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Fotografia: Carolina Santiago
Publicado a: 15/07/2026

Onde floresce a exuberância colhem-se frutos.

Funchal Jazz’26 – dia 1: a leste, mas perto do paraíso

Fotografia: Carolina Santiago
Publicado a: 15/07/2026

A tempo do último dos três dias que antecedem os concertos do palco principal do Funchal Jazz ter lugar no Parque de Santa Catarina, a entrada no Jardim Municipal oferece uma condição floral exuberante. São os olhos que se rendem ao encanto das formas, cores de espécies paradisíacas. De pés assentes nos passeios de seixo rolado de basalto, a cabeça gira em redor para alcançar a monumentalidade do pinheiro-de-damara, da auraucária, do pinheiro-da-nova-caledónia, do barbusano ou do endémico til. Depois são os frutos que nos chamam ao espanto. Há o da árvore-das-salsichas, do mangostão-amarelo ou da macadamia. John Steinbeck, em 1952, dava a ler o livro que mundialmente imortalizava a expressão de se “estar a leste do paraíso”; um conceito simbólico da condição humana na imperfeição. Mas, será que a perfeição existe mesmo? Ou num jardim de tamanha beleza, sentimos mais essa condição, perante as feições naturais quasi-Eden? A música tem lugar ali mesmo, no anfiteatro ao ar livre e envolto por tamanha exuberância. 

As apresentações dos finalistas do Conservatório – Escola das Artes da Madeira, decorreram nos dois dias anteriores, as designadas PAPs. Também assim se faz crescer a estimulante comunidade jazzístico-funchalense. Dois desses frutos são certamente o guitarrista André Santos e a cantora Madalena Caldeira. Nomes da terra do jazz insular, madeirenses, e com direito e mérito na inscrição de palco no final deste dia 8 de Julho. André Santos com o renomado baterista Alexandre Frazão, para uma actuação de temas que nem o próprio saberá à partida antever, como anuncia. Uma guitarra, mesmo que distante dessas outras endémicas viola de arame, rajão ou braguinha — é vistosa e soa bem, tem tampo rosa e cornucópias. Mas é o seu som, às mãos de Santos — o mano mais novo do duo Mano a Mano — que se lhe destaca, em toque hábil e bem versátil. Têm estado na ilha para gravarem o que virá a ser o novo testemunho de um encontro, o primeiro compromisso, registo feito no estúdio de Santa Cruz. Este palco testemunha a cumplicidade de uma guitarra, que sendo sempre a mesma nunca se repete, e que tem no baterismo inventivo de Frazão um convite, um amparo ou simplesmente o melhor ritmo que se lhe pode imaginar. No que (ainda) não foi feito, enquanto no afinar as cordas e num “desaparecimento” abaixo do campo da visão da bateria, entram em diálogo no destemperar dos timbres — peça de redobrado interesse sonoro. Tempo houve para um instrumental de “Só”, de Jorge Palma, surgido sem darem conta de um outro “descuido”, como nessa condição de só por existir e por duvidar, o (aqui perto do) paraíso teve lugar. 

Em mais uma volta, outros elementos mais, as coralinas flores das Erythrina, as plumérias, dos jacarandás à tipuanas, passando a vista pelo hibisco-arbóreo, terminado numa flor da árvore-das-orquídeas que se apanha caída e se coloca entre o cabelo e a orelha. Mais parecia um preparar para o desfecho do que o palco trouxe com o Quinteto de Madalena Caldeira. Com vestimenta de gala para uma prestação como que apropriada a outros lugares de pompa. Hugo Lobo foi exímio no piano, Mateus Saldanha em guitarra e Tiago Alves na bateria foram eficazes e o suporte foi garantido pela bateria de Gabriel Morais. Madalena foi voz, de que se lhe destaca na escolha, na marca interventiva, na repescagem da “Ópera dos Três Vinténs” de Kurt Weil e Bertolt Brecht. Uma crítica à sociedade burguesa de então, cabendo em lugar nesta de hoje. Um excerto da peça, e que Caldeira aborda na esteira de uma Nina Simone em “Pirate Jenny”, nesse registo marcante do Carnegie Hall em 1964. Madalena Caldeira tem perfil musical de musicais. Em quinteto esteve no Teatro Municipal Baltazar Dias (do outro lado deste Jardim), no ano passado, e tem sido convidada pelo pianista Aaron Parks para duos e quartetos. Chegará o dia (certamente) em que se ouvirá mais, dos outros seus temas. Por  ora foi mais com as músicas de outrem, do que com as de si própria. 

