Ao telefone, Alaíde Costa faz um resumo da sua trajetória musical. “Eu comecei na rádio em programas de calouros em 1952. Tinha 16 anos na época, hoje eu estou com 90, e 70 anos de carreira”, afirma. “Passei a contar minha carreira a partir do primeiro trabalho como profissional”. A conta dela é feita a partir de 1955 quando foi contratada para cantar na Dancing Avenida, casa noturna do Rio de Janeiro. Um ano depois, pela gravadora Mocambo, grava seu compacto de estreia (78 rpm) com a música “Tens que pagar”, feita em parceria com Airton Amorim.
Naquele período, ela já frequentava os encontros da “turma da bossa nova” [João Gilberto, Vinicius de Moraes, Ronaldo Bôscoli, Carlos Lyra, Roberto Menescal, Sylvia Telles, Billy Blanco]. Porém, mesmo fazendo parte do movimento que abriria as portas da música brasileira para o mundo, Alaíde não teve o mesmo reconhecimento que seus contemporâneos brancos e abastados. “Eu tive uma batalha muito grande pelas minhas escolhas musicais”, reflete, lembrando do “silenciamento” de sua voz. Porém, não lamenta.
De fala suave e pausada, refletindo a idade, Alaíde Costa celebra o reconhecimento que tem tido em vida. “Finalmente eu consegui, depois de 70 anos”, observa. “Depois que a pessoa morre não vê, não acompanha, porque está em outra esfera. Então, em vida eu acho que é bem melhor, né?” Mesmo com a demora para que esse momento chegasse, os frutos do que plantou nos anos de 1950 estão sendo colhidos. Pergunto qual é o segredo para essa longevidade e a energia que tem para continuar gravando e fazendo shows em diferentes países. Ela responde que não sabe explicar.
“Ah, eu não sei, só Deus, né? Deus é que me deu essa força e essa vontade de permanecer cantando”. Esse vigor também inspira e reflete no público que a acompanha atualmente e as parcerias que faz, seja com Emicida ou Luedji Luna.
“Tem sido muito gratificante, né… e outra coisa que eu gostaria de dizer é que atualmente não são as pessoas da minha época que acompanham. Tem alguns, mas a maioria da plateia, quando eu me apresento, é de jovens”, ressalta. “Isso aí eu também não consigo explicar porque acontece. Eu acho que os jovens devem estar meio carentes de um tipo de música que eu faço. Então eu acho que é por aí”.
Relembrada sempre por sua participação na arquitetura da bossa nova, como observa Nelson Motta no livro Noites Tropicais, Alaíde diz ser uma cantora “de música brasileira”. “Canto de tudo, sabe? Recentemente, eu fiz um disco em homenagem a Dalva de Oliveira [Uma estrela para Dalva, de 2025]. Não tem nada a ver com bossa nova.” Se distanciando cada vez mais desse período no qual foi “abandonada” pelo caminho, não recebendo o devido valor, a legendária cantora está gravando mais um disco com Emicida e Marcus Preto, que faz parte da série iniciada em 2022 com o sensível O Que Meus Calos Dizem Sobre Mim. Também se junta ao pianista Cristóvão Bastos e o flautista e saxofonista Mauro Senise para um concerto no MIMO Festival, em Guimarães, no dia 04 de julho. O encontro une samba, choro e canção brasileira. “Foi uma surpresa ser convidada por eles”, diz Alaíde, que mantém o repertório em segredo.
Dois dias antes da apresentação, 2 de julho, será exibido A Noite de Alaíde, documentário de Liliane Mucci que revisita a trajetória dela. “É emocionante. Eu assisti lá em Paris quando foi apresentado lá”, lembra. “A gente fica emocionada. Eu não tenho palavras para traduzir o que eu senti no momento, sabe!?” Através de memórias, arquivos e testemunhos, inclusive da própria artista, o filme recupera o percurso feito ao longo de sete décadas e revisita sua ausência no histórico concerto dos “representantes” da bossa no Carnegie Hall, em Nova Iorque. É uma história rica que serve de registro para futuras gerações terem acesso no futuro.
“Menino, eu não sei te falar do que eu penso. Aliás, eu nunca parei para pensar”, diz. “Só sei que eu estou muito, mas muito menos feliz. Por, afinal, ter a chance de mostrar para as pessoas mais jovens. Tem alguns trechos difíceis da minha carreira. É o meu trabalho, a minha luta”.