Chegados a junho, os festivais germinam por todo o país. Parecem contemplar todos os gostos e os formatos mais diversos. Há os estabelecidos e os que procuram afirmar-se. Os que usam lugares e os ocupam como uma ilha; e os que se fazem dos lugares com as suas gentes dentro. O Rádio Faneca é daqueles que envolve e transforma uma cidade, vive dela e para ela. Os vizinhos não reclamam do barulho, nem estão atrás de grades que os apartam do que ali se passa. Abrem-nos os braços à chegada, as portas das suas casas para jantar, e dizem-nos “até para o ano” quando partimos. É um programa que não se impõe a partir de um gabinete. Constrói-se nas ruas e becos. Produz e cria com a comunidade. Talvez por isso nos pareça sempre em expansão e a transbordar vitalidade. Nem sempre é óbvio nem corrente manter a fidelidade à essência, à identidade que lhes deu origem. Resistir às tentações do crescimento e à subversão do sucesso é, por vezes, o mais difícil. O Rádio Faneca é esse lugar de resistência – um respiro de esperança por entre o que parece um bafo insuportável e decadente do tempo.
Treze anos depois da primeira edição, e usando as propriedades místicas do número, bafejaram-nos com a Sorte. Foram-nos recordando as práticas antigas de a mudar ou atrair: impedindo gatos pretos de cruzar caminhos, usando mezinhas de alho, azeite ou trevos de quatro folhas, exibindo amuletos e cruzes ou recorrendo a feitiços mais sofisticados. Sobram tentativas ancestrais de intervenção no destino de mulheres e homens, desejos de mexer com o acaso e o futuro, de despertar fantasmas, acordar deuses e manusear forças ocultas. Aparentemente, a ideia é combater uma certa conformidade com o destino e convencer-nos a mudá-lo, derrotando a inércia face às inevitabilidades que nos querem vender.
Durante três dias, o Rimas e Batidas percorreu as praças e os jardins, as ruas e, sobretudo, os becos do centro urbano de Ílhavo, ocupados por manifestações artísticas, exposições e performances, que resultam da visão e do trabalho criativo desenvolvido por diversos artistas e pelos residentes ao longo do ano. Dividimo-nos entre os três palcos principais (Jardim, Carlos Paião e Rádio) e outros mais recônditos, como o do alojamento local, ou outras varandas pitorescas. Não chegámos a todos, o programa é extenso e nós curtos demais. Dele florescem memórias intermináveis da vivência no centro histórico com novos sentidos e significados, e a rádio como pano de fundo. Um cruzamento entre passado e futuro, tradição e novidade que, acima de tudo, nos falou deste presente, que agride.


[Primeiro dia]
Sexta-feira, poucos minutos depois das seis da tarde, os raios de sol reflectiam-se na piscina de um alojamento local da cidade. Marcava-se para ali a abertura musical do festival. O público estava sentado e descontraído, com vontade de apreciar o final da tarde com uma bebida na mão. A proposta era uma novidade: Asa Cobra. “O nome tem origem numa canção – ‘Asa à Cobra’ – do sambista Bezerra da Silva”, fez-nos saber a vocalista e letrista brasileira Carollyne Barreira (Carol). Este foi o quarto concerto deste trio enérgico e promissor que se completa com Igor Domigues e Marco Castro, dupla que conhecemos de Throes + The Shine. Marco sublinhou que a conexão à música brasileira e latino-americana já existia e que “há muito tempo que tinham vontade de fazer um projecto distinto de Throes + The Shine que os permitisse trabalhar este lado mais cancioneiro”.
Lançado a 15 de Maio, o primeiro álbum dos Asa Cobra – Revolta & Amor – mistura a poesia de Carol com o ritmo electrónico e acústico dos gaienses Marco e Igor. Persuadem-nos as sonoridades do continente sul americano que se fundem num som orgânico, vivo e dançável. Os nossos corpos parecem não oferecer resistência a esse movimento. Ao vivo, a performance de Carol seduz a nossa atenção para a bela escolha de palavras nos seus poemas. Sobre as suas referências, revelou-nos que “a liberdade criativa de Kiko Dinucci, dos Meta Meta, é uma inspiração.” E, como nos disse, a sua música parece vir “de uma crença de que é possível e necessário o Amor.”
