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Fotografia: Carlos Trancoso
Publicado a: 03/07/2026

A união em disco das duas dimensões criativas do músico e radialista.

Tiago Castro (aka Acid Acid): “A rádio estava sempre muito presente, sempre ligada”

Fotografia: Carlos Trancoso
Publicado a: 03/07/2026

É possível subverter o clássico dos Buggles e, tomando o exemplo do percurso de Tiago Castro, inventar uma nova letra que poderia ser algo como “Radio revived the underground star”. O homem que aos microfones da Antena 3 percorre os caminhos d’A Floresta Encantada ao som de Grateful Dead, Mort Garson ou Robert Fripp adopta o nome Acid Acid quando edita discos e sobe ao palco. E é isso que acontece neste momento com The Radio Under The Stars, projecto em que une as suas duas dimensões criativas.

Radialista de longo curso – passou por estações como a Radar ou a SBSR e conduz actualmente na RTP Antena 3 o premiado A Floresta Encantada, distinguido em 2023 pela Sociedade Portuguesa de Autores como Melhor Programa de Rádio –, Tiago Castro começou a dar forma a Acid Acid em finais de 2014, depois de um desafio lançado pela promotora Nariz Entupido para a criação de um concerto. Daí nasceria uma sequência de apresentações ao vivo e, pouco depois, um primeiro álbum, editado em 2016 com produção de Tiago Raposinho e percussões de Baltazar Molina. Seguiu-se uma gravação em concerto com Vítor Rua, captada no extinto Sabotage Club, e, em 2020, JODOROWSKY, disco criado depois de uma encomenda do MOTELX em torno do imaginário do realizador chileno Alejandro Jodorowsky, com colaboração de Violeta Azevedo e produção de Rui Antunes. Em 2024, Acid Acid regressou ao vinil com um split de 10 polegadas partilhado com os ASIMOV, em que apresentou o tema “Gravitas”.

Editado agora pela Ovo Estrelado, selo que o próprio Tiago Castro fundou com Ricardo Duarte e Ricardo Mariano, The Radio Under The Stars é apresentado como uma ode conceptual à rádio: uma viagem instrumental pela descoberta, pelo fascínio e pelo amor por esse meio invisível que atravessa o éter, suspenso entre tecnologia, comunicação, emoção e um certo e intangível mistério. O disco cruza, por isso, a dimensão física das ondas electromagnéticas com a possibilidade quase íntima de transmitir afecto, espanto e melancolia a quem está do outro lado da escuta. Citando o texto de apresentação do projecto, é “um álbum que diz obrigado à rádio”.

Musicalmente, The Radio Under The Stars mantém a assinatura de Acid Acid – psicadelismo, pulsação kosmische, inclinação drone, gosto pelo analógico e pela repetição –, mas procura também um espaço mais melódico e arranjos diferentes. Tiago Castro assina a música, toca guitarras, baixo, Farfisa, sintetizadores e percussões; Rui Antunes, que já trabalhara com ele em JODOROWSKY, assegura a produção, a gravação, o sound design, a mistura e a masterização; Helena Fagundes acrescenta bateria; e André Hencleeday surge em Hammond, sintetizadores, glockenspiel, trompete e percussões. O álbum foi gravado nos Spring Toast Studios, em Lisboa, entre Fevereiro e Março de 2025. A capa é de Carlos Ferreira, através da Vertigo Eyes Collage, com grafismo de Filipa Ferreira.

Em The Radio Under the Stars há frequências, estática, sinais encontrados no ar, mas há também a ideia de uma escuta nocturna, solitária e cósmica, como se cada ruído entre estações guardasse ainda a promessa de uma revelação. Entre a máquina e o sonho, entre o éter e o subterrâneo, Acid Acid parece andar em busca desse lugar onde a música pode funcionar como emissão secreta: uma transmissão para quem ainda acredita que a noite, se for devidamente sintonizada, pode devolver-nos estrelas. Mesmo as mais distantes.

