Romper. Extinguir. Diluir. Essas são algumas definições do que é dissolução, termo escolhido por Bebé para intitular o seu terceiro álbum. Na prática, a cantora, compositora, multi-instrumentista e agora produtora se desfaz de coisas que a prendiam, inclusive no quesito criativo. A afirmação se baseia em conversas informais que tivemos e, principalmente, nas diversas escutas da obra. Várias em diferentes devices, uma ao vivo no Centro Cultural São Paulo (CCSP) e duas nas audições feitas no Bona Casa da Música (São Paulo). Estas últimas foram mais interessantes por serem num ambiente intimista, com luz baixa, acompanhadas de imagens e de pessoas distintas.
Enquanto as imagens dos videoclipes e lyric videos ilustravam, as músicas ecoavam por um sistema de som de alta qualidade. Soa diferente. É possível ouvir detalhes que passam despercebidos pelos fones. São linhas instrumentais muito bem construídas somadas a ruídos, synths e sujeiras que ajudam a encorpar o som. “Fica na Mesma”, por exemplo, parece ter apenas voz e guitarra. Porém, não se engane. Os complementos que se achegam dão brilho, e aproximam. É como se ela estivesse tocando na sala da sua casa. Essa proximidade tem ficado cada vez mais escassa porque existe a necessidade que tudo soe limpo, com excesso de filtros, assim como nas fotos que se publica no Instagram.
“Observando com os ouvidos”, vejo um certo protagonismo das cordas. Os mais aficcionados pelos sons do baixo vibram com os graves que aparecem com drives diferenciados sempre que aparecem. Quando “Se Tocar” invade os ouvidos, os semblantes sorriem com olhos fechados, cabeças balançantes e afirmações com o movimento dos lábios dizendo sem palavras que aquilo está muito bom. O baixo de Ana Karina Sebastião vocaliza, serve quase de voz resposta na primeira parte. Do refrão para o fim, ela segue o fluxo por um caminho distinto, como se improvisasse. Parece dissonante. Mas é aí que está a beleza. De outro jeito essa “conversa” não aconteceria. São linguagens díspares que se entendem.
Diferente dos anteriores, Bebé e SALVE-SE, Dissolução possui texturas variadas. Mas todas refletem a identidade da artista. Ao longo de 34 minutos e 20 segundos, você entra na viagem dela. É tipo viajar de ônibus para um lugar distante e ao longo do caminho se deparar com paisagens diversificadas. Algumas são mais densas, outras coloridas, vibrantes. São camadas profundas que fogem de qualquer tipo de definição. Ao mesmo tempo que é indie, é jazz também. E em outros momentos se descola de ambos e abraça outras possibilidades que flertam com o R&B, o rock, o rap, o eletrônico [trip hop, house]. Tem o fator surpresa para quem fica na espera de algo retilíneo e quadrado. Está cheio de curvas, rampas e até “buracos” que fazem com que esse passeio seja interessante, divertido e às vezes reflexivo.
Essa coragem de não fazer algo óbvio está em extinção. O medo da não aceitação, das críticas negativas, do não entendimento e da pressão para se manter na zona de conforto tem engessado a criatividade, deixando a arte musical desinteressante para quem escuta. A vontade de agradar fala mais alto do que a autenticidade. Isso não acontece com este disco. Cada escuta é uma descoberta. E sempre merece uma segunda, terceira, quarta. Tem músicas que pegam mais, outras menos. Mas uma leva a outra, e aumenta a curiosidade para as que virão na sequência.
Para fazê-lo, Bebé, na função de produtora, fez literalmente uma seleção: Dee Simone [trabalhou com Ravyn Lenae e Doechii], Alana Ananias, Felipe Salvego (guitarra, baixo), aura Santos (clarinete), Layla (steel drums), Dinho Almeida [do Boogarins] (beat, sample guitarra), Badi Assad (violão, voz percussiva), Vanessa Ferreira (baixo acústico), Ana Karina Sebastião (baixo), Alejandra Luciani (engenharia de gravação), João Millet (mixagem) e Felipe Tichauer (masterização). “Compartilhando o Céu”, uma daquelas que você dá o play e dança levemente numa manhã de domingo, e que poderia tocar em qualquer FM, recebe Tássia Reis, que faz um dos versos mais bonitos da música brasileira contemporânea [“Eu nem preciso de asas pra voar porque eu já moro nas estrelas do seu olhar”].
A confessional, e divertida, “Ano do Cavalo” tem a participação do trio Tuyo. É outra que gruda fácil. O refrão, e até a canção como um todo, serve também de resposta para aquele romance empacado. Se não tiver o que dizer, só mandar ela para o destinatário. Em “Vulcânica”, o alter ego de Bebé, Salvegod, entra no jogo para trazer à tona beats quebrados. É nebulosa, sensual. Chega a ser uma espécie de free-jazz eletrônico com sintetizadores bem marcados com cadências sinuosas. Brisa Flow amarra tudo com suavidade [essa serve para momentos específicos, tendo companhia ou a sós]. Das mais intimistas, “Variante Estrelar / para Lô Borges” faz uma ode a uma das principais influências musicais da artista. Até no concerto que apresentou o álbum de forma antecipada [no CCSP], ela (emocionada) revelou a “frustração” de não conseguir ver Lô Borges (falecido em 2 de novembro de 2025) ao vivo.
É possível observar as referências dela inseridas em todo o conjunto. Do jazz de Wayne Shorter e Esperanza Spalding, que sempre faz questão de reforçar, passando pelo rap, neo-soul, R&B, flertando com Flying Lotus e Mk.gee, e chegando naquela sonoridade que levou Minas Gerais para o mundo através do Clube da Esquina, e o trip hop londrino. São pitadas usadas com equilíbrio para temperar seu guisado. Comparar música com a comida não é apenas figura de linguagem. Ambas precisam de tempo, dedicação e aquele ingrediente essencial que é o amor. Nem sempre seguir a receita fará com que o preparo dê certo. Às vezes, é necessário abrir a geladeira, ver o que tem lá, pegar e cozinhar aquele prato sem a preocupação de ficar igual ao o que já produziram. É autenticamente seu. Foi isso que Bebé fez. Pegou a expertise que tinha, o que a influenciou e misturou com aquilo que achou que daria certo a partir da sua visão. Trouxe outros sabores. Um agridoce com aquela dose de pimenta acompanhado de amor, paixões, desilusões, prazer, poder. É para saborear devagar para não acabar rápido.