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Fotografia: Andy Dio
Publicado a: 09/07/2026
Tags: Rita Vian

Uma artista a jogar o campeonato incerto da vida.

Rita Vian sobre LIGA DURA: “Não vou nascer outra pessoa a meio da vida. Esta sou eu”

Fotografia: Andy Dio
Publicado a: 09/07/2026
Tags: Rita Vian

Aconteceu muita coisa antes de LIGA DURA. Rita Vian habitou por algum tempo o mundo invisível dos Beautify Junkyards, vestiu a pele fadista de uma “Carmen” reinventada por Mike El Nite e, um par de anos mais tarde, em 2020, deu corpo a “Sereia”, a canção que chegou às mãos de Branko e abriu caminho a uma parceria que se materializaria em CAOS’A, EP do ano seguinte que firmou o lugar de Rita – algures entre a memória do fado, a pulsação electrónica e uma ideia muito física de canção enquanto matéria em transformação. Depois veio SENSOREAL, primeiro longa-duração, editado em 2023, trabalho em que a cantora, compositora e autora consolidou uma linguagem que nunca separou totalmente som, palavra, imagem e presença. A voz, primeiro instrumento verdadeiramente definidor, surgia então como ponto de encontro entre uma herança melódica portuguesa e uma vontade muito contemporânea de cantar a cidade, os seus ruídos, os seus silêncios e as suas inquietações.

LIGA DURA, o segundo álbum de Rita Vian, aprofunda essa procura e torna mais nítido o lugar que a artista ocupa na música portuguesa actual. São 15 canções escritas pela própria, construídas em diálogo com os GOIAS – os irmãos Henrique e António Carvalhal – e atravessadas por electrónica, ecos de fado, palavras declamadas e uma relação cada vez mais directa com o hip hop, entendido como espaço de verdade e ferramenta ética. Há também uma participação de Manel Cruz em “Falsas Esperanças”, colaboração que nasce de uma admiração antiga e de uma afinidade construída longe das redes.

O título contém já uma chave de leitura. “Ligadura” é aquilo que protege uma ferida; separada em duas palavras, LIGA DURA passa a acolher também a dureza da existência, o campeonato incerto da vida, a necessidade de ligação e a possibilidade de fazer força a partir daquilo que dói. Rita Vian fala dessas feridas de forma honesta, aproximando-se de uma ideia de música consciente, vulnerável e atenta ao outro. Não lhe interessa falar para as pessoas, mas falar com elas. E é esse cuidado relacional que atravessa esta conversa que toca na escrita como escavação e nos mostra o disco como retrato de um tempo demasiado ruidoso, a internet como fábrica de falsas esperanças e o palco como lugar onde a palavra continua no centro. E por falar em palco, anotem esta data: a 19 de novembro próximo, Rita Vian propõe-se desenrolar a sua LIGA DURA num concerto especial no Capitólio, em Lisboa.



Quando terminaste o disco, disseste que precisaste de ir para a aldeia. Antes desse recuo, onde é que LIGA DURA foi realmente feito?

O disco foi todo feito em Lisboa. Começámos nos Nirvana Studios, numa fase inicial muito longa. Felizmente, ainda existem espaços como os Nirvana, que para muita gente e para muitos músicos são muito importantes, e havia muitos estímulos ali. Mas, do lado da escrita e também da composição, obrigava-me muitas vezes a chegar lá já com coisas. Foi um processo de ir e voltar, de chegar e, às vezes, de fugir a pé para o meio do nada para chegar a conclusões sobre frases ou ideias que estava a ter. Depois, a parte final do processo foi gravada num estúdio em Lisboa.

E essa parte inicial, em que começaste a organizar ideias e a perceber o que querias que este segundo álbum fosse, aconteceu de forma concentrada no tempo ou foi surgindo naturalmente?

