Para muitos, quase de forma unânime se considera o álbum Azul (EmArcy Records) como um marco no jazz contemporâneo português. O contrabaixista e compositor Carlos Bica inscrevia em 1996 um dos mais influentes discos da cena jazz, embora fora de portas (na Alemanha) mostrava os novos rumos. Portugal era “um país que nessa altura vivia ainda muito isolado do restante panorama europeu”, como refere conversa adiante.
O Rimas e Batidas foi ao encontro do discurso directo de Bica, neste ano em que passam três décadas desse registo. Uma comemoração que se faz em palco, como já no próximo dia 11, em Braga para o ciclo Julho é de Jazz, no pátio exterior do gnration ao final da tarde (18h). Com os mesmos músicos em palco, um “grupo com grande maturidade musical, sempre em busca do desconhecido”, como compromisso assumido pelo timoneiro no contrabaixo. Afinal, como deixa explicito em desejo “cada concerto ambiciona ser uma agradável surpresa, tanto para nós como para o público.”
Bica em modo confesso, generoso e directo, na leitura em retrovisor da sua trajectória sobre este Azul por si imaginado. Pode ser o tom do mar, do céu, mas sem nunca deixar de ser a cor em desejo, das suas canções: “É assim que gosto de chamar às minhas composições”, como refere. Num trio que também ele vem de um maravilhamento, em diversidade cultural, “desse encontro insólito dum português, um alemão e um norte-americano”, como nos recorda Carlos Bica.
Ainda te lembras desse primeiro encontro com a guitarra de Frank Möbus nessa Berlim dos anos 1990, foi mesmo o momento zero de Carlos Bica & Azul? Foi mais o som dele que fez todo o sentido para criares o trio ou já andarias há procura desse músico para tudo isso ter lugar?
O nosso primeiro encontro foi fruto do acaso, mas a vontade de tocar com um músico como o Frank Möbus, já existia há algum tempo. Conheci o Frank no início dos anos 90, quando ele foi tocar, num certo dia, a um clube na cidade onde eu na altura estudava, Würzburg. Fiquei imediatamente fascinado pela sua mestria musical e pensei que, um dia, gostaria muito de tocar com aquele músico. Trocámos contactos e, mais tarde, combinámos fazer uma sessão juntos. Recordo-me de lhe ter então mostrado uma das minhas primeiras composições e de ele ter adorado. Esse pequeno momento deu-me uma enorme motivação e ajudou-me a acreditar que também eu era capaz de escrever as minhas próprias canções.
Quase parece a isso apontar esse “I Think I’ve Met You Before” em título, como porta de arranque nesse vosso Azul. Ou então uma outra bela estória para contar, é isso?
O título não tem qualquer relação com os músicos do trio. Foi antes o tom, de certo modo irónico, que me levou a escolhê-lo como título para a canção.
E a entrada do Jim Black, podes avivar a memória ou contar para quem não sabe como se deu?
Numa das sessões que fiz em casa do Frank, em Nürnberg, o Jim também estava presente. Eram amigos e tinham sido colegas na Berklee College of Music, em Boston. Nunca tinha ouvido ninguém tocar bateria daquela forma. Fiquei absolutamente maravilhado. Nesse momento, percebi que o trio estava encontrado. O som do trio nasceu precisamente desse encontro insólito dum português, um alemão e um norte-americano. É nessa diversidade cultural, alimentada pela escuta e liberdade criativa, que reside a identidade desta banda.
Pegando no mote dado por esse outro título, nestes 30 anos passados desde a edição de Azul, não foi uma tragédia de um homem condenado a ser poeta (contrabaixista), pois não?
De modo algum. Pelo contrário, foi uma verdadeira dádiva. O trio Azul marcou profundamente o meu percurso artístico. Durante muitos anos, dizer Carlos Bica era quase sinónimo de “Azul”.
Esse disco, e por conseguinte, o trio Azul teria sido possível sem a tua saída como músico de Lisboa para Berlim?
Ter vivido em Berlim nos anos 90 foi determinante para o meu percurso. Essa experiência abriu-me horizontes musicais e permitiu-me contactar com realidades artísticas que dificilmente teria encontrado em Portugal, um país que nessa altura vivia ainda muito isolado do restante panorama europeu. Não sei como teria sido o meu percurso se nunca tivesse saído de Portugal, mas estou certo de que teria sido muito diferente.
