A vibrafonista, marimbista, percussionista, compositora e improvisadora Patricia Brennan tem construído, nos últimos anos, um dos percursos mais estimulantes da nova música criativa feita a partir de Nova Iorque. Nascida em Veracruz, no México, cresceu entre mundos que, à partida, poderiam parecer distantes: a percussão latina que tocava ainda criança ao lado do pai, os discos de Jimi Hendrix e Led Zeppelin que escutava com a mãe, o piano que começou a estudar sob influência da avó, pianista de concerto, e, mais tarde, a disciplina de uma formação clássica que a levaria à Youth Orchestra of the Americas, ao Curtis Institute of Music, à Philadelphia Orchestra e a diferentes contextos de música de câmara e nova música. Essa amplitude inicial talvez ajude a explicar a naturalidade com que Brennan atravessa hoje linguagens, comunidades e formatos sem perder uma voz própria.
Depois de Maquishti, disco de estreia a solo editado em 2021, e de More Touch, em 2022, Brennan deu um passo decisivo com Breaking Stretch, álbum de 2024 que expandiu o núcleo rítmico do quarteto anterior para uma formação mais ampla, electrizante e arquitectonicamente ambiciosa. A música ganhou sopros, densidade orquestral, camadas rítmicas mais complexas e uma relação ainda mais ousada entre composição, improvisação, electrónica, memória afro-caribenha, impulso rock e energia de ensemble. Não por acaso, Breaking Stretch afirmou Patricia Brennan como uma das figuras centrais do vibrafone contemporâneo, colocando-a no centro de uma linhagem que não se limita a actualizar a história do instrumento, antes procura fazê-lo respirar de outra maneira, como se as lâminas do vibrafone pudessem reflectir luz de múltiplas proveniências.
Foi precisamente esse septeto que, em Agosto do ano passado, encerrou a 41.ª edição do Jazz em Agosto, na Gulbenkian, oferecendo a Brennan uma estreia europeia enquanto líder que a própria ainda recorda, nesta conversa, como uma noite de energia rara. Na crónica do concerto então publicada no Rimas e Batidas, escrevia-se que, em palco, com Patricia Brennan “estiveram John Irabagon (saxofone alto e sopranino), Mark Shim (saxofone tenor), Adam O’Farrill (trompete), Kim Cass (contrabaixo), Dan Weiss (bateria) e Keisel Jimenez (percussões), ou seja a quase totalidade do septeto que gravou o espantoso Breaking Stretch (nas sessões de estúdio a bateria foi entregue a Marcus Gilmore e as congas e demais percussões ao mestre Maurício Herrera). A vibrafonista não escondeu a alegria por estar a estrear-se em palcos europeus enquanto líder e logo à frente de um colectivo tão poderoso quanto este. E essa alegria foi realmente transposta para a energia do grupo”.
Na ocasião assinalava-se ainda o alcance dessa estreia: “Interpretando boa parte das diversas peças que sublinharam em Breaking Stretch o profundo talento composicional e orquestral de Brennan, o colectivo mostrou-se bem oleado e pronto para deslumbrar audiências europeias com um inteligente híbrido de tradição e modernidade com os balanços das claves latinas a suportarem inventivas derivas da célula de sopros, que tanto brilhou enquanto unidade capaz de gerar luxuosas passagens harmónicas de refinamento absoluto como quando permitiu que as atenções se ficassem nas personalidades individuais que assinaram solos de expressividade máxima, com O’Farrill, que aditivou o seu trompete com electrónica, e Shim a mostrarem-se particularmente intensos nesse departamento”.
E havia, nesse concerto, uma evidência que agora regressa no discurso da própria Patricia Brennan: “A secção rítmica mostrou-se igualmente em forma, com Weiss e Jimenez a trocarem cadências de vincado balanço como se toda a vida tivessem tocado juntos e Cass a exibir toda a sua enorme classe numa soberba introdução a ‘Palo de Oros’, uma prova de que a capacidade de swingar com alma e subtileza é uma arte que permanece relevante. A isto tudo, Brennan contrapôs uma expressividade de elegância máxima, colorindo com as mil cores reflectidas no som de cristal do seu vibrafone composições tão exuberantes quanto sofisticadas, com qualidade cinemática e plenas de vívida vibração, tudo fruto de um toque muito particular e sabedor, com as suas marretas a interagirem com as lâminas do instrumento com uma precisão de mestre.” Mais adiante, escrevia-se ainda, “revelou-nos que é uma astrónoma amadora e que gosta de observar as estrelas com o seu telescópio: no tema ‘Earendel’, que se refere à estrela individual mais remota jamais identificada, essas qualidades cósmicas do seu instrumento foram colocadas em evidência com máximo efeito encantatório. Uma absoluta delícia”.