Numa actuação que abordou principalmente as faixas do álbum, abriram espaço para dois temas do cancioneiro brasileiro, como a canção com que fecharam o concerto, que Sérgio Sampaio compôs em 1972 – “Eu Quero É Botar Meu Bloco na Rua”. No final, os músicos demonstraram felicidade em apresentar o seu trabalho no Rádio Faneca: “Gostei imenso de tocar aqui. Sinto que é um festival de amigos. Fico super feliz por perceber que eles conhecem a nossa canção e sentirmo-nos parte deste ciclo especial.” disse-nos Carol. Marco Castro vincou a importância e as características do Rádio Faneca: “Este tipo de festival é das coisas mais importantes que nós temos e que devemos mesmo fomentar. Ao longo dos anos, a experiência com Throes+ The Shine faz-nos sentir que este tipo de festivais respeita muito os artistas tanto ao nível das condições, como na valorização que faz do seu trabalho. Além disso, mostra às pessoas que se faz imensa música diferente em Portugal. Temos de valorizar e apreciar isto. Temos que tirar o chapéu a quem realiza e programa estes eventos. É uma parte muito importante do tecido programático do país a nível musical.” Os Asa Cobra vão andar por aí durante o verão. Para já, preparam “um concerto muito especial” para 15 de Agosto, ainda por anunciar, e outro para o Jardim do Morro, em Gaia, a 5 de setembro.
Apressámos o passo rumo ao coração do Rádio Faneca – o Jardim Henriqueta Maia – não queríamos perder o concerto de Rita Cortesão, marcado para o Palco Rádio, às 19h30. Sozinha com o sintetizador, encarou a plateia com uma fragilidade aparente que foi sendo desmontada pela sua voz versátil e pelo domínio da palavra. A cantautora quis dizer ao público que “escrever canções é um estado emocional. E cantá-las é outro.” Lentamente, as suas composições fizeram emergir em nós o verso do poeta : “Ah, pensar com delicadeza / imaginar com ferocidade/ Porque eu sou uma vida com furibunda melancolia, / com furibunda concepção / Com alguma ironia furibunda.” Parece-nos que algures entre estas palavras de Herberto reside alguma da essência de Rita Cortesão.
Era hora de jantar. As famílias preenchiam os espaços. O sorriso das crianças iluminava a noite. O próximo passo estava previsto para o palco Carlos Paião com Ana Lua Caiano. Subiu sozinha, diante um vasto público que a esperava, com a sua loopstation e, rodeada de instrumentos de que se faz a música tradicional portuguesa e não só, foi desenhando com o concerto uma linha em ascensão. A intensidade e a energia escalaram suportadas nos temas mais conhecidos, que conferem à tradição popular uma dimensão eletrónica e pulsante, até ao último piso: o seu novo single “Uma Vida A Menos”. Não sabíamos ainda, mas este tema haveria de se ligar a uma mensagem comum que atravessou algumas actuações ao longo destes três dias.
Em dia de aniversário, admitiu ao Rimas e Batidas “uma experiência diferente e nova, mas que foi realmente especial. Nunca tinha tido tanta gente a cantar-me os parabéns. Fazer aquilo que eu gosto no meu dia de anos foi óptimo!”. Sobre o próximo álbum, que parece caminhar em novas direções e que haverá de surgir em Novembro, Ana Lua Caiano desvendou que no novo trabalho “haverá mais momentos acústicos com instrumentos como a flauta e o piano. Procurando explorar mais essa dualidade entre o som e o silêncio. É mais calmo, portanto, será um bocadinho diferente”. Neste momento, usufrui do tempo que sobra até ao lançamento, para pensar como transpor o álbum para as actuações ao vivo. Tratando-se de um regresso, pois já havia actuado no Palco Rádio em 2023, não fechamos a conversa sem tentar perceber qual a sua relação com o Rádio Faneca: “É um festival incrível. Já tinha estado cá a tocar há três anos. Ver o jardim, à tarde, cheio de famílias, com imensos jogos, com uma programação tão completa e diferente, é maravilhoso. É mesmo um festival incrível. As pessoas que eu conheço daqui e de Aveiro sentem muito este festival.”
