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Fotografia: Janette Beckman
Publicado a: 26/06/2026

I Want You vai ser revisitado pelo cantor ao vivo em Lisboa.

José James: “Marvin Gaye sempre quis ser um cantor de jazz”

Fotografia: Janette Beckman
Publicado a: 26/06/2026

Ao longo da última década, José James tem vindo a construir uma singular galeria de retratos da música negra norte-americana. Billie Holiday, Bill Withers, Erykah Badu ou, mais recentemente, as paisagens sonoras da década de 1970 foram inspirando entradas na sua discografia que se podem entender capítulos de uma investigação contínua sobre as raízes e as ramificações de uma tradição artística que continua a projectar-se no presente e de que ele é, sem a menor sombra de dúvida, um herdeiro directo e um intérprete de excelência.

Desde a estreia com The Dreamer, em 2008, o cantor nascido em Minneapolis afirmou-se como uma das vozes mais distintas da sua geração, construindo uma obra que atravessa jazz, soul, hip hop e R&B contemporâneo sem nunca se deixar limitar pelas fronteiras de qualquer desses territórios. Ao longo de mais de uma dezena de álbuns, colaborou com nomes tão diversos como Robert Glasper, Flying Lotus, Christian McBride ou Pino Palladino, ao mesmo tempo que foi consolidando uma linguagem própria assente numa rara capacidade para aproximar a sofisticação harmónica do jazz da sensibilidade melódica da canção soul.

Mas se José James se tem revelado um intérprete singular, também se tem afirmado como um atento leitor da história da música negra norte-americana. Foi isso que o levou a revisitar o repertório de Billie Holiday em Yesterday I Had the Blues, a celebrar Bill Withers em Lean On Me ou a mergulhar no universo de Erykah Badu em On & On, álbum em cuja capa se adivinhava ainda uma vénia à Alice Coltrane de Journey in Satchidananda. E será essa mesma curiosidade que o conduzirá em breve a Frank Sinatra, figura a quem dedicará The Best Is Yet To Come, projecto actualmente em preparação e que contará com arranjos de John Clayton, como nos revela nesta conversa.

Antes disso, porém, José James regressa a Lisboa para apresentar um espectáculo que ocupa um lugar especial no seu universo pessoal. Acompanhado pela cantora China Moses — filha da lenda do jazz Dee Dee Bridgewater e do encenador Gilbert Moses — e por uma banda escolhida especificamente para a ocasião — Marcus Machado na guitarra, BIGYUKI nos teclados, Jharis Yokley na bateria e Parker McAllister no baixo —, celebrará os cinquenta anos de I Want You, o álbum que Marvin Gaye gravou em estreita colaboração com Leon Ware e que o próprio James descreve como o seu disco favorito de todos os tempos. Uma escolha reveladora: entre a sensualidade da soul music, a sofisticação da escrita de Ware e a aproximação de Marvin Gaye a uma linguagem harmonicamente mais próxima do jazz, I Want You permanece como uma obra decisiva, cuja influência se estende de Anita Baker e Sade a D’Angelo, Erykah Badu ou Kendrick Lamar.

Foi precisamente a propósito desse espectáculo, que chega ao Teatro Tivoli BBVA no próximo dia 3 de Julho, que conversámos com José James sobre Marvin Gaye, Leon Ware, a permanência destas canções meio século depois da sua criação e o lugar que a grande música negra americana continua a ocupar no seu próprio percurso artístico.



Quando e como surgiu a ideia de apresentar I Want You ao vivo? Devo dizer que é um dos meus discos favoritos de sempre…

