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Mais uma edição repleta de bons momentos.

De Massive Attack a Criolo, Amaro & Dino: 14 concertos memoráveis do Primavera Sound Porto’26

A cada ano que passa, o Primavera Sound Porto continua a mostrar que é possível manter-se no roteiro dos maiores festivais portugueses sem cair em clichês programáticos. Com uma programação sempre a pender para as sonoridades mais alternativas — sejam elas pop ou rock; underground ou mainstream —, a organização brindou-nos em 2026 com um cartaz composto por novas e velhas caras, onde o Reino Unido teve em especial destaque com vários projetos a assegurar muitas das prestações que mais tempo vão ficar cravadas na nossa memória. E até o tempo (des)ajudou: entre os dias 11 e 13 de Junho (houve ainda uma sessão extra no dia 14 apenas dedicada a quatro DJ sets), o calor (muitas vezes quase insuportável) tomou conta da Invicta e trouxe alegria extra ao recinto, mas dificultou as viagens de autocarro e metro nas deslocações, na grande maioria das vezes sem ar condicionado disponível.

Da dezenas de propostas disponíveis em cartaz, o Rimas e Batidas viu quase tudo. Fosse o punk irreverente de Vaiapraia ou o rock bem-humorado dos Yard Act, a apresentação do novíssimo LIGA DURA de Rita Vian ou as diferentes peles do camaleónico rusowsky, de mais um concerto de despedida dos PAUS à cada vez mais incontornável nova princesa da pop africana Amaarae, passando ainda pela estridência e distorção dos Agriculture, a ciência indie de Panda Bear, o rap fora-da-caixa de Joey Valence & Brae ou as novas sensações brasileiras Duquesa e Mari Froes, entre outros.

De toda a música escutada, foram 14 as apresentações que mais nos marcaram, praticamente todas elas pela positiva. Nos parágrafos que se seguem, descrevemos os concertos memoráveis que testemunhámos na edição de 2026 do Primavera Sound Porto.



[The New Eves]

Pela primeira vez em Portugal, as The New Eves mostraram nesta edição do Primavera Sound Porto a pertinência do seu álbum inaugural – The New Eve Is Rising – lançado em agosto do ano passado. O grupo de Brighton revisita o folk ritualista através de uma atitude pós-punk experimental; apresentou um som possante, desafiador e surpreendente na tarde cálida do Porto. Violet Farrer (violino, guitarra e voz), Nina Winder-Lind (violoncelo e voz), Ella Oona Russell (bateria, flauta e voz) e Kate Mager (baixo e voz), são os eixos em torno dos quais a música ora se enrola, ora se liberta de tradições folclóricas britânicas, de cantos ancestrais e atmosferas naturais, de mitos e lendas da floresta. A instrumentação híbrida sonoriza o arcaico e a modernidade, do baixo elétrico à flauta, da bateria ao violino. Poesia cerimonial, tensa e emocional, sobre linhas de baixo pulsantes e persuasivas: energia crua. A abordagem pouco convencional à estrutura das canções é reforçada pela forma como Ella atacava a bateria, sempre em pé. Sentimos a impressão da banda neste primeiro álbum.

— Marco António Vieira



[Sensible Soccers]

No início do ano, os portuenses prometeram voltar aos discos e aos concertos antes que o mundo acabe — estão cumprir. Depois de Manoel em 2021, este ano, já nos chegaram três faixas do novo EP#1 Dub Versions, composto por André Simão, Hugo Gomes, Manuel Justo e Sérgio Freitas, e produzido pelo lendário Mad Professor. Apresentaram-se na hora dourada para transformar em pista de dança o palco mais sugestivo do festival. Os Sensible Soccers parecem costurar minuciosamente a identidade e a essência do Primavera Sound enquanto escapam de todos os epítetos que lhes queiram colar. Entre a acústica e a eletrónica, o krautrock e o pós-rock, nasce um groove elegante e repetitivo que encontra ressonância nos corpos. Fecha-nos os olhos para um vislumbre interno e uma contemplação em balanço. A dimensão instrumental, progressiva e hipnótica, era a viagem onírica, um apelo irresistível ao movimento. O material novo confirma que este ressurgimento chegou como uma aragem fresca numa tarde quente: promete um futuro.

