Há mais de cinco séculos que o Atlântico deixou de separar Portugal e Brasil para também os unir. O MIMO traça hoje uma nova travessia, uma nova rota sobre esse oceano, fazendo circular artistas, públicos e memórias entre as duas margens de uma língua comum. Ao longo de dez anos em Portugal, o festival recusou limitar-se a uma sucessão de concertos. Fez do património o seu principal palco, cruzou música, cinema, literatura, pensamento e artes visuais, construindo uma experiência onde as cidades participam tanto quanto os artistas. Nesta décima edição, regressa simbolicamente à origem. Guimarães, berço do reino, recebe um festival que continua a olhar para o futuro sem perder de vista o passado. Se Amarante nos conduzia pelas margens do Tâmega com passeios ribeirinhos, Guimarães encosta-nos à pedra, ao granito de que se faz a cidade. Aqui, a história paira sobre as ruas e o castelo vigia cada passo. O termómetro rondava os 40 graus quando chegámos. As pessoas reuniam-se nas fontes, escolhiam o lado sombrio das ruas, procuravam o abrigo de uma copa. O sol fere aqui.
Foi também à procura dessa sombra que entrámos no Centro Internacional das Artes José de Guimarães para assistir à conversa com Oumou Sangaré. Considerada uma das mais importantes vozes da música africana contemporânea e figura maior da tradição wassoulou do Mali, Sangaré falou para uma plateia atenta sobre as ligações entre tradição, modernidade e identidade cultural. “A música não precisa de língua para fazer os corpos dançar. É uma dança em todas as línguas. Não tem fronteiras”, afirmou. Mais tarde recordou que “a música tradicional é a deusa, a base de toda a música”, explicando que a sua obra nasce precisamente desse equilíbrio: “Faço muita música tradicional, mas com uma janela completamente aberta para a música moderna.” A conversa terminaria de forma inesperada, resumindo muitas das ideias que atravessam a sua carreira: “Deus é mulher.”
Seguimos depois para os jardins do Paço dos Duques, onde o primeiro concerto da tarde parecia condensar o próprio espírito do MIMO. Sob a sombra dos plátanos, o piano de Bianca Gismonti encontrou a guitarra de Manuel de Oliveira numa cumplicidade rara, construída sobre a escuta e a improvisação. A música parecia emanar das árvores e espalhar-se lentamente pelo jardim. Sentado na relva ou nas cadeiras dispersas pelo recinto, o público escutava em absoluto silêncio, como se a paisagem participasse naquele diálogo.
Entre a bossa nova, o jazz, o fado e a música erudita, as fronteiras diluiram-se. Foi precisamente nesses espaços para à improvisação que se revelou a profunda ligação entre os dois músicos. A meio do concerto, surgiu o poeta e fadista Ricardo Ribeiro. Em “Primavera”, piano e voz caminharam lado a lado com uma delicadeza impressionante. Seguiram-se “Depois de Ti”, “Andorinhas” e “Morena”, onde a voz de sangue de Ricardo Ribeiro parecia transportar consigo a memória de muitas geografias portuguesas. As palmas e o soluçar devolviam ao jardim um eco de fado antigo memórias árabes e festas ciganas.
Manuel de Oliveira estava em casa e reconhecia muitos rostos entre o público. Quando Bianca Gismonti e Ricardo Ribeiro abandonaram o palco, sorriu e perguntou: “Depois de um furacão, o que fazer?” A resposta chegou na forma de “Caminhos Magnéticos”, homenagem a Paco de Lucía, interpretada a solo num dos momentos mais belos da tarde.
Era hora de jantar e o calor permanecia imaculado mesmo depois do pôr do sol. A noite minhota adquiria um inesperado perfume tropical. Famílias, crianças e grupos de amigos ocupavam as ruas enquanto se cruzavam diferentes sotaques. O português do Brasil ecoava naturalmente pelas praças, misturando-se com o castelhano, o galego e o inglês. Estávamos em Guimarães, mas por momentos poderíamos estar em qualquer cidade da América do Sul, não fosse o granito das fachadas e a muralha do castelo.
O palco principal do MIMO ergue-se no Campo de São Mamede, onde Afonso Henriques derrotou a mãe e iniciou a construção do reino. Hoje já não é lugar de batalhas. É um enorme salão ao ar livre, com o castelo como cenário permanente. Na muralha projetava-se o nome do festival enquanto centenas de pessoas se acomodavam sobre a relva.
Foi ali que Oumou Sangaré regressou para um dos concertos mais aguardados da noite. A cantora maliana apresentou-se acompanhada por sete músicos – guitarras, baixo, bateria, teclados, kora e duas vozes de apoio – onde tradição e modernidade coexistiam sem esforço. A sua voz poderosa e tribal era o centro dessa música que continua profundamente enraizada na tradição wassoulou, mas permanentemente aberta ao presente.
As melodias desenhavam paisagens do Sahel, dunas do deserto no horizonte de Guimarães. A kora, a guitarra e o teclado iam descobrindo pequenos oásis onde cada arranjo parecia cuidadosamente esculpido. Havia sofisticação nos arranjos. Durante mais de uma hora, Guimarães pareceu deslocar-se para o coração do Mali.
Poucos minutos depois chegava uma mudança completa de latitude. Fernanda Abreu subia ao palco para celebrar os trinta anos de Da Lata, um dos discos fundamentais da música popular brasileira dos anos noventa. Foi precisamente esse álbum que consolidou a fusão entre funk carioca, samba, soul, hip hop e cultura urbana que a cantora vinha desenvolvendo desde o final dos anos oitenta.
Acompanhada por sete músicos – bateria, percussão, teclados, duas guitarras e duas vozes -, Fernanda Abreu entrou decidida a transformar o Campo de São Mamede numa enorme pista de dança. Três décadas depois, aquelas canções continuam surpreendentemente atuais. Soam frescas, cheias de balanço e atravessadas pela pulsão contagiante do Rio. Foi o concerto mais festivo da noite e também aquele que mais facilmente aproximou gerações diferentes no mesmo refrão.
Mas a madrugada ainda guardava outra viagem.
Andy Smith, arquiteto sonoro dos primeiros discos dos Portishead e um dos grandes nomes da cultura DJ britânica, assumiu os comandos para um percurso que parecia não reconhecer fronteiras. Do northern soul ao reggae, do hip hop ao funk, do rock alternativo ao jazz, tudo encontrava naturalmente o seu lugar numa narrativa construída com uma elegância rara, onde géneros, décadas e geografias pareciam pertencer à mesma história. Nirvana surgia ao lado de Massive Attack, Candi Staton encontrava Sean Paul e os Queens of the Stone Age cruzavam-se com clássicos da soul sem que nada parecesse deslocado ou martelado.
Mais do que impressionar pela variedade das escolhas, Smith mostrou sobretudo uma extraordinária capacidade para construir continuidade onde outros encontrariam apenas contraste ou corte. Cada mistura parecia inevitável. Terminou às 3h da madrugada quando o vento de leste começou a secar-nos o suor do rosto. Amanhã o MIMO promete novas travessias e calor.