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Fotografia: Cláudio Virgínio
Publicado a: 21/07/2026

O terceiro disco de uma das vozes mais relevantes da nova geração brasileira.

Bruno Berle sobre o novo álbum Sem Fronteiras: “Não poderia esquecer a minha raiz, deixar de cravar isso no disco”

Fotografia: Cláudio Virgínio
Publicado a: 21/07/2026

Reconhecido pela voz suave que parece sempre sussurrar confidências, e por uma sonoridade que envolve as tradições da música brasileira com ritmos vindos de outras paragens do mundo, Bruno Berle tornou-se uma das vozes mais marcantes da nova geração musical brasileira. Depois de dois álbuns que foram consolidando o seu percurso e de digressões que o levaram a uma viagem por diferentes terras, o artista regressa agora com Sem Fronteiras, o seu terceiro álbum — um convite a atravessar, com ele, um mundo sem margens.

Em entrevista ao Rimas e Batidas, o músico fala-nos sobre a natureza e criação do disco, bem como o sentido político e territorial por trás dele, abordando ainda o papel do improviso, a presença da família no processo criativo e a forma como o amor, Alagoas e a música do Nordeste continuam a ser o centro de tudo o que faz.



Depois de No Reino dos Afetos, lançado em 2022, e No Reino dos Afetos 2, lançado em 2024, chega-nos o teu novo projecto Sem Fronteiras, um álbum que lanças num momento da tua vida em que estás fora do Brasil.  Como é que te faz sentir este lançamento que reflecte exactamente o momento em que estás agora na tua carreira? Tinhas a expectativa de o lançar numa altura em que estivesses fora do Brasil, em constante movimento, neste caso, entre Copenhaga e Londres? 

Não, foi totalmente acaso. É um sinal sobre a natureza do disco, sobre a minha natureza também, de muita mudança, de improviso, de viagem. E foi muito interessante a questão da imigração. Quando eu entrei em Copenhaga e em Londres, voltando de Helsínquia, foi engraçado… Primeiro fui para Copenhaga então eu fiquei pensando “ah, vai ser tranquilo” e quando eu cheguei, logo me pararam e me perguntaram muitas coisas. Foi justamente no dia do disco, me perguntaram porque eu estava indo, cadê o meu instrumento, porque eu estava viajando tanto, perguntaram por convites, me perguntaram muita coisa. Na volta agora para Londres, eu estava só com a bolsa, não é? Não levei violão, e aí me perguntaram muito, quanto dinheiro eu tinha, porque o meu passaporte tinha um pequeno rasgo, que para tocar aqui eu preciso de licença… Enfim, um monte de variáveis sobre a minha vida nesse momento.

Estamos a falar de um disco itinerante, que foi gravado ao longo das tuas viagens. Gostaríamos de entender como foi o processo de criação e gravação do álbum, até porque os outros álbuns foram gravados a um nível mais local e este envolve vários espaços, geografias. Como é que foi o processo?

Ah, para mim foi um dos melhores. Só não é melhor do que o disco do MP3, que eu acho que foi mais livre e radical. Eu acho que precisou de mais fé para acontecer e essa fé a mim retornou. Esse disco a gente acertou de fazer ele no fim de 2024, que foi quando eu viajei com o Batata para o Japão e logo depois a gente chegou aqui [Londres] e, quando chegámos, foi quando tudo aconteceu, que assinámos, que estivemos juntos e celebrámos a assinatura. E basicamente foi quando começou. Eu não fiz ainda um disco que eu comece do ponto zero. Sempre tem alguma coisa ali. Então eu acho que se for para pegar o que eu tenho de mais antigo no disco, é a “Manhã”, a música do João e do Marvin foi a primeira música que eles fizeram juntos e eu assim que eu ouvi, em Maceió ainda, acho que em 2016, por aí, fiquei impressionado com a música e trouxe para mim, sempre cantei em vários shows meus. E finalmente tive a chance de gravar a música do jeito que eu imaginava. E que, por acaso, foi toda gravada aqui em Londres. Excepto pequenos detalhes em São Paulo, mas a gente entrou no estúdio e gravou todos os instrumentos: primeiro violão e voz, depois gravou bateria, percussões, baixo, piano, xilofone, vozes, chocalho. Então foi a música mais antiga do disco e que tem a ver com esse processo do disco aqui feito em Londres. Aqui foi onde compus a primeira música do disco, “Você Já Sabe que eu Te Amo”, que é uma base do Nyron, que ele me mostrou e depois meses depois quando a gente estava aqui, era uma tarde como essa, e eu fiquei dizendo para o Batata e pro Nyron: “a gente precisa fazer música nova, vamos fazer música nova. Agora, vamos fazer agora”. E aí eu fiquei procurando o que ele me mandou. Aí eu ouvi, a gente botou uma caixinha e ouvimos. Tocou de novo e eu cantei. É o que está lá, eu cantei e na hora já ri muito, já fiquei “poxa”… Porque eu acho que é isso. Fiquei pensando muito nessa coisa que Djavan falou na entrevista dele, que a música é para surpreender. Então eu gravei essa voz na mesma hora. Eu peguei meu iPhone, botei meu fone, peguei um aplicativo simples que tem aqui, que já deixa a minha voz com uma mix definida. E gravei essa primeira parte de voz da música, que é o take que está lá. É o take que está no vinil e que a gente usou. Então isso também fala sobre a forma improvisada e aberta de fazer o disco. Eu acho que também diz ser fresco, diz ser uma coisa nova. 

