Antes de se tornar figura de culto para sucessivas gerações de coleccionadores, diggers e DJs que aprenderam a escutar a história da música popular como um imenso arquivo vivo de ligações secretas, Andy Smith já era o homem a quem Geoff Barrow recorria quando os Portishead procuravam matéria-prima samplável para criarem a sua música. A sua colecção de discos, povoada por bandas sonoras, breaks, soul, funk, hip hop, reggae, jazz, rock’n’roll, northern soul ou obscuridades capazes de incendiar qualquer pista, ajudou a alimentar parte da distinta arquitectura sonora de Dummy e do segundo álbum dos Portishead, antes de Smith se afirmar também como DJ de digressão da banda de Bristol. Em 1998, com The Document, fixou em disco uma ideia que então parecia quase contra-intuitiva para uma edição de grande circulação: um mix multi-género que recusava fronteiras estanques e aproximava Tom Jones, Peggy Lee, Jungle Brothers, Marvin Gaye ou Spencer Davis Group como se todos pertencessem à mesma hstória. Na verdade, pertenciam todos à mesma mala de discos…
O tempo acabou por lhe dar razão. O que então podia ser lido como eclectismo radical tornou-se hoje uma espécie de método: escutar para lá do algoritmo, escavar para lá da disponibilidade imediata, entender a pista de dança como espaço de diversão, mas também de descoberta. A partir daí, Andy Smith assinou novas entradas na série Document, mergulhou no reggae com The Trojan Document e Greensleeves Document, explorou northern soul, jump blues, rockabilly, ska, funk, boogie e disco, trabalhou com Scott Hendy, dos Boca 45, em Dynamo Productions, e manteve uma actividade regular entre clubes, festivais, lojas de discos e emissões de rádio. Continua a viajar com malas cheias de vinil, continua a comprar discos, continua a procurar esse instante raro em que uma gravação esquecida de 1956 pode soar mais urgente do que muita música feita ontem. Nesta conversa, fala precisamente dessa fé no gesto táctil de escolher discos, da importância da curadoria humana na era da IA, do trabalho numa loja de discos londrina, da memória dos Portishead e da liberdade de tocar AC/DC no meio de um set num clube de música electrónica.
Estás a tocar num festival em que, no mesmo dia, há artistas do Mali e do Brasil no cartaz. Que tipo de set vais trazer para te encaixares nessa sequência?
Normalmente toco um set bastante variado. Muitas vezes, quando chego a um festival, nem sequer sei quem vai tocar antes ou depois de mim, por isso tento levar uma boa variedade de coisas. O meu saco vai cheio de tudo aquilo de que gosto. E eu gosto de muita coisa. Vai haver soul, old school hip hop, reggae, disco, talvez até algum old school house. Pode haver soul dos anos 60. Pode ir para qualquer lado, na verdade. Mas gosto de fazer a minha cena. Sigo em frente, divirto-me, e espero que, se eu me estiver a divertir, as pessoas no público também se divirtam.
Ainda viajas com vinil? Como é o teu setup hoje em dia?
Ainda viajo. Sou uma das poucas pessoas que ainda entra num avião com sacos de discos e que às vezes ainda tem de pagar extra para os levar. Mas também consigo tocar em digital e levo sempre uma cópia de segurança em digital, porque às vezes chegas a um concerto e há um problema com os gira-discos, há feedback, ou então estás num festival e há tanto vento que o disco até levanta do prato. Já me aconteceu. Por isso, levo sempre umas pen drives como backup, caso alguma coisa corra mal. Mas gosto simplesmente de mexer em discos e de puxar discos para fora. Faz parte da experiência táctil, de eu estar ali a sentir a vibração do público. Quando vejo DJs a tocar em CDJs, está tudo bem, eu não sou contra isso e continuo a divertir-me, mas não sabes realmente o que se está a passar. Não consegues ver o que está a acontecer. E eu acho que, quando consegues ver o que está a acontecer, há outra experiência. Há uma coisa visual. Não sei se as pessoas vão conseguir ver os pratos no festival, mas eu gosto de o fazer. Acho que é mais uma pequena coisa que liga as pessoas a mim e me liga a mim ao público. Se puder fazer alguma coisa que ajude a criar essa ligação, faço. E gosto de comprar discos, coleccionar discos e tocá-los.
