Avizinham-se dias de muita festa bem no início, mais a Norte, da Costa Vicentina. O FMM – Festival de Músicas do Mundo tem um programa preparado que envolve dezenas de atuações, muitas delas de entrada livre para todos os festivaleiros interessados em seguir nesta aventura.
Como é hábito, o certame arranca leve, com três dias de concertos em Porto Covo, todos eles de acesso gratuito, entre os dias 17 e 19 de Julho. Depois invade a cidade de Sines com um roteiro mais intenso que se estende de 20 a 25 de Julho, dias que contemplam também várias performances apenas acessíveis para portadores de bilhete.
Num certame bem apetrechado de artistas nacionais — vão poder ver Bruno Pernadas, The Legendary Tigerman, Vitorino, Yakuza, RS Produções, Duques do Precariado, Pedro da Linha, A garota não, Unsafe Space Garden e Lavoisier em acção —, o Rimas e Batidas destaca oito nomes vindos de fora a não perder, que certamente vão dar ao FMM o verdadeiro sabor global que é marca deste festival com mais de duas décadas de vida.
[Julian Marley & The Uprising] 22 de Julho
O nome, por si só, garante-lhe reconhecimento e mediatismo imediato. Julian Marley é filho de Bob Marley e tem trilhado um percurso na música desde a década de 90 na banda The Uprising, bem como também dividiu a crew Ghetto Youths com os irmãos Stephen e Damian. O seu catálogo tem estado assente na vertente mais roots do reggae, embora não negue a absorção de influências vindas do jazz ou da soul. Em 2024, o seu LP Colors of Royal valeu-lhe o primeiro Grammy (para Melhor Álbum de Reggae) pela forma com que reinventou a matriz tradicional do género. Atualmente está em digressão pela Europa e passa por Portugal graças ao FMM Sines.
[Lia Kali] 22 de Julho
Nascida como Júlia Isern em Barcelona, Lia Kali despontou através de sessões captadas ao vivo para as plataformas digitais antes de consolidar o estatuto com o álbum de estreia Contra Todo Pronóstico (2023), que a colocou como uma das vozes mais promissoras da nova escola urbana espanhola, ao lado de nomes como Nathy Peluso ou Bad Gyal. Sonicamente, distingue-se pela voz rasgada e versátil que atravessa trap, soul, R&B, flamenco, bossa nova e ritmos caribenhos sem se fixar num único registo. O segundo disco, Kaelis (2025), produzido de novo com Toni Anzis, aprofundou esse espírito de crossover e gerou êxitos internacionais como “Chulx”, com o porto-riquenho Eladio Carrión, e “Renacer”. Dona de um catálogo de colaborações bastante extenso, já se cruzou em estúdio com artistas como Rels B, DELLAFUENTE ou Duki.
[La Niña] 23 de Julho
La Niña é o pseudónimo artístico da cantautora napolitana Carola Moccia, que depois do projeto Yombe passou a trilhar um trajeto a solo ao sabor da fusão — da tradição sonora da sua cidade de Nápoles ao reggaeton ou ao trap. Depois da estreia com Vanitas (2023), consolidou-se com Furèsta (2025), trabalho integralmente cantado em dialeto napolitano que abandona parte da eletrónica anterior em prol de referências à música barroca e mediterrânea, com colaborações da egípcio-iraniana Kukii e do egípcio Abdullah Miniawy. O álbum valeu-lhe o Premio Lunezia Elite e a Targa Tenco de Melhor Álbum em Dialeto em 2025. Mais recentemente, o single “Ràreche”, já sob a chancela da Sugar Music, aprofunda o cruzamento entre tammurriata e sonoridades do Médio Oriente, confirmando a linha de pesquisa identitária que tem marcado toda a sua obra.
[Mádé Kuti] 23 de Julho
Neto de Fela Kuti e filho de Femi Kuti, Mádé Kuti cresceu no New Afrika Shrine em Lagos, tocou saxofone na banda do pai desde criança e formou-se em composição no Trinity Laban Conservatoire de Londres — a mesma instituição onde o avô estudara décadas antes —, o que faz do seu trajeto um continuum deliberado da linhagem afrobeat, mas também uma tentativa consciente de a atualizar. No álbum de apresentação For(e)ward (2021), tocou sozinho todos os instrumentos e mereceu uma nomeação ao Grammy de Melhor Álbum Global, com a crítica internacional a destacar a forma como cruza a estrutura clássica do afrobeat com uma produção psicadélica de múltiplas camadas que se aproxima do rock e do jazz sem perder a espinha política e social característica da família Kuti. O segundo álbum em nome próprio, Chapter 1: Where Does Happiness Come From? (2025), continua essa linha de introspecção socialmente consciente, confirmando Mádé como o herdeiro mais ativo — e mais disposto a experimentar — de uma dinastia com quase seis décadas de história.
