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Fotografia: Miguel Fernandes / Teatro das Figuras
Publicado a: 07/07/2026

Uma tela ao sabor da música (e do vento).

Mão Morta Redux com Pedro Serrazina na rampa do Teatro das Figuras: ode de sons e ceia das imagens 

Fotografia: Miguel Fernandes / Teatro das Figuras
Publicado a: 07/07/2026

Em 1956 surgia em actividade o Cineclube de Faro. Assim como mais tarde muitos outros pelo país, nessa altura emergia uma corrente urgente de cultura cinéfila. O primeiro tinha sido criado no Porto, em 1945, já retardando no tempo, quando em França na década de 1920 se constituíam os primeiríssimos. Em Portugal tudo chegava mais tarde — é sabido. “Quisemos abrir portas a 2 de Março […] mas a PIDE não deixou porque a folha de sala não tinha sido visada pela Comissão de Censura. Os nossos fundadores foram perseguidos e presos por várias vezes e depois de muitas tentativas… aconteceu a primeira sessão a 6 de Abril […]” como referem, em apresentação, os próprios que hoje levam por diante o cineclubismo em Faro. Ano de aniversário redondo, e 70 anos de actividade ininterrupta merecem um bem haja em forma festiva. Para a celebração um programa, uma estreia muito especial. Os Mão Morta Redux foram chamados a encenar em directo (e não para a televisão) curtas-metragens de Pedro Serrazina, e a surpresa na inclusão da dupla Nuno Canavarro e Bruno Miguel compondo para excertos de filmes da pioneira Germain Dulac. 

Ainda acerca da importância dos cineclubes — lugares de encontro com a arte, feitos de liberdade e resistência antifascista — “O cineclubismo foi o grande movimento cultural de massas antes do 25 de Abril” lembrava Henrique Espírito Santo (dirigente do cineclube Imagem de 1954—1970) a Sérgio Dias Branco. Actualmente existem pouco mais de trinta cineclubes de norte a sul, passando pelas ilhas. Muitos se extinguiram, mas nestes tempos continuam a ser um lugar fundamental. Onde ver o muito cinema de autor que não entra, nem entrará, nas salas de pipocas e refrigerantes de palhinha? Muitos cine-teatros, tantos equipamentos municipais, que nem sequer apresentam um dia sequer da semana com filmes. E nisto chegam as noites tropicais e essa ideia, meio que esquecida, do cinema ao ar livre, nas praças, sob as estrelas. Uma tela disposta ao vento demonstra-se como a melhor das salas de projecção de verão.

Deste associativismo agora septuagenário, lembramos a propósito que tem sido também uma casa editorial de relevância na matéria. Recorde-se a obra dedicada à dupla do cinema do real, em “António Reis e Margarida Cordeiro – A Poesia da Terra” (Cineclube de Faro, 1997). Para estes dois mestres cineastas “O grande erro do cinema é simplificar a realidade. Nós tentamos pegar na realidade e criar outra realidade — complexa. É pegar no real e acrescentar o que sentimos”, referia nesse livro Cordeiro, para melhor situar a sua acção, no campo das imagens. Vem isto na ligação à filmografia da francesa Germaine Dulac, cineasta de ampla craveira e que foi aliás a presidente da Fédération des ciné-clubs em França, apresentando jovens realizadores de então como Jean Vigo. Dulac tornou-se um nome seminal no cinema impressionista e surrealista, contemporânea de Buñuel que em 1929 traria esse libelo Un Chien Andaluz.

