Eis a segunda edição do Extremo, prestes a arrancar às primeiras horas deste sábado, 18 de Julho. Escutar Calcutá às seis da manhã num seminário Carmelita no Sameiro, seguir uma caminhada ao encontro de Shane Parish até à capela barroca de Santa Maria Madalena e sermos iniciados na noite por Alessandro Cortini, provavelmente aproxima-nos da ideia de extremo. E são apenas três das vinte horas programadas sob o lema: “Um festival que cruza música, arte e paisagem”. Outra aproximação ao significado é perceber que só alcançando o extremo de qualquer coisa a podemos conhecer inteiramente.
O projecto da Associação Capivara Azul nasceu da candidatura bracarense a cidade portuguesa da cultura em 2025, sobreviveu à incubação e transformou-se num festival desenhado para habitar um território. Existe para se restabelecer com os elementos, a terra, a pedra, a árvore, o som e o silêncio, enquanto acompanha o percurso do sol desde que nasce até que se põe, a partir de um dos sacromontes minhotos menos conhecidos: a Falperra.
Entre Braga e Guimarães, a Falperra eleva-se acima da vontade dos homens há milénios. Por lá passaram, como em toda a história dos lugares especiais, os romanos. E antes deles outros, até à idade do bronze. Actualmente, dividem-na entre três freguesias: Santa Cristina de Longos (Guimarães), Nogueira e Espinho (Braga). Ainda assim, a paisagem é inteira e imune às fronteiras dos homens. Não aos sonhos.
Movidos pelo desejo de descoberta, Cortini, Parish, Magaletti, Joana de Sá, Molero, Helviofox, Calcutá exploram novos caminhos para lidar com o silêncio. Num movimento paralelo segue o colectivo da Capivara Azul que organiza este festival sobre terreno fertilizado pelo profícuo ecossistema musical de Braga. Também eles experimentam caminhos novos ao encontro do património natural e material da Falperra atravessando fronteiras humanas e sonoras, e restabelecendo elos com a paisagem e a música.
Samuel Silva é o programador e coordenador do festival mas, verdadeiramente, sente-se como um porta-voz de um grupo que, a partir de decisões partilhadas, construiu um conceito sólido. Ao Rimas e Batidas, explicou que “a localização na linha de fronteira entre Braga e Guimarães, propõe uma cooperação num lugar onde habitualmente a relação é de rivalidade e até de algum atrito”. No terreno, as linhas do mapa não se vêem e sendo constantemente atravessadas de sons, pessoas e sol, perdem o sentido absoluto. É assim que o vêem os organizadores: “A Falperra é um espaço com uma identidade para além da dimensão e das fronteiras administrativas. A Falperra vale por si só, quase como se fosse um sítio acima da vida dos humanos”.
Num conceito sólido multiplicam-se as ligações e as possibilidades parecem inesgotáveis. Neste caso, a forma como o pensamento e a intenção criativa dos organizadores se conecta com a obra exploratória e experimental dos músicos do cartaz é admirável. “A proposta artística é uma relação com o som mais do que com a música.” E, de repente, tudo faz sentido.
O cartaz reúne músicos internacionais e nacionais, alguns consagrados, outros emergentes, uns em estreia absoluta e outros ligados há vários anos à Capivara Azul. Une-os uma prática artística que explora diferentes formas de repetição, textura e transformação sonora, embora cada artista chegue a esse território por caminhos distintos. Há quem parta da improvisação, quem trabalhe o drone, a ambient ou a electrónica modular, quem transforme a guitarra num laboratório tímbrico ou faça da voz matéria escultórica. O resultado é uma coerência estética rara: uma música exploratória que exige uma escuta profunda e devolve protagonismo ao espaço, ao silêncio e ao tempo.
Alessandro Cortini, conhecido do grande público pelo percurso nos Nine Inch Nails, construiu a solo uma das obras mais relevantes da electrónica contemporânea, feita de sintetizadores analógicos, drones e melodias que parecem emergir lentamente da névoa. Não surpreende que tenha ocupado desde cedo um lugar cimeiro na lista de desejos da organização. “Era um dos primeiros nomes, porque é um dos artistas que efectivamente a maioria de nós ouve com regularidade”, admite Samuel Silva.
