ID_NOLIMITS’19 – Dia 1: Coragem e delírio no Estoril

[TEXTO] Alexandre Ribeiro & Gonçalo Oliveira [FOTOS] Inês Condeço

Se estivéssemos num filme de ficção científica, o alinhamento da edição de estreia do ID seria a materialização de algumas das linhas escritas por aqui durante os últimos (quase) quatro anos. Numa localização incomum — o Centro de Congressos do Estoril –, o festival reuniu um conjunto de nomes que não jogam em campeonatos de likes ou visualizações — a excepção seria IAMDDB… –, mas que não devem nada a nomes de primeira linha.

Com a missão de dar o pontapé-de-saída no primeiro dia, COLÓNIA CALÚNIA, um dos colectivos que mais têm valorizado (e revolucionado) a escrita nacional, assumiu a dianteira no ROOM 002 ERISTOFF, juntando uma pequena elite de MCs e produtores naquele espaço.

Menos reconhecido que L-ALI — que teve a comitiva Superbad presente, a apoiar — e NERVE, os dois rappers que geraram mais barulho entre os presentes, Secta não lhes fica nada atrás quando pega no microfone e começa a atirar os seus versos intrincados com precisão cirúrgica, quase robotizada (elogio…), auxiliado por Metamorfiko, o seu aliado em [caixa], o disco em foco no showcase. Num evento que quer acabar com barreiras, é de louvar a escolha deste grupo de artistas que expande os limites do rap com beats não-convencionais e rimas surrealistas que se preocupam mais com o exercício da técnica do que com earworms.

Abriu-se a caixa e saíram os ases todos lá de dentro: com VULTO. nas costas a disparar instrumentais — as Funktion One “ajudaram” nessa missão –, Caronte, Jota, L-ALI, que regressou a solo para apresentar faixas de Café, Lista de Reprodução — assumiu que “Silna” era a sua favorita — e dois inéditos, e Tilt, que aproveitou a ocasião para estrear canções do seu próximo álbum em colaboração com o homem sombra, provaram que a qualidade que se ouve nas versões de estúdio tem continuidade nas apresentações ao vivo.



A poucos metros dali, no piso de baixo, os crentes começavam a juntar-se no GRAND HALL CASCAIS, o palco principal do festival. A razão? Fácil: a estreia de Madlib, um dos melhores produtores de hip hop de sempre, em Portugal.

Se o início foi mais tradicional — ouviu-se “Shook Ones, Pt.2” dos Mobb Deep, “Accordion” de Madvillain, “Faden Away” de 7 Days of Funk (Dâm-Funk & Snoop Dogg) ou um dos badalados inéditos com Mac Miller –, a verdade é que metade do set foi um grande devaneio (que deu para músicas exóticas com ritmos galopantes e o oposto disso — beats esqueléticos, reduzidos ao mínimo –, pequenos interlúdios numa língua imperceptível e sermões…), algo só permitido a génios como Madlib, “obrigando” muitos a saírem da sala sem entenderem o que se tinha passado. “America’s Most Blunted”, de facto.

Momentos antes do seu gig, numa conversa informal no backstage, Otis Jackson Jr. revelava um par de coisas que podem interessar aos seguidores mais fiéis: Bandana é melhor do que Pinãta porque foi “mais pensado”; o regresso a Portugal já tem data marcada e acontece ainda este ano.

No final, o público dividia-se em dois: os que não conheciam a personalidade artística do Beat Konducta e aqueles que sabiam para o que vinham.



De um cenário delirante para o baile num auditório: sim, Pedro Mafama, a nova coqueluche da música portuguesa, actuou num espaço inusitado que soube receber a sua fórmula sónica sem preconceitos.

De “Jazigo” a “Lacrau”, passando por “Arder Contigo”, “Como Assim” ou “Feitiço”, o curto reportório causou um pequeno terramoto que só precisa de encontrar um melhor equilíbrio entre auto-tune, vocais pré-gravados e os instrumentais para não cair no mesmo erro que muitos rappers (por norma ligados ao trap) da nova geração.

Depois de ter actuado no dia anterior num Roterdão cheio, o artista lisboeta não baixou os níveis de energia, mesmo que o cenário fosse totalmente diferente, mostrando à-vontade para lidar com todo o tipo de situações, algo necessário para que não estagne a sua evolução. Para seguir de perto.



Ir a Roma sem ver o Papa não é, de facto, um crime. Se a estreia de Madlib em Portugal conseguiu juntar um agradável número de curiosos no público, foi depois do produtor norte-americano ter sido simpaticamente alertado para o final do seu slot que a verdadeira aglomeração de gente se fez notar na plateia, deixando as restantes salas de espectáculos do ID_NO LIMITS bastante aquém da sua lotação. Afinal de contas, parece que o estatuto de estrela da noite pertencia a Diana de Brito, uma das mais recentes sensações do circuito urbano de Inglaterra. A sua presença no festival nem se tratava de uma estreia no nosso país, mas o público acolheu-a com o calor que se dá a alguém que é desejado com a maior das urgências.

Após um “boa noite Lisboa” e um par de temas introdutórios, a artista quis saber se a matéria estava bem revista — “Já ouviramSwervvvvv Vol.5?”, perguntou. A resposta foi dada em gritos e aplausos, e se isso não era o sinal positivo que IAMDDB precisava bastava atentar nos movimentos mandibulares dos presentes, com as letras praticamente decoradas na sua plenitude.

Se no Vodafone Mexefest, em 2017, lhe tínhamos reconhecido duas peles completamente distintas — os bangers de Hoodrich Vol.3 integravam grande parte do seu cardápio à data —, a passagem pelo Centro de Congressos do Estoril trouxe-nos a MC/cantora no seu registo predilecto, o tal urban jazz que já fez questão de frisar nas entrevistas e nas descrições dos seus projectos musicais. Vibes positivas, descontraídas e ricas em melodias, adornadas de batidas vincadas mas simultaneamente dóceis, vindas de um universo claramente inspirado pela escola da Soulection.

“Keep it G” foi a expressão que mais vezes repetiu em inglês e “charutos” ficou em primeiro lugar no top de palavras portuguesas utilizadas por IAMDDB. Não faltaram incentivos para dar lume às ganzas por parte de Diana de Brito, que acabou mesmo por ser brindada pelo público com algum material de fumo ilícito enrolado artesanalmente, tal era a sua insistência no assunto. A música parou a certa altura e o agradecimento da noite foi para Caetana, que promoveu o smoke break do concerto.

Mas havia palavras para todos os presentes: “Aconteça o que acontecer, nunca se esqueçam, eu sou de vocês”, garantiu Diana num português desenrascado, se tivermos em conta que não é esta a língua que preenche o seu dia-a-dia. Quem sabe nunca esquece: IAMDDB tem origens portuguesas e angolanas e nasceu em Cascais — a actuação no Centro de Congressos do Estoril teve por isso mesmo alguns contornos bastante especiais, ali a dois passos do Cascaishopping, local que fez questão de revisitar.

A missão do Rimas e Batidas no primeiro dia do ID_NO LIMITS chegava assim ao fim, mas a festa prolongou-se até às 4 horas da manhã: Pearson Sound, Jacques Greene, Shaka Lion e Nigga Fox deram o combustível necessário para que a dança continuasse por mais algumas horas.


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