças clássicas, libertas das amarras dos calendários. É que tanto deste hip hop, como de resto acontecia com as sessões clássicas de jazz, existe preso a um tempo, a um contexto, até a um lugar específico. Discos como Piñata são, na essência, extraordinários compromissos: duas cabeças que se encontram, num lugar, para durante um pré-definido período de tempo trabalharem num terreno neutro para ambos, com o produtor a oferecer ao MC as criações que acredita melhor encaixarem-se na sua personalidade, no seu flow, visão e estética. Por seu lado, o MC tratará de adaptar as suas ideias, as suas palavras, as suas cadências às paisagens sonoras sugeridas pelo produtor, tentando sair de si mesmo para com ele se encontrar a meio caminho.



Este há-de, certamente, ter sido o caso de Madlib e Freddie Gibbs que aqui protagonizaram um encontro algo invulgar e inesperado, sobretudo tendo em conta os projectos colaborativos anteriores do produtor californiano (Champion Sound de 2003 com J Dilla, Madvillainy de 2004 com MF Doom ou, para citar apenas mais um entre os mais relevantes, OJ Simpson de 2010 com Guilty Simpson), talvez mais habituado a trabalhar com MCs menos “convencionais”. Não que Gibbs, homem de Gary, Indiana, represente algum tipo de “normalidade”: os seus raps despidos de alguma moral normalizante que relatam a dura vida nas esquinas onde se trafica esquecimento soam como episódios de The Wire — a realidade que relata é a que os seus olhos vêem, as palavras que usa são as que as ruas lhe ensinaram. Sobreviver para contar as histórias de mais um dia parece ser o principal objectivo. O homem de Oxnard nunca tinha exactamente trabalhado nesse registo.

Num verdadeiro turbilhão de samples de soul, funk e jazz, com amplo recurso a diálogos de clássicos mais ou menos obscuros de blaxploitation, Madlib tece uma vívida tapeçaria para a voz de Gibbs desenrolar uma barragem de rimas que deixam claro que o seu punho está em topo de forma, capaz de afiar as mais penetrantes farpas que cuida de dirigir a quem quer que esteja na sua mira (e neste álbum Young Jeezy foi uma das vítimas…), mas que não hesita em espetar na sua própria pele se por acaso acha que a pessoa em frente a si quando se olha ao espelho precisa de ouvir algum tipo de verdade. Como no final do intenso primeiro verso de “Deeper”: sobre as cordas cinemáticas que o Loopdigga entrelaça como um artesão num baixo gordo e num discreto rimshot, Gibbs conta uma história do bairro que mete prisão e uma ex-namorada grávida de outro homem… “Maybe you grew up and I’m still living like I’m sixteen/ like a child runnin’ wild in these streets”. Uma frase aparentemente simples, mas carregada de profundo significado: a criança que anda à solta nas ruas provavelmente tem o pai na prisão, ou seja não tem o controlo que a sua namorada procurou encontrar junto de outro homem. Real talk. E totalmente gangsta



Na fantástica “High”, pontuada por uma textura soul e por um oportuno sample de voz (“I get high…”), Gibbs demonstra um dos seus flows mais tecnicamente vigorosos, contraste absoluto para a entrada fora da caixa do primeiro convidado do álbum, o impressionante Danny Brown que parece sempre rimar como um personagem de uma série qualquer do Cartoon Network. Brown é o primeiro nome de uma sólida lista de participações que se alarga a Raekwon (“Bomb”), a uma dupla do universo Odd Future, Domo Genesis e Earl Sweatshirt (“Robes”), ao gangsta veterano Scarface (“Broken”), Ab-Soul e Polyester The Saint (“Lakers”), BJ The Chicago Kid (“Shame”), Big Time Watts (“Watts”) ou, na posse cut que dá título ao álbum, Domo Genesis, uma vez mais, e G-Wiz, Casey Veggies, Sulaiman, Meechy Darko e o já desaparecido Mac Miller.

Dizer que a lista é ecléctica é o understatement do ano: Gibbs e ‘Lib parecem ter aqui reunido muito conscientemente uma série de vozes singulares, MCs que nunca se encaixam da forma mais previsível nos beats que lhes colocam nos phones. Numa palavra: estetas. Tipos que adornam qualquer beat com flows que elevam a fasquia da arte de cadenciar palavras, gerir sílabas e respirações. MCs que outros MCs escutam com um dedo no repeat e bloco de notas por perto.



O título, enfim, acaba por ser revelador. Como o boneco que se enche de porrada de olhos vendados esperando uma chuva de doces em qualquer festa infantil de qualquer quintal de Los Angeles, também este álbum revela ter dentro recompensas inesperadas, frases certeiras, versos que são cuspidos com panache, precisão musical e dicção poética sobre música que pega no melhor que a América negra produziu na década dos grandes Cadillacs com pneus adornados com “gangsta white walls” e nos massaja os ouvidos com uma classe insuperável. E até há espaço e tempo para algum humor absurdista, capaz de gozar com clássico das TLC e tudo, como se percebe pelo final de “Robes”. Um pouco de comic relief num álbum de tons essencialmente sombrios.

Piñata é, podemos concluir, um dos bons, um clássico em que dois criadores singulares souberam acomodar o facto de estarem a assinar juntos um disco de que a maioria poderia não estar à espera, mas que o tempo haveria de revelar como obra maior. O encontro resultou tão bem que vem aí sequela. E a acreditar em Madlib, Bandana poderá muito bem fazer a Piñata o que O Padrinho II fez ao primeiro filme da saga realizada por Francis Ford Coppola. A confirmar, não tarda nada…


Rui Miguel Abreu

Rui Miguel Abreu

Crítico musical desde 1989, Rui Miguel Abreu escreve atualmente para a Blitz e integra a equipa da Antena 3. De vez em quando também gosta de tirar o pó aos discos e mostrá-los em público.
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