Não é estranho depreender que este festival segue um caminho próprio que é estruturalmente pensado para se fazer em crescendo. Enquanto público, encarámos cada palco como uma pequena montanha que está no nosso percurso diário para nos elevar com o passar das horas. Não deixa de ser curioso que este sentimento seja partilhado com alguns dos artistas que regressam ao festival para tocarem no palco do tamanho seguinte a cada visita. Uma evolução que não tem tanto a ver com a sua qualidade criativa ou maturidade artística, mas antes com um interesse mais generalizado do público.
Independentemente da injustiça ou da justiça desse interesse, chegámos ao palco principal à hora marcada para ver Bruno Pernadas cumprir ao vivo tudo o que prometeu em fevereiro com ‘Unlikely, Maybe’. Sete músicos em palco: José Diogo Martins nos teclados, António Quintino no baixo, João Correia na bateria, Jéssica Pina no trompete e voz, Maria João Leite no saxofone e voz, e Afonso Cabral na guitarra e voz, mostraram-nos que apesar do arrojo e da novidade, a música de Pernadas tem marca própria. Mesmo com esta reunião de individualidades criativas, o resultado mostrou-se homogéneo e dotado de uma identidade de autor que ora esboçava ambientes tropicais, ora pisava com mais afinco as terras do jazz e da soul. Os arranjos multifacetados de Bruno Pernadas soaram sempre livres e articulados, quase sempre agarrados e expandidos pelos outros elementos da banda na perfeição.
Finalizar o dia na montanha mais alta (o palco Jardim) com uma proposta de música instrumental, demonstra, por um lado, o que já alcançou Bruno Pernadas com a sua vontade de risco, como por outro, sintetiza a identidade particular da programação deste festival que não propõe o óbvio. Havia bastante público, entre o qual, uma parte considerável parecia familiarizada com o que nos chegava daqueles sete músicos. Outros começavam a descobrir o universo pernadiano. A noite seguia com as Djs Spatrux, mas a urgência de uma cama era a que se impunha quando olhávamos para os encontros do dia seguinte.



[Segundo dia]
Sábado havia mais gente pelo recinto. Muitas famílias, crianças e adultos de todas as idades. Voltámos a perder-nos nas ruelas de má fama e nos becos dos malfadados. Falhámos o primeiro concerto do dia de Sofia Leão, é certo, mas ouvimos Inês Marques Lucas da varanda Bagão, lindíssima, no centro de Ílhavo antes de assistirmos ao seu concerto no Palco Rádio. Nós e muito público. Foi, aliás, o concerto que reuniu o maior número de pessoas nesse espaço dedicado às propostas mais emergentes. A cantora lisboeta assinalou que “ além de ser a primeira vez em Ílhavo, talvez fosse também a primeira vez que tocava para tanta gente”. Ladeada por Miguel Laureano, que se ocupava do baixo, da mesa e de alguma percussão eletrónica, e Francisco Santos na bateria acústica e digital, entregou-nos um indie rock urbano e eletrónico por meio de palavras poéticas e melodias resgatadas às guitarras do rock dos anos 60 e 70. As composições são, todavia, frescas e a língua portuguesa é muito bem tratada. Laureano, produtor e diretor musical do projeto, é a fonte de onde jorram sonoridades arriscadas que trazem alguma da novidade da banda. Na bateria, Francisco parece reunir todas as capacidades de um exímio percussionista que se manteve em diálogo permanente com a mesa e o baixo de Laureano. O concerto não terminou sem Inês descobrir entre a plateia uma criança que cantava as suas letras – uma surpresa que a emocionou. E a nós também.
