O Loulé Jazz chega neste ano de 2026 à 30.ª edição. É um número redondo, a que não se chega facilmente, e que justifica uma programação prolongada ao longo deste mês de Julho. Trinta dias de celebração que culminam no próximo fim de semana, de 24 a 26, com seis concertos que prometem ser memoráveis. O programa conta com o Trio Andy Sheppard, o regresso da dupla Vardan Ovsepian & Tatiana Parra, um quarteto dedicado à música de António Pinho Vargas e o Quarteto Ricardo Toscano a revisitar a obra de John Coltrane A Love Supreme.
Sob a direcção artística de Mário Laginha desde 2011 e suportado desde o começo pela comunidade de Loulé, este festival chegou às três décadas de existência sobretudo graças à persistência dos organizadores e ao trabalho da sociedade civil local. Já teve outros nomes e até outras localizações, numa história longa que pode ser apreendida com a visita à exposição aberta ao público, na sala da Casa da Cultura, na Alcaidaria do Castelo. Pelo festival, passaram lendas mundiais como Chick Corea, Herbie Hancock, Brad Mehldau e Esperanza Spalding. E também importantes referências do jazz nacional, como Carlos Bica, Bernardo Sassetti, Maria João e Júlio Resende.
Ao Rimas e Batidas, Mário Laginha explicou que é com este exercício de equilíbrio entre a vontade e o possível, o nacional e o internacional, que ainda hoje programa o festival. “Não sendo um festival propriamente daqueles que têm imenso dinheiro, uma pessoa não pode convidar aqueles artistas em que só um concerto é mais do que o orçamento [total]. Mas o que eu tenho sempre tentado é fazer [um equilíbrio] entre músicos nacionais, que há imensos muito bons, e alguns internacionais.”
Há, porém, além do cartaz, uma outra linha sem a qual é difícil explicar como um festival de jazz atravessa três décadas. O Loulé Jazz é organizado por uma associação – a Casa da Cultura de Loulé – e sustentado, em grande parte, pelo trabalho voluntário da comunidade que o viu nascer. João Viegas conhece essa história por dentro. Começou como voluntário em 1995 e formou-se como produtor no próprio festival. Hoje, é o produtor e director técnico do Loulé Jazz. Para ele, é precisamente aí que reside uma parte da identidade do projecto: “A essência do festival, pelo menos para mim, é a questão do voluntariado. Este é um festival organizado por voluntários”.
Durante os dias de concertos, diferentes núcleos da Casa da Cultura convergem no mesmo lugar. Deixam temporariamente as suas actividades habituais para participar na construção do Loulé Jazz. “Toda a gente se junta durante esses dias para dar vida ao festival. Eu acho que isso é, de facto, o que nos diferencia de outros festivais.”
É também essa continuidade que ajuda a explicar a relação com o público. Segundo a organização, as últimas três edições esgotaram antecipadamente, ficando apenas uma pequena quantidade de bilhetes reservada para venda nos próprios dias. Mas chegar aos trinta obrigou a pensar em quem poderá ocupar essas cadeiras no futuro. Por isso, a celebração começou nos primeiros dias de Julho e alargou-se a exposições, oficinas, workshops e actividades dirigidas a diferentes gerações. “Se nós queremos um futuro, temos que o preparar”, resume Andreia Brito, presidente da Casa da Cultura de Loulé.
É nesse intervalo entre possibilidades e desejos que se desenham os seis concertos dos dias 24, 25 e 26 de Julho. A abertura assinala simultaneamente uma estreia e uma continuidade: uma nova formação do Trio de Jazz de Loulé (piano, contrabaixo e bateria) apresenta-se pela primeira vez ao público depois de um concurso nacional. O nome permanece, os músicos renovam-se. É uma pequena síntese da própria história de um festival que chega à 30.ª edição procurando garantir aquilo que poderá existir depois dela.
Na mesma noite, Andy Sheppard chega a Loulé com música ainda por editar. O saxofonista britânico apresenta em antestreia o novo trabalho gravado para a ECM, acompanhado pela pianista Rita Marcotulli e pelo contrabaixista Michel Benita. Para Laginha, trata-se simplesmente de “um trio bestial”. Para o público, será a possibilidade de escutar novas composições antes de adquirirem a forma definitiva de um disco, cujo lançamento está previsto para o Outono.
O segundo dia parece concentrar uma das ideias que atravessam a programação de Laginha: suscitar o diálogo entre o presente e a memória sem transformar o jazz num exercício de conservação. O quarteto formado por Miguel Meirinhos, José Soares, Hugo Carvalhais e Mário Barreiros regressa à música de António Pinho Vargas. A escolha tem também uma dimensão pessoal para o director artístico: “Eu lembro-me de que, quando comecei, quem eu ouvia era o Pinho Vargas. Dos portugueses.” Não se trata apenas de recuperar um repertório, mas de perceber o que acontece quando músicos de outra geração regressam a uma obra que permanece fértil e disponível para novas leituras.
Vardan Ovsepian e Tatiana Parra fazem o percurso inverso: regressam ao festival porque a música é nova. Laginha já os tinha programado no passado, mas foi a descoberta de novo repertório da dupla que justificou o reencontro. “Na realidade, eu sou fã daquele duo. Eles já vieram há muito tempo e eu agora ouvi que tinham um repertório novo e pensei: ‘Eles têm que vir’.” Entre a arquitetura pianística do músico arménio e uma voz que Tatiana Parra utiliza para além das fronteiras convencionais da canção, o duo encontra na improvisação um espaço comum.
No domingo, Ricardo Toscano regressa em nome próprio. Habituado a frequentar diferentes formações do jazz português, o saxofonista ocupa desta vez o centro do palco para enfrentar uma obra que dificilmente admite aproximações indiferentes: A Love Supreme. No ano em que se assinala o centenário do nascimento de John Coltrane, a escolha tornou-se, para Laginha, inevitável. “O Ricardo Toscano é convidado para imensos grupos. Ele, na realidade, há muito tempo que não ia em nome próprio ao festival. E eu achei que tinha que ir. Ainda por cima com os 100 anos do Coltrane. Portanto, achei que fazia sentido.”
Alexi Tuomarila e o seu quarteto completam uma programação onde diferentes gerações e geografias voltam a encontrar-se dentro dos muros do castelo de Loulé e das fronteiras suficientemente largas do jazz. É essa amplitude que o Loulé Jazz parece ter procurado preservar ao longo de três décadas: não uma identidade construída sobre um único som, mas sobre a possibilidade de colocar músicos portugueses em diálogo com algumas das vozes mais relevantes da cena europeia e internacional.
Ainda assim, a longevidade do Loulé Jazz talvez se meça melhor por aquilo que permanece fora dos cartazes: os voluntários que regressam, os que começaram crianças e entretanto assumiram outras responsabilidades, os músicos que voltam com novos projectos e o público que continua a ocupar o Castelo.
Durante três noites, de 24 a 26 de Julho, a história volta ao lugar onde começou, lembrando que celebrar o passado só faz sentido quando ainda existe a vontade suficiente para preparar o futuro.