[The Cavemen.] 23 de Julho
Também em Lagos, na Nigéria, os irmãos Kingsley Okorie (baixo) e Benjamin James (bateria) fundaram os The Cavemen., impondo-se como um dos principais rostos da renovação estética do highlife, um género com décadas de história que a dupla trouxe de volta ao centro das atenções através de um estilo próprio a que chamam “highlife fusion”, cruzando a matriz tradicional com afrobeats, jazz e soul e apostando sempre em instrumentação ao vivo. Roots (2020), premiado nos Headies como Melhor Álbum Alternativo, e Love and Highlife (2021) deram-lhes esse selo de autenticidade dentro da esfera highlife, enquanto que o terceiro LP, Cavy in the City (2025), assinala uma viragem deliberada para um som mais cosmopolita e urbano, mantendo a base de guitarras, metais e harmonias vocais mas incorporando percussão sincopada e afro-fusão, num olhar deliberadamente virado para o futuro do género. Esse crescimento tem sido acompanhado por colaborações cada vez mais importantes, com nomes como Angélique Kidjo, Pa Salieu ou Aṣa, reflexo direto do alcance que a dupla tem vindo a conquistar fora de Lagos.
[Otto] 24 de Julho
Percussionista de formação e uma das figuras centrais do movimento manguebeat pernambucano — integrou as primeiras formações da Nação Zumbi e do Mundo Livre S/A —, Otto lançou-se a solo em 1998 com Samba pra Burro, disco pioneiro que cruzou maracatu com drum’n’bass e rap. Desde então, estabeleceu-se como uma das vozes mais singulares da MPB contemporânea, sempre no meio do caminho entre a eletrónica, o rock e os ritmos nordestinos. Condom Black (2001) trouxe-lhe uma nomeação ao Grammy Latino, mas foi Certa Manhã Acordei de Sonhos Intranquilos (2009), com participações de Julieta Venegas e Céu, que lhe elevou o estatuto, tendo sido eleito por muitos dos ouvintes como a sua obra-prima. Seguiram-se trabalhos como The Moon 1111 (2012), Ottomatopeia (2017) e Canicule Sauvage (2022), que mantiveram a exploração constante de novas texturas sem abandonar o lirismo confessional que marca a sua escrita.
[Konono Nº1 x Montparnasse Musique] 25 de Julho
Fundados em Kinshasa nos anos 60 por Mingiedi Mawangu, os Konono Nº1 tornaram-se numa banda de culto do circuito da “world music” principalmente após o longa-duração Congotronics (2005, Crammed Discs), onde revelaram ao mundo o som distorcido dos likembés eletrificados e dos amplificadores artesanais, valendo-lhes uma nomeação nos Grammys e lhes abriu portas a colaborações com Björk e Herbie Hancock, além de tributos de nomes como Animal Collective ou Beck — um caso raro para uma banda originária do Congo. Agora associados ao projeto Montparnasse Musique, duo formado pelo produtor argelino-francês Nadjib Ben Bella e pelo sul-africano Aero Manyelo, têm cruzado ritmos tradicionais congoleses com gqom, kwaito e techno de Joanesburgo. Dessa parceria nasceu o single “Volta”, que reconecta o som cru dos likembés dos Konono Nº1 com a pulsação do club eletrónico contemporâneo — o primeiro lançamento de peso da banda desde Konono Nº1 Meets Batida (2016) — e serve de mote à digressão europeia de 2026 que os traz a Sines.
[Orquesta Akokán] 25 de Julho
Em 2016, uma iniciativa conduzida pelo produtor Jacob Plasse, o arranjador Michael Eckroth e o cantor José “Pepito” Gómez levou à fundação da Orquesta Akokán, um conjunto que reúne veteranos da música cubana e novos talentos da cena latina de Nova Iorque para reviver os anos dourados do mambo. O álbum de estreia homónimo foi editado em 2018 e selado pela Daptone Records — a primeira obra cantada em espanhol da editora —, tendo chegado a estar nomeado aos Grammys e estabelecendo-se como peça de culto além fronteiras. Entretanto lançaram 16 Rayos (2021) e Caracoles (2024) e aprofundaram a sua linguagem musical secular e espiritual. Hoje mesmo trouxeram-nos América!, o seu primeiro registo discográfico captado fora de Cuba e que conta com a introdução de um par de novas vozes — Mariam Elhajli e Carolina Oliveros.