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Fotografia: Hugo Sousa
Publicado a: 09/07/2026

Uma reflexão da diretora do festival antes de arrancarem os preparativos para a edição de 2027.

Lu Araújo: “Este foi um dos cenários mais bonitos do MIMO em toda a sua existência”

Fotografia: Hugo Sousa
Publicado a: 09/07/2026

Dez anos depois da chegada a Portugal, o MIMO encontrou em Guimarães uma nova casa. Para a diretora do festival, Lu Araújo, esta primeira edição revelou “um dos cenários mais bonitos” de toda a história do MIMO e deixou a convicção de que a cidade está ainda longe de mostrar todo o potencial para acolher o festival. 

Em entrevista ao Rimas e Batidas, fez o balanço da mudança, explicou os desafios da nova casa e defendeu a curadoria como a principal marca do festival. Pelo meio, deixou também um alerta para o futuro dos festivais, criticando uma tendência que considera preocupante: “Os artistas estão cada vez a complicar mais a vida dos festivais”.



Qual é o balanço desta primeira edição em Guimarães?

Eu sou meio suspeita para falar, mas achei incrível a combinação e, acima de tudo, achei incrível o potencial de crescimento. Porque isso faz muita diferença, você ver que a gente pode ter tido uma ocupação de espaços de 50% a 60%, e isso apenas numa parte da cidade. Deixei de fora vários lugares, porque não dava, os recursos precisavam caber. Então não quero ser megalomaníaca, não é isso, mas acho que de facto, a gente tem um dos cenários mais bonitos.

Ficou a sensação de um casamento perfeito com a cidade.

Posso te dizer quase com certeza, e olha que eu faço isso em cidades património, que são muito bonitas. Este foi um dos cenários mais bonitos do MIMO em toda a sua existência. Aquela convivência com o castelo, aquele ambiente, talvez até a energia do lugar, aquela combinação com o Palácio dos Duques, foi incrível. E ao mesmo tempo foi incrível ver artistas internacionais naquele lugar, artistas de várias tendências. Todos ficaram maravilhados. Por isso, creio que os resultados foram bons. Agora, a gente tem que passar por uma análise. Nós já sabíamos que era a edição ponto zero. Isso foi discutido inclusive com a Câmara, pelo próprio tempo que a gente fechou e negociou. Era muito pouco tempo. Num primeiro momento, eu estava preparada para fazer só em 2027. Mas a câmara disse claramente: “Não, vamos fazer”. Além disso, perdi algumas semanas, porque eu fazia em outra data, na terceira semana de julho, mas essa era a única data disponível na cidade. O calendário aqui é enorme, tem muitas coisas acontecendo. Mas estou bem satisfeita. Não conversei ainda com o presidente mas ontem conversei com a vereadora e ela disse que é para continuar.

Esse é um bom sinal. 

Sim e eu me emocionei com isso, porque, claro, é sempre uma tensão. Agora vai se ajustar para crescer. E este já foi um crescimento enorme para mim.

Foi essa necessidade de crescimento que levou a trocar de cidade?

Simbolicamente e estruturalmente. Saímos de uma cidade que eu amo mesmo. Eu amo Amarante, sou gratíssima a ela, mas era como se Amarante já tivesse chegado no limite da capacidade de atendimento. Dez anos ali. Eles infelizmente não conseguiram ter hotel, não conseguiram ter nada e eu já sentia que isso passava a ser um problema para a gente. Independente de qualquer questão de negociação, foi uma razão estrutural mesmo. Um evento como o MIMO, não pode só envolver as minhas determinações como diretora, o meu planeamento. Pelas suas características  tem que ser feito totalmente em parceria com as câmaras. Não dá para chegar lá e montar o cenário, não é assim. 

Foi necessário criar condições e infraestruturas?

Sim, a gente está falando do cenário principal, mas aconteceram coisas em toda a cidade. E mesmo aquela estrutura no campo São Mamede aquilo é um estacionamento. Não tem energia, não tem esgoto, não tem água, não tinha rampa de acesso. Então ficamos meses planeando como seria garantir essa estrutura para esta edição. Agora acho que é uma questão de pensar, possivelmente virão obras para o local. Mas mesmo assim ao nível da estrutura, tudo foi cumprido. 

Notou-se uma intervenção cuidada no património. 

