“Que sensação é aquela de quando nos afastamos das pessoas e elas vão ficando para trás na planície, até vermos os seus pontinhos a dispersarem-se? É o mundo, demasiado vasto, a ultrapassar-nos, e é um adeus. Mas inclinamo-nos para a próxima aventura louca sob os céus”, escrevia Jack Kerouac em On The Road. Tommy Guerrero, lendário skater da Bones Brigade, guitarrista e compositor apresentou-se passado um ano, depois da estreia em 2025, nos palcos portugueses. Guerrero que assume que estar em digressão “é tal e qual como andar de skate”: “Cresci a viajar muito. Adoro viajar. E quando chego a casa, se fico lá mais de duas semanas, fico louco. Só me apetece partir — estar na estrada”, como nos referia logo a abrir a conversa tida antes do concerto no farense Teatro das Figuras.
O grande palco do teatro parecia em demasia para a entrada em cena de um só músico, até mais à medida do que nos ia dando conta Josh Lippi — baixista do trio com que Tommy Guerrero tem feito sucessivas digressões —, que não fazia aquele número de entrada em cena, como antecâmara dos restantes elementos da banda. Lippi estava para uma surpresa na primeira parte do concerto — a abrir para Guerrero. O baixista de Sacramento estava por sua conta, mas deixando de lado o baixo e empenhando uma guitarra barítono onde ia, tema atrás de tema, discorrendo partes de Lady Rae. Como fez questão de assumir, trata-se um registo-compilação de temas compostos por e para a sua bebé. Instrumentais meditativos, temas de embalar. Malhas bem trabalhadas e explorando uma maior complexidade sonora do que Lippi traz como músico-suporte da guitarra no trio de Guerrero. Uma acto musical de grande honestidade e uma forma sábia de colmatar as saudades e de um encurtar distâncias ao lar que vai ficando longe quando se anda na estrada. Contudo, um cancioneiro que pede uma escuta apartada daquele contexto de abertura para um outro concerto; e uma vez que a imaginada ideia de um berço a ondular, ou as voltas e voltas para adormecer ao colo, nos ia provocando uma sonolência algo indesejável para o concerto que se seguiria.
Para além de Lippi, Guerrero no seu trio faz-se acompanhar de Matt Rodriguez — outro hábil skater, que conquistou as ruas de Sacramento, fazendo parte da Stereo Skateboards, e quando em 1994 melhor se dava a conhecer com o vídeo “A Visual Sound”, prontamente associava o fluxo livre do seu andamento ao som das congas. Passados todos estes anos anos isso ainda é sua identidade. A “bateria” de palco tem um par de congas e concerto adiante revelam esse sentido no seu som, servindo o companheiro Guerrero com uma matriz tropical de suavidade e fluxos leves e quentes. Rodriguez, tal como Guerrero, alia à acção o skate e a música. Formou Story Tellers, como percussionista, e com Guerrero e Lippi tem em Blktop Project, uma jam band de indie rock que os junta também a Ray Barbee e a Chuck Treece.
O palco torna-se maior e ajustado ao trio, faltará apenas uma tela de fundo a projectar imagens para melhor servir a música. Guerrero que nalguns concertos, de ambiente clube, por vezes faz aparecer cenas de road-movies plasmados directamente no seu amplificador de guitarra — como metáforas concretas. Afinal estas sonoridades que são bem mais estados de espírito — como nos comentava em entrevista — e tudo anda de mãos dadas, onde o “skate e a música [o que] têm em comum é a capacidade de desligar o pensamento”. Mas na falta das imagens em concreto, concerto fora, cabem todas as que cada um(a) vai imaginando ao sabor da corrente da guitarra de Guerrero, no fluxo das congas e pratos de Rodriguez e inquebrantavelmente suportadas pelas linhas de baixo de Lippi. Um trio eficaz e competente, que se serve em muito do último longa-duração Amber of Memory (Too Good, 2023) em palco. Guerrero discorre da sua guitarra sucessões de riffs sempre suportados por efeitos de ecos e psicadelismos, que pontuam a paisagem sonora, como que fazem ver essas figuras humanas em pontinhos a dispersarem-se na planície, como Kerouac melhor escrevia.
Guerrero que nessa conversa nos havia antecipado que iriam trazer para perto uma tripla passagem, em revisitação de Loose Grooves & Bastard Blues (Galaxia, 1997), o primeiro álbum que nem era para ser um disco, apenas um tapete sonoro para uns vídeos de skate — o seu fluxo pela estrada fora. Ali diante de nós, na plateia estavam muitos skaters — certamente, estamos em crer — não era a arte gráfica que essoutro rolador profissional Natas Kaupas, emprestou a esse e ao outro disco, com que mais tarde voltou a colaborar com Guerrero em Return Of The Bastard, mas sem dúvida alguma eram de novo malhas que melhor acompanhavam a fluidez de umas manobras de estrada sobre uma qualquer tábua ilustrada sobre rodas.
Foi com Perpetual (Grand Palais, 2015), álbum concebido segundo o próprio músico como “propositadamente para poder ser tocado por um trio”, em que “grande parte do material gravado ao longo dos anos” que idealizou um modelo de transposição da sua música de estúdio para palco. Sendo a estrada — tanto na música como no skate — o seu lugar, haverá que o saber fazer. São camadas que melhor lhe servem o modo, cascatas de riffs ou suspensões do tempo como uma manobra que parece estancar por instantes tudo no ar. Guerrero sabe que o caminho tem esse longínquo sentido que a vista alcança. Desse single El Camino Negro / White Sands, 7” recém-editado pela sua Too Good — que teve bem sucedida venda pós-concerto no átrio do teatro — servem coalescidos os dois temas que o compõem e fica materializado no alinhamento o sentido de viagem pela estrada fora, concerto adiante.
A música tem esse lugar de… “música é curativa. A música é mágica!”, como referia em desfecho na conversa ao Rimas e Batidas. Mas para Guerrero, que nem é de muitas falas entre músicas, lá ia deixando ligado o sentido e lugar da sua música fazendo uma ponte ao mundo. “Fuck, fuck Trump” acicatavam algumas vozes dispostas a agigantar um outro e necessário motivo neste presente. Lugar de combate, de presença, e Guerrero pede que estejamos unidos e sejamos gentis uns com os outros, tendo bem presente o seu lugar na frente: “A única coisa que continuo a dizer às pessoas é que a forma de contrariar o que está a acontecer é levar a arte para o mundo.” Com Beneath The Pewter Sky, o mini-álbum japonês que deu à estampa em 2025, assume esse sentido de intervenção também na sua música. Dele faz alinhar uns quantos temas em concerto. “Pewter Sky” é a referência a esse céu escuro, carregado de tons cinzento-escuro, como o metal, é o que em português poderemos entender melhor como “céu de chumbo” — saberemos relacionar o propósito dramático da analogia aos dias que correm. O trio teve todo o motivo do mundo para encerrar o concerto com “War no More”, trazido de From The Soil To The Soul (2006), e escrito por Guerrero com um manifesto pacifista mais, contra a veia belicista dos beligerantes do costume.