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Fotografia: Direitos Reservados
Publicado a: 23/06/2026

Depois de umas assinaturas em tábuas a estrear e fotos entre skaters, a conversa com o músico.

Tommy Guerrero: “A forma de contrariar o que está a acontecer é levar a arte para o mundo”

Fotografia: Direitos Reservados
Publicado a: 23/06/2026

O lendário skater e músico californiano Tommy Guerrero apresentou-se em digressão ibérica, na passada semana, a terminar os dias quentes da Primavera. Passou por Barcelona, Madrid, e já em terras lusas apresentou-se em Faro, Lisboa e Porto. O Rimas e Batidas agendou uma conversa antes do concerto com ele, no Teatro das Figuras na cidade algarvia. No final de uma tarde de canícula, mas onde o terraço ajardinado do teatro com vista para o vasto campo do sistema laguna-ilha barreira da Formosa foi cenário refrescante e inspirador. Precisamente para saber respirar e ver melhor os dias que se vivem. Uma conversa que prontamente nos leva para campos contíguos da música ou até para onde a música tem que estar e dizer: presente! 

Guerrero, a par de Tony Hawks e Steve Caballero, ajudou a marcar a década de 1980 com a sua crew de skate Bones Brigade. A par dessa proeminente carreira, a música desde cedo fez parte da sua vida.  A música que extensivamente tem inscrito em mais de uma vintena de álbuns. Tudo começou na ideia de fazer uma paisagem sonora que acompanhasse os vídeos de skate. Guerrero, que na música como no skate segue na práctica punk do do it yourself (DIY) ou, como melhor afirma, “do it myself” (DIM) — faz por si mesmo. Registos que prontamente o levaram a assinar um contrato com a editora britânica Mo’ Wax de James Lavelle. Hoje em dia edita em casa própria pela Too Good — selo que criou para a sua música. 

Como prontamente nos explica em conversa, mais que canções, toca “mais estados de espírito do que qualquer outra coisa”. Guitarrista de mão cheia, que no início se fazia escutar numa veia mais do jazz-blues, quiçá pela influência familiar próxima, mas servida numa base de repetição como que destilando nuances de hip hop. A longa carreira como músico inscreveu-o indelevelmente naquilo que se pode entender como grooves ideais para deslizar estrada a fora, nesse sentido desde as Rocky Mountains, na esteira da escrita da Beat Generation. Em 2015, Miguel Arsénio relembrava no Rimas e Batidas “Sete beats que fazem de Tommy Guerrero um herói esquecido”. Practicante de sonoridades rock, jazz, funk, soul, downtempo e influências latinas que nos conduzem, mais para o final da conversa, numa inevitável leitura crítica do(s) estado(s) (Unidos da América) das coisas.



Como skater, li sobre ti que trouxeste algo diferente. O fluxo, o controlo e a sensibilidade orientada para a rua que transformaste rampas e percursos de freestyle em algo mais descontraído e expressivo. Estas são palavras de outra pessoa, não minhas.

Isso é fixe.

Mas a tua música também transmite um tanto disso. Quer dizer, é como uma viagem, uma longa viagem com um ritmo contemplativo, como se estivéssemos a deslizar numa longboard. O que achas disso? 

Quer dizer, acho que tens razão. Acho que a música tem sempre mais a ver com a jornada, porque não são necessariamente canções. Na verdade, escrevo mais estados de espírito do que qualquer outra coisa. Para mim, o que o skate e a música têm em comum é a capacidade de desligar o pensamento. De parar a mente de andar constantemente a dar voltas e simplesmente estar no momento. Sim, pode ser muito terapêutico, ambas as coisas. 

E aqui estás em mais voltas, numa digressão mais. Quantas mais virão?

Tenho mais digressões. Vou de digressão ao Japão no Outono, durante um mês. Claro que estou em digressão. É tal e qual como andar de skate. Cresci a viajar muito. Adoro viajar. E quando chego a casa, se fico lá mais de duas semanas, fico louco. Só me apetece partir — estar na estrada. 

Sim, na estrada como Jack Kerouac escrevia.

Adoro isso. Por isso, não, não vai haver paragens, não vou desistir — nada.

Tens uma carreira de mais de 30 e tal anos na música. Há momentos em que é preciso fazer uma pausa, refletir um pouco. Talvez seja altura de o fazer agora. Mas o que te levou, naquela primeira vez, a começar a tocar também instrumentos de cordas, como a guitarra e o baixo, além de praticares skate? O que te motivou? 

