pub

Fotografia: André Henriques
Publicado a: 07/07/2026

Mali e Bristol sobre um língua atlântica.

MIMO’26 – dia 3: o mundo entre muralhas

Fotografia: André Henriques
Publicado a: 07/07/2026

Não são muitos os festivais que fazem esta combinação entre património, história, artistas emergentes e consagrados, enquanto cruzam várias artes em palco, nas rodas de conversa e nas telas. Depois da primeira edição portuguesa, em Amarante, em 2016, e de uma passagem pelo Porto durante a pandemia, em 2022 o MIMO mudou-se para Guimarães. E se o primeiro já era auspicioso, este segundo casamento com uma cidade minhota pareceu-nos perfeito. Mesmo com um calor impiedoso e um relevo que colocou à prova os limites físicos dos visitantes. 

Neste último dia do MIMO, começámos novamente no jardim do Paço dos Duques à procura de uma sombra enquanto a voz da griot Mah Damba e a música memorial e ancestral do Mali embatia na fachada granítica do monumento. Clément Janinet no violino, Bruno Ducret no violoncelo e Élodie Pasquier nos clarinetes soprano e baixo estavam sentados ao lado de Damba. La Litanie Des Cimes & Mah Damba é um quarteto que ora aproxima o som dos instrumentos acústicos clássicos ocidentais de sonoridades orientais e africanas, sobretudo quando dedilham as cordas, ora expandem a música maliana com abordagens novas e próximas da música de câmara. Ao fecharmos os olhos, sentíamos que tanto a música como a temperatura nos colocavam no deserto. 

O ganês K.O.G. cancelou o concerto à ultima hora e abriu uma inesperada clareira na programação, que se ajustou rapidamente. Depois de jantar, éramos novamente desafiados por mais uma das íngremes ruas de Guimarães em direção ao castelo, a muralha erguia-se ao nosso lado e sobrevoavam-nos dezenas de andorinhas. São elas que habitam as fendas da muralha. Desaparecem nos buracos da pedra como quem acede a um portal. Era também com essa sensação de quem atravessa um pórtico que ficava ao entrar no campo de São Mamede. No palco, Zé Ibarra arrancava do violão e da sua voz peculiar a melancolia com que encharcava a plateia. A palavra é um dos centros da sua música. O músico carioca fez questão de dar “Itamonte” ao público português. Revelou que aqui sempre lhe cobram essa porque, provavelmente, são o público que melhor conhece o seu primeiro álbum Marquês, 256. O alinhamento oscilou entre temas desse disco e de Afim, com direito a uma canção nova – “Mágica” – que será gravada no seu próximo trabalho. O tema “Segredo” mostrou que a plateia conhecia toda a letra e confirmou essa relação estreita com Portugal. Já perto do final, Ibarra foi dizendo que estava ansioso pelo jogo da seleção brasileira no mundial e que também queria muito assistir. Depois da ovação final, todo o público virou costas e correu na direção de um ecrã. Os músicos fizeram o mesmo.

Poucos acontecimentos conseguem competir de igual para igual com um jogo do Brasil num Mundial. Ainda assim, havia quem permanecesse diante do palco para assistir ao inusitado espetáculo dos vimaranenses Unsafe Space Garden. Vestidos com as cores garridas com que se devem vestir as crianças, os nove músicos construíram um concerto simultaneamente cómico e desconcertante. Mas, depois de perfuradas essas primeiras camadas, surgiam a acidez e a intervenção. Era desse Cabaret Voltaire instalado sobre um palco que brotavam pérolas como “Todos somos contribuintes”, “O caralho é um sítio válido” ou “A vida não é uma merda — canta mesmo que não acredites”, frases que condensavam o surrealismo e as múltiplas camadas da sua música. Enquanto agradeciam os aplausos com a devida vénia, ouvia-se “A Canção é uma Arma”, de José Mário Branco. E o público sabia-o.

A Noruega tirou o Brasil do mundial e não temos a certeza que não tenha retirado algum do entusiasmo ao fecho do festival. Coube a Daddy G, membro fundador dos Massive Attack, e a Don Letts, um dos grandes arquitetos da ligação entre o punk britânico e o reggae jamaicano, encerrar três dias de música e encontros. A abertura foi quase cinematográfica: “Oh Fortuna”, de Uly E. Neuns, recriava a monumentalidade de Carmina Burana sobre uma pulsação reggae que preparava o terreno para mais uma viagem sem fronteiras. 

O alinhamento recusou qualquer ortodoxia. Bob Marley surgia naturalmente ao lado de Wayne Wade, Eva Lazarus cruzava-se com Stephen Warren, L Plus & Sukuward davam lugar ao drum and bass, enquanto um inesperado mashup de “Wicked Game” transformava o clássico de Chris Isaak numa inesperada peça de dança. Havia dub, reggae, jungle, funk, hip hop e bass music. Mais do que uma sucessão de canções, era uma cartografia da diáspora negra, dos clubes londrinos e da influência jamaicana na música popular das últimas décadas.

Já perto do fim, “Broadway Jungle (aka Dog War)”, de Toots & The Maytals, preparava a despedida. Mas a última surpresa estava reservada para o derradeiro tema. Sobre uma pulsação de drum and bass surgia “Unfinished Sympathy”. Durante alguns minutos, parecia que os Massive Attack também tinham passado pelo palco do MIMO. Pelo menos uma parte passou. 

Três dias depois, ficou mais difícil perceber onde terminava Guimarães e começava o mundo.


pub

Últimos da categoria: Reportagem

RBTV

Últimos artigos