Sim, isso foi um desafio numa cidade linda como esta. Fiquei semanas pensando como eu ia colocar um pórtico de comunicação naquela entrada dos Duques. Porque se eu botasse um negócio quadrado ali, eu ia criar uma intervenção no olhar de quem chega, porque aquele impacto de chegada é que é lindo. Esse foi um dos desafios do planeamento em Guimarães: não tirar o foco da beleza do lugar, porque senão todo mundo perde.

Foi sentindo o pulso ao público?

Eu acho que quem veio, vai voltar com mais dois no próximo ano. Sinto que precisamos de envolver mais a comunidade. Com tantos eventos que existem na cidade e muita coisa para comunicar, senti que o MIMO ficou um pouco diluído nisso. É preciso entender que não tem um festival desse aqui.

Sente diferenças entre a comunidade de Amarante e a de Guimarães?

A turma daqui que gosta desse tipo de música, ia para lá. Mas a grande maioria daqui, talvez nem o contexto desses artistas entenda. Então temos que trabalhar isso com a comunidade. Ainda agora estava pensando que aqui, em Guimarães, acontece mais de se tocar música portuguesa. Não é que não passem, porque aqui passam artistas de todos os géneros, mas fica mais concentrado entre Porto e Braga. Aqui são mais as festas populares que rolam, mais artistas portugueses, e quase todos mais populares. Mesmo os artistas brasileiros que por aqui passam são também populares. O MIMO oferece um tipo de programação diferente aos olhos deles. Mas isso também aconteceu em Amarante. A minha sensação é de recomeço, nesse sentido. No primeiro ano em Amarante, olhávamos e só víamos pessoas que não eram da cidade. E ainda tinha outra questão, como Amarante tinha aquela coisa da beira rio, as pessoas da cidade ficavam em cima e não desciam, porque elas se sentiam envergonhadas. Numa escala menor, isso aconteceu aqui também. As pessoas ficavam na rua de cima. Era como se não fosse ainda o lugar delas. E esse não é o espírito do MIMO. Talvez a gente precise trabalhar mais isso, porque o MIMO é um festival gratuito, ele é acolhedor, ele é acessível, ele é humano. Não tem nada que impeça ninguém de participar, muito pelo contrário.

Em 10 anos em Portugal esta foi a segunda vez que o MIMO saiu de Amarante.

É. Mas, na verdade, eu não tive 10 edições em Amarante. Vi muitos jornalistas falando isso, mas eu tenho 10 anos de Portugal. A primeira data foi feita em 2016, mas depois tivemos a pandemia. Dois anos da pandemia ficaram por fazer. Durante esse período havia uma questão judicial com Amarante e eu procurei o presidente da Câmara do Porto, e ele me levou para lá, para fazer um ano. Mas eu já sabia que ia voltar para Amarante. Eu não renovei com ele, mas eu já sabia, porque em tribunal, eu já tinha ganho. E eu briguei só para voltar. Não briguei para ganhar dinheiro nenhum. Eu só queria que eles honrassem o contrato que estava assinado. O MIMO é um festival independente dessas questões que aconteceram com Amarante. Aliás, eu tenho uma ótima relação com o doutor Jorge Ricardo e com todo mundo da cidade. Amo a cidade, é uma cidade linda. Espero que eles se reconstituam, que consigam também fazer um festival. Mas nesse momento, eu vou te dizer, a vida é muito generosa com o MIMO, porque talvez o MIMO seja generoso com as pessoas, porque foi tudo muito fluido aqui. O esforço foi muito mais para construir do que para negociar. É uma marca consolidada, uma marca que se fez respeitar, seja dentro dos princípios de como ela trabalha a acessibilidade, essa coisa da gratuitidade, seja em termos de curadoria.

É a curadoria a principal marca do festival?

O MIMO é um festival equilibrado. Vi agora de manhã um jornal que eu estava lendo falar que é muito pouco comum você ter um artista como o Tricky e depois de ter um artista como o Papillon, que é novo. E mais ainda, no mesmo palco, uma artista completamente desconhecida, que está em ascensão, que é a Melly. Todos na mesma condição técnica, todas na mesma estrutura, com o mesmo tratamento. Para mim o papel do festival é esse. Houve uma distorção nos últimos anos, nessa coisa de festival. Estamos vivendo uma crise, porque os artistas estão cada vez complicando mais a vida dos festivais, aplicando valores absurdos, muito pouco generosos com os festivais e muito pouco generosos com a comunicação. Cada vez mais se fecham para o mundo deles, para os negócios deles. Então eu vi coisas muito tristes aqui esses dias, e que não tem só a ver com o MIMO. Aliás, não tem nada a ver com o MIMO, tem a ver com a postura dos artistas. 

