O jazz já teve muitos marcos na sua história. De dois dos maiores comemoramos o centenário neste 2026 — Miles Davis e John Coltrane. Outros e outras são a cada ano evocados pelo seus pares de agora, rumo ao futuro conjunto das notas azuis. Paulo Barbosa, agitador das águas jazzísticas em terras da Madeira, é enquanto programador do Funchal Jazz quem idealiza o que se irá ver e ouvir a cada edição. Cabe-lhe também a escolha de quem irá dirigir e programar a Orquestra de Jazz do Funchal (OJF). Para a última das noites do palco do Parque de Santa Catarina, com a vista para a cidade feita bilhete postal nocturno, uma voz poderosa e um portentoso pianista. Por partes e em separado, Ledisi encantou a plateia; e Jason Moran tocou e dirigiu a OJF, em redobrado poder. Uma noite de desfecho para memória futura do Funchal Jazz.
As leis da natureza das coisas são constantes. Os mecanismos da emoção e dos sentimentos do passado funcionaram como os deste presente. A música do passado activou os mesmos pontos que a de hoje o faz. A música de outros trazida a este presente por novos outros. O presente é a chave do passado — frase suprema para a leitura dos testemunhos no registo terrestre do tempo, olhando os mecanismos actuantes do presente. Os rios de hoje correm como correram os do passado. O palco do Funchal, à última noite, disposto a receber a revisitação de Dinah Washington à luz de Ledisi Young, e “Duke” Ellington às mãos de Jason Moran e Orquestra de Jazz do Funchal.
Leidisi apresentou-se como divindade vocal mas de comedido estrelato — como melhor assenta aos genuínos e predestinados artistas. A voz acompanhada por Brandon Waddles no piano (e direcção musical), Brandon Rose no contrabaixo e Joshua Watkins na bateria. For Dinah (Listen Back Entertainment, 2025) é uma devoção confessa em disco por Leidisi a Dinah Washington. Já antes, em 2021, surgia com Ledisi Sings Nina (BMG, Listen Back Entertainment). Fica assumido que vozes fizeram esta que aqui nos canta assim. Esteve ao lado de Herbie Hancock e Robert Glasper, e assim cresceu de pronto. Logo nos primeiros versos fica expresso o lugar: “It’s very clear / Our love is here to stay / Not for a year / But ever and a day”, eram os versos cantados com primor do tema “Our Love Is Here To Stay”, dos irmãos Gershwin. Diz, cantando que é o modo a que pertence, e que nunca chegou ao céu por falta de tentar. Ledisi tem tanto de cantora como de actriz e de entertainer, personifica mas sem perder o chão para um vedetismo bacoco. Acerca-se do universo de Dinah em seguida, abordando, com total propriedade, “Soulville” e “You Don’t Know What Love Is”. O primeiro dos dois, um extra ao registo discográfico último — demonstrando que nem tudo o que sabe e pode cabe num álbum. E o seu trio servia mais e mais para uma só voz, estava ali para si.
Ao fazer alinhar no concerto “Nobody Knows The Way I Feel This Morning”, foi a outra fundamental voz no feminino que pediu emprestado um passado tornado presente — Aretha Franklin, pois então. E mesmo quando a canção se escusa em palavras, Ledisi usa um engenhoso scat como boa arma de arremesso musical. Um timbre que muitas vezes faz lembrar Nina Simone. Ledisi tem em The Crown (2025) uma banda sonora para um filme, e é de lá que retira “Love You Too”. Nele uma fusão inunda o que já de jazz cheio de influências ia sendo a musicalidade. Assoma-se ao hip hop, de nuances R&B e soul — uma voz que pode tudo. É o momento de pôr à prova a destreza vocal de uma plateia ou os domínios de direcção musical de massas da cantora. Tudo certo nisso, e para mais neste contexto. Um extenso tema onde até Brandon Rose, sem desligar as cordas graves, foi testado quanto ao seu aparelho vocal. Leidisi tem tanto de voz ancestral, indígena, como dotes de lírica contemporânea. “Caravan” surge com todo o propósito de ligação. Um standard lendário do jazz, escrito a meias por Duke Ellington e o trombonista da sua orquestra, Juan Tizol. É notável que este tema conta com mais de 500 versões editadas, cobrindo uma ampla gama de registos estilísticos, não podendo faltar como elo de ligação ao que se seguiria em palco. Fecha a sua actuação com “Do Nothing Till You Hear From Me”, outro tema de Ellington e que foi repescado e versado por meio mundo de nomes marcantes: Nat King Cole, Billie Holiday, Ella Fitzgerald, Louis Armstrong, Nina Simone, Dinah Washington ou Tony Bennett. Muitos deles, quase todos, em álbuns onde pegaram no legado de Ellington para o fazer deles também, como um património comum. Isso mesmo, como se seguiria com Jason Moran e a OJF. Ledisi bem mais do que a ser ela própria, a trazer meio mundo e alma da música negra. Um passado tornado bem presente ou um presente com esclarecido entendimento do passado. Afinal quantos de nós, ali presentes, estavam já cá para ver estes marcos de outrora em palco?
