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Fotografia: João Rosado & Maria Perdigão
Publicado a: 23/06/2026

O Mau Olhado e Big Weird Box num final de dia bem passado.

Sem Muralhas’26: a música alternativa que devolveu a vida ao Jardim das Rendilheiras

Fotografia: João Rosado & Maria Perdigão
Publicado a: 23/06/2026

Há cerca de vinte anos, surgiu em Portugal uma praga de escaravelhos vermelhos que levou ao abate de milhares de palmeiras, deixando em estado lastimoso uma quantidade significativa de zonas verdes por todo o país. A cidade de Peniche não fugiu à regra e aquilo que, noutros tempos, fora um belíssimo jardim público, passou a ser um lugar sem grande interesse, com pouco mais de meia dúzia de árvores, canteiros de flores e arbustos. Para piorar a situação, diz-se que uma não menos nociva praga de autarcas de competência questionável foi tomando opções que acabaram por tornar ainda menos atrativo o Jardim das Rendilheiras, situado bem no centro da cidade.

Porém, na tarde do passado sábado, em véspera do solstício de verão, o dito jardim acolheu a abertura de um novo ciclo de música alternativa, simbolicamente intitulado Sem Muralhas. O seu centenário coreto foi o palco do concerto inaugural com O Mau Olhado, projeto unipessoal do guitarrista portuense João Cardoso. Socorrendo-se de uma pequena lata enfiada num microfone, uma vassoura e uma Loop Station, o músico foi criando camadas rítmicas e harmónicas que se entrelaçavam com pequenos fraseados da guitarra, estabelecendo uma base sólida e sofisticada para as suas deambulações solísticas.

Surgiram por ali sonoridades diversificadas — desde latino-americanas, balcânicas e africanas, passando pela Europa Central —, sempre numa toada bastante viva e dançável que cativou de imediato o público que ali acorreu em bom número. Foi como se, de repente, as palmeiras tivessem voltado a habitar aquele jardim para se divertirem com as malhas vertiginosas de Django Reinhardt e Stéphane Grappelli.

Foi extremamente gratificante ver uma plateia tão bem recheada, sobretudo tratando-se de um dia de sol, convidativo para rumar a uma das praias que rodeiam a península. Ficou, portanto, demonstrado que há público para estas músicas e que as pessoas estão ávidas de assistir a propostas diferentes daquelas que têm sido as apostas reincidentes e requentadas da referida praga, que vinha condenando a cidade a um certo marasmo cultural. E, como referiu o guitarrista numa das suas intervenções, tudo por uma boa causa: a subsistência dos artistas.

No mesmo dia, à noite, realizou-se a segunda sessão do ciclo Sem Muralhas, uma iniciativa da Associação Cultural Onda. Desta vez, o cenário foi o salão do Clube Recreativo, um espaço centenário integrado no mesmo jardim. Com uma belíssima sala arrumada em jeito de clube de jazz — a lembrar festas e bailes de outros tempos —, o público pôde escutar a música desafiante dos Big Weird Box num serão extremamente agradável.

Este é um quarteto liderado pelo guitarrista e compositor Ricardo Barriga, com Gonçalo Prazeres no saxofone tenor, Francisco Brito no baixo elétrico e Luís Candeias na bateria. Todos revelaram uma técnica bastante apurada e grande competência, trazendo para o palco sonoridades onde se cruzavam elementos do jazz e do rock. A música é praticamente toda original, com composições de Barriga e muito espaço para a criatividade dos membros do grupo.

Nota-se ali uma forte influência de Bill Frisell, de resto assumida pelo compositor, mas simultaneamente com uma identidade própria e arrojada, sobretudo revelada através das várias improvisações que se foram sucedendo ao longo do equilibradíssimo alinhamento. Houve um pouco de tudo: desde baladas a temas mais agressivos, de passagens previsíveis a rasgos totalmente inesperados, e de fortes “desbundas” coletivas que levaram a sala ao delírio, até momentos de grande serenidade e introspeção.

Destacaram-se os temas “Cookies in Space” — que, segundo percebemos, foi estreado naquela sala — e “Ninja Escape Plan”, dedicado aos Dillinger Escape Plan, onde se viveu um dos momentos mais enérgicos e inesquecíveis do concerto. Referência ainda para o encore, onde foi tocada uma versão de uma canção de Tom Waits, “Picture in a Frame”, num belíssimo arranjo que constituiu o perfeito encerramento da noite.


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