Que postura é essa?

Artista se negar a dar entrevista, artista se negar a deixar transmitir para uma rádio pública portuguesa que… poça, quem me dera no meu país ter uma estrutura como tem a RTP, como é a Antena 3. De alguma forma, os festivais precisam abrir o olho para isso, e tem que dar cada vez mais espaço para novas gerações e formar novos pensamentos, porque tem uma distorção, essa coisa dos grandes estádios. O artista quer cada vez trabalhar menos, ganhar mais e cada vez te impor mais. Claro que não são todos, mas te impor: “É assim ou não é”. Para o MIMO, isso não é maneiro. Eu não gosto. Eu não tenho obrigação com nada, não preciso fazer grandes nomes. Nunca deixei de fazer isso, mas cada vez mais eu estou atenta. Por outro lado, acho que ter nomes que voltam para o festival… O Daddy D falou isso ontem no palco com o Don Letts. O Daddy D tocou cá no ano passado. Ele podia perfeitamente não querer tocar esse ano, poderia não ter gostado. Mas veio e estava muito mais solto, ano passado ele estava tenso. Fiquei sabendo porque ele me disse: “Ano passado eu fiz um set sombrio, acho que peguei pesado”. Este foi um set mais solar. Mais claro, mais animado. Tocou Massive Attack, fez um medley lindo. Fiquei brincando, falei: “Poça, eu tenho Massive no meu palco”. Tenho metade dos Massive e ele está tocando isso com os beats dele, com a onda dele. Artistas como Fernanda Abreu, se renovando. Que show espetacular, que sábia ela, que sabe se colocar no lugar dela, de alguma forma, de precursora de uma geração e pegar uma parte do show dela, ela que tem tanto sucesso. Fernanda, para fazer um show só com o sucesso dela, ela precisaria de umas duas horas e meia. Ela abriu espaço para colocar no meio do show dela, o que considera importante de uma coisa que ela própria provocou. Então pegou vários sucessos diferentes do funk, de pessoas diferentes, de mulheres, de homens e colocou no show dela. Posicionou-se como uma artista que sabe o seu lugar. A Oumou Sangaré, foi maravilhosa. Discretíssima, vai ali, faz, manda bem, e uma música maravilhosa.

Sim, e a nova geração…

Foi tudo lindo, o Zé Ibarra ontem. Falei para ele: “Cara, se eu acho que a música brasileira tem um espaço de renovação para uma linha que se define MPB, com artistas como Caetano, Gil, nesse momento, essa vertente tem é o Zé e essa moçada que veio com ele”. A Dora, a Júlia Mestre, que eram do Bala Desejo. E tem outros também, Chico Chico, que é o filho da Cássia Eller. Porque a tendência mundial até da música portuguesa, você vê. É essa combinação, desse espaço que o hip hop está ganhando. Esses géneros combinados que surgem. Mas é importante que a gente preserve, essa coisa da canção. O Zé é um cancionista. Ele escreve bem, é bom músico e bem cercado de música. Não é um artista super ambicioso, está fazendo o caminhozinho dele ali, pedrinha por pedrinha e cada vez mais arrebanhando o público. Esse disco, Afim, penso que até demorou a pegar, que ele já lançou há um tempo, mas é isso. A calma, também. Foi chegando nas pessoas. Eu fui uma das que descobri tardiamente, comecei a ouvir e não parava de ouvir. 

Quais foram os momentos que mais gostou?

Puxa, difícil, porque eu gostei de tanta coisa e fiquei muito feliz. Fiquei feliz com a DJ Reborn. Fiquei muito apaixonada por ela, porque eu sei que é difícil manter. Você sai de um showzão como o do Tricky, espetacular, e entrar naquele palco depois disso… As pessoas não foram embora, ficaram ali, foram pulando, foram se animando. Então acho que ela foi uma surpresa. O Andy Smith também, no dia anterior. É difícil, mas se eu tivesse que escolher dois, eu diria que foi a Fernanda e o Tricky. Papillon também foi muito bom. Está vendo? Não dá. O Musanga foi maravilhoso, mas acho que a Fernanda trouxe um negócio completo, esteticamente, muito visual, muito bem acabado. Por outro lado, o Tricky tem aquela coisa louca, sombria, maravilhosa, aquele som que a gente adora, eu sou filha dessa geração. Eu vi esses caras desde o início. Também gostei do set do Don Letts. Isso é legal também, porque o MIMO não fazia tanto DJ set, mas a gente descobriu.