— Marco António Vieira



[Big Thief]

“Fecho os meus olhos porque assim imagino que não há distância entre nós”, disse-o Adrianne Lenker. E foi exatamente isso que Big Thief deu: uma proximidade desmedida. Com uma poesia discreta, os folk-rockers norte-americanos deixaram claro que no meio de tantas crises existenciais monumentais, viver e pensar o momento tanto quanto a conexão humana, ainda são princípios da sua arte. Diante de um público que prometia estar na dianteira para se fazer ouvir em alto e bom som, “Incomprehensible” escancarou a porta para uma partilha de recordações e dúvidas, angústias e reptos. A primeira música do álbum Double Infinity, lançado em 2025, mostrou-se peculiar e quem ali estava não esperava mais do que isso, um concerto equilibrado e evolutivo, entre o country e o folk, com momentos mais intensos e enérgicos. Ao acompanhar o ritmo melancólico de “No Fear”, Lenker entoou um mantra que afasta o medo, para, depois, seguir de forma linear. No entanto, não se ficou por aqui. Estreando-se no Primavera Sound, Big Thief tornaram-se mais memoráveis do que propriamente espectáveis: o conjunto tocou “Evol”, do projeto a solo de Adrianne Lenker, também uma estreia. Entre a angústia e a doçura, as melodias clássicas e o som acústico, o elenco de apoio desassossegado transformou o concerto com arranjos grandiosos e despojados, mantendo um contacto visual constante, como se não quisessem deixar escapar nada. É por isso que em tempos sedentos de individualismo, Big Thief é um miraculo.

— Ana Patrícia Silva



[Oklou]

A Internet já fazia prever que Oklou ia ser uma ótima companhia para o primeiro dia do Primavera Sound. Das lives para a NTS ou Tiny Desk Concert, passando, claro, pela recente réplica dada neste mesmo festival em Barcelona, a francesa nascida Marylou Vanina Mayniel tem mostrado que o cunho autoral da sua arte se estende para além dos discos e sobe também com ela aos palcos. A prestação vocal está limada ao mais ínfimo detalhe, podemos vê-la a tocar flauta ou teclas, e adota ainda uma componente performativa que adoça o lado visual do espetáculo — como quando se senta num baloiço e levita perante os nossos olhos ou se desdobra num acting para uma câmera que transmite a sua cara nos grandes ecrãs que ladeiam o palco, como se estivesse numa chamada de vídeo com o público. Musicalmente, as suas criações ganham ainda mais impacto ao vivo neste formato de pequena banda — com Casey MQ e Florian Le Prisé —, entrelaçando as melodias sintetizadas, dignas de bandas sonoras de RPGs das mais antigas consolas da Nintendo, com batidas vincadas da escola de raves UK e algumas camadas de rock, muito pela presença da guitarra elétrica. Se a pop alternativa ainda respira de originalidade nos dias que correm, Oklou é um dos nomes que mais têm contribuído para isso, especialmente graças ao álbum de estreia que lançou no ano passado, choke enough, de onde foram extraídas a maioria dos temas da setlist — das muito dançáveis “take me by your hand” e “harvest sky” às mais nublosas “ict” e “obvious”.