Após o jantar, esperáva-nos Noiserv no palco Carlos Paião. E talvez antecipando, o que lhe seguiria, apresentou-se como sempre: o autêntico homem dos sete instrumentos. Certamente, mais do que sete. Rodeado por uma parafernália de teclados, sintetizadores, metalofone, xilofone, pedais de loop e efeitos, melódica, e alguma percussão eletrónica, Noiserv apresenta-se como o homem-orquestra que polvilha de melancolia qualquer jardim. Visto da plateia parecia estar no interior de um cubo luminoso e futurista e, utilizando um sistema de looping e efeitos, construiu canções sobrepondo sucessivamente camadas instrumentais e vocais. Foi o primeiro artista desta edição do Rádio Faneca a servir-se de outra língua que não a portuguesa. O público era considerável e considerou-o. Manteve uma escuta atenta e produziu o silêncio necessário à sua música. Na manhã seguinte, publicou numa rede social: “Há muitos festivais de música pelo país e depois há o Radio Faneca.”
Fomos deixando algumas pistas sobre qual seria a maior montanha do primeiro dia do resto das nossas vidas e o segundo do festival. Ainda durante a tarde, na primeira vez que pisámos o recinto e olhámos o palco principal, percebemos que algo tinha mudado por lá. As letras garrafais e encarnadas escreviam SERGIO. Havia público a guardar lugar nas primeiras filas há algum tempo e, se calhar, não era para menos. Pois, novamente, desafiando o óbvio e mantendo constante o diálogo entre passado e futuro, o festival apresenta Sérgio Godinho e Assessores com Samuel Úria. Isto é: o presente – inédito. A língua portuguesa, cantante e celebrada.
Em cima dos seus 80 anos, Sérgio Godinho quer estrada enquanto outros querem sofá. Uma cadeira aceita, sofá não. Acompanhado pelos seus assessores, talentosos e consagrados, que exploram novos arranjos e formulações criativas para canções históricas, Sérgio parece ter algo dizer. Na verdade, o mesmo de sempre, mas talvez rodeado por uma urgência mais proeminente desta vez. Se se formavam dúvidas, o alinhamento prontamente as desfazia com os ventos Zeca Afonso (“Vampiros”), Zé Mário (“Mariana Pais, 21 anos”), Conjunto António Mafra (“Ora Vejam Lá!”) e Alexandre O’Neil a soprarem forte. A Paz. O Pão. Habitação. Saúde e Educação do costume. E que nos acostuma, mesmo numa semana de greve geral. Inéditos e, provavelmente, inesquecíveis serão também os momentos/passagens com Samuel Úria. Uma carga simbólica, emotiva, mais do que de ombro, chocou contra a plateia quando os ouviu cantar “Lenço Enxuto”, nessa entrada em palco do território uriano, como lhe chamou Godinho. Rareavam o ar e as palavras e sobravam memórias de futuro. Úria apareceu em “Aprende a Nadar Companheiro” e em “LIBERDADE”, último tema antes do encore com “A noite Passada”. Terá mesmo sido um privilégio assistir a este concerto? – logo saberemos. Permaneceu, sim, uma sensação de grandeza e actualidade atravessada pelo sentimento de que tudo se transforma noutra coisa, isso é certo.




