A música dos Mano a Mano sempre pareceu desafiar a lei das proporções. Durante mais de uma década, André e Bruno Santos provaram repetidamente que duas guitarras podiam conter paisagens inteiras: memórias da Madeira, ecos da música popular portuguesa, improvisação jazzística, composição erudita e uma atenção total ao detalhe. Mas Uma Espécie de Pacto coloca uma nova questão: o que acontece quando esse universo, desenhado à escala íntima de uma continuada conversa entre dois irmãos, é ampliado para as dimensões de uma orquestra?
A resposta surge naquele que é, simultaneamente, um dos projectos mais ambiciosos da carreira dos Mano a Mano e uma celebração dos dez anos decorridos desde a edição do seu álbum de estreia. Ao longo desse percurso, que inclui títulos como O Disco de Natal ou a Trilogia das Sombras, o duo construiu uma das discografias mais coerentes e singulares da música instrumental portuguesa contemporânea, sempre recusando fronteiras rígidas entre jazz, tradição popular, música de câmara ou criação contemporânea.
O ponto de partida para este novo capítulo foi um convite do Festival de Jazz do Funchal para um encontro com a Orquestra de Jazz do Funchal. O que começou por ser um concerto acabou por transformar-se num livro-disco de fôlego, gravado sob direcção de Pedro Moreira e assente em novos arranjos assinados por André Santos, Bruno Santos, Lars Arens, Guillermo Klein e Estela Alexandre. Ao lado dos dois irmãos – André Santos nas guitarras, viola de arame e braguinha e Bruno Santos na guitarra – encontra-se uma formação alargada composta por Francisco Andrade e Francisco Aguilar nos saxofones tenor, Tomás Noronha e Miguel Dantas nos saxofones alto, Vítor Fernandes no saxofone barítono, Alexandre Andrade, Vasco Moreira, André Almada e Pedro Ferreira nos trompetes, André Ramalhais, Ricardo Sousa e Tiago Ferreira nos trombones, Francisco Pestana no trombone baixo e Pedro Camacho na flauta. O álbum conta ainda com uma participação especial de Tolentino Mendonça na faixa-título, inspirada pelo poema “Lourdes Castro Rua da Olaria”.
Uma Espécie de Pacto oferece novas perspectivas sobre composições que os Mano a Mano carregam consigo há anos, revelando cores, texturas e possibilidades que talvez estivessem já inscritas naquelas melodias desde o início, à espera apenas de mais vozes para se tornarem plenamente audíveis. Foi sobre esse processo de transformação, sobre o papel dos arranjadores, sobre a experiência de gravar com uma orquestra e sobre o futuro deste repertório que conversámos com André e Bruno Santos.
As próximas datas da agenda de concertos dos Mano a Mano levam-nos até Odemira, a 2 de julho, para uma apresentação no âmbito da Mostra de Artes Performativas, e ainda até Almada, para uma passagem pela Casa da Cerca, a 29 de julho.
Tive a oportunidade de assistir à estreia deste encontro entre Mano a Mano e a Orquestra de Jazz do Funchal no Festival de Jazz do Funchal, há um par de anos. O que recordam da preparação dessa noite e do próprio concerto?
[André Santos] Recordo que foi tudo bastante surpreendente pela positiva. O Funchal Jazz tem sempre aquela sensação de que está na iminência de acontecer ou não acontecer, há sempre uma certa incerteza à volta das coisas, e por isso a preparação foi feita um bocadinho à pressão. Já tínhamos ouvido os arranjos e gostado muito deles, mas era preciso colocá-los em prática e perceber como soavam na realidade. Depois correu tudo muito bem. O concerto soube-nos muito bem, até porque tocar na Madeira tem sempre um significado especial para nós. Tínhamos família a assistir, os nossos filhos, os nossos pais, muitos amigos. E depois recebemos um feedback muito positivo, não só teu, mas também de outras pessoas, que nos fez perceber que aquilo que sentimos em palco também estava a ser sentido por quem estava a ouvir. Ficou ali uma semente plantada: havia qualquer coisa naquele encontro que merecia ser eternizada.
O curioso é que normalmente este tipo de projectos com orquestra resulta da gravação de concertos. No vosso caso aconteceu o inverso: o concerto veio primeiro e o disco depois.