Falando desse lado de coleccionador: ainda vais à procura de discos com regularidade?
Sim. Na verdade, agora também trabalho numa loja de discos. Trabalho numa loja chamada Flashback, que tem três lojas em Londres. Trabalho em duas delas, quatro dias por semana. Comecei a fazer isso depois da COVID-19, porque, quando saímos da COVID-19, pensei que talvez nunca mais conseguisse trabalhar como DJ. Não sabia se os clubes iam voltar a abrir. Então comecei a trabalhar na loja para passar o tempo e ganhar algum dinheiro. E gostei mesmo muito. Não quis deixar. Agora faço isso e faço DJ sets ao fim-de-semana, tentando encaixar as duas coisas. É óptimo porque, basicamente, sou o comprador nas lojas onde estou. Compro soul, funk, hip hop, jazz, esse tipo de coisas. As pessoas aparecem com montes de discos e eu vejo o que há ali. Tenho a primeira escolha em relação a qualquer coisa que esteja à procura. E às vezes penso: “Ah, gosto disto para mim”, e compro. Eu já tive uma loja de discos e, na maior parte dos dias, em vez de dinheiro, levava discos para casa. Era um acordo terrível.
Portanto, continuam a chegar muitos discos em segunda mão ao balcão?
Sim, sim. Muitas vezes as pessoas telefonam e dizem: “Tenho uma sala cheia de discos, podem vir ver?” E, se eu perceber que há ali coisas boas, tiro um dia de folga e vou comprar a colecção em nome da loja. Também vou ver colecções a casa das pessoas.
Imagino que as prateleiras atrás de ti sejam apenas uma pequena parte da colecção. Tens ideia de quantos discos tens?
Nunca os contei. Compro discos praticamente desde 1978, quase todas as semanas desde então. Portanto, vai-se acumulando. Esta é a divisão no sótão, que transformámos na minha sala de discos, com os pratos e os discos. Há discos por todo o lado nesta sala. Não sei mesmo quantos são. Tenho muitos singles de sete polegadas e provavelmente vou tocar só sete polegadas neste festival, porque são mais fáceis de transportar. Mas não sei. Dez mil, talvez. Não faço ideia.
Também toco singles de sete polegadas e tento tocar quase exclusivamente jazz, que não é propriamente a música mais fácil de encontrar nesse formato. Mas isso faz parte do desafio. Nos últimos anos, começaste a recuar um pouco mais no tempo, não ficando apenas nos anos 70, mas chegando aos anos 50 e 60. Muitos DJs da nossa geração começaram a tocar música mais antiga: jazz, rhythm and blues mais antigo, rockabilly. Porque achas que isso acontece? É também uma reacção à era digital, em que tudo parece estar disponível? Para tocar algo que não esteja normalmente disponível é preciso recuar mais na história?
Acho que é em parte isso. Faz parte da mentalidade de coleccionador: encontrar coisas que talvez não estejam no Spotify ou em streaming. Pessoalmente, tento sempre ouvir música nova. Na loja, há música a tocar o dia todo, o que é óptimo, e também sou exposto a coisas mais recentes. Mas acho a música mais antiga mais excitante. Se é algo que nunca ouvi antes, foi editado em 1956, mexe comigo, excita-me e acredito que vai mexer com um público, compro. Pego no disco e fico entusiasmado: “Isto é óptimo, nunca ouvi isto na vida.” Muita música nova é um bocado mais genérica. Parece tudo um pouco igual. Tudo é feito para tocar na rádio, tudo é feito segundo uma fórmula. E eu acho que, nessa época, aqueles estilos musicais estavam a nascer. As pessoas estavam a tentar encontrar uma nova maneira de fazer as coisas, algo que fosse diferente. Se alguém fizer isso agora, óptimo, eu vou interessar-me. Mas sinto que não há música moderna suficiente a abrir caminhos novos, porque os artistas modernos que tentam abrir caminhos novos têm dificuldade em chegar a algum lado, infelizmente. Por isso, volto atrás.