Sim, era mesmo essa questão que eu estava a pensar, que é a questão do improviso e acho que dá uma certa beleza. Surpreende-te a ti, depois surpreende a quem te ouve. Então acho que é assim uma conjuntura muito bonita. E vem daí, não é? 

Sim, o disco vem do improviso.

Quem te ouve já está habituado à delicadeza e à sensibilidade das tuas músicas, mas eu sinto que neste disco entramos numa dimensão mais humana, mais perto de ti e das tuas vivências, em que o amor está sempre presente. Aliás, o início do álbum dá-nos logo essa referência. Gostaria de te perguntar o que é que significa o amor na tua vida e nas tuas criações. 

É o centro, ainda é o centro, continua sendo o centro de tudo. E eu acho que as ramificações dele são bem naturais. Por mais que eu ache que a crítica não repare nessas ramificações. Eu vejo que a crítica quando olha para a minha música olha para esse tema como um tema menor. Por exemplo, eu achei engraçado que, na crítica do Romulo, na Pitchfork, ele fala do Walt Whitman que é um autor que me influenciou muito e eu gosto, mas ele fala que o disco perde força ao ter, talvez, acesso disso. O Walt Whitman, ao mesmo tempo, era profundamente político. Eu sinto que ele fazia um retrato muito político do momento dele, dos Estados Unidos, e por isso que é tão central.  Como eu acho que o Fernando Pessoa é tão central na poética lusófona, assim como eu acho que João Gilberto é tão central na poética, na música brasileira e mundial, na minha opinião. Porque eu acho que é por aí que a lusofonia dá uma contribuição. Especialmente a poética… da língua portuguesa junto com a música brasileira. Eu acho que é a maior contribuição lusófona no mundo, essa junção. Então eu acho que o amor é central, que as ramificações estão claras, mas acho que a crítica deixa passar isso. 

E as ramificações desse amor também vêm de Maceió? 

Maceió neste disco ainda é muito central, continua sendo muito central. Essas canções ainda têm um amor como centro, sabe? Porque esse amor me ensinou muito do que eu sou e é por isso que eu amo. Eu acho que não vou conseguir deixar de amar independentemente do que aconteça. Porque acho que o amor… Talvez a coisa mais importante do amor seja isso, aprender. Depois da coisa própria de amar, que eu acho que é a coisa mais gostosa, mais legal, quando não se pensa em nada e quando você tem essa possibilidade de amar e esquecer do universo por um instante… Esse amor tem essas ramificações: políticas, territoriais, em diversos sentidos. Tanto de ter influenciado o meu gosto por música, como também a minha percepção política pela cidade, sobre mim mesmo, sobre a minha raça. Eu continuo a reafirmar que é muito triste que a crítica não perceba esse lado. Que sempre desapareça com a parte mais importante, que é analisar politicamente e territorialmente o que eu estou dizendo. Para além de ser simplesmente uma influência da MPB, que é uma coisa que não me influenciou na verdade Caetano Veloso e Gilberto Gil não foram cantores que eu ouvi na minha infância ou na minha adolescência. Eu ouço isso agora, quando a gente entra no meio da música. Esses artistas a gente escuta porque são importantes, mas principalmente porque eles são muito grandes no eixo. Então [foi] a partir desse movimento de ir para o eixo, de realçar a minha arte. Eu não penso na música de alguém para timbrar o meu som. 