Vou contar a história completa. Estava em Los Angeles, por volta de 2016, a trabalhar em Love in a Time of Madness para a Blue Note. Um dos artistas que participou nesse disco foi Mali Music, o grande cantor de gospel e R&B. Nessa altura abri um concerto da Christian McBride Big Band no Disney Hall e o Mali juntou-se a mim em palco. Foi uma noite muito especial, porque havia ali uma mistura muito bonita de gospel, R&B e jazz. E isso fez-me pensar que seria incrível apresentar I Want You ao vivo com alguém como o Mali Music, o Bilal, a Ledisi ou a China Moses. Ninguém tinha feito isso antes. Foi aí que a ideia começou realmente a ganhar forma. Depois passei anos a falar com pessoas diferentes sobre a melhor maneira de concretizar o projecto. Havia dois grandes desafios. O primeiro era reunir uma banda verdadeiramente capaz de tocar esta música por dentro. Não bastava tocar as notas certas, era preciso compreender a linguagem daquele álbum, toda a sua subtileza harmónica e emocional. O segundo desafio tinha a ver com as vozes. Há muitos grandes cantores de R&B que não ouvem a harmonia jazzística dessa forma. E há muitos excelentes cantores de jazz que ouvem perfeitamente essa harmonia mas não conseguem cantar R&B com autenticidade. Não são muitas as pessoas capazes de fazer ambas as coisas ao mais alto nível. Talvez uma dezena de cantores em todo o mundo. A ideia foi amadurecendo durante anos até que me apercebi de que estávamos a aproximar-nos do 50.º aniversário do álbum. Pensei: temos de fazer isto agora. Fizemos as primeiras apresentações este ano, nos Estados Unidos, com Lizz Wright, e foi uma experiência extraordinária. Sou fã deste disco. Tal como tu, é o meu álbum favorito de todos os tempos. Ouvir estas canções ao vivo foi emocionante enquanto admirador da obra. E interpretá-las foi igualmente revelador porque começamos a perceber ainda melhor todas as suas intricadas camadas de composição, toda a arquitectura das canções, toda a genialidade de Leon Ware. Uma das coisas que descobri ao mergulhar neste repertório foi que Marvin Gaye nunca chegou verdadeiramente a apresentar este álbum ao vivo. Tocava uma ou outra canção em concerto, mas nunca fez uma digressão centrada em I Want You enquanto obra completa. E isso significa que muitos dos seus próprios fãs nunca tiveram oportunidade de escutar estas canções em palco. Há algo de muito bonito em poder proporcionar essa experiência cinquenta anos depois. É um espectáculo que acaba por ligar diferentes gerações através de uma música que continua a soar absolutamente contemporânea.

A formação que traz à Europa é a mesma que apresentou este espectáculo nos Estados Unidos?

Praticamente. A única diferença é o baixista. Em Los Angeles toquei com Ben Williams; na Europa será Parker McAllister. São ambos músicos extraordinários. Costumo dizer que Los Angeles tem o Ben Williams e Brooklyn tem o Parker. Fora isso, é exactamente a mesma banda.

Confesso que conhecia menos o trabalho de China Moses. O que pode dizer sobre ela?

A China é filha de Dee Dee Bridgewater e ocupa um lugar muito interessante entre o jazz e o R&B. Tem uma alegria contagiante, uma presença muito forte e aquilo a que eu chamaria uma espécie de beleza feroz em palco. É uma intérprete extraordinária e traz uma enorme riqueza à experiência ao vivo. Achei que seria a parceira ideal para este projecto porque existe um contraste interessante entre nós. Eu sou uma pessoa mais descontraída, mais reservada em palco. Gosto de atrair o público para dentro da música. A China tem uma energia muito mais expansiva, explode literalmente diante da audiência. Há um equilíbrio muito bonito entre essas duas abordagens. Além disso, como I Want You dura apenas cerca de 47 minutos, decidimos acrescentar algo mais ao espectáculo. Cada um de nós apresentará também música própria influenciada por Marvin Gaye. Achei interessante mostrar como essa herança continua viva no presente. Não se trata apenas de celebrar um álbum histórico; trata-se também de mostrar como aquelas ideias continuam a ecoar na música que fazemos hoje.

Da última vez que conversámos, a propósito de 1978, falou longamente da influência de Marvin Gaye e também de Leon Ware. É isso que torna I Want You mais especial para si do que discos como What’s Going On ou Let’s Get It On?