— Gonçalo Oliveira



[The xx]

Formados em 2005, os The xx reformularam a sonoridade da eletronica de dança e levantaram ondas pelo mundo inteiro, tendo Portugal sido um país que abraçou com especial força o trio formado por Romy Madley Croft, Oliver Sim e Jamie Smith (aka Jamie xx), presença frequente nos cartazes dos nossos festivais até 2018, quando decidiram colocar a sua atividade de grupo em suspenso para se dedicarem a outras frentes. A saudade do povo português era visível e audível durante toda a atuação da banda no palco principal do Primavera Sound Porto, inserida na digressão de regresso dos The xx após as últimas datas ao vivo que antecederam o referido hiato. Os ingleses foram recebidos com enorme carinho e responderam com uma série de temas clássicos perfeitamente executados, mostrando o seu ADN musical bem explícito — uma dream pop que se move fluidamente entre o rock cantautoral de estética indie e a igreja da house fundada por Faithless que purifica corpos pela via da dança. Começaram com “Crystalized”, mesmo a mostrar ao que vinham, sem receio de esgotar os trunfos. Pelo meio percorreram toda a sua discografia — uma tripla de álbuns formada por xx (2009), Coexist (2012) e I See You (2017) — e ainda deram margem para explorar algumas criações a solo que Jamie e Romy têm desempenhado. Houve doses extra de emoção quando a voz do eterno Gil Scott-Heron se escutou em “I’ll Take Care Of You” e a confirmação em pleno de que, afinal, também uma “Intro” instrumental de um disco de estreia pode muito bem ser hino de uma geração inteira e fechar com chave de ouro um concerto há muito ansiado.

— Gonçalo Oliveira



[KNEECAP]

Mo Chara, Móglaí Bap e DJ Próvaí tiveram várias razões para dizer que o “Porto era melhor que Barcelona”. Uma delas foi o facto de pouco ou nada o público entender do irlandês e mesmo assim saber o que, no fundo, cada uma daquelas músicas e compostos significava. Engane-se quem acredita que, inevitavelmente, se criaria anticorpos por uma hipotética barreira linguística que pudesse existir. Naturais de Belfast, KNEECAP rimam sobre realidades e problemas que nos são bem mais próximos do que se pode imaginar. Marginalidade, violência, tráfico e consumo de estupefacientes… soa familiar? Dos miúdos aos graúdos, dos portugueses aos escoceses, irlandeses, ingleses, passando por uns quantos outros sotaques que se fizeram ouvir no recinto, as camisolas que vestiam falavam todas a mesma língua: ora eram alusivas à banda, à Palestina ora à causa republicana irlandesa. Músicas como “Smugglers & Scholars” e “H.O.O.D” surgem impulsionadas por uma onda grave de três notas de baixo e uma sirene aguda e sinistra. Mo Chara e Móglaí Bap já rondavam o palco e entusiasmavam qualquer um que ali estivesse mesmo que fosse para ouvir ou conhecer. FENIAN, o seu último álbum, pode ter sido lançado há relativamente pouco tempo, mas ali, as canções já pertenciam à multidão. No concerto, nunca deixaram a política ficar de fora do centro das atenções. Indo diretamente ao ponto, a Palestina, os artistas recordavam-no consecutivamente no trabalho visual dedicado ao concerto. “A razão pela qual gravamos vários vídeos destas noites é para que as pessoas na Cisjordânia e em Gaza saibam que as apoiamos”, disse-o Mo Chara, antes que o público explodisse num coro de “Palestina livre, Palestina livre”. “Tiocfaidh ár lá” é o slogan adotado pela banda, que significa “o nosso dia chegará”, e para KNEECAP e para o rap, parece que, mais do que nunca, esse momento chegou.

— Ana Patrícia Silva



[Annahstasia]

A voz singular e finalmente liberta da catautora de Los Angeles arrepiou-nos. Não há como dizer de outra forma: é uma voz memorável. Um das maiores revelações da folk contemporânea. O seu álbum de junho de 2025 – Tether – mostra uma pérola que parece ficar mais brilhante num palco, diante uma plateia. Talvez por isso, Annahstasia lançou em Março deste ano Live at Glasshaus, uma gravação ao vivo que desvenda alguma da singularidade da voz e o talento que mostrou no Primavera Sound Porto. À frente de um ensemble acústico de duas guitarras, um contrabaixo e um violoncelo (não veio a harpa nem o teclado de Barcelona), encontrou com composições íntimas e arranjos ricos uma via aberta ao coração do público. Canções lentas, espirituais, organizavam o espaço enquanto a voz se ocupava de erguer muros entre aquele momento e a agitação em redor. Soul, folk e música de câmara ao serviço de uma voz monstruosa, capaz de magia nos graves e ainda de convocar a brisa do mar ao afinar aos ventos nos agudos. A sua poesia íntima, centrada no amor e na vulnerabilidade, por vezes insegura e receosa, impunham o contraste permanente com a imponência da voz. O público foi-se mostrando efusivo e surpreendido com este encontro inédito e inesquecível com Portugal. Está entre as descobertas felizes do festival.