É muito curioso teres entrado nesta questão mais política e territorial porque eu acho que é um aspecto que esteve sempre muito presente e neste álbum, apesar de surgir de uma experiência internacional, tu continuas as tuas criações com os mesmos artistas, com os quais tens trabalhado ao longo dos últimos anos: o Batata Boy, o Nyron Higor e o Phylipe Nunes, afirmando aqui a música do Nordeste do Brasil. Qual a importância de tu dares a conhecer a música nordestina fora do Brasil, lá está, neste álbum que atravessa fronteiras geográficas, mas que nunca abandona essa identidade?

É muito importante. É fulcral. E se a gente focar mais o mapa, a gente vai ver Alagoas como um ponto com pouco registo. Com pouco… Eu não quero dizer em termos de peso, porque eu acho que Alagoas tem um peso importante na música brasileira, mas eu diria que tem poucos representantes conhecidos do público geral. Eu nunca caminhei sozinho, sempre caminhei com um monte de ideias e não foi uma mudança de vento que me fez deixar escapá-las. Eu sou fiel ao que acredito, independentemente de para onde o vento sopra. E eu acho que estar aqui ainda é mais… milagroso. Porque… Eu não só cheguei com as ideias. Todas ou muitas, mas eu cheguei com as pessoas também e não foi fácil. Eu lutei muito por tudo isso. E por todas essas pessoas. Lutei mesmo e ninguém vai tirar isso de mim. Tipo, ninguém vai tirar a minha razão de mim, ninguém vai tirar o meu motivo. Acho que também tive a sorte de estar com essas pessoas no começo da minha trajectória, estive focado no meu projecto e no de todos e sou muito feliz por ter realizado isso e eu acho que não há gesto político maior do que esse. Não há, eu não creio. Eu sou uma pessoa do meu tempo e a minha música diz isso. O dinheiro, os recursos, a estrutura, viajar é fundamental para que o meu lugar evolua, para que olhem mais para o meu lugar. Independentemente de onde seja feito e com quem seja feito. Se é com brancos, se é com pretos, se a gente faz bem feito, essa é a nossa missão. O nosso motivo é justo, é bom para as pessoas, é bom para todo mundo. Eu não tenho política melhor do que essa.

Desta vez tu também trazes o teu irmão para o processo criativo. O que representa para ti juntar a família a este lado mais musical, mais profissional? O que é que o teu irmão trouxe de inovador às músicas? A esta nova construção.

Nesse disco foi muito o processo, ou seja, a gravação do disco… Além de mix e master, acho que a primeira coisa que ele me trouxe foi mais espaço para as minhas loucuras, meus experimentos. Se eu quero fazer desse jeito… Não tem problema. Vamos tentar, vamos errar. Eu acho que ele teve mais paciência comigo, o que foi importantíssimo para o disco acontecer, mas ele também tocou algumas coisas. Além disso, também teve a turnê do disco que a minha irmã acompanhou, jornalista que trabalha no terceiro setor com direitos humanos, ela é assim uma mulher muito séria na observação dela, na vida, e a gente teve a passar um tempo aqui, outro ali, muita viagem. Trazer ela para o processo também me fez observar muita coisa, me fez pensar em comunidade, que para ela tem um significado completamente diferente do que para mim. Eu e os meus irmãos, nós os quatro somos muito ligados no trabalho do outro, mas ao mesmo tempo cada um faz muita coisa diferente, não tem muitos amigos em comum, nunca andámos muito juntos na infância e na adolescência, nunca ninguém quis ficar na sombra de ninguém, então a gente tem uma seriedade muito grande e um senso crítico muito grande ao mesmo tempo. Mesmo o meu irmão trabalhando comigo e me dando mais liberdade, ele também tem um senso crítico sobre a coisa que não evapora por nada. E isso também me fez evoluir muito no disco porque ele mixou e é muito crítico a ele mesmo. Trabalhar comigo precisa também para ele ser à altura dele, não só da minha altura. Ele precisa também se mostrar como um importante… Grande naquele trabalho. Então… Foi um processo de evolução para mim trazer a família. 

Que inspirador. Fizemos agora aqui uma viagem muito bonita pelo teu lado familiar. O teu irmão deu-te espaço para realizarem as tuas loucuras e nós temos aqui músicas neste álbum, sem refrão. Portanto, mostram uma grande liberdade criativa. Tu sentes que essa liberdade de compor sem regras, é também um reflexo para ti do próprio Sem Fronteiras?

Sim, sem dúvida. Perfeito. Não há nada para responder. É completamente isso. Ser livre é ser sem fronteiras.

