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Fotografia: Hugo Sousa & Diogo Baptista
Publicado a: 06/07/2026

Reis e rainhas, príncipes e princesas voltam ao castelo.

MIMO’26 – dia 2: à sombra da música

Fotografia: Hugo Sousa & Diogo Baptista
Publicado a: 06/07/2026

Da luz inclemente da tarde à penumbra de Bristol, o segundo dia do MIMO percorreu a música brasileira, o hip hop português e o trip hop como quem atravessa um mapa sem fronteiras. 

O MIMO faz justiça à semântica original do seu nome. É um carinho, uma carícia suave e prolongada pela alma de quem lá passa. Reconhecemos uma ironia ao ver o mundo chegar assim a Guimarães, cruzando o Atlântico, depois de terem partido daqui os primeiros portugueses. É o movimento contrário ao desses argonautas: traz, em vez de levar; chega, em vez de partir.

Por aqui, está de ananases. O sol continua implacável. Chegamos ao Paço dos Duques por volta das cinco da tarde e o público ocupava todas as sombras que se desenhavam na relva. Ao sol, ninguém. Era insuportável. A humanidade não precisa só de luz, mas também de sombras.

Alzira E é o nome adoptado por Alzira Espíndola, em 2007, para uma carreira que, iniciada nos anos 70, atravessa a pop, o rock e as tradições do Centro-Oeste brasileiro com uma linguagem autoral profundamente poética. Da linhagem de Bethânia, Rita Lee e Elza Soares, Alzira é uma das grandes referências da composição brasileira contemporânea. Apresentou no MIMO o espectáculo Senhora do Tempo, ao lado de Marcelo Dworecki, baixista dos Bixiga 70, e de Chicão, nos teclados.

Foi um momento de poesia, palavra e inspiração. Quase sempre, antes de cada canção, surgia um verso ou um poema de Manoel de Barros, Tâmara Assunção, Conceição Evaristo ou Clarice Lispector, nas vozes de Tulipa Ruiz, Luiz Marinho ou Iara Rennó. Alguns versos continuam a ecoar na nossa cabeça: “ancora dos navios da nossa memória”, “o tempo é um rio que se enrola sobre si mesmo”, “eis a ciência da poesia: amarrar o tempo no poste”. A voz de Alzira vem das profundezas do ser. Percorre vielas e avenidas de uma alma velha e vivida, habitando, em equilíbrio, a leveza e a gravidade, o soturno e o amanhecer.

O programa marcava para o interlúdio entre a tarde e a noite de sábado um encontro inédito com a história da música brasileira. Os mestres Mauro Senise e Cristóvão Bastos formavam, com a diva Alaíde Costa, um trio lendário que visitou o choro, o jazz, a bossa nova e a canção brasileira como quem une um arquipélago.

O concerto dividiu-se em duas partes. Na primeira, Mauro, entre o saxofone e a flauta, e Cristóvão, ao piano, construíram um momento instrumental com composições de Radamés Gnattali, de Garoto e do próprio Cristóvão Bastos, em parceria com Paulinho da Viola. Os dois tocam juntos há cinquenta anos e, em palco, usufruem da liberdade que apenas uma cumplicidade antiga e uma certa intimidade permitem. Depois de “O Galo Fugiu”, chegava a hora de Alaíde subir ao palco. Aos 90 anos, e a celebrar sete décadas de uma carreira que partiu dos apartamentos cariocas onde nasceu a bossa nova, foi a cantora e compositora quem escolheu meticulosamente o alinhamento.

No MIMO, quando não estão em palco, os músicos vagueiam pelo recinto. Misturam-se entre o público para assistir aos concertos e, ao longo do dia, reconhecemo-los várias vezes nessa condição de espectadores. Havia bastantes neste concerto. Alaíde foi recebida como rainha, com um aplauso de pé. Confessou que não sabia muito bem se havia de dizer “boa tarde” ou “boa noite”. Na verdade, ninguém parecia saber ao certo se a tarde tinha terminado ou se a noite já começara.

A segunda parte do concerto transformou-se numa viagem pela história da canção brasileira através da voz de Alaíde Costa. Depois da abertura instrumental de Cristóvão Bastos e Mauro Senise desacelerar o tempo, o palco foi ocupado por algumas das melodias mais marcantes da música popular do Brasil: de Johnny Alf (“Eu e a Brisa”), um dos precursores da bossa nova, à sofisticação de Tom Jobim em “Dindi”, “Outra Vez” e “Medo de Amar”, passando pela delicadeza de “Me Deixa em Paz”, de Monsueto e Ayrton Amorim.

