O estado actual da música, enquanto forma de arte que se desenvolve, está num impasse. Desde a introdução do computador como instrumento (ou aliás, como ferramenta para a criação de composições), nos inícios dos anos 2000, que alguns artistas decidiram abarcar nessa aventura, não obstante manterem-se naquilo que tinham conseguido antes. Afinal de contas, um estilo não muda apenas ao se introduzir um novo instrumento: essa mudança resulta quando há uma autêntica revolução na forma como os instrumentos se dispõem uns em relação aos outros e os arranjos sonoros acentuam subtilezas expressas como que vindas do desconhecido.
Há várias formas de isso se fazer, mas os fundamentos tradicionais de qualquer música podem-se dividir em três categorias base: melodia, harmonia e ritmo.
Dito isto, a autêntica mudança que se efectuou, agora explicitamente no mundo do jazz mais aventureiro, foi na ênfase na harmonia em detrimento da melodia, e especialmente do ritmo. A harmonia de sons cria-se essencialmente quando acontece a mistura resultar naquilo a que nos EUA se chamou “soundscapes” – paisagens sonoras. Logo, a imaginação do ouvinte é assim emancipada, para o bem ou para o mal – isto porque autênticas visões paradisíacas ou infernais são-nos sugeridas quando certos sons se conjugam. Mas não vou focar-me em reduzir o meu juízo dos concertos do Jazz no Parque, em Serralves, no Porto, em “bons” ou “maus”: antes tentarei descrever a visão de mundos possíveis e as implicações que a música nos deu.
Disse antes que o computador veio para revolucionar a arte da composição musical, mas poderíamos dizer que os instrumentos electrónicos sem nome já o tinham feito antes – e que os acústicos tradicionais responderam imitando o seu timbre digitalizado, acentuando o carácter sonoro em si (em detrimento do tonal – distinção a que voltarei mais adiante), tal como numa pintura a óleo que imite uma fotografia acentua o carácter do processo da representação em si mesma. É essa imitação do digital que Joana Guerra (no primeiro concerto, acompanhada de João Valinho na bateria e José Lencastre no saxofone) parece fazer com “apenas” o seu violoncelo e cinco pedais eléctricos. A voz dá um toque mais humano, mas não menos imaginativo, enquanto os outros dois instrumentistas mantêm uma utilização mais ortodoxa. Quem me pareceu que conseguiu acompanhar a explosão de criatividade de Guerra fora a bateria de Valinho, principalmente quando acentuou o carácter rítmico através da repetição adaptada à mini-sinfonia apocalíptica que ia ocorrendo. Quase que atingiu a versão “jazz” (termo algo problemático para descrever esta música) da música industrial, pois o saxofone sola como uma voz individual rodeada desta paisagem grave e tenebrosa.
As intuições musicais neste concerto foram múltiplas – seja pelo tribalismo subterrâneo, quase a lembrar memórias de índios e animais da selva através da voz primeva de Guerra que, apesar de justificar o nome do projecto (“ilha animal”), apenas é uma parte (uma ilha?) do arquipélago musical abrangido: música de câmara, collage, vislumbres de folk dançável – um teatro de variedades que no caminho nos retraz elaborando sobre sons do quotidiano (musique concrete). A única referência à linguagem surge em inglês quando a repetição da frase “I came very well dressed for this occasion” surge do nada, o que na relação com o resto do ambiente musical apenas me fez pensar no tom brincalhão e pretensioso em que esta música de potenciais épicos podia degenerar.
Duma (felizmente) breve visita ao rock’n’roll voltamos à banda sonora apocalíptico-industrial para a paisagem de uma cidade deserta, apenas para surgir como que do mais fundo do nada uma melodia afro-caraíba interessante (folclórica ancestral), ainda com o à volta a simular indústria e a música levantar voo, o alarme soar, e ser levada para outra dimensão que se dilui entre a abstracção e o campestre – para terminar a primeira parte do concerto.
A segunda parte foi francamente mais desinspirada – o foco no “som” não compensou o facto de o som do tédio se instalar, o que parece que fora apercebido pelos músicos, o que talvez justifique a sua menor duração.
Este concerto levou a imaginação a adquirir, como tentei descrever, um “realismo” paisagístico sonoro – “realista” porque ancorado em territórios reconhecíveis – em cantares humildes no meio do caos organizado da industrialização algures em África.
