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Fotografia: Direitos Reservados
Publicado a: 01/07/2026
Tags: Janeiro

E com um novo álbum à espreita.

Janeiro em Junho numa sexta-feira em Macau

Fotografia: Direitos Reservados
Publicado a: 01/07/2026
Tags: Janeiro

Começou na ponta dos pés e subiu até à nuca. Estamos num ambiente intimista, a meia luz, a sentir arrepios ao som de “Imune ao Ruído”, um tema do novo projeto de Janeiro que está a ser, pela primeira vez, apresentado ao público. Estamos a 11 mil quilómetros de Portugal. Bem-vindos a Macau.

Numa terra com 30km2, onde a oferta de concertos não é tão vasta, as expectativas atingem um outro patamar. Quando algum convidado pisa o território só tem duas hipóteses: ou surpreende, ou desilude. Na passada sexta-feira, Henrique Janeiro, conhecido artisticamente por Janeiro, atuou na “Las Vegas da Ásia” para dar um género de listening party do disco que vai lançar já em setembro, intitulado Reticências – Uma Nova Versão de Nós. O Rimas e Batidas assistiu ao espetáculo e, bem, temos muito para dizer (ou escrever, in casu).

Entrámos na Fantasy Box, no MGM Macau. Um sítio diferente, de esquina, numa terra que junta português e chinês, num género dançante que só aqui faz sentido. Depois de uns copos oferecidos no “lobby” da sala de espetáculos, as portas abrem e sabemos que está na hora. O espaço é pequeno, mas suficiente para o público que quis assistir. Temos três ecrãs que preenchem as paredes e o nosso campo de visão e várias filas de cadeiras para os espectadores se sentarem. Nós escolhemos o lugar do meio, da última fila. No palco conseguimos observar um piano de cauda, um Rhodes branco (semelhante a um Mark 1) e um teclado. Ao lado: uma guitarra clássica, uma elétrica e uma semiacústica.

O que outrora eram luzes de holofote a iluminar toda a sala, transforma-se gradualmente em luz ambiente e sobem a palco dois MCs para nos explicar o âmbito do concerto. Porque é que Janeiro está em Macau? Devido às comemorações de “Junho, o Mês de Portugal na RAEM” organizadas pelo Instituto Português do Oriente e pelo Consulado-Geral de Portugal em Macau e Hong Kong. Bem, burocracias à parte, que comece o espetáculo.

Os ecrãs passam de preto a coloridos, quase como se estivéssemos numa trip alucinogénica. Vemos um género de uma lava com glitter que se vai mexendo ao longo da hora de concerto. A branco conseguimos ler “Janeiro”. A personagem principal sobe a palco juntamente com Miguel Marôco, o músico português que o acompanhou nesta jornada asiática. Apresentam-se vestidos com minimalist outfits, estilo japonês. Janeiro assume as cordas, Marôco as teclas. E começamos.

Ouvimos um riff de guitarra e umas notas calmas de piano que acompanham o ritmo. A lírica começa com “fiquei a saber que ainda moro em ti”. Ouvimos um crescendo sonoro que se mantém estável e volta a acalmar no final da música. Chama-se “Nova versão de nós” e é uma das faixas que ainda não foram apresentadas a ninguém. Questionamos se será uma dedicatória a alguém. Parece. Mas após este presente melódico, batemos palmas e percebemos o tom do novo projeto.

Depois da track 1, Janeiro apresenta-se e oferece-nos um contexto. Ouvimos o namoro entre a guitarra elétrica e o Rhodes que dão à luz um retrato do dia-a-dia. É uma crítica social, um género de mensagem de esperança para o ouvinte. Apela à procura de força nas pequenas coisas e na arte. Ao caminharmos neste trilho estranho, reconhecemos. “Rir P’ra Não Chorar”, um tema de 2020 feito em colaboração com os brasileiros Paulo Novaes e Tó Brandileone. Janeiro puxou pelo público e este, tímido, lá se começou a soltar.

Depois do contexto, ouvimos mais um inédito: “Quem queres ser?” Janeiro agarra na guitarra clássica e Marôco troca para o teclado. É um tema mais mexido, mais irónico, mais “dancinha a dois”. Mas o artista canta de forma meio sarcástica e confessa: “sei de cor os teus passos todos, sei para onde vais, quem queres ser”. Podia ser uma confissão de amor? Podia, se Janeiro não atacasse com “sem mim ao teu lado ficas sem prazer” e nos destruísse o romance. Lembra uma valsinha marota, estilo Vaya con Dios, mas com um piscar de olho no final. Très bien, Henrique.

Segue-se outro tema com sabor a casa: “Vida Lá Fora”. Os instrumentos escolhidos foram os mesmos do tema anterior e situamo-nos no tempo. A faixa faz parte de Protocolar Vol. II, uma das colaborações de Janeiro com Paulo Novaes. O tema é doce e acalmou o público. Marôco faz os vocals que originalmente estão associados a Paulo Novaes e, pasme-se, não só conseguiu equiparar como elevou o momento. Estamos num registo mais slow… mais calmo… mais arrepiante. No final da música, o público acompanha a voz de Marôco e cantam em uníssono “tem vida lá fora”. E se toda esta cena, digna de filme, não fosse suficiente, a canção termina e Janeiro desabafa connosco, quão bons amigos que somos. A relação entre o músico português e Paulo Novaes passou de relativamente íntima a Protocolar. Ironia do destino. 

