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Fotografia: Eduardo Gonçalves
Publicado a: 14/07/2026

Despido de adereços, no seu estado mais humano.

A nudez de Jhon Douglas de Vilhena: um vinil de 45rpm que nos leva de volta à Amazónia

Fotografia: Eduardo Gonçalves
Publicado a: 14/07/2026

Entre a deambulação pelo som, performance e artes visuais, Jhon Douglas poisou no seu próprio legado: uma liberdade livre de preconceitos, vinda do mato e que abomina ideias pré-concebidas. Esta identidade sempre foi carimbada na cena musical através de obras a solo — como Mato (2019) e Artista Chinelo (2024) — e pela integração no grupo Jungleboys & Maritacas, com o LP homónimo que nos foi oferecido em 2022. Chegados a junho deste ano, a novidade é mais crua, mais real, mais humana… um vinil de 45rpm cujo título é impossível ser mais direto: Jhon Douglas de Vilhena. Jhon Douglas é o nome; Vilhena é o local onde nasceu.

Produzido por Raul Misturada, o disco é composto por cinco faixas que oferecem um olhar íntimo sobre o artista. É como se Jhon estivesse despido, no verdadeiro sentido da palavra, e nós estivéssemos a observá-lo, assim, sem filtros. Em entrevista ao Rimas e Batidas, Jhon Douglas confessa que o disco nasce das referências que o moldaram. “Sendo do interior de Rondônia, do interior da Amazónia, o disco é o que carrego musicalmente. Essa extração de um outro lado musical, do qual eu ainda não tinha explorado, foi o que o Raul tentou e conseguiu produzir neste álbum”, afirma.

De uma amizade que nasceu em Lisboa, cidade que ambos chamam casa, surgiram juras de sangue artísticas em que nos entregaram o corpo e a alma. Como cartão de visita temos “Estamos conversados”, uma faixa que contou com uma colaboração pensada por Douglas e Misturada. “A escolha do repertório foi decorrendo ao longo da criação do disco, que demorou três anos a ser concluída. A gente escolheu mesmo, pensando em cada música, como abria, como eram as versões que a gente ia trazer das músicas que iriam compor o álbum. Nesta faixa eu tocava violão e voz, era um tipo de arranjo diferente, uma coisa semelhante à música original do Arnaldo e Paulo Tati. Então decidimos que eles fariam parte do tema”, explica Douglas. 

Provamos a primeira sonoridade e detetamos um sabor intenso e agressivo. Arnaldo e Paulo Tati assinam a composição, Misturada está no violão barítono e a interpretação ficou a cargo de Jhon Douglas. A conclusão é apenas uma: esta faixa marca o tom do álbum. Em conversa, Jhon Douglas remata orgulhoso: “O Paulo já escutou a versão e disse que adorou, achou radical, nas palavras dele. O Arnaldo ainda não conseguiu ouvir. Mas é sempre bom sabermos a perceção do outro artista”. 

Sem levantar a agulha do vinil, chegamos ao segundo tema. Automaticamente apodera-se de nós uma estranheza familiar. Já conhecemos a canção, com outras vozes e de outra forma, mas conhecemos. “Capoeira foi a primeira que o Raul conheceu, desde que somos amigos. O tema fala muito desse retorno, desse… Vou sumir na Capoeira, Vou voltar para o Matagal”, partilha Douglas. A faixa, que serviu de metáfora para o LP, é calma, mas confronta o ouvinte com a contemporaneidade que vivemos hoje em dia. Coloca-nos num género de reflexão cinematográfica, daquelas nos deixam vidrados numa paisagem pela janela do carro, lembrando-nos da nossa pequenez e do nosso propósito de vida. Clichê? Talvez, mas real. Há aqui um convite a praticar o que é real e a soltar a superficialidade do quotidiano. Se seguimos o conselho? Essa é outra história.

Com a composição de quatro grandes connoisseurs musicais: Daniel Martins, Gabriel Muzak, Nobru Pederneiras e Pedro Garcia, o lado B apresenta-se com “Estou Planejando”, um dos temas preferidos de Jhon Douglas. “Escuto a canção desde a minha adolescência, quando ainda nem imaginava ter uma banda ou projetos autoriais. Através de um vídeo do Youtube, deparei-me com esta canção do Gabriel Muzak”, conta em tom de desabafo. Num dia aleatório, Jhon Douglas esbarra com Gabriel Muzak enquanto andava de skate na Praça da Figueira. Reconhecendo-o como autor de “Estou Planejando” — o tal tema que ouviu quando era adolescente — decide confrontá-lo.

“A partir daqui, Muzak virou meu amigo. Construímos uma amizade de anos e quando estava a escolher o repertório para finalizar, o Raul me olhou e falou ‘olha essa música [“Estou Planejando”] que você conhece tanto, é perfeita para a gente poder gravar’”, partilha. A decisão do duo Misturada e Douglas de incluir a “Estou Planejando” no disco foi um all-in. Além da repetição “Ai não, tô planejando”, com um ritmo agressivo, nu, cru e visceral, a história per se foi o royal flush. Desde Douglas ouvir o tema desde adolescente, a conhecer o compositor num dia aleatório em Lisboa e acabar por inseri-la no novo disco… a sucessão de acontecimentos é tão surreal que quase que parece ser ficção.

Segue-se a humorística “Dodói”. É uma música provocadora, com pitadas de samba e uns acordes de cavaquinho que são adicionados pelos dedos de Ely Janoville. A faixa espelha uma geração, uma franja da sociedade que se deixou sugar pela tecnologia, pelo consumo rápido, marcada por ADHD e crises de ansiedade sistemáticas. “Gosto muito desta canção. É a que mais destoa da seleção do disco, é a que se diferencia mais do álbum”, partilha.

John Douglas de Vilhena termina com “Olhos amarelos”. O tema mais intenso, género de desabafo íntimo, que devora os ouvidos daqueles com que se cruza. Depois de ouvirmos a lírica da sonoridade, percebemos logo que Douglas já não canta para nós, canta para si. Fala “com os seus demónios, quando sente que a palavra vem com cheiro de mordida distante do que é amar”. Tornamo-nos então espectadores mudos da confissão do artista.

“Não sei dizer muito sobre esta música. Quando a toco ao vivo, preciso de estar bem concentrado. A canção toca em assuntos íntimos, enfim… coisas que a composição traz quando a gente descarrega em letras”, conclui.

Se dúvidas houvesse, a capa assinada por Eduardo Gonçalves mostra Jhon Douglas na versão mais animal. O artista expõe o buraco do dente que lhe torna o riso imperfeito. Está no seu estado mais humano: imperfeito e inseguro, mas exposto. “A capa do álbum é um trabalho realmente pensado conceptualmente para poder provocar. Eu exponho-me ali, mostro o buraco do dente. A intensão era essa mostrar nudez”, diz-nos.


John Douglas de Vilhena ainda só está disponível em vinil, mas, até ao final do mês, poderá ser escutado digitalmente. A venda do vinil de 12” – 45rpm é feita de forma independente, diretamente pela página do artista.

Depois de escutada a obra e conversarmos com o autor, devemos sublinhar o seguinte: o disco revela uma faceta de um cantor nunca antes vista, é um verdadeiro inédito. O artista, conhecido por misturar MPB, R&B, funk e ritmos amazónicos apresenta-se numa versão mais acústica e crua. Um grito de coragem num mundo obcecado pela perfeição rápida e artificial.

O intérprete tirou a maquilhagem musical, lavou a cara e apresentou-se assim, como Jhon Douglas, de Vilhena.


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