Os contornos da forma harmónica no segundo concerto foram, a meu entender, mais políticos – e ao mesmo tempo, ou por isso mesmo, alegóricos. Talvez porque ouvir música desafiante exija um esforço mental significativo, cujo resultado desemboque, na melhor das hipóteses, em metáforas continuas – a experiência da sua audição deve assim sê-lo sugerida: o adjectivo “política” deve-se não tanto a vozes activas defendendo uma ideologia, mas antes mostrando, no território chão entre saxofone (Hery Paz), baterias (Marcos Cavaleiro e Pedro Melo Alves) e contrabaixo (Demien Cabaud), um credo democrático-anárquico sem líderes – estado esse que exige um esforço constante de todas as partes, porque não há ninguém que nos diga o que devemos fazer. O que acontece é Hery sugerir um caminho e os outros músicos decidem (ou não) segui-lo e depois sim, após o rio se libertar, navegá-lo.
Nesse “rio”, ladeado pela vegetação frondosa e pelos piares irregulares das aves nos jardins de Serralves, quase que nos podíamos achar nalguma selva da América Latina – isto porque, mesmo nos momentos mais “free jazz” à la Ornette Coleman, a dinâmica rítmica quasi-cumbia, ou a melodia cubana do saxofone libertam um perfume latino que, ainda assim, não é bem Gato Barbieri ou Mingus das experiências mariachi. A sonoridade é mais académica, mais profissional, o que sem evidentes “variações sob um tema” (melódico, claro está), torna a audição densa, ainda que se mantendo satisfatória pelo motivo que acima apontei: o concerto transpirou a política democrática-anárquica, mas sem referências óbvias. Uma alegoria sonora para a independência e consequente sobrevivência política de Cuba? Cuba actual nunca estará mais perto do Porto (ou dos jardins de Serralves).
No domingo, último dia do festival, houve apenas um concerto neste mesmo espaço maravilhoso – mas a música não poderia ter sido mais diferente. De facto, o termo “jazz” já não abarca o fenómeno a que se poderia associar um puro entretenimento leve, citadino e festivo dos EUA nos anos 10 e 20 do século passado. Não que o factor “entretenimento” tenha desvanecido – antes se tornou mais desafiante e mais imaginativo/mental (há razões para isto que não elaborarei aqui) – o que num clima mais europeu (ou germânico, neste caso) cruza-se com a música electrónica austera, sem deixar de ser divertida. Um saxofone (Angelika Niescier), um grande piano de cauda (Aki Takase) e um gira-discos ligados a computador (DJ Illvibe) – combinação improvável que, quando resulta, é pura diversão enquanto erudita o popular.
Temas ao mesmo tempo vertiginosos e leves (o saxofone parece um clarinete, o piano uma voz vivíssima, a electrónica e gira-discos riscados), há um sabor de referências irónicas ao mundo da música popular de massas que já os Faust, numa inclinação mais rock dada, tinham feito no seu primeiro álbum há mais de 50 anos. Mas claro que aqui o alcance é outro: seis ou sete claras composições dos diferentes músicos, compostas formalmente. Ou seja, o carácter composicional evidencia-se pelo processo de interpretação, o que não impede que haja, em algumas delas, um factor de esquisso esquizó, ou seja uma incompletude no registo de detritos do passado, própria de um estado da arte “pós-moderno”.
É verdadeiramente na referência ao passado que os músicos mais impressionaram, mas por razões diferentes – DJ Illvibe pela fantasmagoria desfigurada, no uso dos samples (reconheci, se a memória não me falha, “La Vie en Rose” e algum trecho de Gotan Project, hip-hop e vozes zangadas, e…), em harmonias nebulosas; Aki Takase por um magnífico solo que foi uma verdadeira síntese histórica, uma aula de diferentes géneros musicais que orgulharia tanto Stravinsky como Cecil Taylor. Este último foi feito com uma elegância e compostura de uma autêntica mestre da música tonal ocidental.
A música tonal ocidental está num impasse, porque os computadores, principalmente a partir dos anos 2000, não mudaram necessariamente estilos, mas antes os meios de dar arranjo à música: muitos músicos decidiram imitar-lhe o processo (imitação que creio ter como maior desafio, dentro das três categorias acima, a imitação do ritmo da interacção do coração humano com o instrumento), dentro dos quais todos os músicos que estiveram em Serralves este fim-de-semana fazem parte. Mas também há outros que decidem enfrentar a avalanche de data vinda de uma chamada inteligência artificial em rapidíssima e desumana velocidade, mudando quem somos. O que pede para termos coragem e inteligência em assumir as suas implicações – e resistir.