Para mim e para o meu irmão — ele é guitarrista —, crescemos a ouvir muito punk rock no final dos anos 70. E, naquela altura, o skate e o punk-rock andavam de mãos dadas. E, tal como o skate e o punk-rock partilhavam a filosofia do do it yourself. Era tudo uma questão de DIY. Forma uma banda, pega numa guitarra, aprende a tocar. Não havia regras no skate nem na música. E era essa a beleza daquela época. Faz tu mesmo. Vai lá e faz isso. Mas eu e o meu irmão, do lado do meu pai, somos todos músicos. O meu pai e os seus três irmãos eram todos músicos. O meu avô era guitarrista de jazz e a minha avó era cantora. Tinham uma grande, enorme, banda de jazz. 

Isso foi na Califórnia?

Nos anos 40, sim, na Califórnia. Mas não crescemos com eles. 

Então é genético. O teu primeiro álbum Loose Grooves and Bastard Blues já  foi há muito tempo, mas ainda sentes aquela emoção ao tocar as músicas daquela época? 

Sim, sinto — é verdade. Porque o primeiro álbum, a contar da data de lançamento, vai fazer 30 anos no próximo ano. Mas a gravação foi feita três anos antes disso. Porque compus várias músicas para um vídeo de skate que saiu em 1994. Por isso, na verdade, devo ter gravado por volta de 1992/93. Portanto, as gravações da maior parte desse álbum têm mais de 30 anos. Mas vamos tocar três músicas desse primeiro álbum esta noite [dia 18 de Junho]. Sim, eu sei, adoro tocá-las. É muito diferente, é outra história. Mas esse álbum, como é o primeiro, nunca foi concebido para ser um álbum destinado à venda ao público. Essa nunca foi a ideia. Aconteceu simplesmente. 

E nesse álbum de estreia já tocavas todos os instrumentos. Tal como estás a fazer hoje neste último e muito atmosférico Amber of MemoryA tua abordagem e inspiração para compor mantiveram-se iguais desde há 30 anos? 

Não, na verdade é muito diferente. Naquela altura, compunha quase todas as canções na guitarra, apenas os ritmos. Já quase nunca faço isso. É raro. Na maioria das vezes, começo do zero, da percussão ao baixo. E depois, quando se tem uma base sólida, as melodias surgem a seguir. E isso também foi intencional. Há um álbum chamado Perpetual [Grand Palais, 2015] e esse álbum foi concebido propositadamente para poder ser tocado por um trio. Porque grande parte do material que fui gravando ao longo dos anos em que tenho vindo a trabalhar, por vezes tem cinco guitarras, teclados e tudo isso, e não é possível recriá-lo adequadamente. Por isso, tomei conscientemente a decisão de tentar criar música que possa ser tocada por um trio. E é mais ou menos aí que me encontro agora também.

Nos primeiros tempos do teu percurso musical, logo no segundo álbum, tiveste contrato com a Mo’ Wax. Foi uma aventura positiva e que aconteceu muito rapidamente. Foi uma experiência de aprendizagem? O que é que tiraste dessa altura para agora, que geres a tua própria editora, pela qual lanças os teus álbuns e és o dono da tua música? 

O patrão, sim. Mais ou menos, nesta editora, a Too Good. Bem, inicialmente, o primeiro álbum, Loose Grooves… era para ser lançado pela Mo’ Wax. Mas depois, não sei bem o que aconteceu, passou algum tempo, eles ficaram ocupados e então eu, o Thomas Campbell e o nosso amigo Greg — que tinham a sua pequena editora — lançámo-lo pela Galaxia. Mas agora, o facto de eu lançar todo o meu material na minha própria editora é simplesmente por necessidade. Porque não tinha ninguém a bater-me à porta para lançar a minha música. Sabes, quando a Mo’ Wax faliu, basicamente só havia mais uma editora discográfica, a Quantum — com quem trabalhei uma vez. Mas, nessa mesma altura, eles entraram com um pedido de falência, mesmo quando o meu disco foi lançado. Foi realmente uma pena. Então, depois disso, pensei: “É hora de voltar ao espírito do punk-rock, do skate, do DIY”. Vou simplesmente fazê-lo, vou lançar por conta própria e tentar dar um jeito.

Como tantas vezes referes melhor em DIM: Do It Myself.

É isso mesmo. É exatamente isso.

Apesar de a tua música ser totalmente instrumental, quer dizer, muitas vezes há palavras associadas a ela, seja no título de uma canção ou no título de um álbum. No último Beneath the Pewter Sky — um nome que também serviu de título para outros músicos, lembro-me de que uma pianista, Emile Chardon, que também o utilizou. 

A sério, Beneath the Pewter Sky?

Não, apenas só como Pewter Sky, sem “Beneath”, talvez “Above” ou “Inside”, não sei…

Ah, que fixe Pewter Sky. Isso é interessante. 

Portanto, é mesmo essa característica: o céu cinzento e sombrio dos dias que estamos a viver, que talvez seja o que melhor vos conduz à faixa que encerra o mini-álbum, para quem não tem canções. É essa a ideia por trás do nome Pewter Sky?