Depois de uma primeira apresentação na Casa Capitão, em Lisboa, a 17 de Junho, Acid Acid leva The Radio Under The Stars ao Maus Hábitos, no Porto, já esta noite, 3 de Julho. Irá ainda ao Festival Benefício de Marvão, em Santo António das Areias, a 11 de Julho; ao Capote À Sombra, em Évora, a 18 de Julho; à Galeria Zé dos Bois, em Lisboa, a 25 de Julho; e ao Bons Sons, em Cem Soldos, a 6 de Agosto.



É curioso que estejas num estúdio de rádio a conceder esta entrevista, porque eu gostava de começar exactamente por aí: qual é a tua memória de rádio mais antiga?

A minha memória, deixa lá ver, é, para já, brincar em casa com o rádio. Os meus pais tinham um rádio daqueles grandes, da Grundig, e tinham, por acaso, um microfone que se podia ligar – um microfone muito mau da Grundig. Lembro-me de estar a falar para o rádio. Não me lembro muito bem do que dizia, mas lembro-me disso. E, mais tarde, fazia programas de rádio em cassete: punha um gravador a gravar e começava a imaginar programas de rádio, entrevistas, reportagens, etc. Porque a rádio era algo que estava sempre muito presente, sempre ligada lá em casa.

Há um momento no teu disco em que usas a rádio como instrumento. Sempre me fascinou esse som de oscilar entre estações, de tentar sintonizar qualquer coisa e de a sintonia se perder rapidamente. Fala-me dessa decisão, até porque no texto de apresentação te defines como músico e radialista, como se as duas coisas fizessem parte da mesma dimensão criativa.

É curioso estares a falar dessa questão das ondas, porque era algo que também acontecia nesse rádio dos meus pais, precisamente na onda média. Eu adorava um som que nunca mais consegui ouvir: o som em que tu sentes a onda a mudar. Faz uma coisa grave, nem é estática. Era um som grave que eu adorava quando sintonizava. E, neste disco, quando chegou essa sequência de gravar rádios, pusemos não só no FM, mas também na onda média. Tínhamos uma antena grande e chegaram mesmo rádios do Norte de África. Ouvíamos línguas estranhas também. Por acaso isso não ficou no disco. Ficou gravado numa trilha muito longa, mas o que aproveitámos foi mais o lado da estática. Mas isso aconteceu: andámos com o rádio e com as antenas.

Quando é que decidiste que este ia ser o teu próximo projecto?

Quando o conceito do disco nasceu, eu tinha vários conceitos pensados para o álbum. Já tinha algumas demos preparadas e o conceito da rádio estava presente, mas achava-o um bocado lamechas, por causa disso mesmo que estavas a dizer: sempre tentei separar o profissional de rádio do músico. Mesmo com toda a situação que aconteceu no último ano, pensava: não vou fazer um disco sobre rádio, é um bocado lamechas. Só que, durante a própria gravação do disco, enquanto ainda procurávamos os sons e o conceito, aconteceu uma coisa muito curiosa. Gravei o álbum no estúdio da Spring House, do Rui, que já gravou o Sábado e também Vaiapraia, por exemplo, há uns anos. O estúdio dele é muito perto do quartel de Sapadores, de comunicações. E, de vez em quando, sem termos os amplificadores ligados, entrava uma frequência nos amplificadores. Fazia assim um som e não sabíamos explicar o que era. Não era uma coisa constante, era só de vez em quando. O Rui decidiu gravar aquele som e depois foi pesquisar a frequência: era uma frequência de comunicação encriptada, mas era uma frequência de comunicação. Fui para casa a pensar: vai ser mesmo, vai ser sobre rádio. Depois contei ao produtor e ao Rui: vai ser este o conceito, vamos alinhar isto de forma a fazer sentido. Começámos a construir o próprio disco e o puzzle do álbum à volta dessa ideia. Acabou por ser quase um sinal. Por um lado queria fazer, mas por outro não queria muito ir por esse caminho, e esse sinal encriptado de rádio nos amplificadores acabou por resolver a coisa. Foi: ok, vamos, é isto e que se dane. E o profissional de rádio ficou unido ao músico. A própria melodia também acabou por trazer esse lado, tanto de descoberta como de melancolia. É difícil explicar, especialmente numa música que não tem palavras, aquilo que é o conceito. Por isso tornámos as coisas um pouco mais óbvias, especialmente com o uso das frequências e da gravação das frequências, para introduzir quem ouve nesse universo.