Foi acontecendo naturalmente. Desde o princípio do meu percurso que a minha ideia sobre transmitir as minhas canções e aquilo que faço tem muito a ver com saúde mental, com espaço mental, com deitar cá para fora as coisas. Eu gosto muito do um para um, gosto muito de conversas de um para um, e, à medida que o tempo foi passando, a ideia que mais guardei para a vida foi a de não esquecer que a outra pessoa está a passar por alguma coisa. Acho importante que, quando se faz música, se tenha a vontade de falar com as pessoas e não de falar para as pessoas. Com os meus amigos sou igual. Não quero transmitir constantemente as minhas próprias dores, não quero fazer disto um exercício de ego. Acho que há muito esse exercício de ego em cada página, em tudo o que aconteceu com a internet, e eu tento lutar contra isso: falar com as pessoas, e não para as pessoas, sobre a minha vida. Daí também a ideia de LIGA DURA. Eu só queria aparecer como artista, neste momento, de uma forma humana, e não glamourosa. Acho que vivemos um momento mundial que não tem explicação e que não é sequer um momento de pensar levemente. É um momento de parar, de ir para sítios com silêncio, de nos resguardarmos e de usarmos as palavras certas.

O título é muito curioso porque parte uma palavra que podia ser uma só. “Ligadura” transforma-se em “Liga Dura”. “Liga” pode ser uma união, uma ligação entre elementos, mas também pode sugerir uma espécie de campeonato duro, como se a vida fosse isso mesmo. Como é que chegaste a esse título?

Foi a pensar em como unir todas as partes das coisas que eu queria dizer. Cheguei às feridas, cheguei à ligadura e, quando cheguei à LIGA DURA, cheguei ao que queria: uma palavra que inteira é uma ferida, mas separada em duas é a cura dessa ferida. LIGA DURA é a história de quem pega nas feridas e percebe que elas nos podem levar a sítios com mais força, se soubermos tratá-las, se soubermos cuidar delas, se soubermos olhar para elas com consciência, em vez de seguir em frente sem nunca olhar para aquilo que estamos a viver.

Mencionaste saúde mental. Durante muito tempo, a música popular olhou para artistas que fugiam da norma como figuras trágicas ou como uma espécie de génios loucos. Hoje parece haver outro cuidado e outra consciência. Sentes que essa conversa, essa vontade de falar sobre vulnerabilidade, está hoje mais presente na música?

Sinto que há cada vez mais uma ideia de música consciente a surgir. Já tive essa conversa há anos. Um artista que sigo muito, por exemplo, é o Loyle Carner, e lembro-me de o ver num concerto em que ele falava sobre isso: queria fazer rap, mas, enquanto crescia, sentia que as coisas que queria dizer eram muito diferentes daquelas que eram ditas. Queria falar sobre vulnerabilidade, queria falar sobre ver os filhos crescerem, sobre as coisas que lhes diz no dia-a-dia. E isso atravessava o concerto todo, até os momentos em que comunicava com as pessoas. Acho que existe essa consciência cada vez mais espalhada, não só em artistas, mas em muitos sítios e em muitas pessoas. Existe cada vez mais um despertar para a normalidade da vulnerabilidade. E, na música, sinto que isso começa a ressurgir e a escoar cada vez mais para o centro: a necessidade de sair um pouco da bolha, da vitrine, da televisão, dos ecrãs. Há músicas que se podem ouvir a vida inteira. Às vezes ponho-me a ouvir canções românticas que vão viver para sempre, como “Strangers in the Night”, do Frank Sinatra. É um exemplo longínquo, mas dou-o na mesma: são músicas que vivem a vida toda porque falam para as pessoas e sobre uma história que as pessoas podem imaginar. Depois houve uma fase em que existiu também uma centralização muito na pessoa. E acho que existe agora uma terceira fase, em que as pessoas deixam de romantizar tanto, deixam de imaginar tanto histórias alheias e deixam também de falar só sobre si. Falam de si para os outros, com a tentativa de uma sensibilidade que alcance e que ajude. Porque aquele cliché de que a música salva é real. A música pode salvar de várias maneiras. Acho que há muita gente a tentar fazer música para falar directamente com alguém, com vulnerabilidade, com sensibilidade e com consciência. Eu fui do romance extremo à ideia da música feita por alguém para a ideia de que a música é feita de alguém para alguém.