Sim, em parte, sim. Diria que sim. Quer dizer, porque estamos a viver este momento sombrio, na nossa história tal como a conhecemos, porque estamos aqui hoje e vivos para o vivenciar, há imensos comportamentos horríveis a acontecer no mundo. E como é que corrigimos isso? Não tenho a certeza. Mas a única coisa que continuo a dizer às pessoas é que a forma de contrariar o que está a acontecer é levar a arte para o mundo. Contrariar toda a fealdade com alguma beleza. 

O que me leva à próxima pergunta… O que gostarias de dizer ou comentar, daqui — à distância—, sobre os Estados Unidos da América e a administração de Trump nestes tempos sombrios? 

Sim, sabes, há tanto para dizer. 

Mas tu precisas de voltar…

Sim, sim, exatamente [risos]. Não, é uma época estranha na América. A ideia de democracia e liberdade tal como a conhecíamos, e estas pessoas que tendem a dizer que são precisamente essas pessoas — aquelas que lutam pela liberdade e pela justiça e assim por diante. Elas são a antítese disso e daquilo em que a América se fundou. E, por isso, não compreendo, porque estão a introduzir a ideologia fascista nos ideais americanos. E, sabes, entrámos em guerra por causa disso. E milhares de pessoas morreram para garantir que o fascismo não chegasse às costas dos Estados Unidos. Tantos bisavós destas pessoas… seria de esperar que elas pensassem: “Ei, sabes, o teu bisavô esteve nessa guerra. Ele fazia parte da Antifa — era antifascista. Lutou contra essas pessoas para que tu não tivesses de ser submetido ao fascismo e ao horror que ele traz.” E por isso não compreendo. E detesto dizer isto, mas acho que muitos americanos não são pensadores profundos. Não estão a ir além das aparências para chegar ao cerne da verdade. E dizem-nos para não o fazermos. Dizem-nos que estar informado, estar consciente, ser inteligente é mau. Por isso, estamos a passar por um período mesmo de merda aqui [lá] nos Estados Unidos.

Sim, e imagino que, com mais sentido o afirmas no teu caso que vens de uma família de imigrantes. 

Sim, sim, sem dúvida. Diria que é assim para todos os dos Estados Unidos.

Todos, com exceção dos nativos americanos, claro; afinal, este é um grande país formado por imigrantes.

Sim, em absoluto.

Como é que se explica este absurdo da existência do ICE? 

A hipocrisia é tão profunda. Olha para a mulher do presidente. Ela e toda a sua família são imigrantes. Só vieram para a América por causa dela, por causa desta ligação com o Donald Trump. Quer dizer, sabes, é simplesmente uma hipocrisia total. 

Não sei até que ponto estás familiarizado com este fenómeno, que não é novo, mas que está a ressurgir com o movimento independente da Califórnia — CalExit, um movimento a favor da saída da Califórnia dos EUA. Achas que é comparável ao que se verificou com o Brexit do Reino Unido, apartando-o da UE? 

Não, eles não querem ir longe demais. Pois é, não, isso não vai acontecer. Quer dizer, em teoria, porque a Califórnia é a quinta maior economia do mundo. Sem a Califórnia, o resto dos Estados Unidos…  contribui com tanto dinheiro para o governo federal que não há hipótese de alguém deixar isso acontecer. E depois, sabes, se isso acontecesse… Quem sabe se, durante este governo, eles não digam: “Está bem, vocês conseguiram. Agora são um país independente. Vamos invadir-vos”. Quer dizer, certo. Levar todas as vossas riquezas. Quem é que sabe, porra? Quer dizer, vivemos tempos de loucura. 

Acho que esta é a última questão da nossa conversa: entende-se o facto de aceitares que a tua música possa ser vista como política — no sentido de que serve, pelo menos, como uma bolha ou uma fuga destes tempos. Concordas? 

Sem dúvida. Quer dizer, a música… a música é curativa. A música é mágica. Sem a música… Pensa na música neste mundo. O que faríamos? Pensa em todos os filmes com aquelas belas bandas sonoras. O que aconteceria sem música? O tom desses filmes seria… não haveria, até certo ponto, qualquer ligação emocional, porque a música define grande parte da emoção e do ambiente do filme. Por isso, sabes, e é aí que estamos com o streaming e essas coisas. A desvalorização dos artistas e do seu ofício, os anos que dedicámos a fazer o que fazemos e a capacidade de chegar até aqui, os anos que são necessários para aprender a tocar um instrumento, a compor canções. Leva décadas e décadas e agora, sabes, estão a tentar substituir-nos pela IA, roubando-nos completamente a nossa música para não terem de pagar direitos de autor. É como se fosse… de quanto dinheiro é que precisas? Quer dizer, de quanto é que precisas? E por isso não compreendo por que é que estas pessoas, que já são tão ricas, querem ainda… querem uma fatia maior do bolo. Porquê? O que se passa com elas?


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