pub

Publicado a: 16/07/2026

Alessandro Cortini antes do Extremo: “Nada pode correr verdadeiramente mal num concerto de Nati Infiniti

Publicado a: 16/07/2026

Alessandro Cortini nunca deixou de fazer música todos os dias. Conhecido pelo trabalho a solo e como membro dos Nine Inch Nails, o músico e compositor nascido em Bolonha construiu uma das carreiras mais singulares da música electrónica contemporânea, repartindo-se entre álbuns, bandas sonoras para cinema e televisão e o desenho dos seus próprios instrumentos. Há seis anos escolheu Portugal para viver com a família e diz ter encontrado um país onde o ritmo é mais tranquilo, a vida gira em torno da comunidade e onde se sentiu acolhido desde o primeiro dia. Enquanto prepara um novo álbum, que espera concluir ainda este ano, continua a compor diariamente, sem pressa nem a preocupação de obedecer a um calendário. 

É essa liberdade que atravessa a sua forma de criar. Cortini grava tudo o que compõe, sem pensar necessariamente em discos ou datas de edição. Aguarda que as peças encontrem o seu lugar. Que se atraiam e formem uma unidade. O mais importante é manter o espaço para o acaso, para que o inesperado se revele, no estúdio ou em palco. Em Nati Infiniti, a performance que apresentará no Extremo em Braga, materializa essa filosofia: cada concerto é construído em tempo real, dentro de um conjunto de regras definido pelos instrumentos que concebeu, marcado pela sua identidade, mas sempre aberto à improvisação e atento à fertilidade do erro. Nada pode correr mal quando nada está previsto; quando a possibilidade do erro é encarada como novo ponto de partida. O objectivo não é transmitir uma mensagem concreta, mas criar uma experiência física e emocional, capaz de provocar em cada espectador uma reação diferente e permitir que cada um sinta aquilo de que precisa nesse momento.

A actuação no Festival Extremo, que se realiza este sábado, 18 de Julho, terá, por isso, um significado especial. Nenhum concerto é igual, não há um percurso traçado. São portas escancaradas para o desconhecido, para o imprevisto. Apesar de viver em Portugal desde 2020, será apenas a segunda vez que sobe a um palco português, depois de uma actuação também em Braga, ainda antes da mudança para o país, que recorda como um dos momentos em que se apaixonou por Portugal. 

Na conversa com o Rimas e Batidas, Cortini fala desse regresso, do processo criativo e até da música que tem ouvido nos últimos tempos do novo álbum dos Boards of Canada a Mayhem, de Lady Gaga, sem esquecer a banda sonora da série de animação KPop Demon Hunters, presença constante lá em casa por influência da filha.



Vive em Portugal há seis anos. O que mais o surpreendeu na vida em Portugal?

É um estilo de vida muito semelhante àquele em que cresci, em Itália. Aqui, tudo gira muito mais em torno da família, do lugar onde vivemos, das pessoas que nos rodeiam e da ligação à comunidade. Além disso, é um ritmo de vida muito mais descontraído do que aquele que tínhamos nos sítios onde vivemos anteriormente. Sentimo-nos bem-vindos desde o primeiro dia. Temos feito o possível para nos integrarmos na cultura portuguesa e na comunidade local. É um país muito acolhedor e sentimos verdadeiramente que estamos em casa. Diria até que Portugal é mais tranquilo do que Itália, o que é óptimo. Adoro Itália, mas, por vezes, pode ser um pouco caótica.

E qual foi a sua maior descoberta na cena musical portuguesa?

Na verdade, não explorei muito a música portuguesa. Aliás, de uma forma geral, também não exploro muita música nova. Costumo adoptar uma espécie de “jejum musical”: não passo muito tempo a ouvir novidades, excepto quando alguma coisa desperta particularmente a minha curiosidade, talvez através do Bandcamp ou de outras plataformas semelhantes. Não costumo procurar música de uma determinada região; interessa-me mais a música em si do que a sua origem. Além disso, vivo no campo, um pouco afastado de Lisboa, onde provavelmente existe uma actividade musical muito mais intensa. Mas também era assim quando vivia em Berlim, na Alemanha. Apesar de Berlim ser um dos grandes centros mundiais da música electrónica, não posso dizer que ouvisse propriamente muita música feita na cidade.

Em relação ao seu trabalho, de que forma Nati Infiniti (2024) se relaciona com os lançamentos de 2025, como Movimento, Memorie I e a recente banda sonora que compôs para uma série da Netflix? O que os aproxima e o que os distingue?