O cineclube local, numa co-produção com o Curtas de Vila do Conde — Festival Internacional de Cinema — que terá como parte no seu programa “Stereo” esta mesma sessão de cine-concerto — trouxe à rampa do Teatro das Figuras três filmes, Thèmes et Variations (1928), Études Cinégraphique Sur Une Arabesque (1929), Disque 957 (1928) e um excerto de um outro de Geramine Dulac, La Conquille et le Clergyman (1927). Todos do tempo do cinema mudo, e nisso surge uma motivação suplementar para recombinar sonoplastias à odisseia das imagens. A dupla de compositores Nuno Canavarro e Bruno Miguel Pinto foram chamados à criação de um corpo sonoro para essa função. Na base da tela, disposta e ancorada por cabos, um trio de músicos interpretes: Sofia Rocha, Francisco Fernandes e André Nadais, para teclado, clarinete e violoncelo. As imagens de Dulac, que procura de imediato uma fuga ao real, libertando-se em campos visuais caleidoscópios até, quer seja por dupla e tripla exposição de imagens em movimento sobrepostas, quer pelo recurso à repetição. Certo é que muito nos transportam para uma certa musicalidade. Canavarro e Miguel Pinto optam por fazer ligar e esse ritmo um tapete mais ambient e contemplativo, escapando ao decalcar na sonoridade o que as imagens evocam. Mas além disso vão ao baú dos sons e do arquivo colam recortes dessas antigas sonoplastias. Sequências que se tornam maquinais lembrando a marca de Dziga Vertov — outro contemporâneo de Dulac. Entre a dança da bailarina e os êmbolos, e rodas de engrenagens. 

A presença de Canavarro permanece tão marcante quanto misteriosa, depois do registo Plux Quba (Ama Romanta, 1988) e com Carlos Maria Trindade em Mr. Wollogallu (1991) o compositor dedicou-se de forma exclusiva a fazer bandas sonoras para filmes. Mantendo-se na sombra de qualquer holofote. Muito presente na filmografia de Fernando Vendrell, Fintar o Destino (1998), Almirante Reis (2000), O Gotejar da Luz (2002), Jogo da Glória(2002) e nas curtas 14 de Fevereiro (a 1 de Abril) (2003), Janelas Verdes (2006), A Casa da Montanha (2008) e Estrada de Nada (2015), estas duas últimas onde se mostra como realizador, além de assinar a banda-sonora. Em finais de Outubro próximo, em Braga, haverá oportunidade para nos acercarmos de novo à figura de Canavarro. Estreará na próxima edição do Semibreve a peça “/Radiant Rift”, voltando a estar com Bruno Miguel Pinto, numa encomenda do festival. E continuará a ser a melhor maneira de aceder ao universo de Canavarro, através e só pela sua música.

Quando os Mão Morta (pro-part) se apresentam para musicar imagens fazem-no como Mão Morta Redux. Redução feita aos três músicos com militância mais antiga na banda. Miguel Pedro, Adolfo Luxuria Canibal e António Rafael, trio que se apresentou numa das primeiras ocasiões na Anozero — Bienal de Arte Contemporânea de Coimbra, em 2019, para um cine-concerto com A Casa na Praça Trubnaia (1928) do realizador russo Boris Barnet. Dando início a um modus operandi que os levou a musicar em 2021 no Fórum Luísa Todi, em Setúbal — aquando do 3º Film Fest – Festival de Cinema Musicado Ao Vivo — o filme Rapsódia Satânica (1917) do realizador italiano Nino Oxilia. Essas foram as duas incursões no cinema mudo, mas 2025 haveria de trazer a proposta do cinema de animação aos Mão Morta Redux. No Batalha Centro de Cinema, no Porto, na passagem dos 30 anos da estreia de Estória do Gato e da Lua (1995), musicam ao vivo a projecção da versão expandida do filme de animação do realizador Pedro Serrazina. 