A última actuação do Funchal Jazz é a da maior formação jazzística da ilha. A Orquestra de Jazz do Funchal de volta ao palco — versão verão de 2026 — desta feita para um programa de um dos nomes de proa na escrita para orquestras jazz — Edward Kennedy “Duke” Ellington. Jason Moran como maestro, ensaiador, pianista, mas é como imprevisto dançarino que se apresenta em palco — já a bateria de Francisco Coelho era motor de arranque para todos os outros músicos. Os naipes orquestrais todos presentes: quatro trompetes, três trombones e uma tuba, saxofones barítono, altos e um tenor, no meio deles um clarinete esclarecido. Na secção ritmo, além da bateria uma guitarra eléctrica, um contrabaixo e o piano conductor. Uma única mulher em toda a orquestra, que contava como convidados André Santos na guitarra e Ricardo Toscano no saxofone e no tal clarinete, mais adiante haveria de aparecer outra convidada especial (lá iremos).
Toscano está a pedido expresso de Moran, foi há oito anos que se conheceram aqui mesmo, numa das frutíferas jam sessions do Funchal Jazz. Moran nessa edição apresentava-se em trio — The Bandwagon. A OJF nasceu de uma ideia dos irmãos Francisco e Alexandre Andrade, saxofonista e trompetista, respectivamente; é actualmente uma garantia, capaz de abarcar todo e qualquer programa que se lhe apresente.
Era então a abertura com “Kinda Dukish / Rockin’ In Rhythm”, rock e ritmo, precisamente em máximo fulgor. Seguiu-se “Such Sweet Thunder”, em que a trompete de Andrade com uma imprescindível surdina assombrou em esplendor o requinte final do piano de Moran. Há uma desbunda incrível na secção ritmo a que se juntam os trompetes, depois os trombones, finalizando a descida dos estrados até às madeiras entrarem na festa — tudo isso para “Braggin’ in Brass”, uma vivaz peça que Duke registou em 1938 com a sua orquestra. Moran relembra o quão difícil se tornavam (pela destreza necessária) as orquestrações de Ellington. E a outra convidada à OJF é revelada — Madalena Caldeira chamada para cantar “My Heart Sings”, e com redobrada entrega em “It Don’t Mean a Thing (If It Ain’t Got That Swing)” imortalizada por Ella Fitzgerald junto de Duke. “It makes no difference / If it’s sweet or hot / Just give that rhythm / Everything you’ve got” e como essa chave que abre e descodifica o sentido litológico dos estratos geológicos, Caldeira, Moran e a OJF dão-nos a sentir o que um certo dia (que todos não estávamos para presenciar) esse scat de “Doo-ah, doo-ah, doo-ah, doo-ah, doo-ah, doo-ah, doo-ah, doo-ah”. Uma chegada à frente de solistas: trombone, barítono, tenor (Francisco Andrade), alto (Ricardo Toscano) e Caldeira em exuberância na amplitude vocal.
A orquestra torna-se elementar na abordagem a “Mood Indigo”, um trio imperdível de varas, clarinete (Toscano) e trompete (Andrade), com um rajão de fundo nas mãos e colo de André Santos. Haverá (houve) sacrifício e bravura nesse tempo, para manter na estrada uma orquestra, para levar música às pessoas. Moran evoca Ellington e a sua importante acção cultural nos Estados Unidos de então. “Northern Lights”, tema de Billy Strayhorn, alinhado e introduzido com menção à escrita de um dos preferidos de Duke. As luzes de palco quase trouxeram a ilusão das auroras boreais, mas a música garantiu isso mesmo. Moran em piano adentro, nas cordas, e os irmãos Andrade na frente de um solo intervalados por Toscano em clarinete. Se não mesmo, foi um dos picos de beleza da noite e de todo o festival — amigos para o resto da vida, como salientou Moran em desfecho.
“Jeep’s Blues”, que Ellington gostava de apresentar com dedicatória aos seus músicos preferidos, tal como Moran faz questão de dizer. Aqui, Jason chama uns dos seus preferidos — Toscano e Santos, para solos. A ilha das possibilidades, a importância de Duke Ellington, e o nascer do dia na ilha evocado (já em 2025, Maria Schneider se tinha rendido ao encanto do sol, no amanhecer). “I Like The Sunrise”, que, um dia na alvorada, juntava Duke a Ella. Fazem-lhe memória, neste presente, Moran e Caldeira. É o sol que traz o novo dia, a esperança, o sol que brilha por mim, como se escuta na canção. E volta a bateria a solo, num desfecho verdadeiramente festivo, em que os 18 músicos terminam alinhados e em vénias redobradas na frente do palco do Parque de Santa Catarina. Funchal até para o ano, se o jazz quiser — o jazz há-de (sempre) crer.