No próximo dia 11 de Julho, Brennan regressa a Portugal para se apresentar no Theatro Circo, em Braga, no âmbito do festival Julho é de Jazz, com uma versão do septeto em que o seu vibrafone se juntará aos saxofones de Jon Irabagon e Mark Shim, ao trompete de Kalí Rodríguez, ao baixo de Kim Cass, à bateria de Dan Weiss e à percussão de Keisel Jimenez. O concerto prolonga, portanto, uma história iniciada de forma luminosa em Lisboa e marca u reencontro com uma artista que, entretanto, multiplicou frentes de trabalho: concertos a solo, o duo Talamanti com Sylvie Courvoisier, colaborações com Mary Halvorson, Ben Wendel, Alan Braufman, Dan Weiss e muitos outros, além de novos projectos que já se desenham no horizonte.
Conversámos com Patricia Brennan sobre esse ano de aceleração, a memória do Jazz em Agosto, a amplitude do vibrafone, a forma como a sua formação clássica e a sua infância mexicana continuam a alimentar a sua música, os próximos capítulos do septeto e até astronomia amadora, uma paixão que a acompanha e que, como a própria explica, talvez lhe recorde que a música também pode ser uma forma de olhar para o céu.
Falámos há cerca de um ano, antes da sua apresentação no Jazz em Agosto, em Lisboa. Se bem me lembro, esse era ainda um momento de estreia, ou quase estreia, do seu projecto enquanto líder nos palcos europeus. Passado este tempo, muita água correu debaixo dessa ponte. Como olha para este último ano?
Honestamente, essa apresentação foi mesmo muito especial. Ainda me lembro dela como se tivesse acontecido ontem. E, sim, tudo mudou muito rapidamente desde então. Tocámos em Saalfelden logo depois desse concerto, tocámos no Jazzfest Berlin, e agora estamos prestes a fazer uma digressão completa. Acho que uma das razões para isso ter demorado é o facto de se tratar de uma banda maior. As bandas maiores são sempre mais difíceis de levar em digressão, sobretudo para a Europa. Há muitas partes em movimento, é caro, há muita logística envolvida. Todas essas coisas acabam por pesar. Mesmo que eu já quisesse ter feito isto antes, mesmo depois do Jazz em Agosto, era difícil. Tinha vontade de tocar esta música mais vezes, mas é sempre complicado quando temos um grupo desta dimensão. Entretanto, também surgiu o duo com a Sylvie Courvoisier, que estreámos em Outubro do ano passado, e houve concertos a solo. Todas essas coisas começaram a acontecer, basicamente, depois do Jazz em Agosto. Por isso, esta é a primeira digressão do septeto, mas, de certa maneira, parece que já o fizemos antes. Não sei explicar exactamente porquê, mas há essa sensação. E é muito entusiasmante. Tenho uma memória muito especial desse concerto no Jazz em Agosto. O espaço era muito especial, o final do festival foi lindo, e eu consegui sentir isso tudo. A energia era diferente. Não se sente isso em todos os concertos. Havia qualquer coisa naquela noite: todos os elementos pareciam estar alinhados, o público era muito caloroso, muito acolhedor, muito disponível. Foi mágico. E o espaço em si também era mágico. Até tivemos os galos a cantar connosco. Foi mesmo muito bonito. Fico muito feliz por essa primeira vez ter acontecido ali.
Agora regressa a Portugal para o Julho é de Jazz, em Braga, outro festival com um enquadramento muito especial. Será a sua primeira vez no Theatro Circo?
Não, estive lá no ano passado, em Julho, com o sexteto da Mary Halvorson. O teatro é incrível. Lembro-me de entrar pela primeira vez e ficar impressionada. É lindíssimo. E eu adoro ir a Portugal, ponto final.
Estive a olhar para a sua página no Discogs, coisa que gosto de fazer para perceber em que projectos os artistas têm participado, e depois de Breaking Stretch surgem muitas entradas: Mary Halvorson, Dave Douglas, Ben Wendel, Alan Braufman, Arturo O’Farrill, Dan Weiss… Tem sido um período muito intenso.