Serrazina apresenta o programa que lhes cabe na noite quente de Faro. Mostra-se fascinado pelas imagens e a possibilidade de se celebrar os filmes de Dulac volvidos quase cem anos. Deixa em desejo que o mesmo poderia talvez acontecer com os seus filmes — era muito bom sinal. O tempo e a A noite tem alinhada no canhão do projector DPC para três curta de animação. Os Olhos do Farol (2010) traz a idílica vida de um faroleiro e da sua filha que cresce e sonha com o mar e as suas estórias de aventuras. Para esta curta os Mão Morta Redux fazem uma nova abordagem, já que no original a animação conta com a banda sonora de Harry Escott. Dificilmente se conta uma outra narrativa de um filme por se lhe mudar a banda-sonora, mas pode-se esperar mudanças… Num exercício posterior, fruindo as duas possibilidades, fica a ideia que ganhou mais dramatismo, intensidade e até presença real com a musica do trio. Houve uma poética de maresia, quase permanente, vinda do teclado de Rafael. E as texturas nas programações de Miguel Pedro foram capazes de agigantar as ondas do mar ou trazer-lhe mais o dócil vai-e-vem à beira da água, aos pés descalços da pequena e dos seus mil e um barcos. 

Sombras de Nós Próprios (2025), a mais recente obra do cineasta-animador, enleia o medo e a desconfiança e desenha-se sobre os sistemas de vigilância da sociedade em que vivemos. Teve antestreia no Festival Internacional de Roterdão. É dessa apresentação que nos servimos das palavras de Miquel Martí Freixas sobre a obra: “O refugiado, o fugitivo, o perseguido. O escondido, o migrante, o estrangeiro. O recém-chegado, visto com desconfiança, olhares de medo e suspeita. Nesta evocativa animação em areia […], reavivam preconceitos ancestrais em relação ao ‘outro’, tão antigos e tão presentes. Palavras clandestinas, frases sussurradas, memórias escritas em noites de inverno à luz das velas.” Sarrazina nessa curta-conversa, antes do foco fazer luz na tela, fala-nos desse medo pelo outro e dos tempos de ansiedade, a propósito da obra que vamos ver (e ouvir). Aos Mão Morta Redux volta a caber a reinvenção sónica — o filme na versão original tem a assinatura no desenho dos sons de David Novack e Tarun Madupu. É sobretudo Miguel Pedro aos comandos das programações e de baquetas dispostas no dispositivo electrónico para receber o toque de disparo, que melhor serve a odisseia da animação. Às sombras e tons torrados da tela, feitas de contrastes, de presença e ausência, há uma teia sonora que acresce inquietude, e a tal ansiedade que Serrazina tinha evocado. Adensa-se na trama este som que vemos nascer logo à beira da projecção, mas que também desperta que estes tempos de migração trazem fantasmas do passado, mal resolvidos e contados. Esse mesmos, do colonialismo, do de fora ou dos sítios de dentro de portas, como o do Vale da Gafaria em Lagos, testemunho horrendo da brutalidade do tráfico negreiro de outrora neste agora. Afinal o outro somos nós, e a resolução de nós próprios é o que mais custa, e sem isso atendido o outro é que as paga. 

Mas o final cabe à lua e a sua luz um desejo, sabe-o o gato e sabemos todas e todos nós ali. Estorias do Gato e da Lua (1995) de volta à tela, na noite, que embora ainda não visse a lua (tardaria um nadinha a aparecer) teve uma extensão da animação, e na nova versão a curta vira média. A versão dos Guindais — o bairro portuense — como quem sobe, desce ou deambula entre o rio e o Batalha. Agora há imagens como vinhetas de banda-desenhada, entre as já clássicas imagens das sombras, luz, gatos e luares da versão original de escassos e deliciosos cinco minutos. A certa altura o universo dos Mão Morta acresce de sentido da versão musicada em Redux. Lembramos das imagens que acompanham algumas das estórias do álbum Mutantes S. 21 (1992). De repente esta música parece um extra desse marcante disco, como que um outro “Shambalah (o reino da luz)”. O gato, esse, lá prossegue a apanhar o luar, a projecção da lua entre as sombras e os vazios da cidade adormecida. Do longo poema que o diseur Canibal emprega animação adiante, retemos o final — em desfecho, numa inquieta serenidade: “Do tempo que passou espero apenas, o resto não importa”. 


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