MATILDA mostra todas as suas facetas de modo honesto e íntimo em De Corpo Inteiro, o seu álbum de estreia, que resume a vontade de existir por completo. Este “diário” foi publicado a 22 de Maio e reúne 11 faixas que se desdobram por diversas temáticas, onde Matilde se mostra vulnerável, confiante, apaixonada e zangada. “É um álbum sobre não ter medo de existir e existir por inteiro”, revela ao Rimas e Batidas.
“Há muito tempo que tenho o desejo de cantar, escrever as minhas músicas e deitar para fora aquilo que sinto. Eu sempre soube que queria fazer isto, mas até há cinco anos, não tinha tomado a decisão corajosa de realmente avançar”, admite. Depois de um tempo em que a sua música se fazia ecoar em bares e o jornalismo era o seu foco principal, a artista recebeu uma proposta da Sony Music e decidiu agarrá-la de corpo inteiro. “Eu queria que o meu álbum fosse mesmo honesto, queria cantar aquilo que sinto. Mesmo pronta, este processo demorou. Tive cinco anos para fazer este álbum, sendo que, nos primeiros três, ainda não sabia quem era como artista. Eu não sabia quem era a MATILDA.”
O seu período a fazer jornalismo adiou a realização da sonoridade e da voz que Matilde queria assumir, bem como saber o que escrever. Depois de pôr em pausa a profissão, a artista dedicou-se a encontrar-se, ganhar confiança e conhecer pessoas no ramo da música. “Foi há dois anos quando pensei: OK, já sei o que quero, já tenho maturidade suficiente. Descobri quem era a MATILDA há dois anos e acho que ainda a estou a descobrir. Estes últimos anos foi sobre abrir portas para isso e conhecer as pessoas certas, como o Jon, o meu produtor. Ele foi muito importante para eu ganhar a confiança final e evoluirmos juntos.”
A passagem de uma escrita factual e objectiva, fruto do background de jornalismo, para a escrita poética e íntima foi algo que aconteceu quase inconscientemente. Matilde conta que a procura por honestidade e vulnerabilidade através das suas letras também impulsionou esta transição. “Eu escrevo sempre com intenção, eu gosto que as pessoas sintam aquilo que estou a pensar, então acho que esse processo acabou por ser algo benigno, que me incentivou a querer sempre melhorar a minha escrita”, adianta. “A letra é mesmo muito importante para mim. No início, eu falava e quem escrevia era a Inês [Apenas] e o Álvaro Pires. Depois eu comecei a ganhar coragem e foi mais orgânico: chegava a casa e escrevia, dei por mim a escrever poemas às tantas da manhã.”
Este projecto é fruto do amadurecimento emocional de Matilde, que ao longo de cinco anos foi descobrindo um universo novo, que embora árduo a desafia: “Foi difícil porque processei coisas que eu achava que já estavam processadas, mas foi espectacular, só quero continuar. Este álbum é completamente um diário. É a minha necessidade de querer cantar a minha verdade. Quanto mais fui desenvolvendo as primeiras músicas, mais eu queria que a próxima fosse sobre outras coisas que tinha que resolver”, completa.
Apesar das suas raízes familiares bem assentes no fado, a neta de Carlos do Carmo revela a sua ligação forte a sonoridades norte-americanas como o R&B, soul e jazz. “Eu cresci rodeada de artistas e ouvi muito fado, mas na nossa casa não se ouvia só fado. Desde miúda que tenho uma ligação com os blues e com a soul e pedia ao meu avô para pôr jazz. No entanto, o fado ensinou-me sobre sentimento, verdade e sobre a alma.” A ligação com estes géneros musicais, e a fugir um pouco às raízes fadistas do seu avô, MATILDA inspirou-se em pilares de R&B, soul e jazz, como Sade, Diana Ross e Lauryn Hill para se entregar por inteiro ao seu novo projecto.