Sim, foi muito. O último ano foi muito intenso, e este Verão também tem sido muito intenso. Estou muito grata, mas, ao mesmo tempo, tento ter cuidado para não me sobrecarregar demasiado. É fácil querer dizer sim a tudo, sobretudo quando são projectos que me interessam realmente, mas também é preciso perceber quais são os limites. Todos esses projectos são projectos que eu queria mesmo fazer. O Alan Braufman, por exemplo, tornou-se um amigo querido. Há uma ligação interessante, porque ele tem uma relação com a editora que lançou o meu disco a solo, mas também tem uma história com a Carla Bley, que é uma das minhas heroínas. Eu gosto muito de tocar a música dele. Não é apenas mais uma situação profissional. Há uma ligação pessoal e musical muito bonita. O grupo do Ben Wendel também é muito especial. Não é sempre que se tem oportunidade de tocar com outros vibrafonistas, e isso foi maravilhoso. Não só fiquei a conhecê-los melhor, como me aproximei deles. É um grupo muito especial e fico muito feliz por fazer parte desse projecto. Para mim, esses projectos não são apenas mais trabalhos que tenho de fazer. Há uma ligação muito especial em cada um deles. E gosto de preservar isso, porque acho que isso também passa para a música. Quando não nos importamos apenas com a música, mas também com as pessoas envolvidas no projecto, tudo se junta de uma forma muito melhor do que se fosse apenas mais um concerto. O disco do Dan Weiss é outro exemplo. O Miles Okazaki, o Peter Evans e o Dan são músicos que conheço há anos, e foi um prazer tocar com eles. Desafiaram-me, inspiraram-me. Gosto muito dessa sensação quando trabalho como sidewoman: sou desafiada, sou chamada a envolver-me profundamente, mas também posso simplesmente divertir-me a tocar música. São contextos muito diferentes, desafios muito diferentes, e isso é algo de que gosto muito.
Como consegue navegar entre contextos tão distintos? E o que é que tem aprendido sobre si própria ao entrar nessas experiências?
Acho que isso vem muito do meu passado. Sempre fui percussionista. Tive formação clássica em percussão, mas, ao mesmo tempo, enquanto crescia no México, tocava aquilo a que chamávamos música de rua, música popular. Só aí já existem dois universos muito diferentes. Talvez outros instrumentos também passem por algo semelhante, mas sinto que a percussão nos habitua particularmente a sermos lançados para situações muito diversas. Pode estar-se numa orquestra, numa banda de jazz, numa banda cubana, num quarteto de percussão, num grupo de música de câmara. Cada contexto pede uma coisa diferente. Tudo é uma experiência diferente. Por isso, mesmo que estes projectos sejam todos distintos, para mim é tudo a mesma coisa. É boa música. E é assim que me aproximo dela. Sinto que isso me torna melhor música. Cada situação obriga-me a escutar de outra maneira, a perceber o que aquela música precisa, a descobrir como posso contribuir. E, a nível humano, permite-me conhecer pessoas de muitos círculos diferentes, o que eu adoro. Especialmente em Nova Iorque, às vezes sinto que existem pequenas bolsas estilísticas. Há músicos que nunca saem daquele espaço, que ficam dentro da sua comunidade. Isso também pode ser bom, claro, mas eu gosto mesmo de atravessar esses espaços diferentes e aprender algo que não aprenderia se não tivesse aceite determinado concerto. A música do Ben Wendel é muito diferente da música do Alan Braufman, da Mary Halvorson, do Dan Weiss ou da Sylvie Courvoisier. Cada pessoa tem uma linguagem própria, uma forma própria de se aproximar da improvisação, e essa é uma das partes mais entusiasmantes da música para mim. Entramos nesse universo e tentamos perceber o que podemos fazer para o tornar melhor.
É curioso, porque há artistas que acabam por se fixar numa determinada linha. Um actor pode passar a vida a fazer o mesmo tipo de personagem, um escritor pode insistir sempre no mesmo género. Mas você escolheu um instrumento que existe na música clássica, na música popular, no jazz, em territórios muito experimentais e também em contextos muito populares. O vibrafone permite-lhe esse campo muito amplo.
