pub

Fotografia: Direitos Reservados
Publicado a: 15/06/2026
Tags: Tim Maia

Uma saudade que aperta há quase três décadas.

Tim Maia: o papai da disco e soulman do Brasil

Fotografia: Direitos Reservados
Publicado a: 15/06/2026
Tags: Tim Maia

Mal ouvimos o barítono pesado deste ícone da música brasileira, em temas como “A Fim de Voltar”, “Acende o Farol” ou até mesmo “Azul Da Cor Do Mar”, um arrepio instantâneo sobe-nos pela espinha. Morreu demasiado cedo — para nós —, mas a pegada musical vai permanecer eternamente para os amantes de música. Sebastião Rodrigues Maia, conhecido como Tim Maia, foi o primeiro shouter brasileiro e aquele que se atreveu misturar soul, R&B e disco nas composições que nos ofereceu. Apesar de temas cantados em inglês, o artista brasileiro sempre deu primazia à língua que nos une.

Carioca de gema, criado no bairro da Tijuca, foi o mais novo de uma família gigante, mas humilde. Apelidado como “Tião Marmita”, por vender comida feita pela família, o pequeno Tim sempre teve o toque de Midas na música. Participou em coros, tocava bateria e, como temos tendência a nos rodearmos de pessoas com os mesmos interesses que nós, estranho seria não se ter dado com Roberto Carlos e Erasmo Carlos — artistas que se tornaram grandes amigos de Tim Maia. Aos 18, decidiu “é agora”. Pegou na trouxa e aterrou de pés juntos em Harlem, Nova Iorque, para estudar música. Descobriu o jazz, o soul, os blues, néctar que iria beber e entranhar-se no seu sangue ao longo da carreira.

Quase todos os grandes génios das artes têm percalços ao longo do caminho. Tim Maia não foi excepção. Na sua passagem pela Big Apple, acaba por ser preso em ’64 por posse de marijuana e foi deportado de volta para o Brasil. Nesta altura, o país das caipirinhas vestia-se com os trajes da Jovem Guarda, um movimento cultural e musical marcado pelo rock’n’roll, pela rebeldia dos bad boys e pelo apelo comercial. Dadas as suas paixões musicais, não será difícil compreender porque Tim Maia não se integrou neste movimento.

Segundo lembra o produtor musical Michael Sullivan, num artigo escrito para a Rolling Stone Brasil em 2012, Tim Maia procurou-o para ensaiar umas malhas com a banda Os Nucleares, visto que “ninguém conseguia entender o trabalho dele”. Roberto Carlos, amigo de longa data, conseguiu (finalmente) lançar Tim Maia no abrir da década de ’70. O nome do soulman brasileiro começou a soar familiar com o lançamento de “Não Vou Ficar”. Recorde-se que, por volta desta altura, foi o boom da Bossa Nova e o nascimento da MPB. Ouviam-se nas rádios grandes temas como “Roda-Viva” de Chico Buarque, “Tropicália” de Caetano Veloso, “Bat Macumba” d’Os Mutantes e “Divino Maravilhoso” de Gal Costa. Contudo, troca-se a década, troca-se o registo. E é aqui que a voz grave e sensual de Tim Maia ganha destaque.

Começa por nos oferecer o LP homónimo, com selo da CBD-Phillips, através da Polydor. Este é o “pai” de “Coroné Antônio Bento” (parceria com João do Vale e Luiz Wanderley), “Eu Amo Você” e “Primavera (Vai Chuva)” (de Cassiano e Silvio Rochael) e “Azul da Cor do Mar”. Tudo temas extremamente bem-recebidos pelo público.

No ano seguinte, mais um Tim Maia. Algo que se repetiu em ’72. Ou seja, em três anos, recebemos três Tim Maia, de Tim Maia. Trava-línguas? Não. Apenas uma técnica comum no Brasil durante esta altura para ser fácil de associarmos o nome do artista à sua obra. Nestes dois, recebemos temas que ainda hoje são cantados em alto e bom som pelos demais. Desde “Não Quero Dinheiro (Só Quero Amar)”, passando por “Não Vou Ficar”, “Idade”, “Lamento” e até mesmo “Pelo Amor de Deus”. 

Nestes “três Tim’s” descobrimos algo que consolidou bem a imagem do ícone. Além de não cantar somente em português (temos temas como “My Little Girl”, “Where Is My Other Half”, “I Don’t Care” e outros tantos), veio pela soul, ficou pelo R&B e seria o Rei da disco no Brasil.

Larga depois o álcool, as drogas e a carne vermelha, devido à sua devoção pela seita esotérica da Cultura Racional, e lança discos independentes. Foram dois volumes de Tim Maia Racional que nos ofereceu. Apesar da intensa entrega inicial a este culto, passado algum tempo, abandonou-o. Renegou estes discos, tentou tirá-los de circulação, destruiu stocks e proibiu vendas. Isto, contudo, não impediu que as peças não fossem consideradas verdadeiros cult classics da música brasileira.

Prosseguindo… Lança mais um Tim Maia em 1976 (parece brincadeira, mas não é) e no mesmo ano, ainda oferece Tim Maia em Inglês — explicações são escusadas. Em 1978, entrega-nos Disco Club, com selo da Warner Music Brasil, através da Atlantic, e conta com a participação de artistas como Banda Black Rio, Hyldon e até mesmo do baterista Pepeu Gomes. É aqui que nascem “Sossego”, “Acenda o Farol” e “A Fim de Voltar”. Depois de Reencontro (1979) e Nuvens (1982) lança em ’83 O Descobridor dos Sete Mares, que contém outros sucessos que ainda hoje ecoam na nossa cabeça e que fazem abrir pistas de dança mal começam a tocar, como “Me Dê Motivo” e o homónimo “O Descobridor do Setes Mares”. 

Nos próximos 15 anos, o grande Tim Maia já era conhecido pela personalidade ácida, pelo humor agridoce e por organizar festas que — literalmente — arrastavam multidões. Ofereceu-nos inúmeros discos durante esta altura. Mas deu-nos o primeiro choque também. As drogas voltaram, o álcool também e o peso na balança, tal como o seu talento, estava sempre a subir. Foi a fatura passada pelo estilo boémio com que se vangloriava de viver. 

Em Março de 1998, durante uma apresentação no Teatro Municipal do Niterói (concerto esse que estava a ser gravado para um especial), o papai da disco estava visivelmente debilitado e com falta de ar. Apesar de ter tentado prosseguir com o espetáculo (the show must go on…), a voz falhou. Tim Maia interrompe a atuação, deixa o palco e corre para os bastidores. É no camarim que o estado de saúde piora e o músico tem uma crise hipertensiva. Ligam para o número de emergência e o artista é internado no Hospital Universitário Antônio Pedro. Apesar da luta de oito dias, não resistiu. 

A 15 de Março de 1998, as manchetes dos meios de comunicação anunciavam que Tim Maia tinha morrido com 55 anos, vítima de um edema pulmonar. O “Pai da Soul Music Brasileira” deixou-nos não só obras que ainda hoje tocam várias gerações, como foi o pioneiro do soul no Brasil. Trouxe sensualidade nas cordas vocais, ofereceu temas que são tocados em loop nas plataformas de streaming e é o verdadeiro papai da disco carioca.


pub

Últimos da categoria: Ensaios

RBTV

Últimos artigos