— Marco António Vieira



[Viagra Boys]

Quem ainda tenta levar à letra “Punk Rock Loser” está anos-luz de perceber de que são feitas as bandas punk-rock suecas. Viagra Boys deram tudo o que tinham para recordar que não há expressão viva da “morte” do punk-rock. Mesmo não sendo a sua primeira vez em solo português, a banda sueca (re)insurgiu-se. Há algo neste conjunto de artistas – com base de formação no jazz – que desconstrói por completo a ideia de que a “resistência” não pode ser dançada, sem que lhe tire a sua crueza. No concerto que antecedeu Gorillaz não só se dançou como se criou uma onda coletiva de (des)agrado: houve tempo de sobra para criticar o estado atual da política moderna. O mote? “Troglodyte”, que tal como Murphy explicou serviu para criticar os “trogloditas do mundo”. Mesmo que as coisas tenham piorado desde então, o artista não deixou de dedicar o pouco tempo que tinha para falar sobre aquilo que realmente importa: enfurecer quem ainda acredita no individualismo e quem alimenta a guerra. Com uma mistura de mosh e crowdsurf, “Slow Learner” e “Waterboy” transformaram por completo o recinto. Já o saxofonista da banda, Oskar Carls, mostrou-nos que o jazz também reside no punk-rock, quanto mais não seja, pela experiência que lhe deu para tocar enquanto fazia um pseudocrowdsurf. Mas isso nós já sabíamos, tal como sabemos o que quer dizer a tatuagem que tanto se destaca no corpo de Murphy – “you need me”.  Mesmo que este não seja o pináculo da sua vida, ele não estava de todo errado quando a fez. Precisamos dele, precisamos de Viagra Boys.

— Ana Patrícia Silva



[Gorillaz]

A veterania, por si só, não deve ser vista como um posto. Há, por isso, que continuar a nutrir os ouvidos do público para manter a reputação que se adquiriu ao longo de décadas de trabalho. Longe dos tempos em que deram ao mundo uma diabólica tríade de primeiros discos com Gorillaz (2001), Demon Days (2005) e Plastic Beach (2010), os Gorillaz são hoje apenas uma sombra de si mesmos. Perdeu-se a essência na constante busca pela conceptualidade, tal como se perdeu a capacidade para prender a atenção das pessoas durante a edificação de um espólio discográfico que nos últimos anos tem sido, na melhor das hipóteses, medíocre. The Mountain, o LP que editaram este ano, não tem uma única faixa capaz de rivalizar com “Feel Good Inc.” ou “Clint Eastwood” e parece viver apenas de uma fanbase sólida que vai sustentando os números da banda inglesa nas plataformas de streaming pela curiosidade em continuar a acompanhar o grupo de desenhos animados que tantas alegrias já trouxe ao mundo. Em palco, a coisa não melhora. O concerto dos Gorillaz foi marcante pelo aborrecimento absurdo com que nos inundou, reflexo da postura do próprio bandleader Damon Albarn, super monocórdico e sem qualquer emoção na voz sempre que pegava no microfone. As duas faixas já referidas que são clássicos intemporais dos Gorillaz salvaram no final os fãs do tédio que estava a ser aquela performance do repertório mais recente do projeto inglês.

