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Fotografia: Humberto Mouco
Publicado a: 29/06/2026

A cantora volta à estrada para uma digressão em conjunto com André Mehmari e Carlos Bica.

Maria João: “O que eu mais gosto na música é a aventura, a surpresa, o inesperado”

Fotografia: Humberto Mouco
Publicado a: 29/06/2026

Seis concertos espalhados pelo país, em trio, e de onde resultará um disco ao vivo. É esta a proposta mais recente da icónica cantora jazz portuguesa Maria João Grancha, que percorrerá os palcos de Portugal mais uma vez, agora acompanhada por dois brilhantes músicos: André Mehmari, pianista brasileiro com quem tem trabalhado em discos mais recentes, e Carlos Bica, contrabaixista português com quem se estreou no panorama jazzístico internacional, nos primórdios da sua carreira. Bem no arranque de Julho, passam pelo Teatro das Figuras (Faro, dia 1), Teatro José Lúcio da Silva (Leiria, dia 2), Convento São Francisco (Coimbra, dia 3), Theatro Circo (Braga, dia 4), Teatro Aveirense (Aveiro, dia 5) e Teatro Tivoli BBVA (Lisboa, dia 6).

Maria João traz consigo uma carreira não só longa e vasta, mas extremamente rica — desde a sua incontornável e duradoura colaboração com Mário Laginha, até à mais recente incursão na eletrónica com o conjunto OGRE Electric, sem esquecer parcerias com músicos absolutamente notáveis como Bobby McFerrin ou Gilberto Gil. A cantora tornou-se sinónimo de uma musicalidade sublime, constante reinvenção e uma criatividade que a faz desafiar constantemente os limites e barreiras do jazz, com propostas sempre genuínas e refrescantes. Conta agora, em entrevista ao Rimas e Batidas, o quanto esta sede por liberdade e por um sentido de aventura na interpretação a molda como artista, e como esta característica é, para si, fulcral para se denominar como tal.

Neste novo ciclo de concertos traz-nos, então, mais uma nova faceta do seu trabalho. Como reflete em conversa, faz-se acompanhar de dois músicos com estéticas algo díspares — Mehmari mais exuberante e Bica mais contemplativo —, revisita a sua amada música brasileira, mas, acima de tudo, e como sempre, embarca num projeto em que o resultado é inesperado — e é precisamente essa inexpectabilidade a força que a move.



A primeira coisa que eu reparei neste alinhamento para os próximos espetáculos é que a Maria João conta com a participação do André Mehmari, um músico que se juntou a si num dos seus trabalhos mais recentes — aliás, o seu trigésimo disco — e, quase por oposição, do Carlos Bica, um músico que a acompanha já desde os primórdios da sua carreira, tendo a Maria João referido anteriormente que os dois possuem já uma ideia musical conjunta. Como é que o André Mehmari entra nesta ideia musical conjunta que a Maria João refere ter com o Carlos Bica e o que é que é mais palpável para si no que ele traz de novo a nível sonoro?

Pois, essa é uma excelente, excelente pergunta, porque nenhum de nós sabe o que é que vai acontecer, sabes? Porque eles são muito diferentes. O Bica é muito mais minimalista na sua aproximação à música e o André é um virtuoso. O Bica também o é, mas o André é um virtuoso muito exuberante, sabes? E então vai ser a primeira vez que nós os três vamos tocar juntos. Eu trabalho regularmente com o André e com o Bica, mas isto vai ser um trio completamente novo. Nós vamos estar à descoberta uns dos outros. É claro que eu tenho sempre a ideia e a memória das coisas que fiz com o Bica e das coisas que fiz com o André. E eu estou ali mais ou menos confortável no meio, porque já faço música com os dois. Mas nós os três… é que nem eu te sei dizer o que é que vai ser. Não sei! Não sei como é que nos vamos encaixar uns com os outros, e acho isso uma coisa maravilhosa, sabes? Porque está aberta a toda a aventura. Toda a aventura possível. E isso é o que eu mais gosto na música, é a aventura, a surpresa, o inesperado. Essas são as coisas absolutamente mais importantes para mim na música. Portanto, partimos à descoberta nós os três: uns dos outros e da música em nós.

O disco Algodão, em que trabalhou com André Mehmari, é mais um dos trabalhos em que colaborou com artistas brasileiros, depois outros nomes como Egberto Gismonti ou Gilberto Gil. 