Na verdade, não há muito que os aproxime. São trabalhos completamente diferentes entre si. Nati Infiniti nasceu como uma instalação criada para o Sonica Lisboa, em 2021. Mais tarde evoluiu para um espectáculo ao vivo e é esse espectáculo que tenho vindo a apresentar desde o início de 2022. Continuo a tocá-lo hoje. Como assenta na improvisação, cada concerto é diferente, tanto para mim como para quem já o viu mais do que uma vez. Gosto muito da liberdade que isso me proporciona, porque me permite subir ao palco com entusiasmo, sem saber exactamente para onde a actuação irá evoluir. Claro que existe um conjunto de regras, determinado pelos instrumentos que utilizo, mas, dentro desses limites, tudo permanece em aberto. Os outros trabalhos que referiu foram editados sobretudo durante a pandemia, através do Bandcamp. Eu componho música todos os dias e sempre trabalhei dessa forma. Gravo absolutamente tudo. Com o tempo, algumas dessas peças acabam por atrair-se umas às outras, quase como ímanes, até fazerem sentido em conjunto e se transformarem num álbum. Por vezes, um disco reúne composições escritas com dez ou quinze anos de diferença. Há muito tempo que deixei de fazer um álbum inteiro numa única sessão de composição. Ainda acontece ocasionalmente apaixonar-me por um instrumento novo e, durante uma ou duas semanas, produzir material suficiente para um disco completo. Mas não existe uma regra fixa. Hoje em dia, o meu método consiste sobretudo em documentar aquilo que vou criando, sem pensar necessariamente que será publicado. É um processo muito pessoal, quase terapêutico. Faço música porque me faz sentir bem e porque me entusiasma. Mais tarde volto a ouvir esse material. Algumas dessas gravações acabam por ser utilizadas em bandas sonoras; outras tornam-se discos meus. Há ainda outro processo a que recorro frequentemente: utilizo as minhas próprias gravações como matéria-prima, carregando-as em samplers, como o Synclavier, para as transformar em novas composições. Gosto de usar o meu próprio material como ponto de partida e convertê-lo em algo completamente diferente. É uma forma de lhe dar uma nova vida. 

O que pode o público esperar ouvir no seu concerto no Extremo, em Braga?

Do ponto de vista de quem assiste, Nati Infiniti é uma experiência profundamente física. Em conjunto com a equipa de produção, fazemos sempre um esforço para criar o sistema de som mais adequado possível, de forma a provocar uma resposta física através da música. Não se trata apenas do volume, mas sobretudo da forma como determinadas frequências são sentidas pelo corpo. Por isso, considero que o espectáculo é, acima de tudo, uma experiência emocional e física, mais do que visual, embora exista também uma componente visual criada pelo meu colaborador Marco Ciceri, que dialoga na perfeição com a música. O mais importante, porém, é deixar que o público seja completamente envolvido pelo som, que o sinta no corpo e que, de certa forma, permita que esse som tenha um efeito quase terapêutico. Pelo menos comigo é isso que acontece. Quando estou em palco e sinto essas frequências atravessarem-me, sinto-me bem. Espero que as pessoas vivam o espectáculo dessa forma: como uma experiência física e emocional, sem tentarem racionalizar demasiado o que está a acontecer, mas simplesmente entregando-se ao momento e percebendo o que essa música lhes desperta.

Já conhecia o festival?

Sim. Esta será a primeira vez que participo no festival. Curiosamente, será também a primeira vez que volto a actuar em Portugal desde que me mudei para cá. Creio que a minha primeira actuação no país foi em Braga, em 2018 ou 2019, e foi uma experiência extraordinária. Na verdade, foi aí que comecei a apaixonar-me por Portugal e por tudo aquilo que o país representa para mim. Será, por isso, a primeira vez que apresento Nati Infiniti – ou qualquer outro espectáculo – em Portugal desde que aqui vivo, à excepção da instalação apresentada no Sónar Lisboa. Estou muito entusiasmado. Além disso, o local parece fantástico e acredito que será um excelente sítio para actuar. Também será uma oportunidade para passar alguns dias com a minha família, porque vamos todos.

A sua música parece estar profundamente ligada às emoções. Que papel têm os sentimentos no seu processo criativo?