O dia 9 de Julho marcaria a abertura do Parque de Santa Catarina ao Jazz. Esta noite ancorada pelo timbre do vibrafone, de Duarte Ventura a abrir e Joel Ross a fechar. Em bom rigor, Ross foi mais a abrir e Ventura mais a desbravar, mais disso no sentido do ritmo e do lírico na resultante dos concertos. Foi o momento de se comprovar dois lados distintos de um mesmo instrumento. Na verdade, foi uma acertada escolha de programação, trazer para diante um dos instrumentos menos recorrentes na linguagem jazz. Ventura na entrevista de antevisão, concedida ao Rimas e Batidas, lembrava isso mesmo, como sendo um “instrumento peculiar historicamente no jazz, ao contrário do piano e saxofone, existe uma procura diferente da linguagem no vibrafone”.

Essa linguagem é contrastante ao colocar-se em perspectiva as lâminas tocadas por Ventura e Ross. Ventura toca incluindo no dispositivo quartos de tom, com quatro baquetas em simultâneo, traz um leque aberto e verdadeiramente cromático do instrumento. Ross traz ímpeto, ciclicidade, por vezes minimalismo tonal, mas muito groove, e soa a um jazz que adora hip hop. Se do quinteto que acompanha a aventura do som de Ventura, composto por Miguel Valente no saxofone alto, Miguel Meirinhos no piano, Zé Almeida no contrabaixo e Luís Possollo na bateria se faz amiúde um trio clássico de jazz (piano, contrabaixo e bateria); essa é formula recorrente no quarteto Good Vibes de Roos, onde Tyler Bullock no piano, Luca Alemanno no contrabaixo e Jeremy Dutton na bateria fazem suster o timbre das lâminas numa outra, e boa, vibração. 

Ao terceiro tema alinhado do concerto do jovem vibrafonista e a sua formação portuguesa, mostram “Psinose” um avanço do que seguirá a Blurred Image (Fresh Sound New Talent, 2026), resultante do Prémio Jovens Músicos em 2023. Aumenta a dose de abstracção, linguagem interior, que se apoia numa descrição espinhosa de uma superfície, sem abdicar de ser musicalmente contemporânea e discursiva. Recorre aos tilintares cristalinos das lâminas como se de cristal quisessem parecer. De “Layers” a “To Break” foram num ápice, e neste último tema, o trio dentro do quinteto, foi até esse  classicismo do jazz, onde piano-contrabaixo-bateria pareceu querer partir (tudo, ou noutro rumo). Para findar uma prestação sublime, e que os rostos dos músicos denotavam, guardaram “Rift”. Um rumo de mudança a apartar placas de um todo. O quinteto está a demostrar isso, que viaja desligando-se do que fez até aqui. Também a Madeira, está noutro contexto geológico, não na Europa, está na Nubia, na placa Africana. O rift é quem mais ordena, a isso assistimos em palco, num sentido musical de um processo de reconfiguração em movimento em torno de um instrumento. 

Gospel Music (Blue Note, 2026) é o mais recente capítulo da Good Vibrations de Joel Ross. Junto ao seu baterista de sempre Jeremy Dutton, traz Tyler Bullock no piano, Luca Alemanno no contrabaixo. Fica bem espelhada que o lugar de vibração das lâminas é o do hipnotismo, de liderança assumida de condução de quem vai na frente. Rumo apontado ao groove. Ao trio que acompanha Ross cabe a derivação, a réplica das frases ali canónicas, ou ainda outras camadas em redor. É como assistir a uma rotação de um planeta (pela voz do vibrafone) e à translação de outros satélites em torno. Ross traz ímpeto à cena, e na sua ausência na frente (algo que repete) deixa um lastro que mantém o seu som a pairar — boa vibração. Especial foi o solo de Alemanno a demonstrar que de um contrabaixo se pode esperar ouvir um alaúde gigante, grave e igualmente vibrante. Ross que tudo servia em ciclo atrás de ciclo, em loops organicamente obtidos das únicas duas baquetas em simultâneo. Ora frases repetidas, uma e tantas outras vezes — condução hipnótica — ora em destreza de ritmo sobre a mesma lâmina, sem cessar, sem cansar, levando ao mais primordial do significado rítmico que há no hip hop instrumental. Um vibrafone directo, marcante, efeito de contágio em entusiasmo, numa noite que os bastidores haveriam de relembrar que era de aniversário  de um dos mais fascinantes vibrafonistas da actualidade.


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