E com o Guinga. Com o Guinga eu tive uma parceria pela primeira vez em 2012. Ele convidou-me para eu ir lá, para eu ir ao Brasil tocar o seu repertório, imagina! Imagina eu, acabadinha de o conhecer e ao repertório dele… epá, foi uma coisa incrível. Durante vários anos tocámos juntos, fizemos dois discos juntos, um em parceria e outro em que fiz parte, o Porto da Madama, que saiu já há não sei quanto tempo atrás mas que teve edição nas plataformas digitais este ano apenas. E então eu tenho muitas parcerias, é verdade, com músicos brasileiros.

O que é que considera que destaca André Mehmari na abordagem que ele faz à música brasileira? E como é que a Maria João explora a sua liberdade interpretativa na música brasileira?

O André é uma pérola preciosa brasileira, sabes? É um músico absolutamente extraordinário, e um virtuoso que toca tudo e mais alguma coisa, e também canta… mas eu canto melhor! [risos] E eu digo “ai que bom, André, que alívio, pelo menos isso: eu canto melhor que tu”. E ele ri muito e fica contente. Mas a aproximação dele à música brasileira, à música do seu país, ele gosta muito das coisas mais eruditas — popular-eruditas, digamos assim — e gosta muito das coisas do folclore brasileiro, o sertão, o sertanejo… tem essa aproximação, ao mesmo tempo que é um músico que vem do jazz, um músico que improvisa, que gosta de improvisar… O André junta tudo isto, e o folclore brasileiro é riquíssimo — a música do Brasil é riquíssima. É um país muito grande, com muitas influências, com muitas coisas diferentes nos seus universos, lugares… O André tem isso tudo em si. E mais do que ter o conhecimento em si, tem a apetência para o fazer, para usar toda essa influência que faz parte da sua vida.

Por acaso, a propósito dessa questão sobre o que é um músico de jazz, o seu colega André Mehmari disse numa entrevista que não considera este disco que fez consigo como um disco de jazz, e que hoje em dia este termo é utilizado por comodidade ou para tapar lacunas. A Maria João concorda com esta posição?

Ai, ele disse isso? Não sabia [risos]. Mas quer dizer, hoje, eu acho que as fronteiras são muito ténues. Dentro do jazz cabe tudo e mais alguma coisa e as fronteiras são ténues. Mas um disco clássico de jazz, não é. É um disco cheio que experimentação, cheio de harmonias exquisite, melodias incríveis, letras… Portanto, tem esse cuidado e essa riqueza, que acho que fazem muito parte do mundo do jazz. Mas eu também não o chamaria um disco de jazz. É um disco de música contemporânea, moderna, vá. Mas olha, eu não sei mais o que é que é jazz [risos]. Eu mantenho a minha ignorância. Eu acho que a minha ignorância, ao princípio, era uma aflição para mim, mas com o tempo, acho que é se calhar uma mais-valia. Porque essa ignorância permite-me uma frescura constante, e um não planear constante. Então eu tenho sempre dificuldade em chamar nomes às coisas que faço, estás a ver? “Aquilo é aquilo, aquilo é o outro”… Não sei, não sei! Eu só faço. Eu faço a música, mas não sei chamar nomes às coisas [risos].

Sobre um dos seus trabalhos mais recentes com o Carlos Bica, Close to You, a Maria João já falou sobre como foi difícil escolher o material a incorporar no álbum, por quererem interpretar standards mas quererem sempre fazê-lo de forma original. O que é que acabou por ser importante para vocês na escolha dos standards que fizeram para exaltar essa vossa voz musical?

A ideia era nós fazermos uma coisa que… eu toquei com o Bica lá atrás, até aos anos noventa, mais ou menos até aí. E depois não toquei mais, nós deixámos de tocar, em ’91 talvez. Deixámos de tocar durante estes anos todos, por nenhuma razão, porque depois eu e o Mário tivemos um duo, depois apaixonámo-nos um pelo outro, eu e o Mário, e depois a coisa continuou. A colaboração com o Mário tinha trios, quartetos, quintetos, big bands, orquestras… tudo coube nesse projeto. E então o tempo, a música, o coração e o intelecto ficaram ocupados. Enfim. O Bica também foi fazer outras coisas. Depois nós crescemos cada um para seu lado a fazer as coisas de que gostamos, não é? De vez em quando eu via-o e há um tempo atrás disse-lhe: “Oh Bica, ‘bora lá tocar juntos!” “Ah, vamos, vamos”, dizia ele, “Vamos fazer qualquer coisa que tenha que ver com aquela música lá atrás, que nós gostávamos naquela altura quando nós éramos mais miúdos e começámos a cantar e a tocar.” E então, começou por aí. E depois falámos também do Burt Bacharach, que eu adoro o Burt Bacharach, e escolhemos umas coisas, depois fomos escolhendo outras, mas foi muito difícil, porque eu e o Bica crescemos, desenvolvemo-nos de maneira muito diferente, sabes? E eu gosto de coisas musculadas, power, rápidas, e o Bica é muito contemplativo, muito minimalista. E então, para nós conseguirmos encontrar material que gostássemos foi uma barraca. A gente discutia… nós discutíamos tanto nos ensaios que a dada altura eu disse: “Epá, desisto”. Os outros músicos faziam apostas a ver quem é que ganhava a discussão [risos]. Mas não era uma discussão dramática. Lá nos entendemos e o disco ficou muito bonito, eu achei que ficou bonito. Nós conseguimos encontrar-nos. Agora a grande barraca vai ser nós fazermos um Close to You número 2. Já começámos a discutir. 