[Terceiro dia]
Domingo de manhã, ainda tentando resgatar-nos à noite passada, voltámos ao ponto de partida e à casa mãe do Rádio Faneca – a Casa da Cultura de Ílhavo – para o encontro marcado com Hugo Pequeno, programador do 23 Milhas, projeto cultural do município de Ílhavo, e por consequência do Rádio Faneca. Conversámos sobre a origem do festival, as ideias que o sustentam e a identidade que sugere, enquanto os Expresso Transatlântico tomavam o pequeno-almoço mesmo atrás de nós. Hugo Pequeno está ligado ao festival desde a primeira edição: “Tive a fortuna de ter estado na primeira edição, em 2012, e na sua construção, embora na área da comunicação, na altura. A ideia do Rádio Faneca nasceu, depois de construir este monumento, esta casa de espetáculos, que é a casa principal deste projecto, com o objetivo de tirar a cultura do seu espaço habitual, fechado, controlado, e colocá-la no espaço público.”
Esta será uma ideia chave que nos permite entender a eficácia do diálogo com a comunidade. “Sempre que queremos criar alguma coisa saímos para a rua, para os becos. Voltámo-nos a encontrar com os becos porque aqui na casa da cultura não vamos criar nada além do básico e do que é mais clássico.” O Rádio Faneca parece-nos tudo menos clássico, básico e óbvio. É, aliás, explicito que “esse namoro contínuo e reciproco com a comunidade em que procuramos e inventamos novas formas de contacto para a construção de um identidade cultural diversificada”, se transforma numa programação particular e característica.
Hugo Pequeno esclareceu que “o Rádio Faneca não é para artistas populares. Com todo o respeito por esses artistas que têm lugar em outros eventos municipais que são apoiados por nós. A não ser que seja algo inusitado ou diferente do habitual, no Rádio Faneca não haverá esse palco.” Para percebermos melhor os critérios da programação reiterou que “o músico português tem que estar presente. A construção é sempre um diálogo entre o presente, o emergente, e o passado. Daí termos o Sérgio Godinho, ou Jorge Palma no ano passado, ou os Ena Pá 2000 há três anos. Mas depois temos Inês Marques Lucas, A Sul, Asa Cobra, Sofia Leão.”
Ligar gerações entre artistas e entre o público é uma das intenções da programação: “gosto de deambular pelo público e foi muito interessante ver ontem um público de todas as idades. A música portuguesa ser celebrada por esta intergeracionalidade que trazemos ao Rádio Faneca é muito importante para nós.” Outra intenção é tornar cada actuação um momento especial, inclusivamente, para os músicos: “queremos que os artistas quando vêm para o Rádio Faneca não o encarem como só mais um concerto da sua agenda. Queremos que seja uma experiência para eles também, e acredito que isso tem acontecido em quase todos os casos.”
Esta vontade de proporcionar momentos únicos aos artistas teve nesta edição, uma das novidades que trouxeram satisfação ao programador. “Encontrámos varandas muito bonitas, em casas muita antigas, para showcases de alguns artistas, além dos seus concertos. Não esperava que fosse tão positivo para nós, mas também para os artistas, porque senti-os verdadeiramente confortáveis nesse papel de interação com o público.” Ou seja, os artistas que vêm ao Rádio Faneca sabem que serão desafiados a participar em momentos únicos: “um concerto debaixo de uma oliveira no palco rádio, ou um concerto num beco no meio de pessoas que abrem as janelas e que estão com os seus gatos a assistir.”
Nessa relação com os artistas é interessante perceber que alguns vão desenhando a sua própria história dentro do festival. “Ana Lua Caiano que deu este espetáculo muito bonito na sexta-feira no Palco Carlos Paião, já tinha estado cá no Palco Rádio, quem sabe se daqui a uns anos estará no Jardim. Nós não planeamos esta evolução, ela acontece naturalmente. O Noiserv também já esteve num beco e no Palco Rádio. Ontem actuou no Carlos Paião. É muito bonito ver essa evolução e o regresso dos artistas ao palco do Rádio Faneca sempre a evoluir. Não temos medo da repetição quando ela faz sentido.”