Acho que isso é algo muito pessoal. A forma como faço música provoca em mim determinadas emoções e, para mim, isso já é um sinal de que poderá provocar uma reacção semelhante noutras pessoas. Como a minha música é instrumental, não existe um significado fechado, como acontece frequentemente com uma canção com letra, em que a narrativa orienta a interpretação do ouvinte. Mesmo as letras podem ser entendidas de maneiras diferentes, mas, no caso da música instrumental, tudo depende muito mais do estado de espírito de quem escuta e da forma como essa pessoa reage à progressão musical e ao universo sonoro. O que realmente me entusiasma é conseguir despertar emoções nos outros. Não procuro transmitir uma mensagem específica. Vejo a música como um veículo que permite a cada pessoa sentir aquilo de que precisa naquele momento. Acho que é uma forma saudável de libertação emocional. Talvez seja precisamente por isso que estes concertos têm sido tão bem recebidos. Sempre que tenho oportunidade de conversar com pessoas depois das atuações, ouço relatos muito diferentes. Há quem me diga que chorou. Outros recordam momentos importantes da sua vida. Alguns fecham simplesmente os olhos durante todo o concerto. Há até quem adormeça. E, para mim, isso também é uma vitória. Vivemos numa época em que o mundo está constantemente a exigir a nossa atenção. Conseguir proporcionar a alguém quarenta e cinco minutos durante os quais possa desligar-se de tudo e simplesmente deixar-se levar é um privilégio enorme. Não diria “purificar-se”, mas talvez libertar-se emocionalmente. Sinceramente, não consigo imaginar um trabalho melhor do que este.

Os seus concertos são construídos ao vivo, em tempo real?

Sim. Sempre gostei muito da melodia, e o principal instrumento que utilizo chama-se Strega que, curiosamente, significa “bruxa” em português. É um sintetizador que eu próprio concebi, pelo que possui regras muito próprias. É quase como a gramática de uma língua: determina o tipo de sons que podem surgir e define um conjunto de possibilidades muito específico. Por isso, quando digo que o espectáculo é improvisado, essa improvisação acontece sempre dentro de dois limites: as características da própria máquina e a minha maneira de tocar. Cada concerto tem, por isso, uma identidade comum em termos de cor sonora e de linguagem musical. Posso, por exemplo, explorar ritmos diferentes, mas nunca acabarei por tocar techno, simplesmente porque o instrumento não foi concebido para isso. Também não farei música extremamente complexa do ponto de vista melódico, porque o sintetizador dispõe apenas de um determinado número de osciladores e isso define naturalmente os seus limites. É precisamente essa limitação que me fascina. Gosto de perceber até onde consigo ir dentro de um conjunto restrito de possibilidades. A improvisação evoluiu ao ponto de eu poder repetir uma determinada ideia num concerto e, na noite seguinte, partir do mesmo ponto para chegar a um lugar completamente diferente. E, ao fim de três ou quatro actuações, posso decidir experimentar uma abordagem totalmente nova. É isso que torna cada concerto estimulante para mim. Todos pertencem ao universo estético de Nati Infiniti, mas nenhum é igual ao anterior.

Está sempre a trabalhar e sempre à procura de novas ideias. Já está a pensar no próximo disco? Tenciona lançar um novo álbum no próximo ano?