Essa ideia do ouvinte como interlocutor, e não apenas como receptor, parece fundamental no teu trabalho.

Sim, e é por isso que também penso muito nas falsas esperanças que se criam hoje em dia, especialmente na internet. Causam muito desespero, causam muito falso achievement, quando nós temos é que trabalhar sobre nós. Temos que ir para o silêncio, temos que ir para a aldeia, temos que ir para onde houver o menor ruído possível para conseguirmos ouvir e seguir o nosso caminho. Eu sigo muito essa música consciente não porque tenha acontecido alguma coisa exterior que me levou a isso, mas porque sou assim, é assim que penso e escrevo. E gosto depois da relação que crio com as pessoas que vão aos concertos e vêm falar comigo. De repente, estou a falar com pessoas sobre a vida. Acho muito interessante essa cena que acontece de eu me sentar literalmente com pessoas, mais do que parar para tirar uma fotografia. Sentar-me com pessoas que me vêm fazer perguntas, que me dizem: “Acho que estás a falar daquilo.” E eu respondo: “Olha, por acaso estava a falar daquilo.” Mas cada um está a falar da sua vida. Acho isso muito interessante. É uma companhia.

Fala-me um pouco do teu processo de escrita. És mais de esculpir o texto ao longo do tempo ou és mais repentista? Aquilo que ouvimos no disco é resultado de coisas muito trabalhadas ou de impulsos mais imediatos?

Acontecem as duas coisas. Há casos em que cai uma música na hora, como “Amigo”, que é uma música muito especial para mim, muito directa e muito real. Parece que a toda a gente faz falta um amigo. Parece não: faz mesmo. E é uma música que ficou, aliás, nem foi das que fizemos mais depressa porque era como se já estivesse feita de alguma forma. A ideia era muito simples e necessária para todas as pessoas, para mim e para as pessoas que estavam a trabalhar comigo, nomeadamente o António Henrique. Aquela música estava feita. Depois há canções que precisam de outro tempo para contar uma história. “Gaivotas”, por exemplo, foi uma viagem para mim. Houve muitas coisas que surgiram de rajada, como a parte em que entra “o meu nome é Violeta e tenho um plano alternativo para esta realidade cinzenta”. Essa canção fala sobre a quantidade de opções que vejo à minha volta as pessoas tomarem para fugir. Há pessoas que se chegam à frente, há pessoas que acreditam que conseguem fugir da realidade, há pessoas que vivem paralelas, quase surdas. E todas essas opções são opções que eu gosto de observar. Eu gosto de observar pessoas. Gosto de as ouvir. E estas histórias existem. Neste momento da vida, “Gaivotas” diz-me muito porque estou a viver na Ajuda e há gaivotas por todo o lado. Sempre tive esta ideia de que, quando estão todas ao mesmo tempo a palrar, parece que estão a ter um ataque de riso. Para mim, isso era uma metáfora do mundo: estão todas a rir-se. Esse foi o ponto de partida. O refrão veio no fim, e essa música foi feita talvez um pouco mais devagar, mas os pedaços, quando surgem, surgem de repente. Há músicas que saem de repente e há músicas que precisam de ajustes, que precisam de ser repensadas, muitas vezes por questões silábicas, rítmicas. É muito importante para um ouvinte. E digo isto como ouvinte: a música é o ritmo em que as palavras entram. É a forma como consegues ouvir alguém. Quanto mais eu conseguir facilitar essa audição de uma forma rítmica, silábica, fonética, mais a mensagem passa. A fonética é muito importante para a mensagem ser transmitida. Às vezes paro para chegar a essa fonética que torna a canção mais possível para uma pessoa, para que ela a absorva sem esforço. É uma conversa.