Este álbum demonstra o teu lado mais contemplativo e introspectivo. Tens cá fora vivências, sentimentos, pensamentos de forma tão genuína, é confortável estares nesse lugar em que mostras ao mundo exactamente aquilo que és, o que achas e o que sentes?

Na música, sim. Na música é o meu lugar. O meu lugar é esse. É esse escracho do amor, que é muito nordestino, é muito brasileiro, eu diria. Se a gente pensar na música sertaneja, é só romance. Você pega em João Gomes e ele é completamente romance, é a música da nossa década. Eu não posso considerar esse romance como uma coisa separada do território. Esse romance é junto, tem a ver com o território. E eu acho que olhar para as influências desse romance enriquece a crítica, ao contrário de empobrecer. Não é um romance paulista ou carioca, olhando o mar, a classe média alta no Leblon ou estando no centro de São Paulo, é um romance dos bares e das festas nordestinas,  do São João, do nosso jeito de olhar para a vida. Do nosso jeito de amar. Entendeu? Quando era criança eu morava no João Sampaio 1, do lado de um bar que tinha carro de som, o cara levantava o capô do carro e tocava música. E eu ouvi o tempo todo Lairton e seus Teclados, Calcinha Preta, Limão com Mel… Foram coisas que fizeram parte da minha infância, da minha vida e eu acho que [é] transformar essa influência em música actual, moderna, e sem fronteiras. Eu não estou fazendo o forró que fazem ali, eu também não estou fazendo a lambada que fazem ali, eu estou fazendo música sem fronteiras, uma música dali, que eu venho carregando a poética, a forma de cantar, os caminhos, as soluções que aqueles caras tinham e é por isso que eles eram importantes para o povo. E o meu povo é inteligente. O meu povo não gosta de coisa ruim. O meu povo gosta de coisa boa. E se eles gostam desse romance, esse romance é rico. Você vai encontrar riqueza nisso e eu acho que estou partindo desse lugar. Falta a crítica entender essa influência como uma coisa boa e não uma coisa ruim.

Tu sentes que acabas por criar uma maior intimidade com o teu povo, com o público que te escuta? 

Aí está, depende. Eu acho que, em São Paulo, o público me vê como vê artistas de lá, artistas como o Tim Bernardes ou o Rubel ou tantos outros artistas do eixo que falam de amor. Eu acho que minha música é completamente diferente, carrega um peso político muito maior, simplesmente porque eu sou nordestino, eu sou suburbano, eu sou preto, e isso é muito, isso é novo. Não tem tanta gente como eu fazendo a minha música. Então, eu sou alagoano, eu sou de uma terra rara para o país em termos de música. E a minha música não vai nunca deixar de reflectir isso, todas essas coisas. Quando eu toco em São Paulo ou no Rio, acho que o público me vê mais assim. Já no Nordeste é diferente, a minha música não é completamente nordestina então vai para uma bolha. Não vai muito para a rádio, eu não tenho essa chance de tocar na rádio. A música que toca no Nordeste hoje é uma música mais comercial do que a minha em termos de mix ou de formato. Então essa intimidade não é tanta, não chega tanto para mim, porque eu acho que eu também não estou tocando tanto para o meu povo, infelizmente. Eu não tenho uma força grande assim, eu não tenho esse canal. Eu acho que aqui fora a minha música é vista como uma música moderna e o eu acho muito louco isso, tipo, eu acho legal, eu acho que é esse o carácter que eu tenho da minha música mesmo, que é uma música moderna. Portanto, basicamente há vários níveis de intimidade consoante o público e o sítio onde se está. 

A tua música tem um aspecto que eu acho muito interessante, uma composição sonora minimalista, que eu acho que é incrível e que também encontramos nos últimos álbuns, mas ao mesmo tempo, aparece-nos “Amor inteiro”, que para mim é automaticamente dançar, divertir, boa vibe, e também surge “Ideias mágicas”, que leva um bocadinho mais para o lado electrónico. É esta a tua identidade sonora? Isto é, manter uma base reconhecível, mas depois explorar novos sons? Por outras influências? E também aqui no lado electrónico, acredito que surja muito pela influência que o Batata tem como produtor?

