James Blood Ulmer faleceu aos 86 anos. A notícia do seu desaparecimento foi confirmada pela família, que revelou que o guitarrista, cantor e compositor norte-americano partiu no passado dia 3 de Junho. Com ele desaparece uma das figuras mais singulares da música afro-americana das últimas cinco décadas: um artista impossível de encaixar numa única categoria, alguém que levou o blues para territórios futuristas, injectou funk na linguagem da vanguarda jazzística e fez da guitarra um instrumento de permanente reinvenção.
James Blood Ulmer criou uma linguagem própria. Nascido Willie James Ulmer a 2 de Fevereiro de 1940 em St. Matthews, na Carolina do Sul, recebeu a primeira guitarra das mãos do pai, pregador baptista. Cresceu entre o gospel e a igreja, absorvendo desde cedo uma dimensão espiritual que nunca abandonaria a sua música. Depois de passagens por Pittsburgh, Columbus e Detroit, onde trabalhou nos circuitos de rhythm & blues, soul e funk, chegou a Nova Iorque no início da década de 1970. Foi aí, a tocar regularmente no mítico Minton’s Playhouse, que encontrou o contexto ideal para desenvolver uma voz verdadeiramente singular.
O encontro decisivo aconteceu com Ornette Coleman. O saxofonista viu em Ulmer um músico disposto a abandonar os mapas conhecidos. Sob a influência do criador da teoria harmolódica, Blood Ulmer desenvolveu uma abordagem radical à guitarra, libertando-se das convenções harmónicas tradicionais e explorando afinações pouco ortodoxas — incluindo afinar todas as cordas para a mesma nota — que lhe permitiam improvisar de forma inteiramente pessoal. A partir desse momento, a sua música passou a habitar um território onde blues, jazz, funk, rock e improvisação livre coexistiam sem fronteiras.
Os primeiros frutos dessa procura ficaram registados em álbuns como Tales of Captain Black, de 1978, mas foi sobretudo com Are You Glad To Be In America?, lançado dois anos depois na britânica Rough Trade, que James Blood Ulmer apresentou ao mundo uma visão artística completamente formada. O disco continua a soar tão urgente hoje como então: político sem ser panfletário, experimental sem perder o corpo do funk, profundamente enraizado na tradição negra norte-americana e simultaneamente apontado para o futuro. Seguiram-se trabalhos fundamentais como Free Lancing, Black Rock ou Odyssey, títulos que ajudaram a consolidar uma das discografias mais aventureiras da música contemporânea.
Ao longo da carreira liderou projectos marcantes como os Music Revelation Ensemble ou os Phalanx, colaborou com músicos tão distintos como Ronald Shannon Jackson, David Murray, George Adams, Vernon Reid, Ry Cooder ou os The Roots e manteve sempre intacta a sua recusa em escolher um único caminho. E mesmo quando, já nos anos 2000, regressou de forma mais explícita ao blues em discos como Memphis Blood ou Bad Blood In The City, produzidos, respectivamente, por Vernon Reid e Bill Laswell, nunca o fez de forma nostálgica. O blues era para Ulmer matéria viva, uma linguagem em permanente transformação.
O crítico Greg Tate descreveu-o uma vez como “o elo perdido entre Jimi Hendrix e Wes Montgomery, por um lado, e o universo P-Funk e Mississippi Fred McDowell, por outro”. A imagem é certeira e reforça a ideia de que Ulmer, como poucos outros artistas, conseguiu fazer dialogar tradições aparentemente incompatíveis sem que a sua música perdesse identidade.
Mas talvez a melhor descrição da singularidade de James Blood Ulmer tenha sido dada pelo próprio. Numa conversa com Melvin Gibbs publicada pela Oxford American em 2019, o guitarrista explicou que procurava fazer “música que não tenha nada que ver com o piano. Algo mais próximo da música africana”. A frase ajuda a compreender toda a sua obra. Ulmer não queria apenas tocar blues, jazz ou funk de forma diferente: procurava regressar a uma lógica musical anterior às convenções harmónicas que moldaram grande parte da música ocidental. Para sublinhar essa ideia, Gibbs escreveu ele mesmo: “Ao alterar a própria ressonância da guitarra para a aproximar do som que tinha na cabeça, Blood levou a cabo — tal como antes dele haviam feito John Lee Hooker ou Son House — uma operação de recombinação radical que se encontra no coração da criatividade afro-americana”.
Talvez por isso tenha permanecido sempre uma figura de culto admirada por músicos e ouvintes exigentes. A sua influência, porém, atravessa várias gerações de artistas que compreenderam que a verdadeira inovação não resulta necessariamente da ruptura com o passado, mas antes da capacidade de escutar as suas camadas mais profundas. James Blood Ulmer fez precisamente isso: escavou a memória do blues, da espiritualidade negra, do funk, do jazz e das tradições africanas para encontrar a sua própria voz.