Sinto que neste disco falas realmente deste tempo. A internet é um caso óbvio, mas não só. As canções estão polvilhadas de rituais, práticas, vícios e ideias com que somos obrigados a lidar nos dias que correm. Podemos ver LIGA DURA também como retrato deste tempo?

Certo. De todas as formas em que falei de não aparecer neste tempo com um disco de glamour – e isso não é uma opção, é também uma consequência de quem eu sou –, ao mesmo tempo eu só quero aparecer, neste momento, se for assim. E vou sempre aparecer assim porque não vou nascer outra pessoa a meio da vida. Portanto, esta sou eu. Não há como fugir muito a isso. Mas, neste momento, LIGA DURA fala sobre aquilo que vejo e sobre o mundo que tenho à minha volta. Não vou mais longe porque não estou lá. Quero falar sobre aquilo que consigo ver, mas também vejo, estou atenta e estou consciente daquilo que se passa no resto do mundo. Vou evoluir muitas vezes, vou mudar muitas vezes, mas, para mim, esta é a forma certa, é a forma como me sinto confortável e é a forma como me sinto, neste momento, no mundo.

Gostava de entrar na dimensão musical do disco. Em relação a SENSOREAL, sentes que há uma continuação, uma fuga ou um aprofundamento do terreno que já tinhas começado a explorar? O que é que este segundo álbum te permite dizer musicalmente?

Musicalmente, por um lado estou sempre à procura; por outro, sinto que estou a chegar cada vez mais à forma mais natural de transmitir a música. Acho que não existem muitos exemplos em Portugal – ou melhor, existem, mas muitos não vêem a luz do dia o suficiente – de mulheres a trabalhar música electrónica, hip hop e spoken word, esse lado de falar sobre um beat, de dizer ideias sobre um beat, mesmo com melodia associada ao texto. Não tendo essa representatividade ou esse imaginário ao longo da minha adolescência, acho que estou à procura e a chegar cada vez mais àquilo que quero como mensagem, tanto no lado musical como no lado da escrita. Mas não vivemos imunes às influências. Vivemos a absorvê-las. Vou sempre procurar e encontrar motivos de jazz, de hip hop, de música portuguesa, de fado, que fazem parte do meu crescimento e sempre estiveram no meu ADN. O fado falava muita tristeza e eu usei-o muito na adolescência, nos meus ouvidos. Vivi-o quase como uma experiência isolada, porque não tinha muitos amigos da minha idade a ouvir as mesmas coisas. No hip hop já tinha mais companhia. Cada vez mais chego a um sítio onde sinto que estou a conversar livremente com todos esses pequenos pormenores de que é feito o puzzle. Sinto que estou a chegar a um lugar onde já me sinto muito confortável. Já não penso tanto na questão do caminho; penso que estou no meu lugar e que esse lugar vai ser sempre influenciado, no futuro, por outras coisas.

A minha pergunta trazia alguma água no bico porque senti, numa primeira abordagem ao disco, que este é o lugar mais próximo do hip hop onde já te colocaste. Não apenas como aproximação, mas em alguns momentos como imersão plena nessa linguagem. É uma leitura errada?

Não, é uma ideia completamente certa. Eu estava a falar de forma mais genérica, a pensar em instrumentos e influências, mas a pergunta feita directamente tem uma resposta directa: é totalmente certo. O que sempre vi no hip hop, e o que me seduzia muito na adolescência, era esse lado real da música, que continua a existir e que espero que exista para sempre: alguém que conta a sua história através da música. Isso seduziu-me sempre e foi algo que sempre quis ouvir. Quero, acima de tudo, honestidade. Quero ouvir uma canção e ouvir a história de alguém. Para mim é como se estivessem a falar comigo. Como te disse, adoro conversas de um para um, portanto ter alguém nos fones a conversar comigo faz-me o dia. O hip hop sempre foi uma linguagem que me deu muito acolhimento e muita perspectiva, porque ouvi as histórias de cada um. Claro que tem outros lados, mas, acima de tudo, para mim o hip hop é isso. Histórias e reflexão. Neste disco, quis casar isso comigo: contar as minhas histórias, falar sobre mim, mas falando com alguém. Não consigo ter outra abordagem em relação a isto. Quero falar com as pessoas porque gosto de me relacionar e gosto de conversar. E entra aqui também essa questão de falar com vulnerabilidade, de falar sobre saúde mental, de falar sobre a minha própria história de uma forma vulnerável, mas que faça com que os outros se identifiquem com ela e a oiçam para eles, e não apenas como uma coisa sobre mim.