Sim, e também vejo a música dessa forma enquanto compositora. Quando escrevo, a música tem influências de muitas coisas diferentes que ouvi enquanto crescia ou que continuam a inspirar-me. Ainda hoje, quando alunos ou fãs me perguntam o que estou a ouvir, a minha playlist está por todo o lado. Pode ter Stockhausen, depois Héctor Lavoe e a Fania All-Stars, depois Brad Mehldau. Está tudo ali. Para mim, como parto de um lugar muito profundo, é tudo música. A música é muito universal. A linguagem, de certa maneira, tem sempre um denominador comum. Não apenas um denominador comum harmónico, embora isso também exista. Às vezes há acordes que podemos encontrar numa peça de Debussy ou de Erik Satie e que também aparecem numa transcrição de salsa. Há uma linha que unifica tudo. Aproximo-me da composição dessa forma, da minha música dessa forma, da improvisação dessa forma, e até daquilo a que digo sim enquanto intérprete. Para mim é só uma coisa: é música. Estamos apenas a tentar fazer boa música.
Portanto, essa amplitude não é apenas uma consequência do instrumento. É também uma forma de escuta.
Exactamente. Tem a ver com a maneira como ouvimos. Para mim, não há uma separação rígida entre essas coisas. Claro que cada música tem a sua tradição, a sua linguagem, a sua história, e é preciso respeitar isso. Mas, ao mesmo tempo, há sempre algo que liga tudo. Há sempre uma emoção, uma ideia de som, uma relação com o tempo, uma energia. É isso que me interessa. Quando componho, não estou a pensar: agora vou usar esta influência ou aquela influência. Não funciona assim. As coisas aparecem porque fazem parte de mim, porque as ouvi, porque cresci com elas, porque continuo a ouvi-las. Podem surgir de um modo muito directo ou de um modo mais abstracto. Mas estão lá. E acho que isso também acontece quando improviso. A improvisação obriga-nos a estar presentes e a escutar profundamente o que está a acontecer naquele momento. E, quando se escuta dessa forma, todas essas experiências aparecem, mesmo que não se pense nelas conscientemente.
Falou há pouco da sua experiência enquanto sidewoman. Sente que tocar a música de outras pessoas também transforma a sua escrita?
Sim, absolutamente. Cada vez que entro na música de outra pessoa, aprendo alguma coisa. Aprendo sobre forma, sobre textura, sobre ritmo, sobre como uma pessoa organiza o espaço dentro da música. Também aprendo sobre aquilo que não faria, ou sobre aquilo que nunca me teria ocorrido fazer. Isso é muito importante. Quando toco com a Mary Halvorson, por exemplo, entro num universo muito específico, com uma forma muito própria de pensar harmonia, melodia e estrutura. Com o Ben Wendel é outra coisa. Com o Alan Braufman é outra. Com a Sylvie Courvoisier, outra ainda. Cada contexto pede uma atenção diferente. E depois essas experiências ficam comigo. Não as copio, mas passam a fazer parte da minha escuta. Também há uma dimensão humana muito importante. Quando existe confiança, quando se gosta das pessoas e se respeita profundamente a música delas, tocamos de outra maneira. Há uma abertura maior. E eu gosto dessa ideia de comunidade, mas não de uma comunidade fechada. Gosto de uma comunidade que se expande.
Tem exercitado esse músculo particular, o músculo da composição? Há novos trabalhos a caminho?
Sim, há. Na verdade, acabei de gravar um disco a solo, mas não com composições minhas. Foi algo um pouco inesperado: gravei versões de canções soul, sobretudo dos anos 60. Quando me mudei para os Estados Unidos, a minha primeira casa foi em Filadélfia. Vivi lá cinco anos e há uma tradição musical muito rica naquela cidade, não apenas do ponto de vista do jazz, embora muitos músicos de jazz venham de Filadélfia, mas também na soul music.