Sim. Tenho um álbum praticamente concluído, no qual trabalho há já algum tempo. Está simplesmente a demorar um pouco mais do que previa. Na verdade, não gosto de criar expectativas estará pronto quando estiver pronto mas acredito que o terminarei ainda este ano. Ao mesmo tempo, pretendo continuar a apresentar Nati Infiniti em paralelo com esse novo trabalho. Ou, pelo menos, gostaria de integrar alguns dos aspectos de improvisação de Nati Infiniti no próximo espectáculo, seja ele apresentado no próximo ano ou mais tarde. Esta experiência foi extremamente libertadora. Um dos inconvenientes das digressões que fazia anteriormente era o facto de apresentar ao vivo um álbum acabado de editar. Naturalmente, queremos respeitar o trabalho gravado em estúdio e isso implica uma determinada estrutura. Pode não ser exactamente a sequência do disco, mas existe sempre uma ordem definida: uma peça, depois outra, depois outra. Quando existe essa progressão fixa, é muito mais fácil deixar-se afectar por tudo aquilo que pode correr mal, porque temos constantemente presente uma cronologia que é preciso cumprir. Há sempre uma parte da nossa atenção que permanece em modo de controlo. Sempre procurei que os meus concertos fossem o mais criativos possível. No caso de Volume Massimo, por exemplo, a abordagem passava por misturar o álbum ao vivo, utilizando efeitos. Continuava a ser uma actuação manual e divertida, mas estava sempre preso àquelas faixas. Com Nati Infiniti desapareceu completamente essa preocupação. Entro em palco verdadeiramente entusiasmado porque, na realidade, nada pode correr verdadeiramente mal. Pode faltar a electricidade ou um dos osciladores desafinar devido ao calor, mas tudo isso se resolve facilmente em palco. Aliás, até posso aproveitar esse acidente para explorar uma nova direcção musical. Em vez de insistir numa abordagem mais melódica, posso seguir um caminho mais atonal. Espero conseguir preservar esse espírito em qualquer espectáculo futuro, porque é o mais próximo que consigo estar da experiência de trabalhar em estúdio, mas diante de um público. Quando estou em estúdio e rodo um botão que produz um resultado inesperado, não entro em pânico. Pelo contrário. Penso: “Interessante… Vamos ver onde isto me leva”. Se não gostar do resultado, volto atrás. Mas, muitas vezes, esses acidentes acabam por abrir novas possibilidades. É exactamente isso que acontece em Nati Infiniti. Gostava de encontrar um equilíbrio entre apresentar um novo álbum de uma forma fiel ao disco e, ao mesmo tempo, manter essa espontaneidade que descobri através da improvisação.

O novo álbum já tem nome?

Ainda não. Mas estou a aproximar-me desse momento. Normalmente, as coisas acabam por revelar-se naturalmente. Trabalho nas diferentes peças e, de repente, percebo que uma composição escrita há 20 anos encaixa perfeitamente naquele universo. Vou buscá-la, adapto-a e ela passa a fazer parte do disco. Como dizia há pouco, nunca trabalhei de forma linear. Faço música constantemente. Algumas ideias remontam aos primeiros tempos em que comecei a explorar os sintetizadores modulares, há vinte ou vinte e cinco anos. Na altura interessava-me sobretudo escrever canções. Gravava improvisações de vinte minutos num sistema modular, mas depois retirava apenas cinco segundos para os transformar num loop dentro de uma música. Hoje volto a ouvir esse material e penso que talvez aquela improvisação inteira já fizesse sentido por si própria. Na época não o conseguia perceber. Com o tempo aprendi a desligar-me da ideia de que tudo tem de ser terminado imediatamente ou de que uma obra precisa de obedecer a um calendário. Tenho procurado eliminar da composição toda a ansiedade associada ao ato de criar. Quero preservar o entusiasmo que sinto quando faço música, porque isso é algo muito especial para mim. Considero um privilégio ter encontrado uma actividade que me faz sentir tão bem e quero prolongar essa sensação o máximo possível durante o processo criativo, em vez de me deixar dominar pelo stress de terminar uma obra ou pela preocupação com a forma como será recebida. Naturalmente, espero que as pessoas gostem da minha música. Por outro lado, aprendi que, se eu próprio acreditar verdadeiramente naquilo que faço e sentir uma ligação forte com esse trabalho, então ele acabará por encontrar eco em quem o ouvir. Hoje preocupo-me sobretudo em ficar satisfeito com aquilo que faço. O resto acontecerá como tiver de acontecer. Os concertos também encaro dessa forma.

Ao longo da sua carreira trabalhou tanto com instrumentos acústicos como electrónicos. Para si, qual é a principal diferença entre esses dois universos? E qual prefere?

Prefiro claramente a música electrónica. Na verdade, ao vivo quase nunca utilizo instrumentos acústicos. Em estúdio ainda recorro ocasionalmente à guitarra, mas ela representa uma parte muito pequena daquilo que faço quando comparada com os instrumentos electrónicos. Sinto que estabeleço uma relação criativa muito mais forte com as máquinas. E não é por as considerar máquinas. Para mim, um sintetizador pode ser tão vivo como uma guitarra. Acho que isso acontece porque toquei guitarra durante tantos anos que desenvolvi uma forma muito específica de pensar esse instrumento. Já conheço os seus caminhos. Quando pego num instrumento novo, pelo contrário, não sei o que vai acontecer. Abordo-o como uma criança que recebe um brinquedo novo: com curiosidade, vontade de explorar e sem ideias preconcebidas. Para mim, esse é um lugar criativamente muito mais saudável do que tentar descobrir mais uma possibilidade dentro de um instrumento que conheço profundamente. Além disso, do ponto de vista emocional, os instrumentos tradicionais — como a guitarra ou o piano — não me provocam o mesmo tipo de reacção que provocam noutras pessoas. Por exemplo, quando ouço uma peça para piano, é muito difícil separar o instrumento da própria composição. O som do piano é tão marcante e tão reconhecível que, muitas vezes, sinto que é o próprio instrumento que domina a experiência. Claro que há melodias extraordinárias que conseguem ultrapassar isso. Mas, de uma forma geral, encontro uma resposta emocional muito mais forte nas máquinas do que nos instrumentos acústicos.