Noutra latitude, Shane Parish desmonta a tradição da guitarra americana para a reconstruir em peças de uma delicadeza quase litúrgica. Descobre mundos dentro de mundos. A sua música aproxima o gesto da improvisação do silêncio e da ressonância dos espaços onde é tocada. Daí a escolha da Capela de Santa Maria Madalena. “Achamos que a guitarra dele, por muito que seja tocada de uma forma nada ortodoxa, funcionará bem naquele contexto, quer em termos acústicos, quer em termos cénicos, quer até em termos de energia do local.” É precisamente esta capacidade, esta intenção de diálogo entre música e lugar que distingue o Extremo de um festival convencional.
Também Valentina Magaletti e Debit chegam à Falperra por caminhos distintos, mas partilham a vontade de expandir as fronteiras da música experimental. A baterista, compositora e multi-instrumentista italiana faz da percussão um instrumento de exploração tímbrica, cruzando improvisação, jazz, rock experimental e composição contemporânea numa linguagem profundamente física. Já a mexicano-americana Debit constrói paisagens sonoras onde convivem investigação cultural, electrónica e ambient, partindo da memória musical latino-americana para criar uma linguagem singular. O recente Desaceleradas, inspirado na tradição da cumbia rebajada, confirmou-a como uma das vozes mais estimulantes da electrónica contemporânea. Para Samuel Silva, a sua presença representa também uma aposta no futuro: “Estamos convencidos de que dentro de poucos anos vamos ter muito orgulho em tê-la tido por cá.” Há na sua música, acrescenta, “uma presença muito magnética” e “um lado quase ritualístico” que comunica naturalmente com a proposta do festival.
Joana de Sá move-se num território mais íntimo, onde voz, electrónica e composição se encontram numa escrita delicada que prolonga a acústica dos espaços que habita. Molero, por seu lado, faz das guitarras processadas, dos ciclos repetitivos e da deriva psicadélica uma música em permanente suspensão, entre o orgânico e o electrónico. O músico venezuelano traz ainda para a Falperra um imaginário profundamente marcado pelas paisagens da Amazónia, acrescentando ao cartaz uma dimensão quase telúrica, onde natureza e experimentação sonora se confundem. Helviofox completa este percurso, representando uma nova geração de produtores que encontra na electrónica um território de permanente reinvenção.
O ritual é, afinal, uma das palavras-chave do Extremo. O programa acompanha o ciclo solar, do nascer ao pôr do sol, e cada concerto foi pensado para se relacionar com um lugar específico. O património religioso, histórico e natural deixa de ser simples cenário para integrar a experiência artística. “Há um contexto que dialoga sempre com o património construído, religioso, histórico, também com o património natural e com esse lado ritualístico que o festival acaba por ter pela sua proposta.”
Essa lógica prolonga-se no próprio ritmo do dia. Não existem sobreposições de horários nem a ansiedade de correr entre palcos. Pelo contrário, o festival desacelera deliberadamente. “O pôr do sol é o headliner.” Entre actuações há caminhadas, conversas, oficinas e visitas guiadas. O percurso importa tanto quanto o destino e as deslocações tornam-se parte da experiência, transformando o público numa comunidade temporária que atravessa a montanha ao mesmo compasso.
É também nesse movimento que se esbatem as fronteiras entre artistas e espectadores. “Podem caminhar para qualquer um desses lugares e, dessa forma, acaba por se criar uma relação muito simbiótica e de muita familiaridade entre artistas, público e espaço. Inclusivamente, os próprios artistas também se relacionam uns com os outros.” Num tempo em que tantos festivais obedecem à lógica da velocidade e do consumo, o Extremo propõe precisamente o contrário: permanecer, escutar e desacelerar.
Uma atenção que se estende também ao território. A organização privilegia os transportes públicos, procura reduzir o impacto ambiental do festival e lembra constantemente que a Falperra é um ecossistema antes de ser um recinto. É uma consequência lógica de um projecto que nasceu para escutar a paisagem, não apenas para a ocupar.
Talvez por isso, a definição mais certeira do Extremo não esteja num género musical nem num formato de festival. Mas sim, numa forma de habitar um lugar durante um dia inteiro, permitindo que o tempo, a geografia, o sol e o som se contaminem mutuamente. A Falperra deixa de ser apenas um ponto entre Braga e Guimarães para se afirmar como um território autónomo, onde as fronteiras administrativas perdem importância e a experiência ganha espessura. Como resume Samuel Silva, é “quase uma terra de ninguém”, mas acaba por ser “uma terra de muita gente”. Gente que, durante vinte horas, aceita o extremo da escuta suspeitando que é no silêncio que tudo melhor se revela.