— Gonçalo Oliveira



[Mike D]

Depois do susto com os Gorillaz, um certo nervosismo invadiu-nos a mente, instalando-se um receio quanto à forma com que um outro veterano se iria apresentar diante da massa adepta reunida no Porto. Como um verdadeiro party rocker que ao longo de décadas se habituou a causar barafunda com os Beastie Boys, Mike D fez o calendário esquecer-se dos seus 60 anos de idade para nos entregar uma das atuações mais lendárias da edição deste ano do Primavera Sound Porto. Acompanhado por uma banda formada por seis músicos — quase todos eles muito jovens e incluindo dois dos seus próprios filhos —, o rapper nascido Michael Louis Diamond tinha cravada tanto na voz como na postura a mesma irreverência com que se mostrou ao mundo ainda durante a sua adolescência, mas agora com um jeito ligeiramente desengonçado — que lhe dava pontos de aura adicionais extra e até uma certa graça, diga-se —, provavelmente ainda à procura de como deve enquadrar a “personagem” com a idade que carrega no físico. O feeling geral era o de que estávamos a assistir a uma atuação dos próprios Beastie Boys, mas com uma sonoridade atualizada que tanto englobava batidas digitais — dos 808s pesados ao drum & bass — como aqueles breaks de bateria de onde escorrem vestígios do mesmo funk que potenciou as rodas de freestyle nos primórdios da arte do MCing. Thank You, o primeiro álbum a solo que Mike D que vai lançar no final de Agosto, foi a principal fonte sonora de uma setlist que incluiu ainda covers de Delta 5 e, claro, dos Beastie Boys — “So What’cha Want” foi mesmo a escolhida para fechar o alinhamento em grande estilo.

— Gonçalo Oliveira



[Criolo, Amaro & Dino]

Um triângulo desenhado sobre o atlântico que se estreou em concertos no Primavera Sound Porto para celebrar a música, a vida e as línguas sobre o legado trágico e inesquecível do colonialismo português. A centelha do álbum – CRIOLO, AMARO E DINO, lançado em janeiro – é o amor, a amizade e a existência. Uma possibilidade histórica e futura nesta encruzilhada do presente. A música é o que liga, o que alicerça as pontes entre Cabo Verde e o Brasil e torna comum um oceano. Para o palco, transpuseram o que está no álbum: o enlace do batuque, da morna e o crioulo de Dino D’Santiago, com o jazz contemporâneo espiritual e naturalista de Amaro Freitas e a tradição da palavra, da poesia urbana de Criolo. Mostram-nos um mundo novo e inesgotável. Uma quarta dimensão simbiótica, fértil e fascinante. Alguns temas surgiram expandidos, com espaço para improvisação de Amaro Freitas natural e dinâmica ao piano e uma interação sempre feliz e generosa de Dino e Criolo com o público. Ladeando o trio, Sérgio Machado (bateria), Ed Trombone (trompete), Henrique Albino (flautas e sax alto) e Miguel Mendes (baixo elétrico). “Você Não Me Quis”, “Ela é Foda”, “Fogo Lento” e “Amazónia” (A-i’ahu) foram as canções do alinhamento que mapearam o disco e mostraram que esse encontro transatlântico já tinha conhecedores entre a plateia. O momento em que Criolo partilhou as composições icónicas – “Subirusdoistiozin” e “Não Existe Amor Em SP” – encheu o público de entusiasmo e gratidão. Esta estreia promete.

— Marco António Vieira



[Sudan Archives]

Quem a viu e quem a vê. Ainda nos lembramos de quando lhe detectámos potencial há quase 10 anos atrás, quando se estreou pela Stones Throw Records para abraçar uma estética próxima da eletrónica experimental tão característica de Los Angeles, mas com a mente fixada no folklore árabe e africano. Hoje em dia, com dois EPs e três LPs cá fora, Sudan Archives está a competir sonicamente com alguns dos mais sonantes nomes do R&B mundial, embora o seu nome pareça ser ainda um segredo não muito divulgado. E em termos de performance, subiu muitos degraus desde as últimas vezes que a vimos. Conseguem imaginar um artista mutante fruto do cruzamento genético entre Beyoncé e Ana Lua Caiano? Passamos a explicar: a violinista, cantautora e produtora nascida Brittney Denise Parks tem o power da estelar diva da pop contemporânea, mas opera de forma muito mais independente e DIY, desdobrando-se entre voz, dança, instrumentos (ao violino somam-se teclas, percussões e mais uns quantos apetrechos) tal e qual o multitasking que costumamos ver na arte da emergente portuguesa. Não recuou em demasia no catálogo para nos brindar com “Come Meh Way”, mas não faltaram “Selfish Soul”, “Freakalizer” e, claro, as várias bombas sonoras com que armadilhou o seu mais recente álbum The BPM (2025). Assegurou, certamente, uma das performances do ano do Primavera Sound Porto e levou-nos ao êxtase quando convocou um elemento do público a subir ao palco e brilhar num solo de dança.