Depois de Twist (Enja, 1998), sucedendo a Azul, surgiu Look What They’ve Done To My Song (Enja, 2003), o que ainda hoje é um nome de álbum verdadeiramente estimulante para se ir ouvir. O que está por trás desse nome, que também é um tema?
Este título é, antes de mais, o de uma das faixas do álbum, uma canção de Melanie Safka, para a qual fiz um arranjo. Pareceu-me também o título ideal para o disco, porque traduz aquilo que tantas vezes acontece quando apresento as minhas músicas ao Jim e ao Frank. Eles desconstroem-nas, transformam-nas e tornam-nas suas — e esse é, na verdade, o meu maior desejo, que as minhas canções deixem de ser apenas minhas para passarem a ser nossas. Gosto de pensar na música como um espaço de múltiplas camadas de leitura, onde cada nova audição revela algo diferente e oferece sempre uma nova descoberta. Estes músicos permitem que isso aconteça.
Em 2006 há nesse Believer, um ponto charneira, e com a chamada de um giradisquista à tua música a trazer um som de mudança. Até que ponto concordarás que a entrada de DJ Illvibe, como convidado no trio Azul, traz um refrescante ar? Músico com que mais adiante vais gravar o impactante Playing With Beethoven (Clean Feed, 2023).
Estava em vésperas de gravar o álbum Believer e começava a germinar em mim a ideia de ter um músico convidado. No entanto, não conseguia imaginar um instrumento tradicional do jazz, como um saxofone, integrado no trio. Foi então que, numa ida a um clube de jazz em Berlim, ouvi o Vincent von Schlippenbach, mais conhecido como DJ Illvibe, a tocar com o seu pai, o reconhecido pianista de free jazz Alexander von Schlippenbach. Fiquei completamente fascinado. Nunca tinha ouvido alguém usar os gira-discos e os discos de vinil como um verdadeiro instrumento musical. Convidei-o de imediato para participar na gravação do álbum. Ele esteve apenas algumas horas em estúdio connosco, mas foram suficientes para gravar cinco das faixas de Believer. A experiência foi simplesmente maravilhosa e marcou profundamente o resultado final. O álbum Believer é, sem dúvida, um dos meus álbuns favoritos.
Hoje a cena jazz em Portugal nada tem que ver com esses tempos em que inscreves-te Azul. Como vês o actual cenário, e no qual te inseres obviamente? Que músicos há hoje e eram inimagináveis há 30 anos?
A cena do jazz em Portugal vive um momento de grande vitalidade. Existe hoje uma nova geração de músicos de enorme qualidade e talento, com linguagens estéticas muito diversificados. Atualmente, é possível encontrar no panorama nacional os músicos que se procura para o projecto em mente, sem que seja necessário recorrer a músicos estrangeiros. O meu quarteto 11:11 é um bom exemplo disso: José Soares, Eduardo Cardinho e Gonçalo Neto – todos músicos fantásticos.
Lembro-me bem de há uma ano no Funchal Jazz, quando já estavam a comemorar 30 anos de Azul de apresentares “Lucky”, e aproveitares para expressar o que significa tocares com estes companheiros a tua música — um sortudo. O que é que este trio te desperta ainda hoje e traz de significado para seguirem em palco?
Este trio já é uma família. Já tocamos juntos há mais de 30 anos. O facto de qualquer um de nós ter em paralelo outros projectos musicais, faz-nos sentir livres. Enquanto nos der prazer tocar juntos, este trio existirá.
O vosso último registo discográfico de originais é More Than This (Clean Feed), já de 2017, há novas composições para o trio depois disso?
Existem novas composições que ainda não foram registadas em disco. Neste momento, estou também envolvido noutros projectos, tais como como o quarteto 11:11 e o duo com João Barradas, cujo álbum será editado em Outubro deste ano. Esta entrega a novos desafios tem-me afastado temporariamente do Azul, embora o projeto continue vivo.
O que podemos esperar do trio Azul nos concertos que se aproximam? Na agenda está a actuação no gnration em Braga dia 11 de Julho, para o festival Julho é de Jazz, onde aliás estás em dose dupla, já que antes actuaste com a Maria João e o André Mehmari.
O público terá a oportunidade de ouvir um grupo com grande maturidade musical, sempre em busca do desconhecido. Embora toquemos canções — é assim que gosto de chamar às minhas composições — cada concerto ambiciona ser uma agradável surpresa, tanto para nós como para o público. É esse o meu maior desejo.