O Parque de Santa Catarina no Funchal pode bem ser a última morada do poeta Herberto Helder, feito em cinzas de imortalizar em memória numa árvore. Pode ter muitas outras razões, monumentais e florais, que saltam à vista mesmo de noite. Mas é no prado, a cada ano de edição do Funchal Jazz que uma outra aura lhe acresce. Os tons do jazz — esses mesmos que saem dos clubes —, esses que tornam aqui o silêncio do canto das aves mais fáceis de esquecer. À segunda noite (dia 10) no palco, o quarteto do saxofonista alto Immanuel Wilkins abriu, e o quarteto (partilhado) do saxofonista tenor Joe Lovano e do pianista Antonio Faraò fecharam as notas azuis, sobre o verde chão e as estrelas (nem sempre visíveis) do espaço sideral.
Dois saxofonistas da lendária casa Blue Note. Dois nomes que deixaram como legados discográficos concertos no mítico clube nova-iorquino Village Vanguard. Duas vozes em saxofone de distintas gerações. Wilkins ainda bem recentemente viu editado o terceiro volume das gravações de 2025. Immanuel Wilkins Quartet: Live At The Village Vanguard (Vol. 1, 2 e 3) são os mais recentes acrescentos ao rol de discos aí gravados. Mas outros o antecederam.
Lovano, em duas distintas formações, gravara Quartets: Live at The Village Vanguard (Blue Note, 1994). Na primeira com Tom Harrell em trompete e fliscorne, Anthony Cox no baixo e Billy Hart na bateria; na segunda passagem com Mulgrew Miller em piano, Christian McBride no baixo e Lewis Nash na bateria. Lançava pela mesma editora On This Day… Live At The Vanguard, álbum imortalizando a estada do seu noneto em 2002. Volvidos vinte anos, e desse clube surge um novo registo feito disco — Live at The Village Vanguard (Loveland Music, 2022) junta o sopro de Lovano á guitarra de Jakob Bro, os contrabaixos de Larry Grenadier e Thomas Morgan, a guitarra baixo de AC e as duas baterias de Jorge Rossy e Joey Baron — um disco de vanguarda na (bem longa) trajectória de Lovano. Village Vanguard é um lugar que faz jus ao nome. E o Parque de Santa Catarina, com tamanho elenco, foi na segunda noite do Funchal Jazz feito de vanguarda.
Há um certo espectro desse clube em palco. Wilkins, ainda antes de se fazer notar em cena, cede todo o protagonismo ao som do orgão Hammond, teclado encastrado numa vistosa mesa de madeira escura e pernas torneadas. Aos comandos está Micah Thomas, pianista do quarteto que se completa com Ryoma Takenaga no contrabaixo e Kavyon Gordon na bateria. Uma atmosfera que se implanta enquanto a palheta do alto de Wilkins está emudecida. Um espraiar de órgão que concerto adiante se revela em mais que essa abertura magnífica. Desse triplo registo no Vanguard de Nova Iorque apenas o baterista era outro — Kweku Sumbry. Porém, com esta soberba descolagem, a viagem pelo espaço em expansão parecia estar garantida. Uma tempestade perfeita em perspectiva. Mas nisto passa a haver um saxofone que emite para dentro de palco, sempre e quando Wilkins recorre aos pedais feitos teclas de comando do seu som.
Parecia anomalia maquinal, mas dado o conforto de expressão e naturalidade no prosseguir viagem fica aberta a possibilidade de tudo isso ser mais uma proposta de vanguarda. Afinal, estamos perante quem tem na sua voz um sopro de arrojo enquanto é também brisa profética discursiva. E por lembrar profetisas formas, fazem alinhar no concerto a peça “Dark Eyes Smile” de Blues Blood (2024), álbum com a marca de água de vozes proféticas como as de Ganavya, June McDoom e Yaw Agyeman, assim como Cécile McLorin Salvant. Claro, nem uma só dessas vozes está no palco do parque de Santa Catarina. Mas a vanguarda estava ali, marcando presença, como que numa primeira parte de um concerto em duas metades.
