O Ageas Cooljazz começou a sua 22ª edição conjugando a brisa atlântica que paira pelo Hipódromo Manuel Possolo com a aragem da música brasileira, juntando no mesmo cartaz Maria Luiza Jobim e Gilberto Gil — duas gerações, uma herança musical.
Instalando-se um ambiente acolhedor, a voz de Maria Luiza Jobim vai-se espalhando pelo espaço que se enche, aos poucos, de público. Acompanhada pela banda, a artista apresenta as canções do seu mais recente álbum, Rosa no Céu — precisamente o disco que a traz a Portugal nesta digressão, com paragem em Cascais, e que tem como fio condutor o céu observado pela artista nos dois lados do Atlântico, estabelecendo uma ponte direta entre as experiências vividas em Portugal e no Brasil. A sua sonoridade etérea, com voz suave e instrumentos que a acompanham na mesma delicadeza, envolve todo o espaço do concerto como se estivéssemos numa atmosfera suspensa. Fortemente influenciada pela Música Popular Brasileira (MPB) e pela conjuntura familiar onde cresceu enquanto filha de Tom Jobim, as suas criações misturam-se com influências de indie e jazz, tornando a sua atuação num convite à descontração e à contemplação do momento presente. À medida que a noite avança, o concerto vai-se aproximando do fecho, e é com “Chega de Saudade” que a artista encerra a atuação — tema que João Gilberto, um dos pais da bossa nova, tornou eterno, e que serve, também, de ponte inesperada: nascido na Bahia, tal como Gilberto Gil, é o mote perfeito para preparar o palco para o artista que se segue.
São vários os aspetos admiráveis em Gilberto Gil, uma das figuras mais importantes da música brasileira. A sua carreira, que se estende por várias décadas e conta com dezenas de álbuns gravados, atravessa géneros tão distintos como a MPB, o reggae, o forró e a música eletrónica. A isso soma-se a resiliência que demonstrou durante a ditadura militar brasileira e o exílio em Londres, período que viria também a marcar profundamente a sua música e que evocou com grande emoção ao longo do concerto. Estamos perante um artista com uma longa carreira e 84 anos de idade, mas cuja energia continua bem presente. O seu vasto repertório, entre composições próprias e interpretações de outros autores que regravou ao longo da vida, deixa uma grande curiosidade sobre o que ouviremos neste concerto. Ainda assim, há uma certeza: vamos dançar e o samba estará presente — e esteve.
Trouxe o samba, que descreveu como “brasileiro por excelência”, capaz de representar a sensibilidade de um povo, a sua “criatividade e matriz colorida”. E essa matriz propagou-se por vários sambas ao longo da viagem que fizemos: ouviu-se, por exemplo, “Viramundo” (1967), “Ladeira da Preguiça” (1973), “Estrela” (1997) e “Chiclete com Banana” (1972). Os passos de dança do artista contagiam uma plateia que, de forma igual, canta e dança as suas canções – não só quem está junto ao palco na plateia sentada, como também quem está de pé, sobretudo em “Back in Bahia” (1972), “Toda Menina Baiana” (1979) e “Palco” (1981), onde a energia ganha corpo em passos mais soltos e alguns saltos.
Um dos principais objetivos deste concerto ficou claro logo nas primeiras palavras do artista: “Trago um pouco da canção brasileira para vocês”. E trouxe, de facto, não só a sua, mas também a de outros autores, como Ary Barroso e Luiz Peixoto em “É Luxo Só” (1937), ou Tom Jobim e e Vinicius de Moraes em “Garota de Ipanema” (1972). Nesta última, porém, o cantautor foi mais longe: deu-lhe nova vida ao vesti-la de sonoridade reggae, um registo que voltou a surgir mais tarde em “Não Chore Mais” (1979), canção que vai buscar o instrumental de “No Woman, No Cry”, de Bob Marley.
O cantor materializa, assim, exatamente a matriz colorida a que se referiu a propósito do samba e do povo brasileiro. Este concerto revela-nos, ao vivo, histórias de amor, resiliência, fé e saudade, mas também a festa e a celebração da cultura baiana, atravessando os diversos estilos que compõem a música brasileira.
A canção brasileira chega-nos, sem dúvida, em forma de abraço. Não só pela forma carinhosa e atenta como o artista se dirige ao público, ou pela própria música “Aquele Abraço” (1969), cantada em coro entusiasta pela plateia, mas também pela banda que o acompanha: Bem Gil e José Gil, filhos do cantor, e João Gil e Flor Gil, netos. Sente-se, claramente, a cumplicidade entre todos ao longo da noite e existe um abraço que não é só familiar, mas representa uma união de três gerações em cima do mesmo palco. E é precisamente aqui que o aspeto desta noite se revela maior do que anunciámos. Se começámos por falar de duas gerações, a de Maria Luiza Jobim e a de Gilberto Gil, o concerto encarregou-se de mostrar que, no caso do cantor, são três: a sua, a dos filhos e a dos netos, todos a dividir o mesmo espaço, as mesmas canções e o mesmo abraço.
É a capacidade de reunir o tempo, as experiências, a família e a música num só gesto que torna Gilberto Gil um artista tão completo e que faz deste concerto, mais do que um espetáculo, uma lição viva sobre um artista que construiu o um legado intemporal.