Nsse campo ocorre-me imediatamemte o Vince Montana…
Exactamente, e ele também era vibrafonista. Há muitos músicos da Filadélfia que as pessoas não conhecem. Fala-se sempre de Nova Iorque ou de Detroit, mas Filadélfia tem uma tradição muito rica. Esse disco foi a minha forma de prestar homenagem a essa riqueza musical, não só no jazz, mas, neste caso, numa área mais ligada à soul. Gravei-o em Maio. Quanto à música original, tenho alguns projectos que vou apresentar em Abril do próximo ano, em Berlim, no Pierre Boulez Saal. Um deles é um novo grupo a que chamo Chamber Quintet, com Miles Okazaki na guitarra, Modney no violino, Dan Weiss na bateria, Stephan Crump no baixo e eu. Estou a escrever música para esse projecto. Interessa-me muito essa combinação entre uma dimensão mais camerística e a improvisação, entre uma certa intimidade e uma energia mais aberta. Outro projecto é um duo com o Miles Okazaki, algo que sempre quis fazer. Fiz o duo com a Sylvie Courvoisier porque queria continuar essa tradição dos duetos de piano e vibrafone, mas também há uma tradição de duetos de vibrafone e guitarra. O Miles, na minha opinião, é um dos melhores guitarristas que existem. É muito inteligente, tecnicamente consegue fazer imensas coisas, e nós temos uma ligação muito boa enquanto músicos. Estou também a escrever música para esse duo. E há ainda o septeto. Estou a planear gravar outro disco com o septeto.
Portanto, Breaking Stretch não é um capítulo fechado?
Não, não é. Tem de haver uma sequência. Estou a planear gravar no próximo ano. Ainda estou numa fase muito inicial. Escrevi alguns esboços. Quando componho, começo muitas vezes como os escritores ou os comediantes: escrevo uma ideia num caderno e deixo-a ficar. Faço isso muito. Tenho um caderno onde escrevo uma ideia rítmica ou qualquer outra coisa, e vou juntando materiais. Estou nessa fase inicial. Mas a ideia é gravar outro disco com eles. Há uma mudança que não vou revelar ainda. Mas, tecnicamente, será uma sequência desse disco. Há muita coisa a acontecer.
Não revelar essa mudança é também uma boa forma de manter a atenção focada no que vem a seguir.
Exactamente. Tem de haver algum mistério [risos].
Quando falámos no ano passado, lembro-me de me dizer que era astrónoma amadora. Recentemente, também recebi de presente o meu primeiro telescópio. O que me pode dizer sobre esse lado da observação do céu?
Meu Deus, isso é tão emocionante. Eu comprei dois telescópios e depois acabei por comprar mais dois. Um conselho muito simples é deixar-se guiar pelo amor ao céu e permitir-se ficar maravilhado. Não sei quão bom é o céu onde está, mas isso é uma das primeiras coisas.
É incrível, vivo numa aldeia no interior, longe de cidades, com um céu límpido…
Perfeito. Comece por coisas pequenas. Eu comecei as minhas observações num lugar no Connecticut, durante o Verão, por isso habituei-me ao céu de Verão do hemisfério norte. Às vezes, muitas pessoas querem logo ver um planeta ou qualquer coisa grande, mas eu posso ficar impressionada simplesmente por conseguir fotografar uma estrela. Acho importante deixarmo-nos impressionar pelas coisas pequenas – que, na verdade, não são pequenas. Às vezes são maiores do que a Terra. Isso fascina-me. A noção de que todos os nossos projectos aqui na Terra são, de certa maneira, tão sem sentido, tão pequenos. Quando olhamos para o céu, uma das coisas que mais gosto é essa lembrança de quão pequenos somos. E isso talvez nos ajude a aproveitar mais a vida e a não desperdiçar tanto tempo com pequenas coisas estúpidas.
Essa ideia de escala também parece ligar-se à sua música. Em “Earendel”, por exemplo, esse lado cósmico tornava-se quase palpável.
Sim, acho que isso está muito ligado à maneira como penso o som. Há qualquer coisa na observação do céu que nos obriga a mudar de escala. De repente, aquilo que parecia enorme torna-se pequeno. E aquilo que parecia distante ganha presença. Acho que o som pode fazer algo semelhante. Pode abrir um espaço. Pode fazer-nos sentir que estamos dentro de algo maior. Quando olho para o céu, sinto essa mistura de humildade e maravilhamento. E talvez procure isso na música também. Não de uma forma literal, mas como sensação. A música pode criar esse espaço de espanto. Pode lembrar-nos que há coisas muito maiores do que nós, e isso, para mim, é muito bonito.
E agora vai encontrar em Braga outro céu português.
Sim, e estou muito feliz por voltar. Portugal tem sido muito especial para mim. O concerto no Jazz em Agosto foi uma experiência muito bonita e estou muito contente por regressar agora com esta música. Vou dizer olá em Braga.