Quando falas tanto em “falar com”, com quem falaste para fazer este disco? Quem foram as pessoas à tua volta nesta LIGA DURA?

Acima de tudo, os GOIAS. Acho que este disco é o resumo de uma viagem a três. Eu ouvi o trabalho deles numa canção e, mais tarde, percebi a dimensão a que chegou. Mas o que interessa aqui saber é que eu combino coisas com pessoas e vou ter com elas numa perspectiva profissional. Quando cheguei ao pé dos GOIAS, houve uma ligação automática entre a nossa maneira de pensar. Também pertencemos à mesma geração e foi muito automática a forma como olhámos para tudo. O facto de sermos três deu muito debate. Fazer um disco não é só fazer as canções. Existe a vida à volta, existe aquilo que aconteceu no dia, existe o lado humano. Há dias em que nos rimos e ninguém consegue trabalhar. E há dias difíceis também, se calhar mais meus do que deles, porque no fundo estás ali a escavar coisas que sabes que lá estão, mas tens que escavar muito para que façam sentido. Isso é um trabalho muito libertador. No final, aquilo que conseguiste escrever é como escrever num diário: tirar de dentro para pensares cá para fora, para seres ouvido. Ou como falar com um amigo, mas guardar essa conversa numa canção. Ter a oportunidade de trabalhar com pessoas com quem te sentes muito à vontade abre-te também a cabeça. Estás relaxada, estás no teu ambiente. Conseguiste chegar a um sítio novo, com duas pessoas que conheceste agora, mas que parece que já conhecias antes. Essa é a forma ideal de fazer um disco: encontrares as tuas pessoas. E vais sempre trabalhar com pessoas diferentes ao longo da vida, porque a seguir vais ser outra pessoa, a vida vai-te acontecer, vais conhecer outras pessoas. Mas o desafio vai ser sempre encontrares pessoas com quem consigas ser, sem te esforçares para nada. Com eles, não me esforcei para nada. Fazer um disco é uma coisa muito vulnerável e, para mim, tem que ser assim.

Há também músicos no disco?

Sim. Ao contrário do disco anterior, em que fui para Tomar, me juntei comigo própria e com instrumentos, e fiz algumas canções de raiz, desta vez houve circunstâncias diferentes. Fui parar a um sítio com as circunstâncias que tinha e começámos a ouvir muitas das coisas que os GOIAS tinham feito de raiz com músicos como o Duarte Cota ou o Caetano. Portanto, havia samples feitas por eles que já tinham músicos inseridos. Em termos de convidados, há obviamente o Manel Cruz, que foi a chamada que fiz directamente.

Falemos então desse encontro com o Manel Cruz. Como é que essa conversa chegou a “Falsas Esperanças”?

