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Fotografia: Vera Marmelo
Publicado a: 06/06/2026
Tags: Matmos

Trabalhadores de pesquisa e emissão sonora.

Matmos no Auditório da Reitoria da Universidade Nova de Lisboa: convers(ad)ores analógico-digitais

Fotografia: Vera Marmelo
Publicado a: 06/06/2026
Tags: Matmos

Numa organização da Galeria Zé dos Bois (ZdB) o duo norte-americano de trabalho do som, na electrónica de experimental — Matmos, veio a Lisboa — na véspera da greve geral de 3 de Junho. “Nós, infelizmente, no país onde vivemos nem sequer temos sindicatos capazes de fazer algo importante como isso que vai acontecer amanhã”, referia Drew Daniel lá mais para meio do concerto. 

MC (Martin) Schmidt — cara-metade de Drew em Matmos — ainda nem era para começar a actuação e já andava (tentando passar discreto) por entre a plateia distribuindo sininhos, e outros objectos metálicos de tilintar, entre algumas pessoas estrategicamente sentadas (sem saberem). Em Matmos o som espacial é de suma importância. Esses dispositivos sonoros haveriam de se fazer escutar mais adiante (já lá iremos). Uma mesa de trabalho estava pejada de objectos com potencial sonoro. Pilhas de apetrechos de cozinha em inox — resplandecentes ao foco luminoso. Outros, indistintos ao olhar mais de longe, pareciam pequenos nadas (mas seriam tudo uma vez revelados no som), e teclados MIDI e ecrãs (com e sem botões, uns tácteis outros não). Uma mesa que sem emitir som já parecia ressoar em surdina. 

Matmos, que estão em digressão, trazem na bagagem sobretudo Metallic Life Review (Thrill Jockey, 2025). Esta ainda vai sendo daquelas bandas para quem não há backline de produtores de eventos que lhes sirva. Tudo o que lhe vemos tocar vem com eles invariavelmente. É até por isso que no palco-chão do belo Auditório da Reitoria da Nova se observam algumas malas de viagem com aqueles auto-colantes que caracterizam quem anda em viagem há tantos anos. Como Matmos referem: “Quando começámos há uns trinta anos, nem poderíamos imaginar que aqui estaríamos ainda a tocar”. Sim, porque vê-los em trabalho de palco é ver uma dupla cúmplice e divertida e muito descomprometida (no sentido serio-profissional), como que “na sua onda” — num qualquer anexo, sótão ou garagem a fazer explorações com os sons das coisas. Estas coisas de aqui são sobretudo metálicas. E é com dois discos de metal que iniciam a prodigiosa aventura sonora na peça “Metallic Life Review”, que foi mote neste concerto com chancela ZdB. 

É preciso dar foco ao brilho do som! Como que a mostrar a que soa a luz do metal, ou no que se vê desse mesmo som. Uma lanterna de manipulação manual entra em acção sempre que nisso é preciso dar ênfase. Mas de pronto se melhor entende o modus operandi deste duo. É por isso que nos seus discos é comum aparecerem frases, na vez dos selos “Parental Advisory Explicit Lyrics” antes um “all sounds on this album were generated by plastic objects”, como precisamente nessoutro Plastic Anniversary (Thrill Jockey, 2019). O som que escutamos parte em grande medida da pesquisa e emissão analógica às mãos de MC Schmidt para depois ser trabalhada na manipulação de sinal digital aos comandos de Drew. Pensávamos à partida na hipótese de um acto contínuo de som, mas fazem-no por partes, porque há de facto peças individualizadas, com histórias próprias. Razões de obtenção de tapetes sonoros, como a que contam antes de partirem para “Norway Doorway”, tema que abre o último álbum. Explicam em modo entretenimento de talk show (tão ao jeito norte-americano) que uma vez estavam a dar entrada na sala Blå, em Oslo na Noruega, e o ranger de uma porta fê-los para tudo — passaram de músicos para um concerto a pesquisadores sonoros de campo num ápice. Esse mesmo ranger serve de base á peça-música que aqui nos apresentam. Um daqueles momentos de escuta com um sorriso instalado de orelha a orelha para muitos e muitas de nós.

Mas ouvir/ver Schmidt em palco é de todo um ganho. Em mangas de camisa e gravata assume cada objecto metálico como um precioso instrumento sonoro — sejam cada um dos empilhados apetrechos de inox — de que lhes retira um a um o som que precisa –, ou até como mais adiante, e de mãos cheias de moedas ou na percussão de uma tampa metálica de um frasco com água. Há um acto teatral em curso, ficar em casa ou numa viagem de comboio a escutar nos auriculares estes temas é perder uma parte significativa do som em imagens. E foi ver Schmidt em modo combinatório entre as fontes emissoras analógicas, indo dos sininhos da plateia aos sinos dos tilintares recolhidas de torres campanárias. Matmos vão do som de mão ao de grande escala. A escuta em palco leva-nos para campos do paradoxo: de como o lixo é fonte de criação. Já nem é tanto o dos tempos das vindas de FM Einheit, nas vésperas dos concertos dos berlinenses Einstürzende Neubauten, para pesquisar objectos nas entulharias das sucatas da cidade do concerto. Mas Schimdt e Drew fazem-no em igual medida para um semelhante modo final sonoro. Ou seja, desde a ideia do plástico (Plastic Anniversary) ou até de uma máquina de lavar em Ultimate Care II (Thrill Jockey, 2016), há esse sentido de revalorização dos objectos como novas fontes do som. Um tanto como num sentido readymades de Duchamps convertidos para os campos da arte sonora ou indo directamente ao alvores da música concreta de Pierre Schaeffer. 

Ainda antes do final, tempo para ver e de forma concreta, de onde vem o som pro parte — nesse dispositivo de molas metálicas (como neste concerto temático não poderia deixar de ser) que é objecto central na capa do disco, e que Drew também se demonstra ser operário, na fonte primordial do som em Matmos. Ao que soa o brilho do metal.


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