O relógio marcava 17h40. O calor fazia-se sentir, mas uma ligeira brisa vinda do Tejo suavizava a caminhada até à zona ribeirinha de Algés. Nas várias rotas que desembocavam no túnel da estação de comboios, começaram a amontoar-se pessoas para a caminhada até ao recinto. Adolescentes. Cinquentões. Hipsters. Alternos. Betos. Grupos de amigos. Casais. Uma manada de várias gentes, apertada como sardinhas em lata, caminhava para o último dia — esgotado — do NOS Alive’26.
O cartaz justificava a romaria. Teddy Swims e Florence + The Machine encabeçavam o Palco NOS, enquanto Rita Cortezão, Florence Road, Alessi Rose, Pixies, Noiserv e Zimmer90 passavam pelo Heineken. No Coreto, Esteves Sem Metafísica, Suzana Francês, Razy, Redoma e Sheri Vari completavam um último dia de festival repleto de música. Ainda assim, por entre um alinhamento de peso, havia um nome que concentrava a verdadeira expectativa do público.
Nos dias anteriores, bastava passar pelos stands das marcas para perceber. Ao som de “Hangover (Bababa)” e não só, dezenas de pessoas improvisaram coreografias para ganhar brindes. Era um lembrete de que, quase duas décadas depois, aquelas canções continuam inscritas na nossa memória coletiva. E que envelheceram muito bem nos corpos de quem as dançam. A verdadeira expectativa do último dia chamava-se Buraka Som Sistema.
Vinte anos depois de terem editado From Buraka to the World, o EP que anunciava, logo no título, a ambição de levar o som com origem na Amadora para o mundo, os Buraka regressaram aos palcos para celebrar duas décadas de um projeto que mudou a música portuguesa. Pelo caminho, fizeram da Enchufada uma plataforma para novos artistas, cruzaram kuduro, eletrónica, hip hop, techno, funk e muito mais. Tocaram em grandes festivais internacionais, e fizeram-se ouvir pelo mundo, transformando um som nascido entre Lisboa e Luanda numa linguagem global.
O aquecimento começou no palco ao lado. Com curadoria da Enchufada — a editora fundada pelos Buraka Som Sistema e que ajudou a expandir o universo da banda muito para lá do próprio projeto — o Palco Clubbing funcionou como uma extensão natural do seu legado. Fidju Kitxora levou a eletrónica cabo-verdiana às primeiras danças da tarde; Arthi fez da pista de dança o centro do seu DJ set, cruzando dancehall, baile funk, UK garage e bassline; Deize Tigrona trouxe o funk carioca; Titica fez chegar Angola ao festival; Pedro da Linha reafirmou a batida de Lisboa; e os alemães Modeselektor encerraram o palco com a eletrónica caótica e sem fronteiras que os tornou uma referência mundial da música de clube. Mais do que um palco secundário, era o espelho do universo que os Buraka ajudaram a construir: uma Lisboa diaspórica, lusófona, híbrida e orgulhosamente dançante.
A missão que se seguia não era simples. Florence + The Machine acabara de deixar o Palco NOS depois de um concerto à altura do estatuto de um dos maiores nomes da música contemporânea, conduzido pela presença magnética de Florence Welch. Fechar um festival depois de um espetáculo dessa dimensão exige uma banda à altura. Os Buraka Som Sistema voltaram a provar que o são.
Muito antes do início do concerto, uma multidão ocupava cada metro disponível em frente ao palco. As primeiras colunas de fogo rasgaram a noite, voltando a surgir ao longo de todo o espetáculo como parte de uma energia que nunca abrandou. O calor chegava à plateia por breves instantes. Os Buraka tinham chegado.
