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Fotografia: Adriano Ferreira Borges/Theatro Circo
Publicado a: 17/07/2026

Uma questão de números.

Julho é de Jazz ‘26: Mergulhar no azul

Fotografia: Adriano Ferreira Borges/Theatro Circo
Publicado a: 17/07/2026

Um português, um alemão e um norte-americano entram num palco. Esta história podia começar assim, mas a verdade é que o primeiro concerto do dia que fechou o Julho é de Jazz  foi tudo menos vulgar. Nessa espécie de claustro moderno que é o pátio exterior do Gnration, celebraram-se os trinta anos do primeiro álbum de Carlos Bica & Azul – Believer (1996) – e os 68 do contrabaixista e compositor português. Entre o público, havia quem o seguisse desde então e pouquíssimo chão por ocupar. Melhor que ninguém, o próprio sintetizou na entrevista concedida a Ricardo Vicente Paredes para o Rimas e Batidas: “Este trio é uma família com grande maturidade musical, sempre em busca do desconhecido”. 

O concerto começou por insinuar a melancolia com texturas sensitivas na bateria, poesia tensa do contrabaixo e, sobretudo, metamorfoses de guitarra. O trio acelerava e desacelerava o tempo, construía o espaço e habitava-o com indeléveis afinidades. Na Alemanha, juntou-os o acaso na década de 90. Frank Möbus, Jim Black e Carlos Bica triangularam-se na cidade de Würzburg, entre Nuremberga e Frankfurt, e a partir daí, partiram juntos para o desconhecido. 

O norte-americano Jim Black é um espectáculo dentro do espectáculo. É o inventor da orquestra de texturas e timbres que cola e une todas as partículas da música. Permanentemente à procura do som, da textura, do timbre seguinte, por entre pele, metal, plástico, tecido, borracha, madeira ou o arco de um violino, nunca ficam respostas por dar. Tudo é matéria para ocupar, preencher e colorir. A partir desse laboratório sonoro, onde tudo parece possível, Black trama um eixo transversal que agarra a música do trio com uma omnipresença avassaladora, mesmo nas intervenções microscópicas.  

Frank Möbus é o escultor de atmosferas. Suspende e dissolve as notas, distorce-as. Ecoa o rock. Estende as melodias do contrabaixo ou mistura-se com ele indistintamente. Os ambientes pertencem-lhe. O público foi reagindo efusivamente a cada final e, enquanto se estabelecia um vínculo emocional, diluíam-se as linhas entre estilos. É uma música desafiante, inspirada e inspiradora. Perto do final, Möbus e Black trouxeram um embrulho, uma fatia de bolo e uma vela para o público cantar os parabéns ao aniversariante. Carlos Bica estava feliz e solar. Falou da sua relação com a simbologia do 11:11. No contrabaixo, era com lirismo que narrava ora melancolia, ora alegria, numa geometria delicada e num balanço constante entre a simplicidade e a ambiguidade. Os três músicos não se enredam no virtuosismo, são e estão com a música. Experimentam o que desconhecem. 

O último concerto da edição de 2026 do Julho é de Jazz estava marcado para as 21h30 e colocava sete músicos no palco do Theatro Circo. Um vibrafone, um contrabaixo, uma bateria e um set de percussão latina acolhiam ao centro um trio de sopros: um trompete, um saxofone alto e outro tenor. Aceitar o caos como uma propriedade da física e talvez da vida ajuda-nos a compreender a música deste septeto liderado por Patricia Brennan. 

A vibrafonista e compositora dirigiu os músicos sob as influências clássicas e mexicanas do seu percurso. Foi revelando, entre músicas, pistas que balizavam o som. O porto de Veracruz, local de chegadas e partidas e um cruzamento incessante de culturas e nacionalidades, onde nasceu e cresceu, é uma das imagens que melhor servem a descrição da sua música. Apaixonada pelas estrelas e pelas intrincadas relações entre o ritmo e a matemática, Patrícia Brennan resumiu no tema “555” do álbum Breaking Stretch (2024) alguma dessa intuição filosófica. 

Foi quando as sonoridades oscilantes do vibrafone dialogavam com a polirritmia textural das congas que nos apercebemos da amplitude do firmamento americano. Brennan desenhou um contraponto permanente com o percussionista. O vibrafone prolongava o brilho metálico das frases e encontrava nas congas uma resposta mais terrosa e corporal. A tensão entre ressonância e pele era um dos motores do concerto. Essa conversa criou o momento em que a música pareceu libertar-se da própria arquitetura. Ousou a dança. Até aí, o septeto fascinava sobretudo pela precisão com que organizava o caos e não pelo apelo aos corpos mas, finalmente, chegou a emoção que aproximou o ouvinte do centro da música.

“Sueños de Coral Azul” transformou o Theatro Circo num imenso aquário onde os relevos dourados nos pareciam o coral do golfo mexicano. Composto para marcar os 20 anos de vida em território norte-americano e assinalar os outros 20 em que viveu no México, introduziu-nos lentamente ao mergulho com o som do vibrafone a inundar a sala.  

O público ocupava somente metade das cadeiras, aplaudiu em pé e forçou um encore. Quando regressou, Patricia Brennan pegou no microfone para enquadrar o tema final e alguém da plateia pediu para que falasse em espanhol. A mexicana acedeu e explicou em espanhol as ligações daquele último mergulho à cumbia colombiana e ao norte do México. Foi assim, regressando à sua própria língua, e nós a casa, que fechou a edição de 2026 do Julho é Jazz.

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