Uma das maiores lacunas da minha juventude foi não ter estado no estádio do Restelo em agosto de 1982 a assistir ao célebre concerto repartido entre os Roxy Music e os King Crimson. Não que tivesse particular interesse na banda de Bryan Ferry (e menos ainda nos Heróis do Mar, que abriram o evento), mas nunca deixei de lamentar a maldita gripe que me impediu de ver músicos que eu idolatrava como Robert Fripp e Bill Bruford. Era nem mais nem menos do que a digressão do album Beat, o segundo da fase 80’s daquele que tinha sido um dos grupos mais icónicos do chamado rock progressivo da década anterior. Os mais puristas torciam o nariz ao novo som dos King Crimson que deixava para trás a faceta sinfónica, mas para mim (e muitos outros!) aquela abordagem estética era algo de fabuloso, num misto de virtuosismo intrincado, leveza lírica e potência arrebatadora. Quem diz que a música dos anos 80 foi pobre, de certeza que nunca ouviu esta “trilogia colorida” de que estamos a falar.
Passados 44 anos, vinguei-me e fui até Estrasburgo, no nordeste da França, ver o projecto BEAT, acabando por aumentar desgraçadamente os meus níveis de colestrol com as iguarias alsacianas que por lá se comem, sobretudo o imperdível queijo munster.
BEAT é um supergrupo de tributo aos King Crimson que recria praticamente toda a música que a banda produziu no início da década de 80 do século passado. O projeto conta com a participação de dois membros da formação original — Adrian Belew (voz e guitarra) e Tony Levin (baixo e chapman stick) —, aos quais se juntaram dois nomes que dispensam apresentações: Steve Vai na guitarra e Danny Carey, baterista dos Tool.
O que se ouviu no Palácio da Música e dos Congressos de Estrasburgo na noite de 13 de junho não teve nada a ver com os tributos nostálgicos que são habituais neste tipo de coisas. Foi sim uma reinterpretação autêntica, complexa e altamente criativa que inclusivamente recebeu a aprovação oficial do próprio Robert Fripp, fundador dos King Crimson.
Como anunciado, o espetáculo focou-se quase em exclusivo nos três álbuns icónicos da referida trilogia: Discipline, o já mencionado Beat e Three Of A Perfect Pair. O início deu-se em tons de azul (a cor da capa de Beat), arrancando com o abrasivo “Neurotica”, onde se mostrava tudo o que estávamos em vias de assistir, prosseguindo com mais alguns títulos do mesmo disco. Bellew informou-nos então que aquelas tinham sido as mais fáceis e que de seguida iriam tocar peças que nunca ninguém tinha ouvido ao vivo. Eram o lado B do disco amarelo (o 3º), a parte mais exploratória do alinhamento da noite. “Dig me”, “Industry” e “Larks’ Tongues in Aspic (Part III)” foram momentos de fuga a todas as zonas de conforto, mostrando-nos uma realidade inquestionável sobre os caminhos do futuro da música (rock e não só) que atravessam um grande desafio à capacidade de escutarmos atentamente as sonoridades caídas em incríveis camadas texturais que se entrelaçam. A verdadeira acústica ilusória a fechar o primeiro set.
Após os merecidos 20 minutos de intervalo, o palco apresentou-se-nos com uma pequena alteração de formato, tendo uma frente de timbales tonais onde Carey e Bellew deram o arranque de “Waiting Man”, uma peça de fundo minimal que serve de cenário a uma belíssima canção onde se contrasta a inocência das palavras com a complexidade do desenvolvimento instrumental. Seria a perfeita introdução para um dos momentos mais comoventes da noite — “The Sheltering Sky”, um título do disco vermelho que remete para o romance do escritor Paul Bowles que teve uma forte influência na geração beat — onde um fundo ambiental atmosférico com nuances de afro-misticismo possibilitou a Steve Vai convencer-nos de que não poderia haver melhor escolha para substituir Fripp. A sua guitarra levitou literalmente naquele palco e asseguro-vos que havia lágrimas de emoção na sala.
A partir daí foi sempre em crescendo, num alinhamento onde predominavam sonoridades poderosas e donde podemos destacar a imponência de temas como “Frame by Frame”, “Elephant Talk” e a peça final “Indiscipline”. Obviamente a assistência em delírio obrigou os Beat a voltarem ao palco. O encore começou com a única peça fora da trilogia colorida dos KC — “Red”, do álbum homónimo de 1974. Um autêntico murro no estômago, no bom sentido, com 6 minutos da mais eficaz demonstração de que a música rock possui um precioso historial de evolução estética. E para acabar de vez a noite veio a verdadeira festa com “Thela Hun Ginjeet”, título construído a partir de um anagrama sobre a expressão “heat in the jungle” onde Adrian Bellew narra uma experiência supostamente real em que foi perseguido e ameaçado por um gang em Nova York.
Para lá da majestosidade oferecida pela execução virtuosa de cada um dos elementos do quarteto, onde cada pequena frase transpira uma complexidade extraordinária e onde os vários riffs se cruzam num diálogo sublime e permanente, é incrível pensarmos que estes músicos continuam a mostrar uma técnica irrepreensível apesar da média de 72 anos de idade que apresentam, tendo o mais jovem 65 e o mais velho 80. Velhos são os trapos!