A brisa que vinha do rio desapareceu rapidamente entre milhares de corpos em movimento. “New Africas” abriu um concerto que percorreu praticamente toda a discografia dos Buraka Som Sistema, do EP From Buraka to the World (2006) aos álbuns Black Diamond (2008), Komba (2011) e Buraka (2014), sem esquecer “Puro Mambo”, o tema lançado este ano para assinalar o regresso da banda aos palcos. Branko comandava a produção eletrónica; Riot, atrás da bateria, dava ao espetáculo uma pulsação constante; Kalaf Epalanga, El Conductor e Blaya repartiam os microfones, alternando versos, refrões e chamadas à plateia. Entre canções, Blaya parecia multiplicar-se: cantava, dançava, desafiava o público e fazia espargatas com a naturalidade de quem nunca perdeu a energia que sempre definiu os Buraka.
Enquanto temas como “Hangover”, “Stoopid”, “Komba” ou “We Stay Up All Night” iam revisitando diferentes momentos da carreira, “Sound of Kuduro” voltou a confirmar porque se tornou um dos maiores cartões de visita da banda. Os ecrãs gigantes projetavam fotografias antigas, recortes de jornais, imagens de arquivo e memórias da ascensão dos Buraka. O concerto corria em paralelo com a sua própria história, lembrando que aqueles noventa minutos eram tanto uma celebração como um exercício de memória.
Foi também nesse regresso às origens que Petty, uma das vozes da primeira formação dos Buraka, voltou ao palco para interpretar “Yah” e “Wawaba”, devolvendo o público aos primeiros anos da banda. Mais tarde, Deize Tigrona juntou-se ao grupo para interpretar “Aqui para Vocês”, recuperando a ligação que os Buraka cultivaram entre Lisboa e o funk carioca. Ao longo do tema, os ecrãs projetavam as palavras “fascistas”, “racistas”, “homofóbicos” e “genocidas”, enquanto em palco os artistas e grande parte do público respondiam com o gesto português (o famoso manguito) erguido no ar. Pelo caminho, houve ainda espaço para temas como “DDDDJ”, “Tiroza”, “Vuvuzela” e “Parede”, que ajudaram a percorrer diferentes momentos da discografia dos Buraka.
Sara Tavares teve também um lugar especial no concerto. Foi El Conductor quem pediu ao público que acendesse as lanternas dos telemóveis. Enquanto “Sara” surgia escrito nos ecrãs gigantes, e “Voodoo Love”, tema que os Buraka gravaram com a cantora, começou a tocar. “Lisboa não seria a mesma sem a Sara Tavares”, disse depois Kalaf Epalanga.
A reta final ficou reservada para alguns dos hinos que marcaram uma geração. Antes de “Kalemba (Wegue Wegue)”, Ricardo Araújo Pereira surgiu nos ecrãs gigantes a declamar o refrão da canção. “Tira o Pé”, “IC19”, “Candonga”, “Kalemba (Wegue Wegue)”, “Lights Off” e “Zouk Flute” transformaram o Palco NOS numa única pista de dança. Olhando em redor, percebia-se que também a plateia refletia a transformação que os Buraka ajudaram a provocar. Havia quem tivesse acompanhado a ascensão internacional da banda desde os anos 2000 e quem os estivesse a ver ao vivo pela primeira vez. Uns regressavam às canções que marcaram uma geração; outros descobriam, finalmente, a energia de um concerto cuja reputação lhes chegara antes da própria banda. O resultado era o mesmo: ninguém conseguia ficar parado.
A música dos Buraka Som Sistema não se limita a ouvir-se. Ou dançar-se. Sente-se. Nos pés. Nos joelhos. Nas ancas. No peito. No suor. Faz abanar o “Eskeleto” antes da cabeça processar o que está a acontecer.
Vinte anos depois, os Buraka Som Sistema continuam a provar que a sua música não pertence apenas ao passado. Continua a viver nas pistas de dança, na memória coletiva e na forma como milhares de pessoas regressam às suas canções sempre que elas voltam a tocar. Muitos talvez não conheçam toda a história que lhes deu origem, nem a cidade, as comunidades e os encontros que moldaram aquele som. Mas basta um concerto como este para perceber que talvez, essa dança pode ser o início da descoberta de um universo que continua tão vivo hoje como há duas décadas.
Porque não repetir?