Sim. Acho que é essa coisa plural mesmo, que parte da falta de chance de poder gravar propriamente um disco pensado e tal, mas que eu estou adorando fazer assim. Acho que é mais fácil para mim, é mais leve, e eu acho que também os lançamentos que já tive para fazer, os discos só me permitem fazer isso, não me permitem entrar no estúdio para gravar as músicas uma por uma, e que eu acho que é uma coisa um pouquinho antiquada. Hoje em dia as pessoas estão indo no estúdio fazer sessions e criam na hora e fazem na hora. Antigamente, você tinha que entrar no estúdio para fazer aquilo, fazer o disco, o grande disco. Hoje os selos não precisam fazer assim, a gente já tem muito home studio, a gente já tem muitas pessoas que sabem gravar bem em casa, fazem uma mix boa, uma master boa, um trabalho de gravação bem feito. Então a minha identidade momentânea é essa de ser livre e abraçar todas as influências das pessoas que colaboram comigo, e do que eu ouvi na vida.

E porque é que tu terminas o álbum com uma faixa que tem exactamente o título do disco? Qual é a intenção de acabar o álbum com uma faixa que se chama “Sem Fronteiras”?

Eu não fiz a música nesse intuito, foi uma música que veio em Maceió quando eu estive lá esse ano, por poucos dias assim, e foi um amigo que sempre me gravou, e a gente parou de trabalhar junto, agora voltámos a trabalhar mais, e ele me deixou em casa um dia e disse: faz uma música pra gente gravar. Eu falei “‘tá bom”, e aí sentei em casa, fiquei mexendo no telefone, peguei o violão, estava numa afinação diferente, abri uma live no Instagram, comecei a improvisar e a improvisar, e aí veio isso. Aí eu gostei, gostei, achei bonito, fechei o Instagram, abri o WhatsApp, gravei esse improviso. E só era isso, balbuciando, e aí apareceu isso de “Sem Fronteiras, Sem Fronteiras”, acho que foi a coisa que sonoramente bateu e eu falei pra ele: vamos gravar tudo em cima desse áudio aqui, vamos gravar bateria em cima do áudio do WhatsApp, tudo sem metrônomo, assim mesmo. Eu fiz isso, depois chamei uma amiga minha de Belo Horizonte pra gravar umas guitarras, um violão, umas vozes, e quando eu fui fazendo o álbum, eu comecei a pensar que isso podia ser o nome do disco, que tinha a ver com o processo, com as viagens, enfim, aí eu… fui gostando da ideia, e acho que foi uma coisa mais musical, não foi uma coisa intencional terminar o disco assim, achei que terminar assim ficaria mais solene, mais… não sei, [fechar] o álbum com a força do nome do disco, como se desse mais unidade a tudo, e tivesse as duas coisas, tem uma coisa política… e é engraçado que nenhuma página, nenhuma crítica falou sobre isso, o nome do disco. O nome do disco é 100% político, mas eu acho que talvez a crítica não faça a ligação entre o nome e o nome ser político. Estranho, e como não? Na terceira música tem coco de roda na bateria, misturado com o maracatu que entra depois na bateria, como é que isso não é falado? 

Lá está, como eu estava a dizer no início, acho que este trabalho é, completamente, um acto político.  Acho que tu reafirmas muito bem o que és, quem está contigo a criar, onde é que queres chegar. Relativamente ao lado contemplativo e acompanhando a lógica visual da capa do álbum, surge-nos novamente a tua pessoa, um enquadramento do teu rosto. Como é que tu escolheste esta fotografia para o álbum? Em que momento foi tirada? Conta-nos a história por trás deste lado visual. 

Não sei quando me bateu essa ideia de tirar fotos na terra onde a minha mãe foi criada, lá em São José da Laje, que é a 90 quilómetros de Maceió, a capital, mas eu cheguei para o Cláudio e falei: “vamos fazer isso quando você vier, quando você for em Maceió no fim do ano”. O Cláudio é um amigo meu que mora na Polónia, mas que é alagoano e é um fotógrafo incrível, mas que faz isso por amor, não vive disso. E foi lindo.

Estamos a falar outra vez de improviso. Já te tinhas apercebido desta questão do improviso antes, em relação a todo o processo do álbum, ou agora é que estamos a constatar este facto?