Ah! 

Já estou a pensar… Vou ser eu a dizer-lhe: “Não, não, não, não, não!” E ele: “Não, não, não, não, não!” [risos]. Mas isso é só mais lá para a frente. Agora é o trio, este trio, que é uma oportunidade incrível de fazer música inesperada.

No seu trabalho mais recente, não só com o André Mehmari mas também com outro dos seus projetos, o OGRE Electric com o João Farinha, a Maria João tem trabalhado cada vez mais a área da eletrónica, já contando com 4 discos com os OGRE e um caminho no ramo que continua a progredir. O que é que a fascina tanto nesta exploração da eletrónica e como é que acha que o público recebe esta nova vertente do seu trabalho?

Pois, essa também é uma excelente questão. Desenvolvi este amor pela eletrónica por causa do Joe Zawinul, porque cantei com ele 2 anos, fui convidada dele do Syndicate, entre 2000 e 2002, por aí, e eu ficava encantada com aquilo, a parafernália de teclados à volta dele, que à altura… não eram propriamente computadores, mas eram mega teclados à volta dele. E eu fiquei apaixonada por aquilo. E tentei fazer com o Mário também, insisti: “Agora vamos fazer uma coisa que meta eletrónica”. Só que nem eu, nem ele realmente percebemos dessa maneira de fazer as coisas, não é? O Mário é um pianista, ponto final, é um pianista e compositor, claro, e arranjador, mas não é uma pessoa que soubesse acerca da eletrónica. E eu tampouco. Então, depois conheci o João Farinha, alguém que tinha o mesmo gosto e que sabia daquilo que eu não sabia. Sou muito apaixonada pela eletrónica e por todas as possibilidades que se podem fazer com a eletrónica. E claro que ao princípio as pessoas diziam: “Ah, sim, eu gosto, mas tenho saudades dos trabalhos com o Mário” e mais não sei o quê. Acho que as pessoas não perceberam durante um tempo que é o dever de todo artista andar para a frente, fazer coisas novas, dar meia volta, correr todos os riscos e não estar sempre comodamente sentado naquilo que sabe fazer e em que é muito bem sucedido. O meu trabalho com o Mário era super bem sucedido, corria tudo muito bem, mas em alguma altura a gente… Eu sentia que nos estávamos a repetir, sabes? Eu dava por mim a fazer solos e a repetir-me, repetir-me… Aí tens de fazer uma pausa, algures. Então agora quando faço… Eu continuo a fazer coisas com o Mário, pontualmente, então quando nos encontramos é incrivelmente fresco e novo. Mas naquela fase nós tínhamos tantos concertos, uns a seguir aos outros, que a dada altura sentia que me repetia, que o Mário se repetia, nós juntos nos repetíamos…. E então eu acho que as pessoas ao dizerem isso era um pouco injusto, porque é ingrato não compreender essa missão do artista, que é de se mudar, de andar para a frente, experimentar coisas novas, arriscar tudo. Também voltar ao princípio: correr riscos, cometer erros. E é isso que eu tenho feito. Sou muito curiosa e quero ir à procura. Isto é uma coisa tão valiosa como as outras. E é muito interessante, as pessoas vão ver os concertos, enchem as salas e no fim levantam-se e fazem “uéééé!” [risos] E isso é uma felicidade para mim.

O André Mehmari tem uma frase que eu achei muito engraçada, em que ele a descrevia como se fosse uma orquestra de vozes. Acha que isto de alguma forma reflete as possibilidades tímbricas que a eletrónica lhe traz? Acha que há aqui um paralelo que faz a mistura funcionar tão bem?