O próximo tema foi um dos mais surpreendentes da noite. Janeiro fala sobre o facto de ter passado por várias fases e fala-nos de uma realidade crescente, uma meta realidade que todos vivemos atualmente. Enquanto nos diz que estamos sistematicamente a fazer um bypass do que é real e que o FOMO nos bloqueia, apresenta o próximo título: “Deus algoritmo”. Por si só explicativo. Pega na guitarra semiacústica que é acompanhada pelo teclado e transporta-nos para a essência do Janeiro nesta sua nova fase. É uma música querida, ritmada, mas não excessivamente hype. É boa. A meio do tema, desafia o público para cantar “para nos conseguir guiar”. Este adere, com menos vergonha, e acaba por participar na melodia bonita que Janeiro nos ofereceu. Fomos espectadores e, ao mesmo tempo, colaboradores. O artista vestiu-nos a pele de back vocalists e o que aconteceu naquela sala foi algo de espetacular. Se toda a gente interpreta personas diariamente, aquelas foram as mais honestas que já vi.

Para tirar um pouco de lamechice da sala, o tema que ouvimos a seguir foi a rampa de lançamento de Fragmentos, o LP de 2018. Íntimo, melancólico e aborda o fim de um relacionamento. Entregou o que se esperava do tema. Neste, o público, por iniciativa própria, já adere facilmente. De seguida, mais um êxito. Este foi “o” tema que lançou o músico. “(Sem Título)”, um convite de Salvador Sobral que se tornou num dos maiores destaques do Festival da Canção de 2018. Há uma exploração da essência das relações afetivas e a urgência de aproveitar o momento presente. A faixa que é claramente cantada mais num registo à la Salvador Sobral, conseguiu transformar-se num som com a voz doce e o toque de Janeiro.  Este aproveitamento do presente sentiu-se ali e transbordou para o resto do concerto.

Chegamos a “Cor Lá Fora”, o primeiro single que antecipa o próximo projeto do músico. Lançado a 18 de Junho e já disponível nas plataformas de streaming, “Cor Lá Fora” aumentou a fasquia. A colaboração com Valter Lobo foi substituída por Marôco no instrumental, a voz continuou a ser a de Janeiro. Aqui voltamos ao registo do novo álbum, já marcado pelo lançamento da faixa e pelo tom da primeira música tocada nesta noite. O artista começa por assobiar de forma a interligar-se com os instrumentais. O público, mesmo não conhecendo, acompanha. Crianças, mais velhos, mais novos… tudo se torna um.

Quase no final do concerto, mais um presente. Um solo de piano acontece. Sentimos um clima mais melódico e entramos para dentro de uma banda sonora cinematográfica. A faixa transporta-nos para um local de reflexão, de sentimento, e é acompanhada por um humming de Janeiro que atribui um toque de Midas à canção. “Imune ao Ruído”, uma balada bem construída que fala, quiçá, de um amor não correspondido. “Beijo esquecido ou tiro ao lado”, “talvez estivesse perdido até me teres encontrado” e “nós nunca soubemos saber” são frases que ficaram tatuadas no corpo de quem as ouviu.

O concerto fechou, supostamente, com “Solidão”, de 2018. Este é, sem dúvida, dos temas mais ouvidos de Janeiro. Foi o mais mexido e, fez sentido, porque o próprio referiu que, aqui, “canta solidão a dançar”. Ouvimos a música através da guitarra semiacústica de Janeiro e do Rhodes de Miguel Marôco. Fazemos um pionés: parabéns ao responsável pelas luzes que fez um excelente trabalho. Ao longo do refrão, iluminações epiléticas criaram o ambiente. E é isso que se quer. Uma onda de felicidade trespassa para os corpos que se sentam nos lugares. O público bate palmas ao ritmo do tema, as crianças deliram e ainda temos direito a um solo de guitarra.

O único problema? Continuam todos sentados e só se mexem da cintura para cima. O concerto “termina” (já vão perceber as aspas) e Janeiro sai do palco. Como é típico das burocracias, é chamado de volta para lhe serem entregues flores. Agradecimentos para cá e para lá e chegamos ao encore. Promete duas músicas. Começa com a primeira e brinca com a letra e com o público. “Não tenho mais nada a dizer/Sei que tu vais acabar por me esquecer logo a mim” e acrescenta “depois do concerto”, o que provoca um riso geral, meio confrangido. Apela aos assobios do público e assim termina “Contas no Estrangeiro”.

Como o prometido é devido, os espectadores exigem que Janeiro toque, então, a música final. Janeiro pede uma sugestão musical e, num lugar não identificável, ouve-se uma voz que grita “Toca a canção da revolta!” Soube-se, mais tarde, que a música foi pedida pela prima da cantora, produtora e compositora Meta_ (Mariana Bragada). Numa belíssima prestação, com nota 20, Janeiro entregou o prometido. Mas a estrela nesta faixa foi Miguel Marôco. O músico não sabia o tema, não o tinha preparado sequer, mas acompanhou de forma deliciosa a melodia. O final do concerto foi uma cereja no topo do bolo. Tal como Marôco, o público — que não conhecia a música fais attention — cantou em uníssono a parte final (“ahhhh”). Passados cinco minutos de palmas, as luzes acenderam e os artistas já não se encontravam em palco.

Depois desta partilha bilateral, não podia deixar de frisar o seguinte: se todos os temas do próximo disco do músico português tiverem a qualidade que ouvimos neste concerto, o que está para vir é maravilhoso. Há um amadurecimento do pequeno jovem que participou no Festival da Canção em 2018. Oito anos depois, entrega-nos agora uma fase de vida diferente. Mais pensada, reflexiva, emotiva, bonita. Mais… sensível. Overall, 8.5/10.


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