Hugo Pequeno quis sublinhar que: “isto não é só um festival de música, embora exista sempre essa leitura de palcos e escolhas de programação. É sobretudo um contacto muito privado, directo, emocional e comovente com a comunidade que nos ajuda a criar este festival.” E mesmo havendo uma tarde pela frente adiantou: “o balanço é muito positivo. Faltam algumas horas para terminar o festival mas estamos muito satisfeitos com as opções que fizemos este ano.” Para as próximas edições fica a garantia de que o festival permanecerá gratuito, com a mesma duração e privilegiará sempre a música portuguesa.
A verdade é que ainda temos o último dia desta edição pela frente e, a seguir ao almoço, havia quatro concertos. Recomeçámos no alojamento local em frente à piscina para escutar o projeto “A quatro mãos” que junta André Barros e Tiago Ferreira ao piano e Paulo Bernardino no Clarinete. Foi a melhor forma de nos iniciarmos na música que a tarde prometia. Notas suaves e composições sugestivas convidavam ao relaxamento do corpo enquanto nos varriam a mente. Belo momento ao sol entre famílias e muitas crianças a assistir. Uma quase sesta musical. Seguimos para o Palco Rádio para os A Sul nos apresentarem o seu último trabalho – QUER QUER QUER – lançado em fevereiro. Cláudia Sul na voz e na guitarra, é dona de um timbre peculiar e belo, e a sua afinação foi sempre perfeita. As composições entre o folk e a pop, assentam numa língua portuguesa sublimada nos limites da canção de autor com sensibilidade experimental. São cinematográficas e enriquecidas por uma percussão criativa e experimental de Pedro Almeida que parecia mais um orquestrador do que um percussionista. A bateria apareceu como paisagem espiritual e não como um tempo a percorrer.
Chegava a hora dos Expresso Transatlântico e nada nos havia preparado para isso, a verdade é essa. Um atropelo sonoro rumo a uma urgência colectiva de êxtase e revolta. Já desconfiávamos que esta malta não faz a coisa por menos, mas mesmo assim foi surpreendente a forma como se entregaram ao concerto, ao palco e à música. Os manos Varela eram a carruagem frontal e mais visível, impulsionados pelos propulsores enérgicos e arrebadores de Rafael Marques na bateria e as intervenções do esteta Zé Cruz com seu trompete e de volta da mesa eletrónica.
Misturando temas anteriores com os do novo álbum, Trópico Paranóia de janeiro, fizeram um concerto formidável que elevou o público a estados que ainda não tinham sido alcançados durante os três dias do festival. O virtuosismo de Gaspar ao leme da guitarra portuguesa foi, em alguns momentos, brilhante. Enquanto que Sebastião foi sempre consistente e atrevido nos riffs e também na postura punk. Com apenas cinco anos de idade, os Expresso Transatlântico afirmam-se como um dos casos mais sérios dentro do panorama musical português. A sua música, ainda que descendente mais ou menos direta de Dead Combo, ousa sempre o risco e a novidade e alcança territórios por mapear. Este álbum, que contou com a produção de Paulo Furtado, parece descolar-se de algumas das cordas mais fixas do fado lusitano para abarcar um território peninsular que se estende do al-Andalus à Galécia a partir da contemporaneidade. A electrónica assume-se como um eixo e não como adorno. E os apontamentos de trompete levam-nos quase diretamente para o vasto território das músicas do mundo. Grande Concerto. No final, muita gente quis comprar os discos, tirar fotos e recolher assinaturas da banda. Arriscamos dizer que, com mais ou menos desvios, trata-se de uma afirmação plena da jovem banda lisboeta.
O concerto final, ainda com o sol a invadir e iluminar o Palco Jardim, prometia celebrar o legado de António Variações com a orquestra do mar conduzida por Filipe Sambado. O concerto parecia dotado de significados múltiplos trabalhados desde novembro por muitos músicos locais. Recuperando as palavras do programador Hugo Pequeno: “normalmente estes projetos de comunidade tem um trabalho muito amplo e rico e por vezes o percurso é tão ou mais importante do que o concerto final.” De facto, este concerto final parece ter resumido muito bem o espírito e a essência do Rádio Faneca. Até para o ano fanequeiros!