Os DJ sets passaram a ocupar um lugar mais importante no festival. Foi uma escolha deliberada? 

Não é que precisava fazer, queria fazer, mas não queria que isso caísse num DJ set de eletrónica e tal. Fomos descobrindo esses artistas e perguntando: “Quer fazer?” O Daddy G está no meio de uma turnê dos Massive Attack, cara. Turnê mundial deles. Então ele abriu espaço, aí ele já estava com esse projeto do Don Letts. A DJ Reborn, que trabalha com a Missy Elliott, a Lauryn Hill, vive viajando. São DJs diferentes. Ela é curadora de música em Nova York. É uma coisa que não dá mais para evitar, porque isso não é tendência, esse momento é importante para o festival. Por isso passa a ter uma relevância dentro da nossa programação. Mas eu gostei de tudo. Nossa, a Alaíse Costa, imagina, não falei. Alaíse Costa foi…

Esse momento foi especial.

Muito. Sabe que também acordei pensando hoje nisso. Muito lindo, muito linda ela. O cinema. Eu saí profundamente marcada pelo cinema, foram noites lindas. Cada filme melhor que o outro Só porrada, como a gente diz. Foram nove dias de programação ao todo, juntando com o cinema. Mas puxa, que vontade que eu tinha de juntar umas pessoas amigas e passar algum daqueles filmes que vocês não viram. Filme do Amado e Mariano, do Nanette, maravilhoso. O da Alaíse, sensacional. O do Rodrigo Areias, Nova 78. Filmaço. Vi a Patti Smith, primeira apresentação da Lourie Anderson. Muito legal. Foi tudo bem bacano. Agora olhando. É que eu estou cansada, além disso eu sou crítica, sou virginiana, sou chatinha, sempre me cobro, entendeu? Mas acho que foi tudo espetacular.

E a música clássica nas igrejas…

Sim, a música clássica também. É um festival multigénero, isso eu não tenho a menor dúvida. Isso é ruim para mim, como curadora, para a minha equipe, porque você tem que combinar texturas, dias e horários. Mas eu amo música clássica, amo música orquestral e sinto que existe muito espaço para ela. Tem um público que gosta de ouvir as coisas tradicionais, a roda de samba, as batucadeiras. Ou seja, como modelo curatorial,  o MIMO está bem resolvido. Já como investimento de ocupação da cidade, a gente tem que melhorar, temos que criar mais conforto, criar mais coisas. Isso está tudo pensado.

São esses os desafios da próxima edição?

A gente precisa envolver a comunidade mais aqui ao redor, não tenho a menor dúvida disso. Temos que pensar como vamos fazer isso. Ainda assim, se eu tivesse que dar uma nota, daria pelo menos um oito. É uma boa nota, mas sabendo que a gente precisa melhorar. E com essa humildade, temos tudo para crescer e fazer um festivalzão. Agora é melhorar as coisas principais, as barreiras principais que a gente está vencendo.

O calor foi um desafio extra inesperado.

Um calor desse eu nunca passei, nem no Brasil. E isso afeta muito, afeta as pessoas, afeta a equipa. Pessoas passando mal. Ontem na plateia da Aline Paes, eu vi os socorristas lá, fui falar com eles e perguntei: “Está tudo bem?” Ele falou: “Não, fomos chamados porque tem um atendimento”. Mesmo ali, naquele lugar, com sombra, com água, as pessoas estavam passando mal. Essa é outra coisa que a gente vai ter que repensar.

Em Amarante havia o rio.

É, mas também era muito quente. Era muito quente, mas o rio cria uma humidade maior. No entanto, esse não é um desafio do MIMO, é um desafio geral. Das cidades, dos festivais no geral que acontecem fora dos centros urbanos, porque fora dos centros urbanos sempre tem, às vezes, uma natureza ao redor. Essas cidades são feitas de pedra.

E a próxima edição será novamente aqui em Guimarães? 

Eu fiquei sabendo disso às duas da manhã. Tudo está nesse sentido, a orientação é essa. Agora vamos conversar essa semana e assim que a gente souber, anunciamos, porque não deu nem tempo de pensar nisso. O importante é continuar e melhorar.


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