Não, eu não comparo, porque a voz, para todos os efeitos, é um instrumento orgânico, é uma coisa que está aqui dentro, não é? E mesmo quando eu estou a fazer música eletrónica e a usar a eletrónica, ao princípio eu também tentei usar efeitos na voz, mas era horrível e era tão pouco natural… Eu pensava: “Mas eu posso fazer isto, não preciso de um aparelho para fazer coisas porque eu posso fazer.” Eu tenho essa possibilidade porque o meu instrumento é muito versátil e a minha cabeça também [risos]. O meu corpo, fisicamente, é muito versátil e a minha cabeça também, então uma pessoa não precisa da eletrónica, isso eu não gosto de fazer. Quer dizer, gosto de usar reverb ou delay para dar amplitude, espaço à nota, estás a ver? Mas mais do que isso não. Acho muito invasivo e eu não gosto. Então o que eu faço sou eu, acústica, lá no meio, eu com a minha vozinha, multitasking por todos os lados. O André costuma dizer isso e eu fico muito feliz que ele ache isso e que isso seja uma mais-valia para nós quando fazemos música.

Por último, há alguma coisa que a Maria João possa adiantar sobre aquilo que gostava de fazer no futuro, nomeadamente novos projetos que gostasse de encabeçar com o André Mehmari e o Carlos Bica, ou algo de específico no ramo da eletrónica? Alguns standards que tenha, até, em mente por onde pegar no futuro?

Olha, nós temos agora este trio, o trio com o André e o Bica e eu, portanto chama-se João Mehmari Bica, é o nosso filho. Portanto todos os concertos que vamos fazer vão ser gravados e serão para posterior edição em vinil e CD, e também a televisão vai gravar um ou outro destes seis concertos que nós vamos ter. E também tem uma outra coisa que eu tenho feito que é só voz. Por exemplo, fiz um projeto em Serpa, que são vários artistas, cada um faz música para um dos artigos da Constituição. A mim coube-me, adivinha lá, Liberdade de Expressão — só podia ser. Eu fiz música só com voz. E quando estive na África do Sul também fui cantar a Robin Island, onde o Nelson Mandela esteve preso 18 anos da sua vida. Eles fizeram a introdução do Cape Town Jazz Festival lá e convidaram quatro músicos — um deles era eu. A aparelhagem era de fugir, o técnico de som ainda mais, não dava para fazer com ninguém… Então fiz eu sozinha, fiz seis minutos sozinha a cantar, assim, uau! Eu já tenho esta ideia, de fazer coisas só com voz, ou mais baseadas na voz. Vou fazer um projeto com o João Farinha, que no final do ano também toca em Lisboa, terá o seu primeiro concerto, que é muito focado na voz e na eletrónica — não me perguntes o quê que eu também não sei exatamente o que é que vai dar. E no outro dia também fiz música para duas instalações luminosas no Porto só com voz. Também continuo a dar aulas, algo que gosto muito, porque faz-me aprender com as pessoas. Depois toco com outras pessoas que me convidam, mas os meus projetos agora são estes três: o Abundância, o último disco que eu gravei em Moçambique com os meus irmãos e irmãs africanos de coração; este trio com o André e o Bica; e também esse projeto com o João Farinha. É isto e é bom. É bastante coisa. 

Deve ter uma gestão de tempo incrível para conseguir fazer isso tudo. 

Ah pois. Quando as pessoas me perguntam que exercícios é que faço para manter a voz, eu digo: “Faço desporto. Natação todos os dias, treino corrida, vou para os campos ou para os trilhos, faço caminhadas, faço uma arte marcial com leques…” Faço uma série de coisas, continuo a fazer, porque o corpo é o meu instrumento, estás a ver? E também para poupar, eu não posso estar a cantar ou a falar o tempo todo. Tenho de fazer uma boa gestão e isso quer dizer que também há uma grande dose de solidão quando tu és cantor, porque tu tens que gerir a tua voz. Portanto, a seguir aos concertos, eu não vou para lado nenhum jantar ou fazer seja o que for, eu fecho a boca, não janto e vou para o hotel. E eu que não durmo, fico a olhar a televisão, mas eu não me importo de nada disso. Eu aprendi a amar esta solidão que a música exige, que o meu instrumento exige de mim. Isso é absolutamente fundamental para mim. Gosto imenso de estar sozinha e adoro voltar para casa, amo.


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