Acho que tudo começou quando trabalhava com os Portishead e estava sempre à procura de samples. Estava consciente da forma como o hip hop samplava música antiga, por isso recuava e procurava samples de funk, jazz e bandas sonoras. Depois comecei a tocar coisas dos anos 60 e lembro-me de pensar: “Isto não é uma música dos anos 70, mas gosto mesmo disto. A voz é fantástica.” Não era nada que fosse propriamente passar ao Geoff para ele samplar, mas gostava mesmo daquela música. Ia encontrando essas coisas com o meu gira-discos portátil numa loja qualquer na América e descobria toda esta música antiga que me parecia incrivelmente excitante. No Reino Unido acho que se pode fazer isso. Não sei se noutros países é exactamente assim, embora isso esteja a mudar. No Reino Unido há clubes ligados à northern soul, por exemplo, que tocam essa música desde que ela apareceu, desde o final dos anos 60 até hoje. Posso ir a uma noite no norte de Inglaterra e ouvir música de 1964 a 1973 a noite inteira, com a sala cheia. Ainda há pessoas que querem ouvir isso. Há noites de rockabilly, noites de rock’n’roll, onde se ouvem apenas coisas dos anos 50. Essas noites continuam a existir. Por isso, acho que sempre houve no Reino Unido esta história da música antiga continuar a ser relevante. Não sei se é igual noutros sítios, mas acho que está a acontecer mais. Hoje ouves falar de noites de soul na América. Antigamente ninguém ligava à soul dos anos 60, que é aquilo que se tocava no Reino Unido. Eram os coleccionadores que compravam esses discos. Agora vês uma noite de soul em Los Angeles, uma noite de soul em Detroit, e estão a tocar coisas que nós continuamos a tocar no Reino Unido e que já tocávamos nessa altura. Houve sempre esta ideia de que um movimento histórico pode continuar a ser excitante, pode continuar a ser uma noite excitante.
É muito diferente tocar num clube ou num festival. Nessas situações de festival, consegues dar-me alguns exemplos de discos que nunca falham perante grandes multidões? Aquelas secret weapons a que regressas sempre?
Depende do festival, do tamanho da área onde estás a tocar, de estares num espaço fechado ou não, de poderes arriscar certas coisas. Mas há sempre old school hip hop que posso tocar e que sei que vai pôr as pessoas numa boa vibração. É excitante. Acho que já não se ouve sempre. Também há rhythm and blues dos anos 50 que me soa simplesmente excitante. Há muitas coisas de exótica, aqueles temas dos anos 60 meio sleazy, dançáveis, que acho divertidos e excitantes. Ou até reggae antigo, roots reggae dos anos 70. Tens de escolher bem, tens de começar com uma coisa forte. Mas, depois de os agarrares, podes ir um pouco mais fundo. Para mim, o reggae dos anos 70 é o melhor reggae. Também gosto de dancehall dos anos 80, de dancehall dos anos 90, de ska, de onde tudo começou. Mas o reggae dos anos 70 é simplesmente bonito. Soa bem, quando está bem gravado, e muito dele está. Soa cru, duro, pesado. Soará sempre assim.
Quando penso na série The Document, lembro-me de ter descoberto muita coisa no primeiro volume, em 1998. Apontou-me várias direcções que depois fui explorando. Essa ideia de curadoria parece-me hoje o oposto do que o algoritmo faz quando usamos serviços de streaming. Achas que ainda há lugar para essa curadoria humana na era da inteligência artificial?
Acredito que sim. Acho que é mais importante agora do que nunca. E acho que tens razão. Eu atravesso tantos géneros musicais diferentes que, se pedisses à IA para fazer um set de DJ Andy Smith, talvez ela tivesse problemas. Tenho de experimentar isso um dia, para ver o que acontece. Mas acho que é importante ir contra a corrente. Eu sempre fui contra a corrente. E as pessoas parecem gostar de algo um pouco diferente. Lembro-me de tocar nos anos 90 no Electric Chair, em Manchester, que era um clube muito bom, onde as pessoas estavam muito abertas. Era ecléctico, mas sobretudo orientado para música de dança, música electrónica. Lembro-me de uma vez tocar lá. A sala era enorme, talvez 600 ou 700 pessoas. E, a meio do set, toquei um disco de AC/DC. Ainda hoje há pessoas que se aproximam de mim e dizem: “Lembro-me de ir ao Electric Chair e tu tocares AC/DC. Foi fantástico.” Metade da sala não sabia o que fazer e a outra metade enlouqueceu. E eu pensei: óptimo. Não me importo que metade da sala tenha ficado um pouco confusa, porque a outra metade explodiu. E agora estás a falar comigo 20 ou 25 anos depois e lembras-te desse momento. Missão cumprida. Isso é fantástico. Pelo menos fiquei na tua memória porque toquei AC/DC a meio de um set. Às vezes gosto de fazer isso. Quer dizer que talvez as pessoas se lembrem de ti, espero que pelas razões certas.