Pelo meio, houve ainda espaço para “Estranha Saudade”, num momento de absoluta intimidade apenas com voz e piano, e para a música de Cristóvão Bastos, integrando naturalmente a sua escrita na mesma linhagem dos mestres que ajudaram a definir a canção brasileira. Mais do que um desfile de clássicos, esta segunda metade afirmou uma tradição viva, onde memória, elegância e interpretação brotaram do timbre singular de Alaíde Costa. Havia lágrimas a escorrer em alguns rostos do público quando vimos libertar-se da árvore uma primeira folha, como se ali começasse o outono.

A penúltima canção trouxe ainda uma surpresa que tornou aquele momento mais especial. “Vou ter a ousadia de cantar uma música portuguesa com o meu sotaque”, disse Alaíde. O que talvez ninguém esperasse é que fosse a balada de Coimbra “Menino de Oiro”, de Zeca Afonso. Um momento que dificilmente se varrerá da memória de quem o testemunhou.

Melly trouxe ao MIMO um concerto que recusou fronteiras. O R&B servia apenas de ponto de partida para uma viagem que atravessava afro-pop, amapiano, soul, hip hop e pop contemporânea, sempre sustentada por uma voz de grande elasticidade e por uma presença em palco de uma serenidade desarmante. Entre temas de Amaríssima, álbum nomeado para um Grammy, e do recém-editado Mais Forte Que a Dúvida, Melly conciliou vulnerabilidade e afirmação com uma naturalidade rara.

Foi Papillon quem tomou conta do palco a seguir. Abriu com “¡+1!” e bastaram poucos compassos para perceber que aquele concerto se construía sobre uma relação intensa com o público. “Directamente do meu quarto em Mem Martins”, atirou a certa altura, como quem recorda o lugar onde tudo começou. O alinhamento cruzou temas novos, como “Abofobia” ou “Já Entendi”, com canções que o público já sabe de cor. Os conteúdos visuais, cuidadosamente trabalhados para cada música, prolongavam a escrita de Papillon para lá das palavras, reforçando a ideia de um espectáculo onde som, imagem e narrativa caminharam sempre lado a lado.

Quando a noite já reclamava definitivamente o castelo, chegou Tricky. Há artistas que ocupam um palco; Tricky ocupa uma atmosfera. O cuidado com o som denunciava-se antes mesmo da primeira nota. Um painel de acrílico erguia-se diante da bateria, controlando a propagação do som como quem prepara uma experiência num laboratório. Ao lado de Marta Złakowska e de mais três músicos, Tricky construiu um universo sonoro depurado quase obsessivamente. Ao contrário do que vimos no concerto dos Massive Attack, no Primavera Sound, não havia ecrãs. Nada que pudesse desviar ou distrair do que importava: o som imersivo de Bristol. A proposta parecia ser essa: procurar a beleza na penumbra. Manter o mistério. 

As canções recusam qualquer previsibilidade. Crescem devagar e terminam inesperadamente. Vozes etéreas atravessavam o espaço como aparições. A tensão é mais importante do que a resolução. O silêncio nunca é apenas silêncio e o ruído nunca é apenas ruído. Partilham a mesma matéria. Mais do que um concerto, foi uma experiência de imersão no som. 

Perto da 1h30, DJ Reborn assumiu a missão de devolver o corpo ao centro da festa. Este DJ set foi uma viagem sem passaporte. Percorreu o hip hop, dancehall, reggae, reggaeton, samba, funk e afrobeat com a naturalidade de quem conhece por dentro a história que liga todos esses ritmos. Beenie Man encontrava Mavado, Lumidee cruzava-se com Daddy Yankee, James Brown renascia num mashup improvável com DJ Prime, Eli Goulart e Banda do Mato abriam caminho para Skales, Karizma, DJ Flex, Bad Bunny ou Sister Nancy. Uma narrativa nostágica construída a partir de décadas de música negra e da diáspora.

Pelo meio, um problema técnico eclipsou a música durante alguns instantes. Mesmo assim ninguém arredou pé. O público permaneceu como se estivesse disposto a dançar até o silêncio. Fechou com “Can’t Take My Eyes Off of You”, na voz de Lauryn Hill. No ar ficou uma certeza: o MIMO continua a ser um lugar onde se encontram geografias, tempos e memórias. Um festival feito de luz e sombra, de noite e de dia, de partidas e regressos.


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