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Fotografia: Direitos Reservados
Publicado a: 13/07/2026

Um ambiente único.

Benefício de Marvão’26: a vila raiana no centro das atenções

Fotografia: Direitos Reservados
Publicado a: 13/07/2026

Santo António das Areias, uma pequena aldeia norte-alentejana encostada à fronteira com Espanha, situada mesmo a meio do mapa de Portugal, bem à direita de quem o fita, a escassos 6 quilómetros da muy nobre, sempre leal e bem conhecida por todos vila de Marvão; tem hoje muito menos de um milhar de almas no total da sua freguesia segundo a última contagem oficial, o que reduz o número dos habitantes na localidade a umas escassas centenas.

Desertificada, como praticamente todo o interior, esquecida por uma classe que dá primazia às grandes urbes e ao litoral, onde estão maioritariamente centralizados os votos, vê muito longe as décadas de 30 e 50 do século passado, nas quais a família tutelar Nunes Sequeira garantiu o desenvolvimento industrial com um impacto muito forte na economia local, criando emprego estável, dinamizando a agricultura e o comércio, ajudando a transformar a freguesia quase apenas de matriz rural, numa com base industrial relevante.

Pois entre esses poucos viventes que há por aqui hoje em dia, muitos vieram de outras paragens. Mas todos foram imensamente felizes com o Festival Benefício de Marvão, do Benefíciio Gin, produto que nasceu da iniciativa baseada na amizade de universitários de Coimbra, Ricardo Nunes, e de um colega de república autóctone, Jaime Miranda. Esta história de amor que esteve na génese do produto original, culminou num Festival que aconteceu neste fim-de-semana.

Pois foi o Benefício Gin que estabeleceu parcerias estratégicas em rede, e se destacou como principal impulsionador deste festival com o seu nome, com patrocinadores oficiais que incluem os institucionais (Município de Marvão e a Freguesia de Santo António das Areias); os culturais e musicais (a Ovo Estrelado Records, editora responsável pela curadoria artística); os comunitários e associativos (Grupo Desportivo Arenense), e as marcas locais (Cerveja Barona), que deram as mãos, integram o evento e colaboram na sua dinamização turística e comercial. Neste caso, o apoio da Antena 3, a filha mais jovem da rádio pública portuguesa, revelou-se absolutamente estratégica e fundamental, quer através da divulgação promocional diária que muito nos orgulhou, quer pelos diretos e entrevistas, que voltaram a colocar Marvão no centro das atenções. 

A terra engalanou-se para receber o evento com o largo do adro da igreja a acolher sete bungalows de madeira com alimentação, bebidas, e promoção, que juntamente com os diversos pontos de venda de discos, adereços, peças de vestuário, produtos locais e outros situados na sala nº 1 do Grupo  Desportivo Arenense, criaram uma ambiência diferente — única, mesmo.

Na primeira noite, dia 10, apesar de não estar agendada uma atuação ao vivo de um artista, à exceção do DJ set indoor de A Boy Named Sue, e Bunny O’Williams, aglomerou-se perto de uma centena de visitantes, a grande parte dela vinda de outras paragens, e serviu de aquecimento para o seguinte dia 11.

Quando a hora atingiu a meia-noite e as licenças de ruído terminaram, todos acorreram à sala do GDA para ouvir os DJs. A Boy named Sue, que como o nome bem indica, remete para o imaginário do lendário Johnny Cash, e iniciou a exploração do universo rock’n’roll com lotes que funcionam como uma autêntica “máquina do tempo” da música popular, muito baseada no rock’n’roll clássico e o garage punk, mas com escolhas que viajaram muy livremente pelo rhythm & blues, soul, psych, surf rock, exotica, world grooves e ritmos tropicais. Este braço direito de Paulo Furtado, com quem colabora de perto nos projetos The Legendary Tigerman e Wraygunn, que se recusa trabalhar com playlists fixas, e adata sempre a música à energia da pista de dança, não ganhou o 1º prémio de visual da noite porque o concurso não se realizou. É que… realmente, tanto estilo numa pessoa só, devia ser motivo de imposto! Nas colunas domadas por ele passaram ritmos que mais pareciam magrebinos, clássicos como os Kraftwerk e muita classe, a escorrer pelas colunas abaixo.

Quem estava à espera de um set primeiro e a Bunny depois, enganou-se e percebeu isso de imediato quando os viu aos dois a dominar os pratos em parceria, ao mesmo tempo. Bunny O’Williams, figura marcante da cena underground lisboeta, conhecida pela sua energia crua focada no rock’n’roll, senhora dum estilo eclético, que vai muito além do rock tradicional e explora sonoridades como o dream rock, o krautwave ou o raw punk foi sempre alternando a sua atuação e a pista de dança, incitando os presentes a mexerem-se, e a contribuirem para aquecer o ambiente. Nesse então, animados pelo excelente som debitado pelas colunas da sala, e pelo altíssimo nível dos animadores, mais de uma centena de presentes, com muita cara vinda de fora, moveram-se ao som do groove, quando se ouvia uma versão alternativa de “Personal Jesus”, dos Depeche Mode.