Ao ouvir os seus discos, fica a sensação de que a sua música caminha constantemente entre o silêncio e o som. Essa relação é importante para si?

Sim, muito. Acho fundamental dar espaço para que a música respire. A repetição também é extremamente importante para mim. Quando uma melodia se repete muitas vezes, acaba por adquirir um significado diferente daquele que teria se a ouvíssemos apenas uma ou duas vezes. É quase como um mantra durante a meditação. A repetição coloca-nos num determinado estado mental e faz com que a carga emocional daquela melodia se transforme. É isso que me interessa. Prefiro trabalhar com ideias simples e repeti-las, deixando que aquilo que muda não seja necessariamente a melodia, mas sim o timbre, a equalização, a distorção, o volume ou a reverberação. À medida que esses elementos se transformam, a composição vai construindo um novo universo sonoro. Pessoalmente, sinto que esse processo desperta emoções muito mais intensas do que uma composição extremamente complexa, cheia de mudanças constantes. Tenho um enorme respeito por esse tipo de música e também a ouço. Mas, em geral, quando acontece demasiada coisa ao mesmo tempo, sinto-me facilmente sobrecarregado.

Que música costuma ouvir no dia a dia?

Depende muito. Desde que comecei a interessar-me seriamente pelo universo da alta-fidelidade pela tentativa de extrair o máximo de qualidade sonora e de emoção possível da música diria que cerca de 60% ou 70% daquilo que ouço são discos que conheço há muitos anos. Quando somos jovens criamos uma ligação emocional muito forte à música com que crescemos. Essas emoções continuam lá. O que muda é que, com melhores sistemas de reprodução, conseguimos redescobrir essas gravações. Encontramos detalhes que nunca tínhamos reparado: uma linha melódica escondida, uma cauda de reverberação, pequenos pormenores que tinham passado despercebidos. Gosto muito desse trabalho quase arqueológico de revisitar música que conheço profundamente. Mas também ouço discos novos. Recentemente, por exemplo, fiquei completamente rendido ao novo álbum dos Boards of Canada. Foi um enorme prazer voltar a ouvi-los. É um disco extraordinário. Dá-me esperança perceber que ainda há artistas a trabalhar dessa forma. Para mim é uma verdadeira obra-prima. Ao mesmo tempo, outro álbum que ouvi bastante foi Mayhem, da Lady Gaga. Acho que é um disco excelente. As canções são óptimas e a produção está muito bem conseguida. Aliás, digo “ouvimos” porque a minha filha também está completamente obcecada com esse álbum. E, claro, também tive de ouvir muitas vezes a banda sonora de K-Pop Demon Hunters, da Netflix, porque ela adora essa série. E devo dizer que também aí há canções muito bem conseguidas. Houve momentos em que pensei: “Uau, isto está realmente muito bem feito”.

Já conhece os outros artistas que vão actuar consigo em Braga?

Ainda não tive oportunidade de ver o cartaz com atenção. E, honestamente, também não faço muita questão. Gosto de ser surpreendido. É um pouco a mesma atitude que tenho em relação aos filmes ou aos discos. Evito ler críticas ou pesquisar demasiado antes de os ver ou ouvir. Prefiro viver a experiência sem ideias pré-concebidas. Hoje em dia isso é muito fácil. Já não é preciso ler uma crítica para decidir se vale a pena comprar um disco. Basta carregar num botão e ouvir. Acho que isso também se aplica aos concertos. Tenho a certeza de que todos os artistas convidados para este festival vão dar o seu melhor. Prefiro descobri-los ali, no momento. Estou ansioso por viver essa experiência no seu todo, passear pelo recinto com a minha filha e absorver tudo o que o festival tem para oferecer. Estou verdadeiramente entusiasmado.

pub

Últimos da categoria: Entrevistas

RBTV

Últimos artigos