[Bruno Santos] Foi um bocadinho isso, embora a história tenha algumas nuances. Havia já vários factores em cima da mesa. Por um lado, o convite do Funchal Jazz para sermos os convidados da orquestra nesse ano. Por outro, estávamos a celebrar dez anos do nosso primeiro disco. E já andávamos a falar da possibilidade de fazer algo diferente para assinalar essa data, eventualmente gravando num formato maior. Quando surgiu o convite para o concerto, essa ideia ganhou imediatamente força. Na verdade, ainda antes do concerto já estávamos a pensar numa gravação, porque sentíamos que fazia sentido celebrar aqueles dez anos com um projecto especial. Portanto, o disco acabou por ser uma consequência muito natural. Talvez pudesse até ter acontecido sem o concerto, mas o concerto deu-nos a confirmação de que aquela ideia tinha pernas para andar.
Como foi encarar esta mudança de escala? Depois de uma década de diálogo entre duas guitarras, o que é que sentiram que a orquestra trouxe à vossa música?
[A.S.] Acho que conseguimos alcançar exactamente aquilo que desejávamos. Uma das preocupações era manter muito presente o som das duas guitarras. Tanto que, quando pensámos na formação da orquestra, optámos por abdicar do piano para que os únicos instrumentos harmónicos fossem as guitarras. Queríamos que o centro sonoro continuasse a ser o duo. O que aconteceu foi que a orquestra amplificou esse universo sem o desvirtuar. Os trompetes, trombones e saxofones trouxeram uma enorme pujança ao som, e a secção rítmica acrescentou uma robustez que normalmente não existe nos nossos concertos. Nós temos uma linguagem muito intimista, construída ao longo de muitos anos de convivência pessoal e musical. A orquestra veio acrescentar dimensão e força, mas respeitando totalmente a identidade do projecto. Os arranjos contribuíram muito para isso. Fizemos uma espécie de briefing sobre o som que imaginávamos e os arranjadores foram ao encontro dessa visão de forma extraordinária.
Como chegaram aos arranjadores envolvidos neste projecto?
[B.S.] Antes de mais, vale a pena sublinhar a importância do papel do arranjador. Muitas vezes fala-se dos intérpretes ou dos produtores e esquece-se que grande parte da identidade sonora de determinados discos vem precisamente dos arranjadores. Se pensarmos em Nat King Cole ou Frank Sinatra, muito daquele universo sonoro tem tanto de Nelson Riddle quanto dos próprios cantores. No nosso caso decidimos que também queríamos participar desse processo. Eu fiz dois arranjos, o André fez um, e depois começámos a pensar em quem faria sentido convidar. O Lars Arens era uma escolha natural. É um trombonista alemão extraordinário, um arranjador experiente, já trabalhou muito para grandes formações e tem uma escrita muito particular, bastante densa e sofisticada. O Guilherme Klein é um compositor argentino incrível, actualmente radicado em Nova Iorque, que faz uma fusão muito interessante entre jazz e música popular argentina. Sentimos que havia afinidades com o nosso universo, sobretudo pela presença dos cordofones tradicionais. Quando lhe mostrei alguns temas, escolheu imediatamente aquele que tinha um instrumento tradicional madeirense. Percebeu logo essa ligação. A Estela Alexandre representa uma geração mais nova e tinha precisamente a sensibilidade que imaginávamos para alguns dos temas mais contemplativos. Eu tinha trabalhado recentemente com ela num projecto com a Orquestra de Espinho e fiquei muito impressionado com os arranjos que escreveu. Acabou por fazer doze arranjos para este disco.
Quando ouviram os arranjos concluídos, sentiram que estavam a ouvir a vossa música numa nova dimensão?
[A.S.] Acho que sim. E não apenas porque os arranjos acrescentaram cor. Muitos deles acrescentaram também material novo. O Lars escreveu uma introdução completamente nova para um dos temas. A Estela criou novas linhas melódicas. O Guilherme acrescentou um final diferente. Ou seja, não se limitaram a vestir a música com outras cores: contribuíram activamente para expandi-la. Nós estamos habituados a ver esta música por dentro, porque nasce de nós, dos nossos ensaios, das nossas ideias. De repente começámos a vê-la de fora, através do olhar de outras pessoas. Foi uma experiência muito enriquecedora.
Este projecto é também acompanhado por um livro muito elaborado. Porque sentiram necessidade de criar um objecto tão especial?