Fala-me um bocadinho do lado mais técnico da feitura do álbum. Que ferramentas escutamos neste disco?

Ui, muita coisa, essencialmente coisas muito analógicas. O lado analógico, que já tinha acontecido também no JODOROWSKY, está muito presente: sintetizadores, pedais e depois também a bateria, que desta vez aparece com mais frequência no álbum, tocada pela Helena Fagundes. Eu também queria ir até um lado mais nostálgico, até de muita música que ouço. Queria colocar um órgão Hammond no álbum e sabia que o André Inquietude ainda tinha um órgão que fazia o som do Hammond, mas que é analógico. Tive muita sorte, porque dois dias depois ele vendeu o órgão. Fiquei com aquele som clássico à 70s, aqueles teclados assim Hammond. Depois há também alguns arranjos um pouco mais orquestrais, mas só a pingar, que vão aparecendo às vezes no disco. E há outra coisa importante na feitura do álbum, que tem a ver com o sound design. Dou crédito ao Rui nesse aspecto, porque tudo aquilo que não é música, tudo aquilo que está em modo de ambiências, foi muito ideia dele: trazer essa parte, esse vazio, esse aspecto aleatório. Era preciso sons aleatórios que combinassem com os sons de repetição, que é algo muito presente na minha música: a repetição de sequências, a repetição de notas. No som vazio, era preciso colocar ambiências mais aleatórias, sons estranhos, percussivos que não encaixassem bem no sítio, outras ambiências que saíssem do ritmo, outras texturas. Ele tem uma caixa com pedras e mexeu nas pedras; ouve-se isso em alguns sítios, para dar uma ambiência, até algo mais analógico e menos maquinal. O disco estava a começar a ficar, com as repetições, muito certinho demais. Ele ajudou a trazer o disco para outro sítio, com um bocadinho mais de alma, se calhar. Esse espaço vazio, esse espaço negativo que não tem música, mas tem ambiências. O Rui teve um trabalho muito importante a pensar isso.

Dirias que, neste disco, em relação a registos anteriores da tua autoria, exploras algum território musical novo, alguma referência nova que sintas que ainda não tinhas abordado?

Sim. Nos discos anteriores era ainda mais à base do drone e de notas contínuas. Aqui, elaborei um bocadinho mais e já tenho mais do que uma nota. Já há melodias, já há um pouco de melodia-base, o que me complica a vida para tocar ao vivo, mas isso é outro aspecto. Para o disco, sim, há uma mudança melódica e isso obriga também a alguns arranjos mais complexos. Acho que foi uma mudança. Já tenho tocado uma ou outra vez algumas das canções e o que me dizem é que está tudo muito mais melódico. E é verdade. Também se mantém a parte do drone, a parte mais ambiental, que é algo que quero manter sempre na música. Só que, sem querer, foi para um lado melódico.

Isso tem a ver com hábitos de audição, referências ou descobertas recentes que te tenham inspirado? Que mapa desenharias à volta do disco em termos daquilo que o pode ter referenciado?

Acho que as referências continuam a ser as mesmas. Mas acho que foi dar um passo — um passo que foi um acaso, na verdade, na construção. Se eu se calhar estava muito inspirado pela questão do kraut, pelas músicas do kraut alemão, em que aquilo é tudo muito maquinário e não sai dali, talvez me tenha deixado levar um pouco mais para algumas referências psicadélicas e até de música pop psicadélica. Eu ouço muito isso também. Sei que há um ou outro momento no disco que é até de cariz mais pop, muito mais próximo, e talvez isso tenha sido essa música, que também ouço muito, a entrar um pouco pelo disco. Acho que é aí que está essa mudança de nota: em vez de ser só uma nota, já são duas ou três na música.