“Composition XI” é de versão bem mais curta em palco do que em disco, mas antes mesmo de ter lugar, Wilkins refere a influência de outro vanguardista no jazz. O influente álbum de Keith Jarrett Treasure Island (1974) é uma referência conceptual para as explorações improvisadas do quarteto nos três discos da série Village Vanguard, e também, como assumido, neste tema em específico. A noite traria a palco, a convite directo, outro pianista para o Steinway & Sons (sempre primorosamente no timbre desejado, a cada pianista, pelo afinador de serviço Afonso Wallenstein). Jason Moran — presente no Funchal em funções que se revelariam condutoras na noite seguinte — na partilha do banco das teclas com Thomas (arremetido ao seu hammond).
“Almighty God” tocado com Moran, a quem Wilkins chamou de mentor para o seu percurso e de figura na música negra do nosso tempo — uma partilha em forma de agradecimento. A que estamos gratos, sobretudo pela extensão em palco de Moran para “Dolla$” — também inscrito no terceiro volume das gravações do supracitado disco do Village Vanguard. Um jazz pejado de blues em que Moran no piano, e Thomas primeiro no piano (a quatro mãos) e depois no Hammond, repartiram a intensidade do tema. Desfecho condutor que devolvia um órgão imobilizado apenas ao mobiliário que o prendia; em todo o resto fez-se dali para fora, na vanguarda do escutado.
Joe Lovano com Antonio Faraò em co-liderança para “Explorations”, programa em que são secundados por Ira Coleman no contrabaixo e Ferenc Nemeth na bateria. Estava previsto qua as baquetas fossem de Gerald Cleaver, nome maior da bateria jazz, e que alterna com Johnathan Blake nas aparições exploratórias deste quarteto de liderança bicéfala. Contudo, Nemeth, com o mais exuberante solo de bateria de todo o festival (asseguramos já isso), fez esquecer que era Cleaver quem estava anunciado.
O encontro do saxofone tenor de Joe Lovano e o piano de Antonio Faraò tem uns 15 anos. Foi quando Faraò gravou com o seu quarteto americano Evan. Precisamente porque, a par do pianista italiano, os demais músicos eram norte-americanos. A saber o contrabaixista Coleman, o baterista Jack DeJohnette e Joe Lovano no saxofone. Portanto, em “Explorations”, e no Funchal, fica recriado boa parte do quarteto americano de Faraò. Mas este programa com Lovano é apenas alcançável em palco, numa das datas que se vão inscrevendo na sua agenda. Uma mistura entre temas que exploram os limites do hard bop ao be-bop. Onde cabe a improvisação livre e coloca Lovano em campos de estímulos constantes vindos da intensidade rítmica do martelar das teclas de Faraò.
Lovano torna-se tilintador e chocalheiro logo ao segundo momento, com aqueles idiofones que vemos mais amiúde entre mãos de bateristas e percussionistas. Mas isso faz lembrar dinâmicas de outros vanguardistas. Não é de todo forçado que a certa altura pareciam querer evocar Art Ensemble of Chicago, ainda que em versão reduzida de músicos, muito até pelo ritmo que dava até para fazer Lovano gingar em palco. Uma actuação que, sem sombra para dúvidas, é partilhada entre o piano e o saxofone. Claro que, quando Lovano sai de cena, é dado o leme a Faraò mas sem significar que a paridade acontece no inverso. O piano mantém-se sempre presente mas cede ou reduz-se quando é necessário.
Noutras vezes ascende em intensidade e vai por outra via que não a do saxofone. Isto é, não vigora aquela fórmula batida de fazer harmonias e amparos tímbricas para fazer subir o outro. É uma liderança repartida, mas simultânea na linguagem, fazendo crer que se pode conceder sem ceder uma vírgula (uma nota que seja). Poder-se-á pensar porque não editaram (ainda). A resposta pode bem estar no concerto: ainda há uma relevância maior por atingir e porque o lado mais livre de Lovano surge melhor assim — num palco, como que na procura duma vanguarda mais no seu imenso e notável percurso.