— Gonçalo Oliveira



[Massive Attack]

“É o futuro um conjunto de agora(s)?” esta foi uma das tantas perguntas que surgiram no grande ecrã do Palco Estrella Damm, na última edição do Primavera Sound Porto. Mas este é um “futuro” que se estará disposto a ver e ouvir? Seguiram-se números, estatísticas, slogans, vídeos, gráficos e mais perguntas. A informação chegava levando a um efeito catarse. O mesmo aconteceu em “In My Mind”, na primeira aparição de Elizabeth Fraser, voz dos Cocteau Twins. Ao longo de cerca de duas horas, Massive Attack, conjunto composto por Robert “3D” del Naja e Daddy G, recordaram quem por ali passou de como os concertos também podem ser históricos, não só enquanto referência absoluta da música contemporânea como reatores de um mundo, igualmente artístico, do qual não querem fazer parte. A música também pode (e deve) passar por isso: um veículo de reação e introspeção, seja ela mais ou menos “educativa”. Temas como “Black Milk”, “Teardrop”, “Angel” ou “Unfinished Sympathy” foram quebrando a tensão de alguns aquando recuperavam a nostalgia presente nas últimas décadas. Para que lugares as energias, as mensagens e os sons se canalizavam são responsabilidades de cada um que se mantinha presente no concerto, mas os Massive Attack decididamente tentaram fazer tanto com tão pouco. Passando por Elon Musk, o Neuralink, a vigilância digital, a Palantir o reconhecimento facial, o poder das grandes tecnológicas, a fragilidade das democracias, a exploração mineira, o Congo, o Sudão e Gaza, Massive Attack deram-nos todas as ferramentas e mais algumas para que não se vire mais as costas e se reflita sobre tudo isto. Mais uma vez, sobre Gaza. Resta saber quantos de nós ainda estão dispostos a usá-las. Seja para ouvir ou para as mover.

— Ana Patrícia Silva



[IDLES]

Os IDLES subiram ao palco com o público ainda a digerir o incómodo dos Massive Attack para sublinhar a mesma mensagem, desta vez, com os riffs de Mark Bowen vestido de lantejoulas e propondo Joy as an Act of Resistance. O fascismo, o racismo, a Palestina e o repúdio aos líderes mundiais foram a missiva perturbadora que identificou os alvos e diluiu fúrias dispersas em alegria. O carisma de Joe Talbot permanece intocável e a entrega da banda ao concerto mais enérgico desta edição do Primavera Sound — talvez a par de Viagra Boys — foi notável e em crescendo. Pelo meio dos riffs e do ruído brutal, Joe Talbot convocava a multidão com palavras de ordem; e quando milhares de vozes lhe devolviam os cânticos, o concerto parecia deixar de pertencer à banda e era o público o dono dele. A proposta dos IDLES sempre foi unir por entre o caos, tornar coletiva a cólera e conduzir revoltas com guitarras fulminantes rumo a um escape para a loucura. Provavelmente o ar do tempo confere à sua proposta, originalmente underground, um significado mais urgente, mais amplo, enquanto explica um público sempre em extâse e em vibração catártica durante todo o concerto. No final, sobrou o suor, a rouquidão e o sentimento ocasional de que se limpou a alma com um exorcismo comunitário.

— Marco António Vieira

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