Nas mais de 19 horas de programação do Extremo couberam aproximadamente 257 variantes de 4’33”, a peça seminal de John Cage – e talvez ainda mais níveis de escuta. Calcorrearam-se constantemente as fronteiras entre território, património, paisagem e som sem perder de vista o rasto solar. Ainda assim, foi com o dia embrulhado na noite que acordámos para alcançar o momento inaugural em que o sol nasce no Sameiro e começa o festival. O autocarro partiu do centro da cidade de Braga e levava muita gente na direcção do seminário Carmelita. À chegada, surpreendeu o número de público que respondeu ao apelo das características peculiares do Extremo.
Na Falperra, as seis da madrugada são uma hora fronteira. Enquanto amanhecia sobre os carvalhos suspensos na névoa que gotejam orvalho, nós íamos entrando para um átrio com instrumentos em repouso. Um contrabaixo deitado, uma bateria parada, duas guitarras ao alto e um harmónio num banco aguardavam pelos corpos que lhe emprestariam a alma. Calcutá apresentou-se em trio para percorrer Soon After Dawn. Por meio da repetição rítmica e harmónica, da sugestão melodiosa da voz, afinada em contraste com o contrabaixo e as texturas atmosféricas da bateria, transformaram um lugar vazio numa alvorada colectiva de contemplação. Dificilmente a essência deste despertar poderia estar tão próxima do sentido original do álbum. O que fica quando emergimos desse mergulho na noite?
Desde o primeiro concerto que o Extremo retirou ao tempo a capacidade narrativa. Restava-nos desacelerar, olhar em volta, respirar, fechar os olhos e escutar. “Escutar é uma escolha”, haveria de dizer Calcutá durante a tarde. Pauline Oliveros transformou essa escolha numa prática: o Deep Listening, uma atenção radical não apenas à música, mas a todos os sons que nos rodeiam. O Extremo torna-a indeclinável.
Aqui é o sol que narra e acompanha a peregrinação que nos haverá de levar de regresso até à Falperra. Seguimos um trilho de floresta, entre giestas e fetos, monte abaixo, assaltados pelos perfumes de hortelã bravia e loureiro, até a uma clareira onde havia um tanque. Suspenso sobre a água estava montado um palco com um vibrafone, uma bateria e um set-up de percussão. O sol erguia-se atrás e os primeiros raios trespassavam a densa ramada do arvoredo ao encontro de um corpo ou de um pedaço de chão para aquecer.
Valentina Magaletti subiu, agarrou duas baquetas e debruçou-se sobre a água. Começou com movimentos circulares à superfície do tanque e preparou um silêncio que fez emergir o canto dos pássaros, o ladrar dos cães e o sino da igreja ao longe. Encarando o espaço como um instrumento, Magaletti partiu do som da água para estancar o movimento e o ruído do público exigindo atenção máxima. Tudo à volta se tornara subitamente audível. Lentamente, passou a procurar o som na estrutura metálica do palco que a conduziria ao vibrafone.
As ondas sonoras que emanavam do vibrafone atravessavam toda a floresta e pareciam ecoar a quilómetros dali enquanto interferiam com o pulsar dos corpos e o murmúrio das folhas. A actuação explorou as simetrias entre notas, os elos entre timbres e os percursos que a levavam de um tom a outro. Sequenciou a água, o metal e as peles até voltar ao vibrafone para o silêncio final. O público permaneceu imóvel e aplicado na escuta até que interveio unicamente para o longo aplauso no final.
Enquanto as pessoas voltavam a agrupar-se para prosseguir o trilho rumo à Falperra, começávamos também a reconhecer alguns rostos. Eram os mesmos que tínhamos encontrado ainda de madrugada entre a névoa do Sameiro que a música de Calcutá parecia dissipar e agora à volta daquele tanque. Ao longo do dia haveríamos de voltar a encontrá-los, como companheiros ocasionais de uma travessia medida em quilómetros, horas de luz e diferentes níveis de atenção. Restava uma ideia muito clara: escutar é, na realidade, colocar todos os sentidos ao serviço do ouvido.
A meio da descida, encontrámos Pedro Augusto, que nos introduziu à Deriva das Pedras — instalação encomendada pelo festival. Algumas reflexões graníticas iluminaram uma ligação ancestral: desde a Idade da Pedra, passando pelas esculturas gregas e renascentistas, até chegarmos aos relógios e à combinação mineral de que se fazem os nossos telefones, a pedra desempenhou um papel elementar na história da espécie. Embora banalizadas pelo olhar disperso, estamos sempre sobre pedras. A proposta era voltar a observá-las, restabelecer uma ligação e, no caminho até à Capela de Santa Maria Madalena, escolher uma.
Aí chegados, aguardava-nos o músico, produtor e investigador do Porto com uma instalação sonora não periódica e aleatória que navegava entre as hipóteses de som com raiz mineral e o ruído, para derrubar os filtros com que habitualmente ouvimos.
O sol estava a pino e esperava-nos Molero na capela de Santa Marta do Leão. Os caminhantes sentaram-se nos muros e nas mesas do parque aproveitando a sombra centenária dos carvalhos para escutar as paisagens oníricas, simbólicas e tribais do músico venezuelano. Entre a abstracção da sua música percepcionámos vidros e metais, sons naturais da floresta amazónica reflectidos em percussões elementares e o som da água a despertar. Uma sobreposição de ambientes urbanos e naturais com uma capela como cenário.
A manhã recentrou-nos. Depois de horas a caminhar e a escutar, também o pensamento parecia abandonar a forma circular, previsível e conclusiva. Parece ser esse o território que o Extremo procura: romper a linha do que reconhecemos e avançar pelas possibilidades desconhecidas que habitam as fronteiras da música, da paisagem e da própria percepção.
