O cinema 3D clássico gerava espanto nas plateias equipadas com uns estranhos óculos com lentes de plástico bicolores através de um truque simples: as imagens eram registadas com duas câmaras que simulavam o par de olhos humanos. Cada uma das câmaras captava imagens através de um filtro colorido e ao visionar essas imagens com os tais óculos com lentes com cores idênticas, o cérebro era “enganado” e as pessoas acreditavam estar a ver monstros em lagoas fumegantes ou robôs vindos do espaço como se estivessem ali mesmo, diante delas, com volume e espessura e profundidade.
O princípio pode ser aplicado aos dois concertos que Laurie Anderson acaba de fazer em Portugal. O seu espectáculo “Republic of Love” foi levado ao palco do CCB, em Lisboa, no passado 31 de Maio, e foi apresentado um par de dias depois em Braga, no Theatro Circo. Acontece que os dois espectáculos foram rigorosamente iguais: como numa peça de teatro ou talvez numa ópera, há um texto que é seguido com rigor pela artista que ocupa o centro do palco. E, no entanto, cada uma das performances foi marcada por uma tonalidade emocional muito diferente: mais soturno, o ambiente do concerto em Lisboa, algo mais luminoso em Braga. E isto apesar do alinhamento ter sido o mesmo. Sobrepondo as duas apresentações, a imagem que se obtém da obra de Laurie Anderson é muito nítida e quase palpável: a sua arte tem essa infinita capacidade de retratar os tempos, de nos propor respostas para os mais complexos enigmas, estejamos nós onde estivermos e seja qual for a nossa disposição. Enigmas aparentemente insolucionáveis como, por exemplo, “que caminho deveremos seguir?”.
Ora, Laurie não é nenhum profeta, arauto de uma verdade absoluta ou sequer uma flautista — ou violinista, melhor dizendo… — de Hamelin. Mas, ainda assim, a música que foi oferecendo ao mundo desde que começou a lançar álbuns há quase meio século está carregada de pensamentos profundos sobre as pessoas, a ciência, a arte, a comunicação, a linguagem, a natureza, os cães e a metafísica. Neste espectáculo (sobre o qual escrevi em detalhe no Blitz), alguns (poucos…) dos seus clássicos — como “Big Science”, “Language is a Vírus”, “Beautiful Red Dress” ou “Born Never Asked” — e ainda algumas criações alheias — como “It Is a Lovely Day” de Arthur Russell, “Dirty Blvd” e “Junior Dad” de Lou Reed ou “A Hard Rain’s a-gonna Fall” de Bob Dylan —, servem como marcos reconhecíveis numa viagem que nos leva até um elevado planalto de consciência de onde é possível observar o planeta e a humanidade que ainda nos resta. Uma proposta preciosa nos tempos que correm, de quase completa aniquilação da decência, da liberdade, da verdade e da própria natureza. É um espectáculo profundamente político, obviamente, com referências directas às acções da administração Trump, mas também moral, filosófico e, pois claro, bastante musical.
Esta algo breve digressão europeia de Laurie Anderson serve também para apresentar o seu mais recente registo: o triplo álbum ou duplo CD Let X = X, terceiro álbum ao vivo da sua carreira, gravado em palco com os mesmos Sexmob que a ladearam em Lisboa e Braga — Briggan Krauss na guitarra e saxofone, Steven Bernstein em trompete, Doug Wieselman em guitarra, acordeão e clarinetes, Tony Scherr no baixo eléctrico e contrabaixo e Kenny Wollesen na bateria. Nestes concertos (mas não no mencionado novo álbum ao vivo) participam ainda, em violinos e vozes, Christina Courtin e Mazz Swift. O alinhamento de Let X = X é consideravelmente distinto do que é apresentado nos concertos da digressão “Republic Of Love”, mas ainda assim a imagem que resulta desse documento é similar: Laurie sempre teve essa infinita capacidade de nos deslumbrar com humor e inteligência ao falar sobre coisas aparentemente simples. Em “Language is a Vírus”, por exemplo, ela começa por nos dizer que “o paraíso é exactamente igual ao sítio onde nos encontramos agora, só que muito melhor”. Uma frase que nos faz rir, primeiro, e coçar a cabeça, logo depois, quando percebemos que ela afinal de contas nos confronta com a percepção que cada um de nós possui sobre o lugar que ocupa no mundo. Tudo isto com belíssimos e complexos arranjos que percorreram as consideráveis distâncias que separam a música de câmara do quase reggae, a no wave da mais abstracta electrónica, tudo impecavelmente executado pelos brilhantes Sexmob. E até tempo para uma espécie de hip hop cubista houve, quando Laurie vestiu o seu blusão caixa-de-ritmos para nos apresentar os princípios que desenvolveu com Lou Reed para lhe orientar a vida. Um deles deveria ser mandamento para toda a gente: “be really gentle”.
No dia 2 de Junho, em Braga, num sempre deslumbrante Theatro Circo de lotação praticamente esgotada, Laurie voltou a deixar-nos a todos a pensar sobre a vida e o mundo, sobre os conflitos que opõem nações e indivíduos, sobre a empatia que precisa de ser salva. E as pessoas aplaudiram, pois claro, que é o que se deve fazer quando temos génio por diante. E, no final, deixaram-se guiar por Laurie Anderson numa curta aula de tai-chi que na verdade é uma homenagem ao seu falecido marido, Lou Reed, homem de espírito presente, mas que pode também ser entendida como uma sugestão para que nos liguemos todos e todas a uma energia universal que nos liga a todos os outros seres humanos, a toda a natureza e a todas as coisas.