O que começou há oito anos como um pequeno festival de comemoração dos quinze anos do curso de Som e Imagem da ESAD, é agora o sistema que rega o canteiro cultural das Caldas da Rainha. E os três tímidos dias no mês de Maio de 2018 transformaram-se numa longa temporada de concertos que, ao longo do ano, dão vida a este Oeste. A cultura vive pelo país fora, mas é no Impulso que nos sentimos em casa.
Embora nomes como Zora Jones, MonchMonch e bcc (Banda de Call Center) tenham ficado guardados para o mítico fim-de-semana do Caldas Late Night — hoje é o último dia do evento — a sexta-feira passada trouxe um trio inusitado com três belos exemplares da música que se faz na Península Ibérica. O screamo jovem e voraz de Prado, o noise-punk-rock dos mais experientes e menos revoltados Sunflowers, e os vizinhos Dame Area, absolutos bosses da música electrónica.
No CCC (Centro Cultural e de Congressos das Caldas da Rainha), os camarins são à antiga. As luzes redondas à volta dos espelhos que decoram as paredes. O odor a ansiedade, a escala de notas, os berros, os agachamentos, as respirações. Consideremos que o camarim fazia, também ele, jus ao espectáculo.
O que as duas vocalistas de Prado cantam, debruçadas sobre o público, expelindo as entranhas (que repasto), é um choro, um lamento, um manifesto. Entre movimentos frenéticos, vertiginosos, balançando sobre o abismo, fazem da canção o recitar de um desgosto e do olhar uma chamada por socorro. Os acordes são tristes e a bateria chateada corre em direcção às vozes. Vozes acutilantes tanto no tom como na mensagem que nunca se esquecem de passar: denunciem abusos e não tenham medo de pedir ajuda. “Não nos mandam calar”. Pena que seja preciso gritar para nos fazermos ouvir. Mas antes gritar, berrar, rebentar um PA, incendiar um auditório, do que deixarmos morrer mais uma de nós.
A segunda volta da noite foi com os portuenses Sunflowers. Com uma identidade vincada pelo seu som goofy e festivo, cheio de fuzz, barulho e boa-disposição, são um produto nacional que funciona bem e que já se vende lá fora. Mas não daquelas marcas comerciais; mais como aquele produto caseiro que se encontra, por vezes, nas mercearias das pequenas localidades. E ali, na bela localidade de Caldas da Rainha, a festa voltou a acontecer.
Ainda com o último You Have Fallen… Congratulations!, lançado em Novembro de 2025, e passeando por outros clássicos mais ou menos habituais, aproveitaram a única pausa entre músicas para disferir umas breves palavras de apelo à greve. E depois seguiram a sua viagem a passo acelerado até ao corte abrupto que ditou o seu fim, trazendo à memória os controversos finais da série Sopranos e da música “I Want You (She’s So Heavy)”, dos Beatles, com aquele fim precipitado, certamente antes do seu tempo.
O maior nome da noite subia a palco pouco depois da meia-noite. Dame Area, power duo catalão, começava ainda o aquecimento com as primeiras músicas quando, numa plateia cada vez mais condensada, onde uma tensão feita de excitação e nervosinho crescia com a presença de um homem violento com várias pessoas, incluindo mulheres. Perante os olhares incrédulos do público, num cenário merecedor de tamanho storytelling, recusou os vários convites a sair e tomou antes a decisão, por todo um auditório, de alimentar uma discussão que fez a banda parar e recomeçar tantas vezes que acabou por decidir abandonar o palco. Com a força do povo, gritou-se “FORA!” e espernou-se pelo regresso dos confusos hermanos que observavam a confusão.
Com o ar novamente respirável, o espectáculo foi de quem lhe pertence. Irrepreensíveis, os Dame Area entregaram uma performance para a qual é difícil encontrar palavras. Num constante crescendo, as drum machines e os loops iam edificando o seu lugar: um hyper-techno demasiado negro para não pensarmos em pós-punk. Capaz de nos lembrar que “no hay futuro”, mas também de não nos deixar esquecer que devemos continuar a reinvindicar o nosso espaço, mesmo que nada nos pertença.
A construção das layers, o escalar da música e o impacto da batida são parte da matemática que a dupla põe em prática ao vivo. Dame Area é electrónica galopante. Como ter um orgasmo logo a seguir a outro e ainda conseguir ir ao terceiro. Obrigada ao Impulso. São importantes.