Mencionaste que essa componente melódica mais pronunciada te vai complicar a vida em cima de palco. Como vais resolver este disco ao vivo, agora que tens uma série de datas a aproximar-se?

Vou resolver tocando algumas partes e usando pré-gravados retirados do disco. Estou a trabalhar agora na possibilidade de ter pelo menos a bateria em palco, para lhe dar um pouco mais de power. Pelo menos no primeiro concerto no Porto e especialmente no da ZDB estou a trabalhar para ter bateria — a Helena, sim. Consigo fazer o concerto sozinho, mas em ambiente controlado, em sala, estou a tentar ter a bateria. Nas outras partes melódicas, algumas vão ser tocadas de raiz, fazendo um loop contínuo até construir a música. Em outros momentos, em que as melodias são mais curtas e em que é de facto impossível fazer o loop, vou recorrer a pré-gravados. Foi a solução que encontrei para manter o feeling do disco, o feeling do ambiente. Vamos ver como corre.

Este disco sai também com o selo da Ovo Estrelado. Como está a correr essa aventura paralela?

Está a ser louca, mas está a correr muito bem. Na verdade, quando a editora nasceu, até pensámos que o meu disco seria o primeiro. Só que as coisas foram-se desenrolando, especialmente quando ouvimos o álbum do Afonso, do Afonso Serra. Quando o ouvimos pela primeira vez, ele não tinha editora, estava à procura de editor, e nós achámos: porque é que não lançamos este disco, que é um óptimo álbum? Foi assim que nasceu, quase também por acaso, naquele momento em que já tínhamos a ideia. E correu muito bem. Depois chegou o disco da Teresa [aka Calcutá], que ela também aceitou lançar por nós, e ficámos muito contentes. O dela correu muito bem. No geral, está a correr muito bem. Estou curioso para perceber como é que este disco vai ser recebido e já temos um quarto pensado. Não posso revelar pormenores, mas no Outono, em princípio, teremos um quarto álbum cá fora. As coisas estão a progredir devagar, mas tudo muito bem estruturado. Pelo meio, também estamos a fazer a curadoria de um festival em Marvão, que é outra loucura. Juntamente com a malta do Benefício, estamos na produção do Benefício de Marvão, que vai acontecer a 10 e 11 de Julho, comigo a tocar, com Calcutá também e com a Violeta Azevedo. É outro lado que também gostaríamos de fazer aos poucos: não é promoção de concertos, é mais curadoria, pensar nesse aspecto. Claro que, sempre que houver oportunidade, sugerimos as propostas da editora, o Afonso Serra ou a Calcutá, que está a tocar muito. A Teresa também tem tocado muito, os discos foram muito bem recebidos e estamos muito felizes. O nosso objectivo era muito esse: ajudar malta que faz uma música diferente e tentar fazer com que essa música chegasse a um maior número de pessoas. Se nós acreditamos — eu, o Ricardo Mariano e o Ricardo Duarte — nessa música, se temos gostos semelhantes mas também diferentes e acreditamos nela, achamos que o resto das pessoas também vai gostar. Para já, acho que está a correr bem.

É possível ver não só o disco que estás agora a lançar, mas também o de Calcutá e o do Afonso Serro e a própria existência da editora como sinal positivo de uma agitação particular que anima este subterrâneo da música portuguesa. Sentes isso? Sentes-te parte de uma vaga maior?

Eu não sinto, na verdade não sinto, mas consigo fazer essa análise que estás a fazer. Olhando de fora, acho que há uma necessidade de abanar um pouco a estrutura e também de perceber que há poucos meios. Há poucos meios no sentido em que o nosso objectivo é lançar profissionalmente material analógico à base do vinil. A música está disponível digitalmente, claro, mas a nossa ideia é fazer discos em vinil e sabemos que muitos músicos querem ter o objecto. Isso não é fácil de conseguir: há despesas, depois há toda uma burocracia que é preciso tratar e depois há toda uma comunicação que é preciso fazer. Sabemos que está cada vez mais difícil nesse aspecto. Colocar música cá fora não é difícil, mas tudo o que vem depois dá trabalho. Olhando para isso, consigo perceber que há mais pessoas envolvidas nesses processos. Isso é bom e é importante. Nós somos mais uma editora a navegar esse mar com a nossa própria sensibilidade. Observo, por exemplo, o trabalho do João Paulo Daniel com a Russian Library, que também trabalha música mais escondida e aposta no digital, ou a própria Nariz Entupido, com quem lancei os dois álbuns anteriores, que também tem esse trabalho e essa vontade de ajudar pessoas e pôr cá fora coisas que estão um pouco à margem. Há outras editoras que fazem esse trabalho. Não é fácil: o artista está envolvido com tanta coisa que, quando chega a esta parte, precisa de ajuda. É muito complicado fazer sozinho. Aí, o que tentamos fazer é levar o universo do artista para as pessoas.