[B.S.] Achámos que este era um momento importante, um verdadeiro marco. É verdade que celebrar dez anos pode parecer um cliché, mas a verdade é que são dez anos de um projecto que podia não ter corrido bem e que tem corrido muito bem. Já tocamos juntos há mais de doze anos e este foi também o primeiro encontro com a Orquestra de Jazz do Funchal. Ao mesmo tempo, trata-se do primeiro disco da própria orquestra. Pareceu-nos que tudo isto justificava uma edição especial. Hoje em dia o CD perdeu alguma relevância e até utilidade para muitas pessoas. Há quem já nem tenha onde o ouvir. Queríamos criar um objecto que pudesse ser apreciado para lá da música. O livro reúne fotografias, textos, reflexões sobre os temas e sobre o próprio processo. Há textos nossos, do Paulo Barbosa, dos irmãos Andrade, do Pedro Moreira. A ideia era recuperar um pouco aquela experiência de ouvir música enquanto se lêem as liner notes de um disco.
As fotografias ajudam muito a entrar dentro do processo de gravação. Foi importante documentar esse lado humano do projecto?
[A.S.] Sem dúvida. Quando surgiu a ideia do livro convidámos o Pedro Sousa, que além de excelente fotógrafo é também designer. Ele acompanhou todo o processo e conseguiu captar muito bem o ambiente da gravação. Gravámos num sítio extraordinário em Santa Cruz, numa antiga escola transformada em estúdio. Nos intervalos íamos jogar à bola para o recreio, passeávamos, apanhávamos um pouco de sol. Houve dias em que convidámos amigos para cozinhar comida tradicional madeirense para toda a gente. Terminávamos uma sessão e tínhamos logo ali um prato de macarrão ou arroz com couve à nossa espera. Foi uma forma de manter o grupo unido e focado, sem quebrar o ambiente criativo. Criou-se uma energia muito especial e acho que as fotografias conseguem transmitir isso.
E o próprio processo de gravação correspondeu às expectativas?
[A.S.] Sim, totalmente. Claro que gravar uma orquestra implica uma complexidade muito maior do que gravar apenas duas guitarras. Nos nossos discos habituais já sabemos exactamente qual é o som que procuramos. Aqui havia mais quinze ou dezasseis músicos, cada um com o seu papel. O processo de mistura e masterização foi muito mais demorado porque era necessário encontrar espaço para todos os instrumentos e definir muito bem o que deveria estar em primeiro plano e o que deveria funcionar como acompanhamento. Foi um trabalho mais longo do que o habitual, mas acreditamos que o resultado final compensou esse esforço.
Um projecto desta dimensão implica recursos significativos. Como foi possível concretizá-lo?
[B.S.] Foi possível graças a uma conjugação de apoios e esforços. Tivemos um apoio muito importante da Secretaria Regional da Cultura, Turismo, Ambiente e Cultura da Madeira. Conseguimos também apoio da SPA e da GDA, o que foi fundamental. Um projecto com orquestra envolve muitos músicos e muitos custos, por isso só avançámos quando percebemos que conseguíamos reunir condições mínimas para o fazer. E mesmo assim esses apoios servem essencialmente para cobrir despesas. Depois houve também um enorme apoio logístico de várias pessoas ligadas à Orquestra de Jazz do Funchal e à associação Melro Preto. Foi um trabalho colectivo, tanto do ponto de vista financeiro como organizativo.
Este repertório terá continuidade em palco?
[A.S. & B.S.] Esse é o nosso grande objectivo. Idealmente gostaríamos de continuar a apresentar esta música com a Orquestra de Jazz do Funchal. Sabemos que há desafios logísticos importantes, mas é esse o cenário que mais nos entusiasma. Gostávamos de fazer uma pequena digressão no continente com esta formação. Se isso não for possível, também não excluímos a hipótese de trabalhar com outras orquestras de jazz existentes em Portugal, seja em Espinho, Matosinhos, Angra do Heroísmo ou noutros locais. O importante é que os arranjos existem, estão feitos, e este repertório ganhou vida própria. Pode ser revisitado daqui a dois, cinco ou dez anos. Mas para já o nosso foco é continuar a apresentá-lo com a Orquestra de Jazz do Funchal e tentar dar-lhe o maior percurso possível.