É uma conversa longa. O Manel foi o primeiro, como se diz lá fora, a dar-me as minhas flores. Foi muito cedo, eu ainda só tinha a “Sereia” e a “Purga”. O Manel mandou-me uma mensagem privada a dar-me os parabéns pelo meu trabalho e foi muito surreal para mim, porque sou fã dele desde sempre. Andei anos à espera do regresso dos Ornatos, ouvi o Manel vezes sem conta, trabalhei em restaurantes onde ele aparecia para almoçar e fui falar com ele. Um dia, ele mandou-me uma mensagem a dizer: “Purga, excelente letra, excelente trabalho.” Eu não acreditei naquilo. Ainda fui correr para a rua. Era uma artista independente, estava numa fase diferente, e comecei a falar com ele. Ele disse-me: “Quando tiveres mais coisas, manda-me.” Passado algum tempo, o telefone começou a apitar por todo o lado. Era o Manel a falar sobre mim numa entrevista na rádio, a dizer coisas muito bonitas. Perguntaram-lhe se andava a ouvir música portuguesa e começou a falar sobre mim com a maior naturalidade. É uma coisa que vou sempre agradecer ao Manel. Espero que existam sempre pessoas como ele, que esteve a falar sobre mim sem me conhecer, com muita constância, com análise e sem pudor nenhum. É uma pessoa que sabe exactamente o sítio onde está e não teve pudor em dizer: “Ando a ouvir a Rita e gosto dela por isto, isto e isto.” Ficou ali a dar-me as tais flores. Depois aconteceu que, no meu primeiro concerto a solo, em Braga, o Manel estava lá. Eu estava nervosa porque era o meu concerto, mas, quando entrei em palco, fiquei nervosa porque estava lá o Manel. Ele viu o meu primeiro concerto de todos. Ao longo do tempo fomos-nos cruzando em festivais, só nos conhecemos mesmo em Paredes de Coura, e depois fomos encontrando-nos várias vezes. Eu ia ver um soundcheck dele, ele vinha ver um soundcheck meu. Falávamos nos bastidores, como aconteceu no Alive. Para mim, é um prazer ter essas interacções com pessoas que admiro, porque são pessoas com quem falamos mais ou menos a mesma língua e gostamos de conversar. Mas só faz sentido fazer um feat quando aparece a música. Eu estava a fazer o disco, música a música, e não havia aquele pensamento automático de “aqui cabia não sei quem”. Até que chegou o início de “Falsas Esperanças”, numa noite na Ajuda, às duas da manhã, com os cães todos a ladrar. Escrevi a música, uma daquelas canções que surgem. Quando a montámos e eu cantei a minha parte, olhei para eles e disse: “É o Manel.” Foi automático, uma visão. Não houve esforço nenhum. Passados dois ou três dias, escrevi-lhe: “Manel, tenho uma coisa para te mandar.” Mandei-lhe e seguimos em frente. Foi muito fácil trabalhar com ele. Fácil no sentido em que somos duas pessoas que gostam muito do trabalho uma da outra e têm essa facilidade. E foi um sonho, atenção.

Como é que imaginas agora este disco em palco? Qual é a fórmula para fazer LIGA DURA acontecer diante das pessoas?

Aquilo que eu mais faço num palco é andar de um lado para o outro a dizer as letras. Aquilo que mais me seduz é dizê-las vezes sem conta e encontrá-las, às vezes, com significados diferentes na minha própria cabeça. O que me interessa no concerto é dizer as palavras todas e relacionar-me com as pessoas que estão à minha frente. Para mim, o centro do concerto é a palavra. No futuro, não digo que não vá evoluir para introduzir momentos musicais que acho necessários, porque um instrumento fala tanto como eu. E, como não há uma linguagem que seja uma língua que uns percebem e outros não, quero muito ter um instrumento que fale às vezes sozinho. Existem solos do Manel à guitarra e quero muito que isso aconteça mais e mais. Acho que esse vai ser um dos caminhos ao longo do meu percurso. Já vimos o Kendrick Lamar sozinho a dominar um palco com dezenas de milhares de pessoas à frente. Neste momento, estou centrada na palavra e é sobre isso que são os concertos. O que muda talvez seja a linguagem visual, mas isso terá que ver com cada dia.

E já há datas para esse encontro com o palco?

Sim. Depois do Primavera Sound Porto, que foi uma apresentação em festival, com o tempo próprio de um festival, a apresentação do disco em concerto inteiro, em Lisboa, será no Capitólio, a 19 de Novembro.


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