Dizia-te que és o pacote completo: fazes a música, toca-la ao vivo, podes divulgá-la na rádio e editá-la na tua própria editora.

Sim, mas divulgar na rádio não é bem assim. Eu nunca passei uma música minha. Há pouco tempo ouvi na rádio o primeiro single que lançámos, o single do álbum. Estava de carro e foi uma sensação. Fiquei tão excitado como se nunca tivesse feito rádio. Fiquei mesmo excitado: isto está a passar na rádio. É fixe.

Como lidas com esse calendário considerável de concertos que tens pela frente? O que é que o palco representa para ti nesse plano artístico, além do plano radiofónico e do plano de autor?

Confesso que houve um período, já há vários anos, em que acabava o concerto e perguntava: o que é que estou aqui a fazer? Estou a tocar uma música que, por si, já é um pouco complicada, e o que é que estou aqui a fazer? Neste momento, gosto mais de tocar, gosto mais de dar concertos, e encaro sempre os concertos como um desafio para interpretar a música. A música nunca vai sair igual. Tenho várias limitações: não só a limitação técnica, mas também toda a limitação de estar sozinho em palco a construir as músicas e perceber o que é que existe na música que merece ser transposto para concerto. Estou com muita vontade de tocar. Imagino um concerto deste género como uma tentativa de convidar as pessoas a entrar num pequeno universo. É preciso algum tempo quando se trabalha mais à base do drone, de notas contínuas e de uma coisa mais ambiental. Acho que o alinhamento que estou a imaginar para apresentar o álbum vai nesse sentido: convidar as pessoas a entrar num pequeno universo e, durante 45 minutos, viverem lá dentro. Encaro mais como um desafio neste momento. As pequenas experiências em que já fui testando o disco em concerto correram muito bem e deram-me mais pica para tocar agora com o disco cá fora. Mas já passei por essa dúvida existencial do que é que estou aqui a fazer, nem sequer vendo muitos discos. Não sei como é que alguns artistas lidam com isto. Um artista que tem um disco a vender milhares de cópias tem de o tocar ao vivo porque as pessoas anseiam por ver aquela coisa. Nós não estamos nesse território, longe disso. É uma coisa muito pequenina e acho que se consegue criar essa intimidade: convidar as pessoas a entrar num pequeno universo durante um pequeno período. A minha ideia é mais essa: deixar que quem for aos concertos entre nesse universo destas músicas, que é também aquilo que imagino ser o universo da rádio, da descoberta e da própria melancolia de trabalhar e ouvir rádio. Espero que a mensagem passe, sabendo que é complicado com música instrumental.

Para músicos que fazem uma música desafiante como a tua, o pós-concerto ainda é o melhor momento para vender discos?

É, sim. Estamos neste momento a observar isso cada vez mais neste segmento mais independente, mais pequeno. É onde se vendem mais discos. Nem é tanto nas lojas, é mais a seguir aos concertos. E não só discos: agora o merchandising. Uma banda tem de ser quase uma loja de roupa para conseguir facturar algum dinheiro. As lógicas da indústria estão todas alteradas já há vários anos. É aí, depois de tocar, que se pode apresentar o objecto, mostrar o objecto. Se deixarmos essa semente plantada nas pessoas, essa curiosidade de levar um pedaço do concerto para casa, é aí que se vendem os discos.


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