Penso que sim. Este álbum é uma obra conceptual total. É uma obra-prima abrangente, daquelas que criam um universo próprio. E acho que hoje tomamos isso como algo adquirido porque muitos dos grandes discos que vieram depois beberam directamente daqui. Sem I Want You não teríamos Voodoo de D’Angelo. Não teríamos Mama’s Gun de Erykah Badu. Não teríamos Anita Baker tal como a conhecemos. Não existiria a estética Quiet Storm. Não existiria o movimento neo-soul. Tudo isso nasce, de uma forma ou de outra, do encontro entre Leon Ware e Marvin Gaye neste álbum. Há também um aspecto histórico muito importante. Este foi o primeiro disco da Motown produzido por uma única pessoa. Foi a primeira vez que uma editora tão centrada na lógica dos singles apresentou um álbum com uma visão verdadeiramente unificada, um som coerente do princípio ao fim. Isso é revolucionário. E depois há Marvin. Marvin sempre quis ser um cantor de jazz. Acho que neste álbum encontrou finalmente o equilíbrio perfeito entre a harmonia do jazz, o fraseado do jazz e aquela paisagem sensual de R&B e disco que definia os anos 70. Isso só foi possível porque Leon Ware era um compositor extraordinariamente aventureiro do ponto de vista harmónico. As suas canções criavam espaço para Marvin explorar essa faceta. Para mim, I Want You representa a fusão perfeita entre as mentes dos dois. É como quando pensamos em Quincy Jones e Michael Jackson a criar grandeza em conjunto. Aqui temos Leon Ware e Marvin Gaye. Não estou a dizer que os outros discos de Marvin não são grandes obras — porque são — mas nenhum deles me parece tão coeso como I Want You.

Existe a possibilidade de este projecto resultar num álbum ao vivo?

Não. E isso é deliberado. Quero que isto permaneça uma experiência exclusivamente ao vivo. Se estiveste lá, ouviste e sentiste aquelas canções naquele momento. Cada noite é diferente. Cada concerto é diferente. Há algo de muito especial nisso. Estamos a viver uma época dominada pela inteligência artificial, pela necessidade de registar tudo, arquivar tudo, documentar tudo. Parece que nada pode simplesmente acontecer e desaparecer. E penso que, por vezes, é responsabilidade dos artistas desacelerar e dizer: isto existe apenas aqui e agora. Quero oferecer algo completamente único. Se estiveste presente, levas essa memória contigo para sempre. Se não estiveste, tudo bem, mas perdeste algo que não poderá ser reproduzido exactamente da mesma forma. Há valor nisso. Há valor na singularidade do momento.

Este projecto é também mais um capítulo da sua viagem pela grande música negra americana. Já homenageou Billie Holiday, Bill Withers, Erykah Badu e outras figuras fundamentais. O que une todos esses nomes?

É uma excelente pergunta. Penso que todos eles foram rebeldes à sua maneira. Eram simultaneamente figuras de dentro e de fora do sistema. Faziam parte da indústria, mas também a desafiavam. Mudavam as regras enquanto jogavam o jogo. Eram todos profundamente políticos, mesmo quando não estavam a fazer música explicitamente política. Lideravam pelo exemplo. Olho para Bill Withers e vejo alguém que alcançou um sucesso extraordinário enquanto compositor e intérprete e que depois tomou uma decisão quase impensável: afastou-se da indústria para viver a sua vida como um homem negro livre. Isso é uma afirmação poderosíssima. Olho para Billie Holiday a gravar “Strange Fruit”. Para Marvin Gaye a desafiar a Motown a partir de dentro. Para Nat King Cole, que nunca abandonou verdadeiramente o jazz apesar de todo o seu sucesso comercial. Para Erykah Badu, que continua a fazer exactamente aquilo que quer fazer, independentemente das expectativas de quem a rodeia. Mas há outra coisa que os une. Nenhum deles transmite a sensação de estar satisfeito com o que já alcançou. Respeitam o passado, mas continuam sempre em movimento. Continuam a desdobrar-se em novas formas. Isso é profundamente jazzístico. É a mesma atitude que encontramos em John Coltrane ou Miles Davis: a procura constante de um novo patamar de evolução. E todos eles são incrivelmente prolíficos. Estão sempre a criar novas ideias, novos projectos, novas linguagens. Basta olhar para a actividade criativa de Erykah Badu. Os discos, as mixtapes, os artistas que apoia, o trabalho visual. Honestamente, às vezes olho para a sua página de Instagram e penso que aquilo já é uma obra de arte por si só. Admiro essa ética de trabalho. Admiro essa paixão. Admiro essa procura incessante pela grandeza.