Já no sábado, talvez por ser fim-de-semana e a malta estar mais liberta, parece que toda a povoação foi invadida por uma espécie indie rara, de gente bem-disposta com trajares e poses nada usuais por aqui: uns que chegaram obviamente de outras paragens e outros vagamente conhecidos, foram coabitando com os locais que acorriam à chamada das atuações ao vivo, atraídos pela curiosidade potenciada pela gratuitidade do evento. 

A flauta de Violeta Azevedo e as composições sonoras por si criadas, sempre com uma margem muito grande de improvisação, tiveram início já quando os raios de sol a descer caiam dourados nas escadas de granito que conduzem à igreja da terra, e foram admiradas por algumas dezenas, muitos locais, que se deixaram levar pelo ambiente onírico, mais contemplativo que foi muito agradável apesar da temperatura ter baixado em relação aos últimos dias e de um vento teimoso que não deixou de soprar. 

Quando muitos dos presentes já circulavam pelos bungalows de madeira do município de Marvão, situados junto ao topo do Largo Ricardo Vaz Monteiro, em busca de algo que os saciasse à hora de algo mastigar, Acid Acid, o projeto a solo do músico e radialista português Tiago Castro, criado em 2014, agitou num concerto instrumental one man band onde sobrepôs guitarras, sintetizadores e pedais de efeitos para criar uma sonoridade cósmica, psicadélica e de inspiração krautrock, esse género de rock experimental desenvolvido na Alemanha Ocidental no final dos anos 60 e início dos 70, que se afasta das estruturas anglo-americanas, e se destaca por ritmos hipnóticos, improvisação e pelo uso pioneiro de sintetizadores.

Não garantimos que a criação de longas texturas instrumentais sem interrupção caísse muito no goto dos presentes da terra, mas a verdade é que esta experiência de meditação coletiva, esta verdadeira viagem espacial, fortemente influenciada pela psicadélia dos sixties, foi muito apreciada pelos jovens chegados de além.

A terceira atuação ao vivo da noite, ao ar livre, que já muito refrescava, foi a de Teresa Castro, que dessa forma ninguém a reconhecerá, mas se dissermos que foi Calcutá, uma compositora e multi-instrumentista lisboeta sediada no Porto, já causará outro impacto. A artista, com formação em guitarra clássica, mistura folk, drone e música ambiente, nessa noite fez-se acompanhar por uma violoncelista e um harmónio (esse instrumento musical de teclas com funcionamento semelhante ao de um órgão, mas sem tubos), e impactou. O som era verdadeiramente belo e inebriante, estranho, etéreo, e encantou a centena de presentes.

De seguida, tudo rumou para a sala nº 1 do Grupo Desportivo Arenense, o clube desportivo local que serviu de palco para os eventos indoor, e para todo o apoio backstage, onde o já aqui falado Tiago Castro, se juntou ao seu colega do éter Ricardo Mariano, e atuou sob a forma de dupla de DJs portugueses Les Lads (SBSR.fm), que se destacam pelos seus sets dinâmicos que misturam indie, eletrónica, psicadelismo, world music e rock dançável. 

Nesta sala muito, mas mesmo muito, mais composta foram imensos os que acorreram ao espaço, que passou a agregar todo o pessoal que estava presente não só nos concertos, mas também nas áreas destinadas a alimentação e refrigeração, compondo um aglomerado de mais de uma centena de pessoas, muito satisfatório para este primeiro ano de edição.

Na opinião de Ricardo Nunes e Paulo Fernandes, co-fundadores do Benefício Gin, este foi um evento que correspondeu plenamente à sua visão de marca: “Correu muito bem, e irá repetir-se para o ano. Teve os seus desafios, mas foi altamente recompensador, pois demonstrou que há público e que este é o tipo de statement estético, cultural e de marca que nós queremos continuar a trilhar.” Para estes dois fundadores, que escolheram Marvão como território de eleição para criar, este festival não é um simples evento de marca: é a expressão mais completa de uma filosofia que une a inovação à valorização do território. “Queremos agradecer a Santo António das Areias por ter recebido tão bem as pessoas e por esta ter sido uma festa tão bonita”, acrescentam, resumindo o espírito do evento no claim que escolheram: “Dois dias de festival, uma aldeia inteira.”

Uma marca nascida da amizade aposta, desde a origem, numa lógica de ecossistema local, com parcerias com produtores regionais e impacto direto na economia da região, e comprova, com este festival, que a sustentabilidade que pratica não é apenas ambiental: é também humana, cultural, económica e social.


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