Ainda manténs algumas noites regulares? Clubes que organizes ou onde toques com frequência?
Sim, há alguns sítios em Londres onde toco. Há um espaço no sul de Londres onde toco há cinco, seis, sete, talvez oito anos, chamado Rivoli Ballroom. É um antigo salão de baile dos anos 50, onde faço várias noites diferentes. Eles têm uma noite regular de northern soul, e eu faço essa. Depois faço uma noite de pop e rock antigo, de que também gosto muito. E faço uma noite de rare groove e boogie. Aí podes ir um pouco mais fundo. E, mais uma vez, são 500 ou 600 pessoas. Elas adoram. Vêm pessoas de toda a Londres, e provavelmente de todo o país, para algumas dessas noites. Essa é provavelmente a noite de que mais gosto. Também toco em bares pequenos, mas não é a mesma coisa. O Rivoli Ballroom é o sítio para mim. Durante muito tempo fiz Madame Jojo’s, com o Keb Darge, e depois com outro tipo chamado Dave Crozier. Foi o meu clube favorito durante muito tempo. Ficava em Soho. Fiz isso todos os sábados durante nove anos. Infelizmente fechou por circunstâncias desastrosas e nunca reabriu. O clube continua fechado até hoje. Mas acho que o Rivoli Ballroom acabou por tomar um pouco o lugar do Madame Jojo’s. É o meu sítio favorito.
E quanto a novas compilações? Estás a trabalhar em alguma coisa? Quando podemos voltar a ver o teu nome num disco?
É estranho, porque todo o mundo das compilações mudou. Quantas pessoas compram compilações? Não há assim tantas pessoas a comprar, porque usam Spotify e tudo isso. A última que fiz oficialmente foi para a BBE. Fiz três volumes de compilações de disco, porque também adoro temas de disco. Mas a próxima coisa que quero fazer é interessante. Se alguém se lembrar de me ver a tocar antes dos Portishead nas digressões de 1995 e 1997, há muito tempo, eu fazia um warm-up set. Também fazia um scratch set antes da banda entrar. Mas, antes disso, fazia um warm-up mesmo quando as pessoas estavam a entrar, onde tocava bandas sonoras e algumas breaks originais. Tocava sobretudo muitas bandas sonoras de Ennio Morricone, John Barry, Barry Gray, muitas bandas sonoras italianas e coisas assim. Acho que vou fazer um CD de bandas sonoras, que será praticamente aquilo que eu tocava antes dos Portishead e coisas que encontrei desde então e que teria tocado se as tivesse na altura. Será uma coisa muito diferente, não um CD de pista de dança, mas uma coisa para ouvir em casa. Ouço esses temas hoje e continuam a resistir ao teste do tempo. Soam-me ainda incríveis. Era óptimo tocá-los num sistema de som tão fantástico. Nunca tinhas ouvido aquelas bandas sonoras num sistema de som incrível, a não ser que fosses ver os Portishead todas as noites durante seis meses. Ficaram na minha memória como peças de música belíssimas. Por isso, mesmo que este seja o último CD que eu faça, não sei se outras editoras vão querer que eu faça mais, não sei se isso ainda é viável, parece-me bonito voltar ao início e fazer um CD com as coisas que eu tocava antes dos Portishead, que ajudavam a definir o tom do concerto. Para mim, essa era a parte original das influências dos Portishead, porque a música dos Portishead era, de certa forma, bandas sonoras misturadas com hip hop. Eu fazia a parte das bandas sonoras e depois fazia a parte de scratch e hip hop antes da banda entrar. Isto é regressar à parte das bandas sonoras, o que é uma forma bonita de voltar ao ponto de partida.