Também deve haver algo de particularmente emocionante em cantar estas canções de amor num momento tão turbulento como aquele que atravessamos.

Sem dúvida. Precisamos dessa paz. Precisamos desse conforto. Precisamos desse espaço de respiração no meio da loucura do mundo. Claro que também há coisas bonitas a acontecer. Estou em Nova Iorque e toda a cidade vive um momento especial por causa dos Knicks. O Mundial de Futebol também está aqui. Há muita energia positiva. Mas, ao mesmo tempo, todos sentimos a pressão constante do ruído, da violência e da ansiedade que nos rodeiam. A música oferece-nos uma janela para outro lugar. Colocas um disco de Stevie Wonder, Marvin Gaye, Aretha Franklin ou Al Green a tocar e, durante aquela hora, entras noutro mundo. Tudo parece ficar bem. A vibração da sala muda. A vibração do teu corpo muda. A vibração do teu espírito muda. Costumo dizer que é impossível estar zangado enquanto se ouve Stevie Wonder.

Talvez fosse possível resolver algumas guerras com um sistema de som suficientemente grande que tocasse a música certa.

Talvez funcionasse [risos].

Depois de 1978, qual será o próximo capítulo da sua discografia?

O próximo projecto chama-se The Best Is Yet To Come e será um tributo a Frank Sinatra gravado com uma big band.

Não estava à espera dessa resposta.

Muita gente não está. Os arranjos serão de John Clayton, que considero provavelmente o maior arranjador de jazz vivo. Estou muito entusiasmado com aquilo que estamos a preparar. Acho que Frank Sinatra é uma figura um pouco mal compreendida. Todos reconhecem a sua importância na música popular americana, mas nem sempre se percebe a profundidade da sua ligação ao jazz. Sinatra seguiu um caminho muito semelhante ao de Billie Holiday. Ela foi uma enorme influência para ele. A diferença é que acabou por se tornar uma estrela pop ao percorrer esse caminho. O seu fraseado é extraordinário. O seu sentido rítmico é profundamente jazzístico. E aquilo que fez socialmente também foi muito importante. Basta pensar no seu papel na dessegregação de Las Vegas. Quero olhar para ele a partir dessa perspectiva. Quero reconhecer a sua dimensão como cantor de jazz e revisitar algumas das escolhas mais ousadas da sua carreira. A criação da sua própria editora independente. O apoio que deu a outros artistas. E discos como Watertown, uma obra conceptual muito ambiciosa que foi incompreendida no seu tempo e que acabou por ser recebida de forma bastante negativa. Sinto que faz parte da minha responsabilidade regressar a estes artistas e olhar para além dos êxitos. Procurar a pessoa por trás do mito. Procurar aquilo que continua a falar connosco hoje. Porque todos conhecemos as canções famosas. O mais interessante é descobrir o que essas figuras ainda têm para nos ensinar no presente.

Podemos esperar The Best Is Yet To Come ainda durante este ano?

Não, só no próximo ano. Ainda nem sequer gravámos o disco. Estamos neste momento a reunir todas as peças do projecto. O John Clayton já está a bordo e isso, por si só, é muito entusiasmante. A ideia é lançar um primeiro single entre Janeiro e Fevereiro e, depois, editar o álbum completo na Primavera. Ainda estamos numa fase inicial, mas estou muito entusiasmado. É um projecto importante para mim porque me permite olhar para Frank Sinatra de uma forma diferente daquela a que estamos habituados. Todos conhecem os êxitos e a dimensão icónica da sua carreira, mas eu gosto de ir mais fundo, de descobrir as histórias menos óbvias e os momentos mais arriscados de artistas que julgamos já conhecer completamente. Foi isso que procurei fazer com Billie Holiday, Bill Withers, Erykah Badu ou Marvin Gaye, e é isso que pretendo fazer agora com Sinatra. No fundo, interessa-me perceber o que ainda podemos aprender com estas figuras hoje. O que permanece vivo na sua música, na sua visão artística e nas escolhas que fizeram. É aí que encontro inspiração para continuar a avançar e a criar a minha própria música.


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