No princípio era a arritmia. Antes das ideias de tempos certos e de repetição se terem tornado standards em praticamente toda a música que escutamos, houve certamente quem tocasse os primeiros instrumentos da história da humanidade completamente alheado dessas noções. Em Março de 2025, os YHWH Nailgun mostraram que esse lado mais primordial de fazer música é compatível com algo passível de ser apreciado, comercializado e dançável em pleno século XXI. Apesar de já contarem com um par de EPs — o homónimo YHWH Nailgun e No Midwife And I Wingflap — editados em 2022, o álbum de estreia 45 Pounds levou-os até outras paragens à boleia do algoritmo — sinal de que, afinal, a tecnologia, quando bem afinada, é capaz de propagar muito mais do que mero slop.
A chegada da banda a um patamar de maior visibilidade foi prontamente abraçada por cá e o entusiasmo que geraram trouxe-os na rota de um daqueles festivais portugueses que tão bem domina as artes da curadoria. Foram eles que rubricaram uma das prestações mais fortes da edição do ano passado do Mucho Flow e confirmaram um romance que é bem mais do que paixão passageira, levando-nos de imediato a marcar uma nova passagem para os ver assim que anunciaram a estreia em Lisboa, que aconteceu na noite passada na Galeria Zé dos Bois.
O início da noite deu-se ao som dos lisboetas OkA, discípulos de algumas das bandas de maior culto da cena noise punk. Com o EP de estreia, ombu, editado em Setembro do ano passado e um álbum a ser preparado para um possível lançamento em 2027, fizeram da Galeria Zé dos Bois uma sala de ensaio para testar fórmulas quer ao nível da execução dos temas, quer ao nível da performance. Foram vozes a rasgar, ruído das cordas elevado ao extremo e bateria violentamente tocada ao longo de um concerto que durou cerca de uma hora, com músicas que atingiam picos de grande frenesim intercaladas por momentos de catarse através de longas imersões em terapias de feedback. João Moreira, João Mendes e Alexandre Bandola certificaram-se que não passávamos ao concerto seguinte sem algumas nódoas negras na pele, com este último membro do trio a assumir-se o mais ativo em campo, saindo da bateria para enfrentar o público de caras com a sua máscara ou arriscar num claustrofófico crowdsurf promovido pelas ondas de mãos da plateia.
Depois da pausa, a sauna. O palco “aquário” da ZDB rapidamente aumentou os índices de calor e humidade quando o quarteto formado por Zack Borzone, Sam Pickard, Saguiv Rosenstock e Jack Tobias se apresentou diante nós para desfazer a grande incógnita desta sua nova tour. “Será que todos os concertos vão ter 11 minutos de duração, tal como haviam feito em Maio na sua passagem pelo C2C Festival NYC?” Para nosso deleite, a resposta é um redondo não. Os YHWH Nailgun ameaçaram os corações mais sensíveis ao começar por interpretar de seguida o novíssimo Magazine — 10 faixas em 11 minutos, o mesmo alinhamento usado no tal certame norte-americano —, mas prontamente seguiram viagem até ao seu muito aplaudido álbum de estreia, 45 Pounds, fazendo a festa perdurar por mais algum tempo.
Em palco mais do que em estúdio, a música do conjunto de Filadélfia assemelha-se a um ritual de uma qualquer tribo dos meandros do rock. Os guturais de Borzone são ainda mais indecifráveis, quase sussurrados e descompensados face ao volume do resto dos instrumentos, como quem reza a um qualquer deus antes de um grande embate e sabe que as suas últimas palavras dificilmente serão escutadas por mais alguém. Das mãos de Tobias saem linhas de sintetizadores que tanto podem ser afiadas e capazes de serrar qualquer superfície, como abrilhantam de tonalidades mais etéreas os momentos de maior neblina dentro do alinhamento. Pickard parece um autêntico animal de selva, não só pelo som xamânico — tarola sem bordões e muitos rototoms — que emana, mas acima de tudo pela forma anárquica com que escolhe os ritmos e velocidades que ditam a execução dos restantes colegas, acelerando e desacelerando a seu bel prazer, sempre com patterns que não lembram sequer ao menino Jesus. O maior enigma da sonoridade de YHWH Nailgun é, no entanto, Rosenstock, que segurou nas mãos uma guitarra o tempo todo sem que conseguíssemos identificar com clareza quais das notas que pairavam no ar eram fruto da sua contribuição — parece tocar em reverse e inundado de efeitos, extraindo um som mutante das seis cordas de aço, como se estas se estivessem a fundir em magma.
No meio de toda a cacofonia que é o caos organizado dos YHWH Nailgun, não vimos ninguém que tenha conseguido ficar estático durante a performance. Algures entre o peso do metal, o experimentalismo do ambient, a esquizofrenia do punk e a liberdade do jazz, a banda deixou bem claro porque se tornou num dos mais recentes fenómenos de culto da cena alternativa do rock, praticamente lotando a pequena sala lisboeta mesmo apesar de se tratar de um dia a meio da semana — a passada quarta-feira, 17 de Junho. A arte destes norte-americanos dá para tudo: dançar, purgar, gritar e, pelos vistos, até mesmo para fazer parte de um qualquer circuito de spa, tal foi a quantidade de água que fez verter dos nossos poros bem na reta final de mais um dia de trabalho.