Não obstante a tradição do fado e a valorização das sonoridades pop e rock no mercado musical, Matilde desafia estas convenções e procura acrescentar mais sonoridades R&B às colunas nacionais, salientando a dificuldade de ser uma mulher nesta indústria. “É difícil para mim encontrar uma mulher nas referências de R&B portuguesas. Há muitas, como eu, que estamos a fazê-lo e a adaptá-lo ao português e acho que vamos conseguir, não podemos desistir”, admite. As dificuldades em adaptar estes estilos para a língua portuguesa também fizeram parte do processo de descobrimento de MATILDA; algo que em inglês parece automático, em português requer outras regras e cuidados. “Eu escrevia muito sem saber que não funcionava na língua portuguesa, se tu cantares essas palavras não vão chegar ou soar bem, e é uma adaptação total. A ‘mulher de corpo inteiro’ e a ‘mar nos meus olhos’ são as últimas músicas que fiz e consegui trazer mais essas sonoridades e não liguei tanto ao corpo musical.”
“Mulher de Corpo de Inteiro” foi a última música desenhada para este projecto. O processo recorreu à ajuda de Jon, Christian Tavares e Maria Morango que, em escuta colectiva no estúdio, fizeram brainstorming de ideias para o nome que iria resumir o processo fruto de anos de trabalho. Enquanto tudo parecia bastante óbvio, Matilde revela que queria que reflectisse a sua presença de corpo e alma. “Começámos a ouvir várias músicas e a escrever, depois houve um momento em que parei e disse: ‘Vou estar neste álbum de corpo inteiro, vou dar este nome ao álbum e a faixa vai-se chamar ‘Mulher de Corpo Inteiro’. Reflectindo sobre a forma como nós [mulheres] nos desdobramos ao longo da vida”. E assim foi.
O roll out do álbum foi algo orgânico. As três primeiras faixas foram auxiliadas por Agir e, quando se aperceberam de que o álbum estava construído, começou o processo de mostrar a evolução do corpo artístico de MATILDA ao público. “Só queríamos lançar [as músicas] quando tivéssemos tudo pronto. Primeiro lançámos a ‘Inconstante’, que fala do início da minha vida; depois o ‘Sem Flores’, que fala de uma mágoa de infância; depois a ‘Meu Norte’, que fala sobre quem me guia; e a ‘Miragem’, que aborda a história do que passei. O processo não foi sobre decidir qual era a melhor para ser lançada primeiro, foi mais sobre: Vamos lançar uma música agora? Vamos e esta é a que faz mais sentido.”
De Corpo Inteiro foi apresentado ao público lisboeta a 28 de Maio, num momento emotivo e de grande felicidade. Matilde admite que foi mesmo o melhor dia da sua vida e que mostrar o seu trabalho ao público carrega um sentimento de completude e de coração cheio. “Eu adoro o palco e amo conseguir que as pessoas se esqueçam dos seus problemas, gosto de sentir que lhes estou a transmitir isso”, completa.
Sobre projectos futuros, admite a sua vontade para fazer mais música, mas adianta que é algo para o qual vai necessitar de algum tempo: “Agora que apresentei este álbum, quero que as pessoas o conheçam por inteiro. Especialmente a ‘mar nos meus olhos’ que fala sobre as mulheres e as que vieram antes de nós. Foi uma música profunda que escrevi sozinha para empoderar as mulheres. Tenho de me dar a conhecer para as pessoas ouvirem as músicas e realmente as conhecerem.”
Este projecto reflecte um processo de descobrimento, de enfrentar mágoas passadas, bem como assumir um lugar na sociedade e ter uma voz activa. Matilde reflecte sobre ser ela própria, confiar em si, não ter medo de ser vulnerável ou intensa, é sobre abrir as imensas caixas que há no ser mulher e libertar esses tabus. “Eu fiz este álbum, lancei-o, vou tocar e quero ir para palco, é um processo”, encerra a cantora.