Sim, qual é? “Em geral, costuma-se chamar artista ao pintor, ao escultor, ao escritor, ao arquitecto, ao compositor de música, etc. Ora, tanto o pintor como o escultor e qualquer dos restantes não só não são artistas como podem até não chegarem a ter alguma coisa que ver com Arte.” Almada Negreiros antecipava assim, no início do século passado, uma confusão que tomou conta deste também.
A razão é essa. E, neste caso, não há confusões, nem aproximações. David Byrne é um Artista e apresentou uma obra de arte em Cascais. Rodeado por doze músicos, entre os quais alguns muito jovens, apresentou um espectáculo completo de teatro, dança, cinema, fotografia e música desafiante, onde tudo é movimento. E tudo somos nós. As cadeiras depressa deixaram de fazer sentido. Para ir, é em pé. E fomos até ao fim.
Música electrónica criada por uma orquestra, humana e sem fios, numa fusão homem-instrumento-actor que ocupou um palco inteiro sem lugares fixos. Os lugares são de todos e todos são os lugares. Divide uma bateria em seis. O saxofonista dança como todos. A baixista e violoncelista, Kelly Pinheiro, fala português, nasceu no Rio de Janeiro. E o nosso olhar perde o ponto de foco com a democratização de uma banda e do palco. Focar é excluir.
Byrne sabe-o, daí a coreografia que transforma vários corpos num só. Todos os ritmos e melodias são aceites, sejam africanos, sul-americanos, urbanos ou ocidentais. Nada é acidental e conflui: vida humana sem artifício. Na lua, numa floresta, ou numa rua em Nova Iorque é sempre o sangue que liga em vez de fios. Esta peça teatral de vários actos e que cruzou o álbum Who is the Sky? com onze temas clássicos dos Talking Heads, mostra que David Byrne não confunde a juventude com idade. Nem tão pouco se radica em afirmações. Eis a obra de arte total.
David Byrne é um artista que por acaso é músico, pintor, escultor, escritor, bailarino, designer, enfim, o que estiver à mão. “Ser artista é uma aplicação dos cinco sentidos do indivíduo completamente à parte e além de toda a probidade do seu ofício. Ser artista é uma determinada visualidade a par de toda e qualquer profissão ou ciência. Ser artista é o que há de vital e paralelo a qualquer técnica ou ofício…” a citação é longa, mas Almada sintetiza várias teses de doutoramento em três frases. A arte não tem que ver com profissão, antes sim, com uma essência de oficina. Arte não se ensina, aprende-se.
O artista recusa uma idade para perguntas. Renova-as permanentemente. E é essa a razão do seu movimento. Desde que nasceu, na Escócia, em 1952, até este concerto, a 14 de Julho de 2026, em Cascais, no Ageas Cooljazz, David Byrne prefere continuar a perseguir-se com questões: “O que significa estarmos vivos? O que é isto do amor? Quem é o céu?”
É com elas que desfaz fronteiras e sobrevoa a morte. Experimenta as pessoas e é experimentado pelo mundo. Quando afirma, é para nos recordar que a simpatia e o amor são, actualmente, acções radicais. Ou a verdadeira causa punk, na visão de John Cameron Mitchell que inspirou Byrne. A mensagem está lá, atravessa todo o espetáculo da mesma forma que lhe atravessou a vida, mas não pesa, nem se sobrepõe. É natural. É a mesma que nos conta a linha do horizonte: o Céu é a Terra — com que abriu o concerto. David Byrne chegou ao Cooljazz de bicicleta e saiu a voar por cima da morte: “às vezes, tudo começa com uma pergunta”.