Com o sol já no trajecto descendente, regressámos à capela de Santa Maria Madalena que estava à pinha para o concerto de Shane Parish. O norte-americano acabava de aterrar no Porto vindo de Itália, onde havia tocado no interior de uma gruta, e já estava no alto da Falperra. Acompanhado por uma guitarra acústica que parecia multiplicar-se, preencheu o pouco espaço por ocupar no interior do monumento religioso. Converteu-o num templo de escuta concretizando, dessa forma, uma das suas ideias-chave: a guitarra pode ser “uma orquestra em miniatura”. Depois de uma manhã dominada pela textura, pela matéria e pela paisagem sonora, Parish trouxe a melodia para o primeiro plano. Experimentou afinações variadas.
Apresentou o novo álbum Autechre Guitar, num exercício que parte de dez composições de Autechre, dupla inglesa associada à electrónica mais abstracta, reinventando-as para guitarra acústica. “Nine”, “Yulquen”, “Eggshell” e “Corc” foram alguns dos temas que evidenciaram uma técnica virtuosa capaz de progressões melódicas, timbres invulgares e vibrações de corda que sintetizam memórias musicais coloridas pela emoção de Parish.
No final, todos saíram da capela e ocuparam a escadaria voltada para Braga. Durante alguns minutos não havia palco nem músico. Apenas o sol a desaparecer no horizonte, concluindo a narrativa que começara quase 14 horas antes, quando o procurávamos ainda escondido pela névoa do Sameiro. Entre quem se sentava agora nos degraus reconheciam-se muitos dos rostos encontrados ao amanhecer. Havia cansaço nos corpos, mas também uma estranha familiaridade entre desconhecidos que tinham resistido à mesma travessia.
Quando desapareceu, o Extremo ficou entregue à noite. Com o narrador ausente, o festival deslocou-se para o palco final, a Capela de Santa Marta do Leão, e entrou noite dentro sob o comando de Debit. A mexicano-americana trouxe à Falperra o mais recente trabalho, Desaceleradas, editado no final de 2025, no qual usou como matéria-prima a cumbia rebajada.
O som imersivo estruturava-se em graves profundos e poderosos, constantemente rasgados pelo acordeão da mãe e pelo sintetizador ARP 2600. Com a chegada da noite, a iluminação de palco criou uma atmosfera onírica, que coloriu a fachada da capela com luzes quentes e sugestivas. Um jogo de reflexos onde som e cor reconfiguravam o espaço, os corpos e a escuta. A Falperra era agora outro lugar, suspenso acima de qualquer outro monte minhoto.
Chegava o tempo imprevisto de Alessandro Cortini. Brian Eno definiu a ambient como música capaz de admitir diferentes níveis de atenção, “tão ignorável quanto interessante”. 18 horas depois de o Extremo começar, Cortini parecia inverter a fórmula. A sua música não admitia distracção. Exigia o corpo inteiro. No mesmo cenário, o azul e o vermelho das luzes deram lugar ao preto e branco como primeiro indício de que percorreríamos o limiar da escuta por entre as soturnas sombras da noite: um salto para o Ocean of Sound. Com uma intensidade ainda não alcançada durante o dia, o som do italiano tornou a escuta corpórea. Camadas de frequências sustentadas, diferenças entre canais e massas sonoras que dificultam a separação entre o que é audição e o que é vibração sentida fisicamente. Havia quem protegesse os ouvidos como quem prepara o mergulho.
NATI INFINITI, lançado em 2024, envereda por um caminho livre sempre a direito, sem meta nem termo — porque infinito. Estende os limites da percepção auditiva. A certa altura, o estéreo deixou de parecer apenas uma distribuição do som no espaço. Era como se cada ouvido estivesse a receber — ou a construir — uma versão diferente. As frequências atravessavam a cabeça de um lado ao outro e sentíamos a pressão das ondas sonoras nos tímpanos. Dissolvidos o ritmo e a melodia, o som emergia como espaço habitável e por conquistar.
Em entrevista ao Rimas e Batidas antes do festival, Cortini revelou ver “a música como um veículo que permite a cada pessoa sentir aquilo de que precisa naquele momento”. Foi isso que percepcionámos entre o público. Para nós, sobre tudo isto parecia pairar o poema “L’infinito” do seu compatriota Giacomo Leopardi, do qual tomamos emprestados alguns versos na tradução de Jorge de Sena: “…intermináveis/ Espaços para além, e sobrehumanos / Silêncios, …”
Coube a Helviofox fechar a noite e devolver finalmente o movimento aos corpos. Entre os que dançavam reconheciam-se ainda rostos encontrados quase 20 horas antes, quando o dia estava embrulhado na noite e o autocarro chegava ao Sameiro. Tinham atravessado a névoa, a floresta, a pedra, a água, o sol e, por fim, a noite. Decorridas tantas horas, o festival também se media pelos rostos que continuávamos a reconhecer. Depois de um dia inteiro dedicado a aprender formas de escuta, o som dessa Nova Lisboa encontrou nos corpos resistentes o desejo da dança. Era a última transformação proposta pelo Extremo: depois de atravessar o silêncio, a paisagem, a matéria, a melodia e a vibração, o som regressava enfim ao corpo.
Tinham passado mais de 19 horas desde que o sol nascera no Sameiro. Tempo suficiente, pelo menos em teoria, para 257 execuções integrais de 4’33”. Àquela hora, porém, já sabíamos que nenhuma forma de silêncio pode soar da mesma maneira.