Estamos agora a constatar este facto, porque eu também não sou um artista de jam, por exemplo. Eu não faço isso, eu não toco junto, não vou nos lugares tocar com a galera e tal. Mas, por acaso, este disco partiu muito disso, de improvisos. Por exemplo, a segunda música foi de improviso. O Batata estava tocando teclado e tinha a bateria armada do lado, numa salinha pequena nossa, e eu comecei a tocar bateria. E aí gravámos muito rápido assim, de qualquer jeito, sem técnica. Dois microfones na bateria, o teclado estava em linha, três canais e vamos fazer. E é isso que a gente escuta, que é o teclado que ele gravou, improvisado, e a minha bateria que eu gravei improvisada também. Que foi bem editada, eu não sou um baterista. E depois eu fiz a letra, a melodia, totalmente improvisada também. E fiquei pensando no que a gente conversou mais cedo também, da música do Djavan, que se chama “Improviso”, que é o nome do disco, e essa música é bem bonita. Ele fala isso no começo da música assim: “pode ter parte com a dor quando faço o improviso”. Eu achei isso forte, porque às vezes você está improvisando e não é para ser feliz, não é esse o ponto. Às vezes você improvisa e é uma coisa triste, é melancólico. E te leva para um lugar de dor, de dificuldade, ou de erro, de risco.

Mas acho que a questão do improviso é muito importante, porque acaba por gerar algo muito real. Sinto que a tua música, até com base naquilo que estavas a dizer antes, quer transmitir a realidade. Portanto, acho que há aqui uma conexão muito bonita entre o espaço que te é dado, entre o amor, entre o improviso, mas também a liberdade que existe para que as coisas aconteçam desta forma, não achas? Para que os músicos sejam reais, para que os músicos sejam ouvidos como pessoas, não como máquinas em busca da perfeição.

E o disco tem muito disso, tem erro, tem subtonações, tem arritmias, tem muita coisa. São histórias estéticas também, coisas que eu digo, “não, isso aqui a gente não vai evitar, isso aqui a gente vai deixar assim”. É imaginação também, eu acho que é rico fazer desse jeito, porque é como você imagina que o improviso deve ser no último momento, que é o momento mais cristalino, que é o da gravação.

Ainda sobre a identidade visual do teu disco, estávamos a falar das fotografias capturadas pelo Cláudio, que entram também na estética do teu vinil. São todas de São José da Laje?

Todas, todas do disco são na zona rural onde minha mãe foi criada. Ela nasceu em Presidente Prudente que é uma cidade de São Paulo onde ela morava com o pai, a mãe e os irmãos numa fazenda. E de lá foram voltaram pra terra deles em São José da Laje, Alagoas, que é próximo à União dos Palmares, que é onde teve o maior quilombo de resistência do Brasil que é o quilombo de Zumbi dos Palmares. 

E também tens uma fotografia com a tua mãe no vinil.

Sim. A gente chegou numa tarde já, fotografámos umas coisas que eram mais na cidade onde a família da minha mãe agora mora, na entrada da cidade, e nesse dia também, perto da noite, a gente foi na casa de uma tia avó minha e fizemos as fotos lá. Depois voltámos ao mesmo sítio, que é o riacho seco. E aquela foto foi muito uma escolha do Cláudio porque ele falava que todas as outras fotos tinham muito a mesma cor, e aquela foto com a minha mãe era uma das poucas que era um plano em branco, uma coisa com menos informação.

Tantas dimensões neste álbum, não é? A gravação das músicas em vários lugares, a importância da liberdade e do espaço para a criação, a afirmação política, a importância da tua família. É um álbum que se expande por vários horizontes, mas a base é esta, vem daqui, destas fotografias, da tua realidade, da tua vivência. 

Sim, a minha música e o nome do disco é Sem Fronteiras e muito por isso. Eu não poderia deixar de esquecer a minha raiz, de cravar isso no disco. É ter esse acto, de um disco que as pessoas estão dizendo que é mais global, mas que tem raiz, que me lembra a minha raiz.

O álbum saiu há dias, estás neste momento por Londres, num momento mais calmo e de descanso. O que é que tens feito nos últimos dias? 

Teve primeiro esses shows e agora vim para cá descansar e tenho conversado com uma amiga muito especial, que sabe muito de música, sabe muito de arte, lusófona como eu, e que tem-me inspirado a pensar muito sobre o meu trabalho, sobre o que vem por aí, especialmente discos novos e coisas assim.

Era o que eu tinha a perguntar… Se já tens algum projecto musical para o futuro, porque estes álbuns foram lançados de dois em dois anos. Será que podemos esperar alguma coisa para 2028? Ou ainda é muito cedo para dizer?

Acho que vem antes, na verdade. Esse disco do MP3 vai-se tornar uma coisa, ainda tenho coisas a fazer com ele, todas fora da plataforma. Pode ser que um dia venha na plataforma também, um enfeixe para isso. Mas acho que esse disco vai ter ramificações e muito em breve.


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